Família
3 Capítulo III - Cinzas
Notas iniciais
Houve um tempo que ela não conseguia respirar.
A fumaça, densa e tão ardente quanto o próprio fogo, invadia seus pulmões, dolorosamente lutando por espaço até que acabava preenchendo-os por inteiro. Por fim, o modo que ela encontrava de expulsar aquele sufoco de dentro dela era gritando; e aqueles gritos eram para alguém e as flamas erguiam-se ainda mais fortes quando esse alguém revidava. As labaredas dançavam pelas paredes da casa – comiam o papel de parede, reduziam os tapetes de estampas florais a pó e trapos chamuscados – e, pior, seguiam-na aonde quer que ela fosse.
As chamas tinham uma voz.
Eu já disse que você só se machuca nesse futebol e eu não quero mais você jogando!
Coisas assim eram gritadas e resmungadas para ela, retumbavam pelos corredores do apartamento e a alcançava em seu sono. Quando mais fundo ela se enfiava no caos tentando ficar surda, mais sensível ao barulho ela ficava. Não dava para continuar em frente e não dava para buscar a outra pessoa que deveria estar naquela casa.
Sora Takenouchi deu meia volta e soube apagar o incêndio sozinha.
–Filha... que arranjo mais lindo!
E a face já com algumas rugas derreteu-se num sorriso, a mulher antes com modos tão rígidos afagando a mão da filha carinhosamente numa tarde ensolarada, a qual as duas haviam reservado especialmente para testar decorações novas.
A relação dela com a mãe era algo incomparável. Houve aquele breve tempo – era só uma criança, e parecia maior do que havia sido na verdade – que doía como se não fossem mãe e filha, mas sim duas estranhas aventurando-se separadas por um caminho de uma convivência vazia e tola. Desconhecidas que se sentavam juntas à mesa do jantar para comerem aprisionadas em seus próprios abatidos silêncios. Elas engoliam a comida, fazendo seu máximo para que seus olhos não se desviassem por muito tempo na direção do retrato da mesa da sala de estar.
Ela saía cedo para treinar futebol e a mãe acordava cedo para reclamar disso. Essa era a parte mais horrível... A falta de entendimento. Uma elação em brasa, incendiária e irritadiça. Postavam-se ambas defensivamente, longe uma da outra, com as expressões frustradas por causa dos berros, dos vasos de flores despedaçados, das brigas constantes e de zelos mal demonstrados.
Era de uma nostalgia absurda ter lembranças desse tempo agora, ela sabia, mas, ao sentar-se do lado da mãe e desfrutando de um passatempo em comum, a jovem não podia deixar de pensar que jamais faria algo assim anos atrás. Ela estava orgulhosa, no mínimo. Conseguia transformar aquele fogo em algo que, na maior parte do tempo, era delicado, singelo e belíssimo como as pétalas das flores que Toshiko Takenouchi cuidava com tanto carinho.
– Obrigada, mãe!
Nisso, o homem do retrato na mesa da sala de estar abriu a porta.
–Eu estou atrasado? – Com uma risada sem graça, tirou os sapatos e esperou pelo que elas tinham a dizer. Não estava nervoso, mas uma certa ansiedade borbulhava em seu peito e isso era aparente. – O trânsito estava uma coisa...
Toshiko sorriu para o marido e ele relaxou.
A verdade é que o retrato dele não ficava mais no lugar que costumava ficar quando Sora era criança. Haviam retirado a foto e a guardado com cuidado junto às outras, no álbum de família. Tal acontecimento tinha sido uma coisa maravilhosa, visto que o retrato só ficava ali porque a pessoa dentro dele quase nunca estava.
Estava, agora.
–Sim, pai... Mas não tem problema algum! – Abriu um sorriso a filha também, gesticulando à almofada ao seu lado. – Chegou bem a tempo de nos dar uma mãozinha nas flores, que tal?
–O prazer seria meu – Haruhiko não hesitou em se ajoelhar junto delas, liderado pela esposa.
Observando-o com as sobrancelhas erguidas e uma expressão terna, aquele homem que podia fazer praticamente tudo referente à recolhimento de informações, atrapalhado com as espécies, deixou uma risadinha escapar da sua garganta, sem consegui disfarçar. A próxima coisa que soube foi que ela tinha um punhado considerável de terra no rosto e o pai olhava para o outro lado com uma expressão de inocência fingida. Malícia puxando o canto dos seus lábios, Sora não poupou esforços em sua vingança e um pequeno embate teve início; não muito tempo depois, os três tinham pétalas, pedrinhas, terras e sementes em suas roupas.
Dois pares de olhos lançaram-se, acuados e receosos, à Toshiko, cuja reação por ter parte da sua loja de arranjos florais suja sem razões satisfatórias era imprevisível. Para alívio geral, ela só comprimiu os lábios e balançou a cabeça antes de sorrir.
–Vamos limpar isso, hum?
Sora notou como Haruhiko já estava com a vassoura e pá nas mãos, pronto para o que viesse. Toda aquela proximidade acalmou Sora de uma forma quase mágica; ele estava em casa. Como ele era um pesquisador terrivelmente atarefado, ele estivera longe a maior parte da sua infância, mas ela ainda se lembrava de como ele a punha no colo quando ela era incrivelmente minúscula e contava histórias antes de dormir e – os preferidos dos dois – mitos, lendas e curiosidades folclóricas japonesas.
“O quão grande é o Dragão que protege parte de Kyoto?”
“Bem, não tem como descrever – ”
“Ele solta fogo? Ele poderia destruir a cidade inteira? Tudinho?”
“Não seja boba, querida. Não tem como tudo ser destruído, nem mesmo perto – vai ter sempre algo entre as cinzas que vai dar origem a toda uma nova vida, muito mais durável que a primeira.”
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