Notas iniciais
E bom dia de novo, senhoras e senhores! Curtindo o feriado? :) Sim, pela primeira vez desde fevereiro que eu posto capítulos para a fic em duas semanas consecutivas, kkkk. E é impressão minha ou esses capítulos estão ficando cada vez maiores? No capítulo de hoje, Connor e seu amigo Atón'wah exploram o povoado de John's Town em busca de qualquer informação que os leve a William Johnson. Boa leitura a todos!

— E aqui estamos — anunciou Atón'wah — John's Town.

Meu amigo e eu partíramos na manhã do meu quarto dia em Kanatahséton. A aldeia de John's Town, onde se localizava a residência do Templário William Johnson, ficava a oeste da minha vila natal, porém ainda dentro do território tradicionalmente habitado pelo meu povo. Os Kanien'kehá:ka são a nação mais oriental de todas as seis nações Haudenosaunee, e, portanto, a mais próxima dos colonos britânicos. Com isso em mente, não é de se estranhar que era com os Kanien'kehá:ka quem Johnson mais tinha afinidade.

John's Town não era uma cidade grande, mas crescia cada vez mais após se tornar a sede do recém-criado Condado de Tryon, na região a oeste do grande Lago Sacandaga. O povoado contava inclusive com um tribunal e uma prisão. Além de lucrar com o comércio entre indígenas e colonos intermediado por Johnson, a cidade também contava com uma serraria e um moinho de farinha, que forneciam o condado. Tryon, no entanto, era apenas uma parte das amplas terras pertencentes a William Johnson, que continham mais de 400 mil acres por todo o Mohawk Valley. E agora Johnson planejava estender essas terras ainda mais, até a minha aldeia de nascença.

Já era meio-dia quando cavalgamos às margens do Sacandaga, parando no caminho apenas para nos alimentarmos com as espigas de milho que havíamos trazido, e após isso chegamos à cidade em pouco mais de uma hora.

— Boa tarde. — Ainda a cavalo, eu saudei, em Inglês, um grupo de fazendeiros reunido à frente de um posto comercial. Eles conversavam e riam até eu chamar-lhes a atenção. — Eu venho em busca de Sir William Johnson.

Um deles, fumando em um cachimbo, respondeu.

— Sir William não está. Faz semanas desde a última vez que eu o vi na cidade, então deve estar em viagem.

— Vocês sabem aonde ele foi ou quando ele volta? — questionou Atón'wah.

O fazendeiro apontou para suas vestes suadas e cheias de remendos.

— Eu pareço quem, o rei George? — O homem riu. — Não, não faço a menor ideia de onde um homem poderoso como ele esteja.

— Deve ter ido para oeste — adicionou um deles, que aparentava ser um mestiço de feições iroquesas — Ainda tentando colocar juízo na cabeça dos Senecas.

— Pelo contrário — rebateu outro, com uma volumosa barba castanha — Ouvi dizer que ele foi para o leste. Um serviço para a Coroa ou algo assim.

— Serviço? Que serviço? — perguntei.

— Não tenho certeza de nada, são apenas rumores. Mas ouvi dizer que Sir Johnson fundou uma empresa-laranja em Massachusetts.

— Ora, por que diabos ele estaria em Massachusetts? — questionou-lhe o outro fazendeiro — Toda a rede de contatos dele está aqui em Nova York.

— Estou apenas contando o que chegou aos meus ouvidos. — Ele completou, levantando as mãos como se quisesse se desvincular do boato.

Ponderei a respeito. Se a compra de terras de Johnson atendia aos desejos da Ordem dos Templários, era provável que ele se reunisse a Benjamin Church e seus outros colegas em Boston. Eu estava mais inclinado a acreditar no homem de barba.

— Trazemos informações sobre uma revolta de nativos que começou há poucos dias na fronteira com o Canadá — mentiu Atón'wah — Precisamos falar com alguém relacionado a Sir Johnson o mais rápido possível.

A história de Atón'wah pareceu surtir efeito, ao que o mestiço prontamente respondeu:

— A mansão dele fica nos arredores a oeste da vila. Siga em frente e vire ao norte do tribunal. Você talvez consiga falar com Lady Brant ou com o Sr. Flood. Eles devem te ajudar.

Atón'wah agradeceu aos homens e nos afastamos, trotando em nossos cavalos.

— Isso significa alguma coisa para você, Capuzinho? — Meu amigo não parara de me chamar desse jeito desde o nosso reencontro.

— Acho mais plausível que Johnson tenha ido para o leste — respondi — O que aquele homem disse é certamente interessante, e estaria de acordo com o que ouvi de Samuel Adams. Precisamos seguir essa trilha.

— Samuel Adams. — Ele repetiu, com uma pronúncia imperfeita. — Um dos seus amigos em Boston?

— Sim. Ele preza pelo bem do seu povo do mesmo modo que prezamos pelo bem do nosso. Ele pode ser ambicioso, mas é confiável.

— Desde que ele mantenha o povo dele longe do nosso, posso confiar em sua palavra. — Atón'wah sorriu. — Devemos visitar Johnson Hall então?

— Já estamos tão perto. Melhor aproveitar as pistas que pudermos arranjar.

— Mas você acha que será fácil tratar com Molly Brant?

— Ela é uma Kanien'kehá:ka, como nós. Talvez possamos convencê-la do quanto a venda de terras prejudicará o nosso povo, e com sorte, ela conseguirá oferecer alguma alternativa ao marido.

— Ou talvez ela nos batize com água benta. Acho ambas opções igualmente prováveis.

Eu ri.

— Tenho dificuldade em te imaginar sendo batizado como cristão.

— Exatamente. Mas vamos deixá-la tentar. — Ele respondeu, antes de romper em gargalhadas.

Em pouco tempo encontramos a mansão que buscávamos. No meio de uma elevação baixa contornada por um riacho que movimentava hélices de um moinho, estava a residência: Johnson Hall. A casa, que era feita de madeira mas se assemelhava bastante a uma de pedra em sua rígida estrutura, era grande, com dois pisos e pintada de branco. Duas chaminés de tijolos se esticavam de cada lateral do telhado escuro. Ao centro da fachada encontrava-se a porta principal, precedida por uma pequena série de três degraus, e de cada lado dela, um par de janelas em ambos os pisos. Atrás da casa, dois pequenos armazéns quadriculares se encontravam do lado de fora, um em cada lateral do quintal nivelado, como blocausses feitos para proteger a mansão de possíveis ataques.

Ao nos aproximarmos da casa, vimos três meninas mestiças correndo e brincando pelo quintal. Uma criada negra tentava seguí-las, mas permitiu-se um descanso para nos atender. Perguntamos a ela por Molly Brant conforme descíamos dos cavalos. Ao que ela adentrou a mansão para chamar a senhora, tomei a precaução de remover meu manto de Assassino, dobrando-o e colocando-o por baixo da sela de Mabel. Eu não fazia a menor ideia do quão ciente Molly estava dos negócios templários do marido, mas eu preferi não arriscar demonstrar qualquer ligação aos Assassinos, ficando apenas com uma camisa leve de pele de cervo.

Em poucos minutos, uma mulher com pouco menos de quarenta anos saiu. Seus cabelos lisos pendiam em volta do pescoço. Seu nariz era adunco e sua expressão era austera, porém relaxada. Ela usava um vestido simples que parecia uma mistura de vestes iroquesas e europeias.

— Boa tarde, senhores. — Ela saudou, em Inglês. — O que posso fazer por vocês?

Comecei a falar.

— Lady Degonwadonti, nós...

— Por favor. — Ela interrompeu. — Lady Brant.

— Certo. Nós viemos da aldeia de Kanatahséton, Lady Brant, a oeste do Lago Andiatarocte. Ouvimos uma história de que... o seu marido planeja comprar da Confederação o território onde vivemos. Isso é verdade ou apenas um boato?

Ela ponderou por alguns instantes.

— Ah, sim, as terras no Condado de Charlotte. Meu marido já entrou em contato com o Grande Conselho de Onondaga. O condado será transferido ao nome dele assim que arrecadarmos o dinheiro suficiente para a compra. — Ela sorriu para nós. — E eu lhes asseguro, irmãos, que esse dinheiro não é pouco, e a Confederação ganhará uma quantia justa pela sua aldeia. A compra não será em vão.

— Você não pode estar falando sério, está? — questionou Atón’wah, em Kanienké’ha. —Nosso povo precisa manter controle sobre si mesmo, e não entregar nossos recursos a homens de negócios.

Molly estranhou a frase, mas prosseguiu falando com calma.

— Perdão. — Ela respondeu, no mesmo idioma. — Mas em algum momento o meu marido deu motivos para duvidarmos da sua lealdade ao nosso povo?

— O que o meu amigo afobado quer dizer... — Interferi — ...é que estamos em dúvida sobre o que Sir Johnson fará quando tomar o controle das terras. O que exatamente ele tem em mente para os Kanien’kehá:ka.

A mulher voltou a sorrir.

— Que bom que perguntou. Por favor, entrem e eu lhes mostrarei.

Molly entrou, dizendo a um criado para que cuidasse de nossos cavalos. Seguimos-na, e eu me atentei ao interior da casa. Logo após a porta havia um corredor pequeno, mas largo o suficiente para três pessoas. Uma porta à direita levava a uma cozinha, onde criadas negras preparavam comida. Molly entrou por uma porta à esquerda, que, ao esticar meu olhar, percebi ser o escritório de William Johnson. Ela retirou um mapa enrolado de uma estante cheia de documentos, e logo voltou ao corredor. Molly nos levou a uma sala de estar, onde à direita uma escada levava ao andar de cima, e à esquerda alguns sofás se encontravam em volta de uma mesa de centro. Ela pediu que nos sentássemos e estendeu o mapa sobre a mesa.

— Pensamos que Sir William estaria aqui. — Comentei, sentando-me. — Onde ele está no momento?

Molly adquiriu uma expressão pensativa.

— Decerto vocês ouviram falar da rebelião de Pontiac? — Após nossa negativa, ela continuou. — Logo assim que a Guerra terminou, alguns povos nativos se tornaram descontentes com as relações com a Grã-Bretanha, em especial com as políticas do Comandante-em-Chefe Amherst. Ele subestimava a todos os povos nativos, e os tratava como escravos. A aliança entre nossa Confederação e a Grã-Bretanha continuava firme e forte graças a meu marido, mas os povos que se aliaram à França não estavam tão contentes com a nova supervisão de Amherst. Ele proibiu os presentes que os povos nativos recebiam como parte da aliança com os franceses, e ainda restringiu imensamente o comércio de armas e pólvora entre colonos e quaisquer povos nativos. William tentou avisar Amherst do erro que ele estava cometendo, mas sem sucesso. Após o tratado que deu fim à Guerra, não demorou para que uma rebelião começasse. — Ela abaixou a cabeça para o mapa, apontando para as regiões a oeste do Lago Ontario. — Povos do Pays d’en Haut, do Ohio e do Illinois pegaram em armas contra Amherst, envolvendo até nossos irmãos do oeste, os Senecas. Liderados por um Ottawa chamado Pontiac, eles atacaram os fortes britânicos da região, que Amherst tolamente havia abastecido com poucos homens, por subestimar o poder dos nativos. Os ataques ocorreram por mais de um ano e o domínio dos rebeldes se manteve por mais dois, apesar da retaliação dos britânicos e da ajuda dos Haudenosaunee. Apenas quando meu marido mandou um enviado a Pontiac, foi que ele o convenceu a baixar a guarda e vir a Nova York. William e Pontiac assinaram um tratado, que não diminuiu a autonomia de nenhum dos povos nativos. Os rebeldes mantiveram suas conquistas, tendo apenas que cruzar o rio Mississippi para fora de território britânico. Porém, ao decorrer da rebelião, a nação Seneca ameaçou abandonar o Pacto da Corrente e até mesmo a Confederação Haudenosaunee. Nesse momento, o meu marido e meu irmão, Joseph, estão em território Seneca, para acalmar os ânimos da região e assegurar a nossa aliança.

Após a explicação de Molly, Atón’wah quebrou o silêncio.

— Talvez os Senecas tenham razão para se rebelar.

— Mas quando William retornará, então? — Eu perguntei, tentando desviar do comentário de Atón’wah.

— Francamente, não sei. Guyasuta é um homem inflexível, e William precisa reconquistar a sua confiança.

Assenti.

— Sobre o que falávamos antes?

— Ah, sim. — Ela exclamou. — O Condado de Charlotte. Temos muitos planos para melhorar a qualidade de vida dos Kanienkehá:ka na sua região. Quando a expedição a Crown Point terminou em 1755... — Ela discursou, apontando para o mapa, que detalhava toda a parte norte da Província de Nova York. — Meu marido construiu o forte William Henry ao sul do Lago George, como veem aqui. Porém, dois anos depois os franceses fizeram um cerco de uma semana ao forte. Eles destruíram o William Henry após capturá-lo. Sem os franceses por perto, meu marido pretende reconstruir o forte, ainda maior do que antes. Porém, como ele não tem mais ligações ao Exército, apenas ao ser o proprietário do condado ele poderá ordenar essa reconstrução.

— Mas você vê necessidade nisso? — perguntou Atón’wah — Estamos em tempos de paz.

— Tempos de paz são perfeitos para protegermos nossa nação. Não posso prever o futuro, mas uma certeza eu tenho: mais cedo ou mais tarde, a guerra virá. E, quando ela chegar, meu marido pretende estar pronto para defender os Haudenosaunee, assim como o fez nas últimas duas.

— “Pretende” — apontou meu amigo — Ele já não está velho demais pra isso? Como podemos ter certeza de que ele viverá o bastante?

— Oh, ele pode já estar em seus 57, mas William continua com saúde de ferro!

Permanecemos em silêncio conforme ela apontava para o mapa.

— Logo ao sul do William Henry, fica a paróquia de Queensbury, onde já habitam quakers da Sociedade dos Amigos. Meu marido e eu pretendemos fazer amplas expansões à paróquia, e posteriormente transformá-la em uma cidade. Com William na supervisão, traremos até mesmo uma igreja anglicana para o condado, e assim todos na sua vila poderão conhecer a palavra do Senhor.

Atón’wah bufou, parecendo pasmo. Botei minha mão em seu braço para tentar acalmá-lo, mas ele se desviou e continuou a desafiar Molly.

— Inacreditável! Uma igreja? Você com prazer venderia a nossa cultura em troca de alguns acres a mais para a sua propriedade?

— Entendo a sua relutância. — Brant prosseguia austera, mas segura. — Conheci muitos do nosso povo que pensavam como você antes de se converterem. Antes da chegada dos cristãos, as Primeiras Nações viviam com costumes rudimentares, cultuando espíritos tolos. Vejam como a ausência de Jesus levou Pontiac à rebelião. Irmãos, deem uma chance ao Evangelho, e prometo que a Luz do Senhor irá libertar a vocês, assim como já libertou a mim e a tantos outros.

— Você não se “libertou” de nada. Até onde sei, você já nasceu nessa tal Igreja.

— E não lamento isso nem um pouco.

Eu intervim. Eu nunca conseguiria convencer Brant a ficar de nosso lado se Atón’wah continuasse desafiando-a. Eu precisaria conversar com mais delicadeza.

— O que meu amigo quer dizer, Lady Brant, é que estamos um pouco céticos com a intervenção de Johnson. Kanatahséton é uma aldeia tradicional, e nos mantivemos neutros em todas as guerras que assolaram a província. Acreditamos em nossos costumes, e, mesmo se formos atacados no futuro, creio que não precisaremos de proteção. Temos caçadores fortes e chefes sábios. Nós dependemos dos animais que caçamos, da madeira das árvores e das nossas plantações, e temos receio de que a presença de Johnson tirará a nossa subsistência. Buscamos você porque só a senhora poderá entender o nosso lado e convencer seu marido a mudar de ideia, ou ao menos fazer concessões que nos deem mais autonomia.

Brant riu.

— Perdão, mas pelo nosso próprio bem não poderia convencer meu marido a andar para trás nessa negociação. É verdade, o Condado de Charlotte é uma região com várias riquezas, e sim, permitiremos a caça nas florestas, mas nada nunca faltará a vocês na missão cristã que fundarmos. Além disso, Queensbury fica em posição estratégica entre Albany e Montréal. O comércio e a economia irão prosperar, assim que meu marido tiver o controle das riquezas naturais da região.

— Riquezas? E quanto ao templo? — Eu perguntei discretamente, sem dar mais detalhes. Molly se mostrou consternada.

— Templo? Que templo?

Ao dizer isso, ela piscou os olhos rapidamente, parecendo desconfortável. Achilles me dissera que por anos os Templários buscaram o Grande Templo da região. Era ele que Charles Lee procurava no dia em que matou minha mãe. E agora Johnson, Church e seus comparsas novamente buscavam pôr as mãos nele. E Molly Brant claramente sabia sobre isso.

— Nenhum, na verdade. — Eu disfarcei. — O que quero dizer é que tratamos nossa aldeia como um templo, e não gostaríamos de vê-la sendo modificada.

— Ah, sim. — Ela se acalmou, com um sorriso. — Mas vocês têm a minha palavra, irmãos: qualquer modificação que fizermos ao seu “templo” será para melhor.

Nossa conversa foi interrompida pela chegada de dois rapazes mestiços pela porta principal. O mais alto, com cerca de 13 anos, segurava um rifle com as mãos. Um garoto dez anos mais novo corria para Molly Brant, falando com ela em Inglês.

— Mamãe, Mamãe! Você tem que ver o tamanho do alce que Peter matou!

Um sorriso se abriu no rosto de Molly, que tomava o pequeno nos braços.

— Ora, Georgie, estou falando com alguns convidados aqui. Vá na frente com o seu irmão e já irei falar com vocês. — Ela deu um beijo na bochecha do garoto e o pôs de volta no chão. Voltando-se para nós, ela voltou a falar. — Senhores, tenho que sair agora. Têm mais alguma pergunta a fazer?

— Não, creio que já devemos ir também — disse Atón’wah, emburrado e claramente querendo sair da presença de Brant.

Nós dois nos levantamos e eu me preparava para sair, mas lembrei-me do detalhe que me havia trazido até ali.

— Ah, sim. — Eu comecei. — Foi um... conhecido meu quem me falou sobre a compra do condado. Ele pareceu muito animado, e disse que era uma grande oportunidade. O doutor Church é amigo de Sir William, não?

Brant franziu a testa.

— Ele disse? De fato, Church quer construir uma casa de veraneio às margens do Lago George. A amizade deles já tem quase vinte anos. — Ela respondeu, sorrindo. Eu senti em sua fala o aroma de outra mentira.

— Muito obrigado, Lady Brant. — Eu me despedi, deixando a casa e tomando minha égua.

Atón’wah e eu saímos pela porta, ao mesmo tempo que Brant acompanhava os filhos pela porta dos fundos. Aproximamo-nos do criado que tinha guardado nossos cavalos e seguimos ele até o estábulo.

— Bem, isso foi deprimente. — Atón'wah falou em nossa língua materna.

— Seja mais otimista, amigo.

— Nunca vi mulher mais idiota. Ela realmente acha que os britânicos estão do nosso lado? Ela acha que, mesmo se Johnson estivesse do nosso lado, não existiriam dois Amhersts pra cada Johnson? — Ele cuspiu no chão. — Talvez esse Evangelho dela cause algum tipo de burrice.

— Nossa viagem não está de todo perdida. Lembra-se do que aquele fazendeiro com quem falamos disse?

— Sim.

— Ele disse para procurarmos por Molly Brant ou por um Sr. Flood. Podemos encontrá-lo. Talvez ele seja mais útil para nós do que ela.

— Ora, se uma maldita Kanien’kehá:ka não está do nosso lado, como convenceremos um colono a fazer o mesmo?

— Ele não precisa ficar do nosso lado — respondi — Ele só precisa falar.

Pouco antes de chegarmos aos estábulos, perguntei ao criado, em Inglês:

— Com licença, você sabe onde posso encontrar um tal de Sr. Flood?

O rapaz virou-se para trás, apontando para as plantações ao redor do moinho.

— As plantações e as casas dos escravos ficam depois do riacho. Mestre Flood deve estar em algum lugar supervisionando as fazendas. Posso levá-lo até ele se quiser.

Olhei para Atón'wah.

— Eu disse que a viagem não estava perdida ainda.

Meu amigo riu.

— Boa sorte na conversa, Capuzinho. Ficarei aqui esperando por você. Já ouvi o suficiente de baboseira por um dia.

— Como quiser. — Virando-me para o criado, tornei a falar. — Por favor, quero vê-lo.

Encontramos Flood comendo uma maçã do lado de fora de um grande celeiro de madeira. O criado apresentou-nos, e com um aceno do fazendeiro, nos deixou a sós. O homem era ruivo e trazia no rosto um bigode e uma barba aparada.

— Boa tarde, senhor. — Ele disse, estendendo-me a mão. — O que deseja?

— Meu nome é Ratonhnhaké:ton. Você é o Sr. Flood?

Thomas Flood.

— Certo. E qual é a sua função aqui na propriedade de Sir Johnson?

O homem olhou para longe, pensativo.

— Eu administro os lotes das fazendas que ainda não foram alugados ou vendidos. — Ele começou a explicar, acenando para a propriedade que se estendia até o horizonte. — Veja bem, a maioria deles pertence a Sir Johnson, mas os fazendeiros podem pagar pra ter o seu próprio lote, e então poderão plantar o que quiserem, com a minha devida permissão, claro. Nem todo vegetal é adequado para o nosso tipo de solo. Lady Brant cuida da casa e eu cuido do resto. Coleto os aluguéis, e cada fazendeiro fica com uma parte do lucro. O sistema tem funcionado até agora.

— Então você mantém bastante contato com Johnson?

— Sim, senhor. Toda decisão que ele toma é feita após falar comigo ou é anunciada por mim para os criados.

— Então você sabe onde Johnson está agora?

— Em viagem. — Ele disse, mordendo sua maçã. Percebi que Thomas não estava interessado em revelar o local.

— Viagem para onde?

— Bem, eu só falo para estranhos o que Sir Johnson me paga pra falar. — Ele pigarreou e, olhando de lado, prosseguiu — Mas confesso que o salário poderia ser melhor.

— Entendido.

Vasculhei a minha bolsa de tiracolo. Eu não gostava de fazer isso, então me concentrei no que Sam Adams me dissera uma vez: "Nem sempre podemos contar apenas com a ética". Tirei da bolsa um punhado de moedas e entreguei-as a Thomas Flood. De repente o ruivo pareceu bem mais disposto.

— Sir Johnson está em Boston. Ele viajou para lá pouco depois do Natal.

— Mesmo? O que ele faz por lá?

Flood deu de ombros.

— Não sei ao certo. Sei que ele recebeu de um tal Benjamin Church uma carta com um cheque promissório da Companhia das Índias Orientais. Não faço a menor ideia do que aquilo significava, mas ele se aprontou para Boston pouco tempo depois, saindo de madrugada. Talvez tenha pegado um navio para Londres. Afinal, ele é o Superintendente Indígena, e é ao rei que ele serve.

Novamente Benjamin Church. Johnson estar trabalhando junto aos outros Templários não era surpresa. O que realmente me intrigava era que Molly Brant havia mentido quanto a isso. O que havia de tão comprometedor em Boston que Johnson preferia manter oculto?

— Interessante. Será que eu poderia ver essa carta de Church?

Flood me fitou com olhos arregalados, como que impressionado com o pedido.

— Sir Johnson guarda todas as suas cartas em seu escritório, e nem eu entro lá sem a permissão dele ou de Lady Brant.

— Mas você tem as chaves de Johnson Hall, não tem?

— Sim, eu tenho. — Ele suspirou. Coloquei mais algumas moedas em sua mão. Ele contou-as, e levou a outra mão ao bolso. De lá tirou um molho de chaves e me deu duas delas. — Deixe as chaves na bancada da cozinha, e eu as buscarei assim que o Sol nascer. Vou avisando que sou muito bom em gravar rostos. Se alguma coisa estiver fora do lugar, se você pensar em não devolver as chaves, e se de alguma maneira isso der merda pra mim, juro que você está morto! Entendeu?

Informei a Atón'wah que não voltaríamos a Kanatahséton por enquanto. Passaríamos a noite em John's Town. Assim, retornamos ao povoado, encontramos uma estalagem e alugamos um quarto com duas camas para a noite. Pela meia-noite, nos recolhemos ao quarto. Enquanto Atón'wah preparava-se para dormir, eu vestia o meu manto de Assassino.

— Vai mesmo sair? — perguntou meu amigo.

— Eu preciso. Evite ao máximo abrir a porta do quarto. Se necessário, diga que eu fiquei no quarto a noite toda.

Ele gargalhou.

— Será difícil ninguém te ver com esse Capuzinho chamativo.

Sorri-lhe de volta.

— Melhor que vejam meu capuz do que reconheçam meu rosto.

— Certo. Vá em frente, e boa sorte. Não deixe que Molly Brant te batize!

Eu abri a janela do quarto e olhei em volta. Alguns homens andavam pela rua com um lampião, então esperei que eles passassem. Quando após dois minutos ninguém apareceu, passei pela janela e me dependurei no parapeito. Desci com calma, procurando saliências onde apoiar meus pés. Ao chegar no chão, chequei novamente se não havia ninguém por perto e andei agachado, escondendo-me em arbustos e no escuro da noite. Após passar pelos últimos prédios do povoado, atravessei o riacho o mais silenciosamente possível. O caminho à frente era repleto de bosques, então me movimentei escalando árvores e pulando entre galhos.

Após meia hora, pude avistar Johnson Hall, silenciosa e escura, com apenas dois guardas de tocaia em frente à porta principal. Ainda oculto pelas árvores, dei a volta na mansão e aproximei-me pela porta dos fundos. Usei uma das chaves que Thomas Flood me dera para abrí-la. A sala onde eu conversara com Molly Brant estava vazia, e nenhum pio era ouvido em toda a casa. Tranquei a porta por onde passara, e caminhei com passos leves e quietos até o escritório de Johnson. A cozinha à sua frente continuava aberta, mas o escritório, naturalmente, estava trancado. Eu podia ouvir os guardas conversando do lado de fora, então ao usar a outra chave puxei a maçaneta para cima, para evitar ao máximo que a porta rangesse. Abri lentamente, com uma passagem apenas estreita o suficiente para que eu entrasse.

O escritório tinha uma escrivaninha com uma pena para escrever e um castiçal com uma vela apagada. À parede, estava uma ampla estante cheia de livros e mapas. Abri uma das gavetas da escrivaninha e logo encontrei uma carta com selo quebrado. Vasculhei pelas outras gavetas, e depois por uma mobília que se encontrava no canto do recinto, até encontrar uma ferramenta de aço em formato de semi-círculo com duas pontas próximas uma da outra. Esfregando uma ponta contra a outra, acendi o castiçal do escritório e usei a luz para ler a carta que encontrei na gaveta. Percebi que o selo que prendia a carta trazia a infame cruz da Ordem dos Cavaleiros Templários.

Caro Sir William Johnson,

É com prazer que informo que tive acesso a uma grande oportunidade de negócios, que decerto será de grande ajuda ao financiar as nossas futuras expedições na região do Condado de Charlotte. Já que sabemos que os Mohawks do condado não revelarão a localização daquilo que procuramos, não há alternativa a não ser comprar o território e botar a mão na massa nós mesmos. Confio em você para adquirir a confiança dos nativos e comprar da Federação a permissão para escavar o local.

Porém, sei que, mesmo com sua fama, financiar a empreitada ainda se mostrará uma tarefa difícil. Sendo assim, a Ordem pôde tirar proveito de uma situação deveras infeliz a acontecer na Ásia. Com guerras e fome assolando Bengala, a Companhia das Índias Orientais têm obtido cada vez menos lucro na região, e, assim, a Coroa pretende reparar os prejuízos mandando o chá para outras colônias. Por trás das cortinas, já está passando pelo Parlamento um processo de lei que determinará o monopólio do chá da Companhia nas colônias da América. A nossa sorte começa quando nossos amigos dentro do Parlamento conseguiram alterar o projeto para favorecer-nos.

Ordinariamente, a Companhia das Índias Orientais teria que arcar com todos os custos de importação do chá ao atracar seus navios na América. A Coroa, ansiosa por um lucro que compense os fracassos na Índia, isentou a Companhia das taxas de importação. Porém, mexendo alguns pauzinhos, uma empresa de fachada foi criada. A Companhia ainda terá custos de importação reduzidos, mas as taxas continuarão existindo, e serão pagas diretamente à Ordem dos Cavaleiros Templários.

Para potencializar os lucros, tanto para a Companhia quanto para nossa Ordem, solicito sua presença na Província de Massachusetts Bay, para que possamos estabelecer uma rota comercial que compense as condições geográficas que limitam o alcance do chá da Companhia. Com a sua ajuda, podemos conectar a sua já estabelecida rota comercial em Albany com o litoral, para que o chá possa alcançar distâncias maiores do que os portos de Boston e Filadélfia. Há alguns meses, estive também na ilha de Martha's Vineyard, à procura de marinheiros que nos favorecerão com esse mesmo objetivo. Tenha um bom Natal, e que o inverno favoreça a sua jornada.

Que o Pai da Compreensão te guie.

Atenciosamente, seu amigo e colega,

Benjamin Church, PhD

Boston, Dezembro de 1772

Ainda era plena madrugada quando retornei a nosso quarto na estalagem em John's Town. Temi acordar Atón'wah ao entrar pela janela, mas cheguei para encontrá-lo ainda desperto.

— Então Johnson está em Boston, e não com o cunhado no território Seneca? — Ele questionou-me, sentado na cama e bocejando, após eu relatar o que havia lido nas cartas de William Johnson.

— Bem, talvez o cunhado esteja lá de verdade — respondi, enquanto me despia do manto para deitar-me em minha cama — Mas Johnson queria ocultar o seu caminho.

— Não me surpreende Molly Brant mentir para nós. Mas agora me pergunto quão grave devem ser os negócios deles, para que o grande William Johnson tema ter seu nome ligado a eles.

— Desviar dinheiro não é nada nobre.

— Então o que você pretende fazer a respeito agora? — Ele perguntou, me encarando com uma expressão interessada.

— Hoje dormiremos aqui, mas quanto mais cedo sairmos de John's Town, melhor. Amanhã, antes de voltarmos a Kanatahséton, quero passar pela cidade mais próxima, provavelmente Schenectady, para enviar algumas carta a Massachusetts, avisando Achilles e Adams do que descobri.

— E quando você deixar a província?

— Devo ir para Boston e investigar essa empresa de fachada de Church. Devo acabar com qualquer fonte que possa financiar a compra de Johnson.

Atón'wah olhou para cima, pensativo.

— Mas pelo que eu entendo, a Ordem não precisa de Johnson para obter esse dinheiro, certo?

— Sim. Na carta Church diz que precisa da...

— ...Da crediblidade dele. — Atón'wah completou, raciocinando. — Mas é claro, só há um colono que poderia convencer a Confederação a abrir mão de suas terras. — Ele ficou quieto por um momento, o que me deixou curioso.

— Aonde quer chegar, Atón'wah?

— Acabar com a fonte de renda de Johnson não será suficiente, Ratonhnhaké:ton. Nós precisaremos que ele morra.

Arregalei os olhos ao ouvir isso.

— Você está falando em matar um homem, Atón'wah? Você não pode estar falando sério.

— Claro que estou. Sem ele, todo o plano da Ordem de explorar nossa aldeia vai por água abaixo.

— A Ordem tem mais poder do que pensamos. Sem Johnson, colocarão outro no lugar dele.

— Mas nenhum homem pode substituí-lo à altura. Se William morrer, todas as suas terras irão para o seu primogênito. John não é filho de Molly, não tem sangue iroquês e nem o respeito da Confederação.

— Mas você esteve comigo em Johnson Hall. Você viu os outros filhos dele, crianças com menos de 15. Eu não irei participar do assassinato de um pai de família! Mesmo minha mãe adotiva o respeita.

— Não tenho culpa se ela é tola o suficiente para confiar nele. Mas o que é uma família perto de toda uma aldeia? Todo um povo? A morte de Johnson pode abalar alguns, mas salvará muitos mais.

Eu pensei no assunto.

— Você pode estar certo, Atón'wah, mas eu já perdi a minha mãe — rebati, com mais raiva do que tristeza — Eu não desejo isso a nenhuma outra criança.

Meu amigo arregalou os olhos, como que estupefato pela minha opinião.

— É você mesmo, Ratonhnhaké:ton? Sinto muito pelo que lhe aconteceu, mas pensei que você usaria a morte de sua mãe para ir contra os colonos, não para defendê-los.

— Eu sei, mas... Mas...

Eu hesitei. Em minha mente relampejou o rosto de minha mãe em seus momentos finais, desesperado e em lágrimas. Ela sangrava quando me disse suas últimas palavras: "Eu te amo". Atón'wah estava certo, mas como eu poderia matar uma pessoa? A dor de ver a vida se esvair de minha mãe... A visão fora tão chocante, como eu poderia ter essa experiência novamente, independentemente de quem fosse a morte? Colapsei, sentando-me em minha cama e enterrando o rosto em minhas mãos. Senti lágrimas escaparem de meus olhos. Fiquei daquele jeito por alguns segundos, até ouvir a voz de Atón'wah, que levantara da sua cama e agora estava agachado ao meu lado.

— Ratonhnhaké:ton. Está tudo bem? — Não consegui responder-lhe. — Você está muito cansado, e eu também. Desculpe o meu modo de falar. É melhor dormirmos um pouco.

Entre as lágrimas, consegui assentir. Deitei-me, e após alguns segundos Atón'wah voltou à sua cama. Sonhei com minha mãe naquela noite.

Notas finais
Gostaram da nova personagem histórica? Molly é uma figura bem interessante da Guerra Revolucionária, e é a primeira de várias personalidades que eu ainda pretendo adicionar à história. Espero que o capítulo não tenha ficado expositivo demais, imagino que vocês devem estar querendo umas cenas de ação :P . Mas infelizmente o trabalho de detetive também faz parte do ofício dos Assassinos. Quanto ao NaNoWriMo, fico orgulhoso de contar que eu acabei de começar, mas esses últimos dois dias já foram bem produtivos. 4379 palavras já foram, e continuo dentro do prazo. O próximo capítulo já está pronto, mas como ele é bem curto, talvez eu poste dois capítulos de uma só vez na semana que vem. De qualquer modo, espero que estejam gostando da fic, e comentários são sempre bem-vindos! ^^ P.S.: A ferramenta que o Connor usou para acender a vela se chama fire striker e era usada antes da invenção dos fósforos. Como eu não consegui achar uma tradução pro nome, achei melhor descrever. Segue aqui uma foto de um exemplo: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8d/Briquets.jpg