Espírito de Revolução
16 De Volta ao Lar
Notas iniciais
O inverno já estava praticamente acabado no povoado de Albany, no norte de Nova York. De qualquer maneira, eu vestia por baixo do meu manto uma camisa extra para me aquecer durante aqueles dias de cavalgada desde a Fazenda.
Após passar tanto tempo treinando em Massachusetts Bay, eu reparei não apenas que eu praticamente não reconhecia mais a região, mas também o quanto havia aumentado o número de vilas e casas britânicas pelo caminho. E foi por isso que, em vez de cavalgar diretamente para Kanataséhton, parei em Albany, em busca de alguém que pudesse me dar direções.
Desmontei de Mabel na frente de um posto comercial rústico, junto a outros dois cavalos amarrados. Mantive meu capuz levantado ao adentrar o recinto, que era um tanto aconchegante e tinha uma lareira acesa. Em um canto à direita, dois homens com casacos de pele dividiam uma bebida quente. No meio da loja estava um balcão, onde à esquerda dois rapazes morenos negociavam com um dos funcionários. Outro funcionário detrás do balcão, um homem de pele negra e barba grisalha, me viu chegando e se pôs de prontidão para me receber.
— Boa tarde, senhor! — Ele saudou, com um sorriso quase oculto em meio à barba. — Como posso ajudar?
— Eu quero uma informação. Vim do litoral a cavalo, com destino a um vilarejo iroquês chamado Kanataséhton. Sei que fica ao norte, mas o percurso exato me escapa à memória. Sabe como chegar lá?
O senhor coçou o queixo.
— Eu não sei dizer, mas Charlie sabe. Ele não é iroquês, é de família pawnee, mas conhece estas bandas como a palma da mão! Vou chamá-lo em um minuto.
Esbocei um sorriso para assentir e observei conforme ele saía por uma porta. Recostei-me no balcão e analisei o ambiente.
— Do litoral, hein? — disse, quase sem olhar para mim, um dos rapazes à minha esquerda. Ele era magro e tinha a minha altura, e seus cabelos estavam soltos até o ombro. Ele falava com um sotaque parecido ao meu. — Qual província?
— Massachusetts Bay. — Eu respondi, com cautela.
— Ah, sim. — Ele ponderou, e fitando o seu rosto senti que ele era familiar. — Mais um iroquês que se muda para as cidades colonas... e retorna em busca de terras, com sede de poder? Tentando se tornar parte da elite?
Fiquei intrigado.
— De maneira alguma — respondi, calmo — Kanataséhton é minha aldeia natal. Estou aqui apenas para visitar minha família.
O moço virou seu rosto de traços indígenas em minha direção, me parecendo um tanto familiar. Ele disse, em Kanien'kéha:
— É um traje peculiar esse que você veste. — Ele se apoiou no balcão, encarando o meu manto de Assassino. — Onde o conseguiu?
— É um uniforme — respondi, no idioma — De uma organização da qual faço parte.
Eu reconheci o sujeito ao mesmo tempo em que ele sorriu.
— Agora que te ouço falando nossa língua... — comentou —, não sei como não te reconheci de imediato!
— Atón’wah! — exclamei, sorrindo.
Ele bateu levemente no braço do rapaz ao lado, que estava distraído de cotovelos sob o balcão. Sua testa era larga e seu cabelo estava preso em um longo par de tranças. Ao se virar e me ver, ele permaneceu por um par de segundos me analisando, mas arregalou os olhos quando abaixei meu capuz.
— Ratonhnhaké:ton? — exclamou, surpreso — É você mesmo?
— Em carne e osso, Kanentó:kon.
— Pela madrugada, há quanto tempo não nos vemos, meu amigo! — ele sorriu e se moveu em minha direção, me abraçando logo em seguida. Abracei-o de volta e dei um tapinha em suas costas, rindo.
Atón’wah disse algo para o lojista, que o entregou uma sacola de moedas. Ao que Kanen’tó:kon me soltou, Atón’wah pôs o braço em meu ombro.
— Você está diferente, Ratonhnhaké:ton. Não é mais a vareta magrela de antes — zombou, dando uma risada amigável.
— Também quase não te reconheci sem ter que te olhar de cima — respondi.
— Ah, como é bom te ver, Ratonhnhaké:ton — comentou Kanen’tó:kon — Algum motivo especial te traz de volta?
Eu suspirei, pensando no quanto do conflito entre a Irmandade e os Templários era seguro revelar a meus amigos de infância.
— É uma longa história.
— Não nos vimos em três anos, amigo. Temos tempo para histórias longas.
Antes que eu pudesse responder, um rapaz poucos anos mais velho que eu se aproximou de nós por trás do balcão, e se dirigiu a mim em Inglês
— Soube que procura uma vila iroquesa. Eu posso te acompanhar até lá a cavalo, se você quiser.
— Não será necessário, Charlie. — Kanen’tó:kon respondeu. — Estamos indo para o mesmo lugar, nós o levaremos.
— E ao contrário de você... — adicionou Atón’wah com um soriso irônico — Nós não cobraremos.
— Vocês não cansam de tirar meus empregos, não? — O tal Charlie comentou, zombeteiro. — Querem me levar à falência?
— Nós já trazemos nosso pouco excedente de caça pra sua loja. Como poderíamos te ajudar mais?
Charlie riu.
— Ora, não estou reclamando. Voltem sempre!
Kanen’tó:kon virou-se a mim, no Kanien’kéha:
— Os cavalos estão lá fora. Vamos andando. Há um caminho longo de volta a casa e temos muita conversa para pôr em dia!
•
Então cavalgamos nós três para fora de Albany. Atón’wah montava em um cavalo malhado, de cores marrom e branco, e Kanen’tó:kon em um garanhão preto, enquanto que minha égua tinha crina preta e pele cor-de-mel. Cada um de meus amigos levava uma bolsa grande, que eu supus serem feitas para carregar carcaças e peles de animais.
— Kanataséhton fica diretamente ao norte — anunciou Kanen’tó:kon — Se sairmos agora, podemos chegar antes do Sol se pôr. — Ele disse enquanto ultrapassávamos o limite do povoado, com o Forte Frederick podendo ser visto à distância e a floresta decídua em volta do nosso caminho.
— Então vamos. Senti saudades da vila.
— Ah, ainda mal posso acreditar que você está de volta, Ratonhnhaké:ton...
— Se é que ainda podemos chamá-lo assim. — Atón’wah adicionou, sarcástico. — Soube que você tem um novo nome agora. É... Callan? Callum?
— Connor — respondi — Mas nós nos conhecemos desde a infância. Vocês têm o direito de me chamar como quiserem.
— Sendo assim, irei chamá-lo de Capuzinho.
Nós três gargalhamos. Naquele momento percebi o quanto senti saudades da aldeia. Depois de três anos repletos de viagens, estudos e treinos eu havia me esquecido do conforto que era estar rodeado dos rostos amigáveis de meu povo, em vez dos rostos acusadores tão comuns nas cidades grandes como Boston e Salem.
— Mas enfim, Ratonhnhaké:ton — retomou Kanen’tó:kon — Diga: veio para ficar? Ou está apenas de passagem?
— Vim a passagem, por mais que eu deteste dizer isso. Assumi muitos compromissos com a minha irmandade em Massachusetts Bay; terei que voltar mais cedo ou mais tarde. Temos uma propriedade a administrar, e em breve sairei em missões oficiais.
— E com tantos compromissos, você arranjou tempo para vir nos visitar?
Eu dei de ombros.
— Minha passagem tem a ver com a Irmandade, Kanen’tó:kon. Não acho que Achilles teria me permitido vir, caso contrário.
— Ah, claro — comentou Atón’wah — E eu achando que você finalmente deixou o resto de lado para aproveitar nossa companhia. Não surpreende, é Saksa:ri que sempre recebe cartas suas, nós não. — Inicialmente pensei que Atón’wah dizia isso como uma reclamação, mas seu rosto ainda sorria. — Mas que seja, antes tarde do que nunca — completou, se aproximando com o cavalo e dando um tapinha em meu ombro.
— Por falar em Saksa:ri, ele não nos avisou que você vinha.
— Ele também não sabe que estou aqui — respondi — Me preparei às pressas, e não há mal em chegar de surpresa.
— Contanto que ele não tenha um ataque do coração ao te ver tão alto... — Kanen’tó:kon adicionou. — Voltando ao assunto, conte-nos mais sobre a sua missão aqui em Kanien’kéh.
Suspirei e tentei medir as minhas palavras. Quanto menos eles soubessem, melhor.
— Ouvimos falar que alguns colonos poderosos estão envolvidos num processo de compra de terras da Confederação; e justamente as terras onde nossa aldeia fica. Considerando a importância da região e o poder a que eles poderiam ter acesso, nós não podemos deixar que isso aconteça. Achilles me enviou para que eu juntasse informações sobre a compra.
— Interessante. — Atón’wah disse, arregalando os olhos. — Pode contar com a minha ajuda, se precisar dela. Não perderei uma oportunidade de expulsar alguns britânicos metidos da nossa terra.
— Duvido que seja fácil assim, Atón’wah. Mas agradeço a disposição.
— Nós talvez saibamos algo sobre essa compra. Algum nome te interessa, Ratonhnhaké:ton?
— Conhecem o doutor Benjamin Church? — Ao que meus amigos respondiam com uma negativa, prossegui — E quanto a William Johnson?
Os dois se assustaram ao ouvir esse nome.
— William Johnson?
— O William Johnson?
— O próprio — respondi — Achilles acredita ser ele quem está chefiando a negociação.
— Sem dúvida — disse Kanen’tó:kon — Se há alguém que poderia convencer a Confederação a vender terras para a Grã-Bretanha, esse alguém é ele.
— Desconheço os detalhes dessa compra. Mas sei que Johnson defende suas intenções dizendo que pretende proteger os povos iroqueses.
— Proteger-nos do quê, Atón’wah?
— Ótima pergunta, não? Depois de todo esse tempo e de ter a nossa ajuda em guerra atrás de guerra, os colonos ainda nos veem como selvagens ignorantes. Lembram daquele tal de Thompson com quem falamos três anos atrás? Quando não tentam nos matar, estão tentando nos convencer de sua superioridade. É nisso que Johnson aposta, e o pior é que ainda há entre nós quem acredite nele.
— O seu crédito não é de todo desmerecido — argumentou Kanen’tó:kon — Sir Johnson liderou nosso povo contra a França e os Wabanaki em duas guerras diferentes. Sem ele a diplomacia com a Grã-Bretanha teria dado lugar a inimizade há muito tempo.
— Mas você crê então que por isso é justo entregá-lo nossas terras? — questionou Atón’wah.
— Não, de forma alguma. Johnson tem seus méritos, mas ainda acho que não devemos abdicar da nossa já limitada autonomia. Deveríamos ser aliados de Johnson, não seus subordinados.
— Então vocês concordam que Johnson deve ser parado — questionei-lhes.
— Com certeza — assegurou Atón’wah.
— Mas não será tarefa fácil, Ratonhnhaké:ton. A Confederação está cada vez mais envolvida na diplomacia com a Grã-Bretanha. Por que acha que estávamos vendendo nosso excedente em Albany? Chegar a Johnson será difícil. Ele ainda tem muitos apoiadores entre os povos iroqueses, e ser cunhado de Thayendanegea não ajuda a situação.
Eu conhecia esse nome. Thayendanegea era um condecorado guerreiro Kanien’kehá:ka, que havia liderado as nações iroquesas em várias expedições importantes contra a França no fim da Guerra dos Sete Anos, quando eu ainda era um bebê. E a sua irmã, Degonwadonti, era ninguém mais ninguém menos que a esposa de William Johnson.
— Ouvi dizer que eles não atendem mais por esses nomes, no entanto — comentei.
— Sim — respondeu Atón'wah, com desprezo — Ele e a irmã preferem ser chamados pelos seus nomes ingleses, Joseph e Molly Brant. — Ele cuspiu no chão após dizer isso. — Desprezível como abandonam seus nomes de nascença para agradar aliados britânicos.
— Tal como eu adotei o nome Connor? — mencionei.
Kanen'tó:kon respondeu:
— Seu caso é diferente, Ratonhnhaké:ton. Você faz isso porque convive entre colonos e isso facilita sua vida.
— Mas esses “Brants”... — retomou Atón'wah — Eles negam sua própria cultura para se misturar aos britânicos. São dois cristãos ambiciosos, isso sim.
— Mas e quanto a Johnson?
— O homem deu seu próprio nome ao vilarejo que fundou: John's Town. Fica à mesma distância daqui que Kanataséhton, mas em outra direção.
— Quer ir até lá e... fazer seu trabalho? — perguntou Kanen'tó:kon — Basta virarmos a oeste.
Refleti por um instante.
— Não. Haverá tempo para isso mais tarde. — Eu sorri para ele. — Continuemos nosso curso.
— Maravilha! Em frente!
•
— Boa noite, rapazes — disse a Kanen’tó:kon e Atón’wah o homem que nos recepcionava, nos portões da aldeia — Trouxeram um visitante, eu percebo?
— Boa noite, Saksa:ri. — Eu disse em seguida.
— Desculpe-me. Eu te conheço? — respondeu ele, confuso.
Kanen’tó:kon estava brincando quando disse que Saksa:ri teria um ataque do coração ao me ver, mas devo admitir que quando ele me reconheceu, a sua reação não estava muito longe disso. Ao enfim perceber que o homem à sua frente era o garoto que ele vira crescer por mais de uma década, ele exclamou o meu nome e me abraçou com velocidade tão logo eu desmontava de Mabel. Meus amigos assistiam à cena com diversão.
— O encontramos perdido em Albany, Saksa:ri — disse Atón’wah — Mas ele nos seguiu até casa, podemos ficar com ele?
Saksa:ri riu junto com meus amigos, mas logo prosseguiu a falar comigo.
— Ah, você já está um homem feito, Ratonhnhaké:ton! Não creio que irei me acostumar a te ver com a mesma altura que eu! — Ele afastou-se, mas continuou a segurar meus ombros, encarando-me. A idade continuava generosa para ele, embora algumas rugas já começassem a aparecer em seu rosto. Seus cabelos compridos continuavam escuros como a noite, e parecia que demorariam para se tornarem cinzentos. — Já faz meses desde a última carta! Por que não nos avisou que viria? Eu teria te buscado em Albany.
— Eu queria fazer uma surpresa — respondi, rindo.
— E que surpresa agradável! Kanensta:tsi irá adorar te ver!
— Assim como eu. Apenas me dê um minuto para...
— Pode ir, Ratonhnhaké:ton — interrompeu Kanen’tó:kon, ficando de pé e tomando as rédeas de Mabel — Guardaremos a sua égua junto com os outros cavalos.
Despedi-me de meus amigos enquanto Saksa:ri me arrastava pela aldeia até a sua casa. Naqueles mais de três anos pouco da vila havia mudado. As plantações, os muros, as casas, tudo parecia idêntico à última vez que eu estivera ali. Até mesmo Kanensta:tsi parecia não ter mudado nada. Ela ainda tinha o costume de prender seu cabelo em um rabo-de-cavalo, agora ornamentado por um par de penas de águia, e a única diferença nela é que agora eu a via de cima.
— Ratonhnhaké:ton, meu garoto! — exclamou ela, correndo pra me abraçar assim que adentramos a sua casa. Mal tive tempo de responder antes que ela se pendurasse em meu pescoço. Após alguns segundos, ela percebeu que eu mal conseguia respirar e ficou de pé em minha frente, segurando meus braços. Ela sorria de orelha a orelha. — Quanta saudade tínhamos de você!
— Eu também — respondi, rindo — É bom retornar ao lar.
— Embora você nem pareça ser a mesma pessoa. — Ela continuou, me encarando com seus olhos cor-de-mel. — Como ousa crescer tanto assim? Vou ficar com um torcicolo sempre que levantar a cabeça para te ver!
— Prefere que eu me abaixe então?
— Não precisa. Ora, mas onde estão minhas maneiras? Sente-se, estou terminando de preparar um guisado. — Ela disse enquanto se dirigia a uma panela que aquecia na fogueira ao centro do recinto.
Saksa:ri e eu sentamo-nos em volta da fogueira.
— É bom te ter de volta, Ratonhnhaké:ton — ele disse — Diga: voltou para ficar? Ou o velho de bengala não terminou de pegar você emprestado de nós?
— Infelizmente estou de passagem, Saksa:ri. Devo ficar apenas algumas semanas.
— É uma pena, mas eu compreendo. É melhor aproveitarmos essas semanas o máximo possível então! — disse meu pai adotivo, com a mão em meu ombro — Devo dizer que nunca te imaginei vestindo um manto desses, mas... era isso o que você queria, não? Está gostando da vida na sua Irmandade?
— Muito. Já sou um membro oficial, mas ainda tenho bastante a aprender. Nosso trabalho envolve muitas responsabilidades, e requer um treinamento dedicado.
— Isso eu percebo, garoto! — Kanensta:tsi comentou, apontando para os meus braços. — Esse treinamento conseguiu transformar aquela criança franzina em um rapaz forte. Você com certeza deve atrair a atenção das moças por onde passa!
Saksa:ri gargalhou ao ouvir isso, mas eu apenas esbocei um sorriso, preferindo me manter em silêncio.
— Não duvido. — Ele disse. — Já tem alguma em mente, Ratonhnhaké:ton? Ou não existem garotas iroquesas em Massachusetts Bay? Se estiver interessado, tenhos amigos com filhas da sua idade.
Senti que minhas bochechas coravam. A verdade é que eu nunca me imaginara com uma mulher, muito menos casado. Mesmo na infância, quando meus amigos cresciam e começavam a mostrar interesse em meninas, eu não entendia o que lhes atraía tanto. E, mais recentemente, as histórias sexuais demasiadamente detalhadas que eu ouvia na tripulação de Robert Faulkner, embora interessantes, apenas surtiam em mim uma sensação embaraçosa.
— Creio não ter tempo para isso no momento — respondi-lhe — Estou concentrado nos meus deveres com a Fazenda e com a Irmandade.
— Certo, tome seu tempo. — Saksa:ri comentou, compreensivo. — Case-se quando achar melhor e com quem quiser. Darei meu apoio, desde que não seja uma mulher colona.
— Ou uma Wabanaki. — Kanensta:tsi adicionou, em um tom surpreendentemente sério. Retomando o assunto, prosseguiu com um sorriso. — Mas um garoto da sua idade deve estar bem atarefado para não ter tempo para garotas.
— Bastante. — Eu respondi, querendo mudar de assunto. — A Fazenda cresce cada vez mais e é bem produtiva, mas cuidar dela é trabalhoso. Tenho que manter contato com mercadores em todo a província, e ainda enviar carroças com nossos produtos de uma cidade a outra... Quase não sobra tempo para os estudos e treinamento.
— Com tantas obrigações assim, como conseguiu arranjar um tempo para nos visitar? — indagou Saksa:ri.
Engoli em seco.
— A verdade é que não vim apenas em visita. Vim como parte de uma missão dada a mim por Achilles.
— Não me surpreende. — Ele respondeu. — Sei que você leva seu trabalho a sério. Você deixou isso bem claro em suas cartas.
— Diga então, Ratonhnhaké:ton, o que te traz a Kanien’kéh.
Eu pensei em dar alguma desculpa, mas decidi que não poderia omitir algo assim. Principalmente não do casal que me acolhera como a um filho tanto tempo antes.
— Estou em busca de William Johnson. Ficamos sabendo que ele quer comprar nossa aldeia da Confederação.
Ambos se mostraram surpresos à menção do nome.
— Uau — exclamou minha mãe adotiva — Você está negociando com gente como ele?
— Digamos que meu trabalho envolve homens poderosos. Mas não irei negociar com ele diretamente, apenas devo reunir as informações de que preciso.
— O vilarejo de Sir William deve ser um bom local para começar — informou Saksa:ri — No entanto, John's Town fica a mais de cinquenta milhas a sudoeste.
— Eu sei, e Atón’wah já se dispôs a cavalgar comigo. Devo passar por lá nos próximos dias.
— Boa sorte — prosseguiu — Juro que eu faria de tudo para expulsar aquele maldito de volta para a Irlanda. Tomaria o seu escalpo, se eu ainda fosse jovem.
— Saksa:ri! — repreendeu sua esposa — Não pode estar falando sério. Warraghiyagey é um chefe honorário do nosso povo!
— Só porque ele tem um nome em nosso idioma não quer dizer que ele represente os nossos interesses. O que você acha que ele faria com nossa aldeia se tomasse posse dela? Decerto exploraria nossos recursos e mantimentos. Nos tornaria dependentes das mercadorias britânicas.
— Mas não se esqueça de tudo o que ele fez por nós. Ele sempre defendeu nossas terras quando estivemos ameaçados. Eu já te contei a história de como Johnson salvou a vida de meu pai durante a terceira guerra contra os franceses, e decerto salvou muitos mais durante a quarta. As tropas francesas foram expulsas, mas e se houver uma retaliação? Ainda há muitos civis franceses ao norte, e os Wabanaki continuam odiando a Grã-Bretanha tanto quanto antes. Se algum dia essas milícias se reunirem, se houver uma quinta guerra, precisaremos dos britânicos para nos defender, e é Johnson quem garantirá essa aliança.
— Você fala como se não pudéssemos lutar sozinhos.
— Ora, mas você sabe que nossas forças não são mais tão numerosas quanto no tempo de nossos pais.
— É claro, pois os britânicos avançam cada vez mais. Eles querem que sejamos dependentes do Rei George. Se isso ocorrer, pode ter certeza de que seria o mesmo que exterminar-nos aos poucos.
— Já basta! — Eu exclamei, tentando pôr um fim à discussão. — Não quero passar o meu primeiro dia de volta à aldeia discutindo sobre guerras e diplomatas.
Os dois, que já se encaravam com tensão, voltaram-se a mim e suspiraram, como que envergonhados.
— Minha Irmandade tem um credo — prossegui — Um credo que admite que somos humanos, então sempre teremos nossas diferenças de opinião. Mas não podemos deixar que essas opiniões acabem com a nossa compreensão ou destruam nossas amizades.
— Mas nem você, Ratonhnhaké:ton... — retomou Saksa:ri, menos exaltado — Nem você pode negar o quanto os colonos são um problema para nós. Eu já estive em Albany. Conheço eles. São todos esnobes presunçosos, que se acham superiores por ter pele mais clara e agem como se suas merdas não fedessem.
— Saksa:ri, que grosseria! — retrucou sua esposa.
— É um exagero. — Eu disse. — Conheci colonos, brancos e negros, confiáveis. Mas isso não é de todo mentira. À primeira vista, os mercadores em Boston ou Salem costumam me tratar como um estranho ignorante. Sempre pensam que eu não sei falar sua língua, que eu estou perdido ou não tenho dinheiro. Ou, ainda pior, pensam que sou um ladrão.
— Vê? Ainda não entendo como você consegue...
— Mas o que eu quero dizer... — interrompi-o — ...é que isso é uma realidade, mas seria tolo evitá-los. Seria o mesmo que fingir que tais preconceitos não existem entre eles. Essa mente fechada dos colonos é apenas um sintoma daquilo que o Credo combate, e portanto, meu trabalho requer que eu conviva com isso.
— Mas será que o seu Credo consegue resolver isso? — rebateu Saksa:ri — O caráter dos homens não pode ser mudado tão facilmente.
— Talvez não. Mas as suas mentes, acreditamos, sim. O nosso Credo olha para as raízes do problema: se os britânicos não confiam em nós, não é por pura má vontade deles, muito menos por experiência própria, e sim porque desde pequenos eles são ensinados a ver nossos povos como selvagens. Muitos não conseguem abrir a mente para ver além daquilo a que estão acostumados. Se todos entendessem o Credo, manteriam a mente aberta para ver o que há de melhor no nosso povo.
Saksa:ri bufou com uma risada.
— E você realmente acha que os britânicos aprenderiam a aceitar as diferenças dos outros povos? Que eles se empenhariam em manter uma amizade com os iroqueses?
— Num mundo ideal, sim. E creio que ambos os povos poderiam se beneficiar disso.
— Soa mais como uma utopia para mim. Admiro a facilidade com que você confia nas pessoas, Ratonhnhaké:ton. Mas eu não consigo me dar ao luxo de confiar. Não depois do que vi durante a Guerra. — Ele me fitou. — Você sabe do que estou falando. Não entendo como consegue continuar confiando nos colonos depois do que aconteceu com sua mãe!
Engoli em seco ao ouvir essa menção.
— Saksa:ri! — exclamou Kanensta:tsi.
— O quê?
— O garoto acabou de chegar e você quer fazê-lo se sentir culpado por algo que aconteceu há mais de uma década?
— Eu não estou o culpando. Mas ele não deve se esquecer daquilo que os britânicos são capazes de fazer!
— Um britânico. — Eu interferi antes que Saksa:ri se exaltasse novamente.
Tentei evitar as memórias do dia em que a minha mãe deixara este mundo, espantando as lágrimas que poderiam vir com elas. Foquei-me no rosto do homem responsável: Charles Lee.
— O meu inimigo é uma noção, não uma nação. Eu sei quem matou a minha mãe, e William Johnson me ajudará a chegar até ele. Mas ainda assim ele era um homem, e não todo o povo britânico. Quão justo seria culpar a todos pela ação de um só? Os iroqueses também não são desprovidos de defeitos e brutalidade.
— Pode ter sido apenas um homem, Ratonhnhaké:ton. Mas acha que ele seria o único a ser capaz de fazê-lo?
Saksa:ri parecia cada vez mais emotivo. Kanenta:tsi interveio entre nós dois.
— Chega de discussões! — Ela disse. — Ratonhnhaké:ton já disse, não devemos passar nossa noite discutindo guerras. Isso não levará a nada, e o rapaz precisa descansar de sua viagem. Vamos aproveitar o nosso tempo juntos em vez de brigar!
Ao ouvi-la dizer isso, nós dois abaixamos o olhar e nos acalmamos. Saksa:ri pôs seu braço em volta da esposa e beijou-a na testa.
— Desculpe as minhas palavras, meu amor. Hoje deveria ser um dia de comemoração, não de brigas.
— Sim. — Ela respondeu, beijando sua bochecha. Levantando a panela do fogo, ela anunciou com animação — O guisado está pronto!
Fale com o autor