Espírito de Revolução
18 O Primeiro Alvo
Notas iniciais
As flores já brotavam quando enfim retornei à Fazenda Davenport. A primavera já havia começado, e com ela a época perfeita para o plantio de vegetais como rabanetes, aspargos e espinafre, o que pude perceber ao passar pela colheita de Warren e Prudence. Saudando cada um dos moradores do nosso crescente vilarejo, cavalguei pelo caminho até a mansão Davenport. Ao chegar, deixei Mabel nos estábulos, e mostrei-lhe uma cenoura que Prudence havia me dado alguns minutos antes. Ao que ela relinchou ao ver o vegetal, eu a alimentei enquanto passava minha mão por sua crina escura.
— Até que enfim, Connor! — Eu ouvi às minhas costas. Era Achilles, aproximando-se de mim enquanto capengava com sua bengala. — Pensei que nunca mais voltaria.
— Duvido que eu tenha feito falta, meu velho — respondi, virando-me para ele — A Fazenda parece ter se virado bem sem mim.
— A Fazenda não é o que mais me preocupa, garoto. Temos assuntos mais relevantes a tratar, não é mesmo?
— Sim — completei, com pesar. Andei com o velho em direção à porta dos fundos da casa — Você recebeu minha carta?
— Recebi. Eu imagino que você não tenha trazido consigo a carta de Church a Johnson, ou trouxe?
— Não. Achei que seria muito arriscado removê-la. Molly Brant poderia associar o sumiço da carta à minha presença, e ela agora sabia qual era minha aldeia natal.
— Você fez bem em não arriscar. Isso também teria posto Johnson em alerta, e matá-lo seria bem mais difícil.
Suspirei. Eu já esperava que Achilles fosse sugerir aquilo.
— Eu não pretendo matá-lo, meu velho. Decerto há maneiras mais fáceis de lidar com ele.
— Maneiras mais fáceis? O que pode ser mais fácil do que fincar uma lâmina no peito do homem?
— Nós podemos juntar evidências e denunciá-lo. Se esse esquema de desvio de dinheiro chegar às autoridades, não demorará para que Johnson e Church acabem na cadeia, inofensivos.
Achilles debochou.
— Você continua ingênuo como sempre, Connor, se acha que homens poderosos como eles têm alguma chance de serem presos.
— Então o que quer que eu faça? Encontrar Johnson em Boston será procurar uma agulha num palheiro.
— Disso eu sei. Mas concentre-se no que está em jogo: se os Templários puserem as mãos nas suas terras natais... Se encontrarem o Grande Templo, só Deus sabe o que eles serão capazes de fazer. Tudo pelo que a Irmandade luta pode estar perdido. Cabe a nós impedi-los, a qualquer custo.
Bufei, irritado.
— Eu entendo o que você diz, mas Johnson tem esposa e filhos.
— Todos nós tínhamos! — vociferou Achilles — Acha que isso em algum momento impediu os Templários de nos caçarem como animais? Acha que isso impediu o seu próprio pai de tentar me matar? E agora você se apieda do homem que nos ameaça, só porque ele tem algumas dúzias filhos bastardos?
Mantive-me quieto, surpreso. Eu nitidamente havia tocado em um assunto delicado. Por todo o meu tempo na mansão, o velho nunca havia me dito que tivera uma família.
Achilles virou suas costas para mim e não tornou a falar. Ele continuou andando, abrindo a porta dos fundos da mansão. Fiquei por alguns segundos parado ali, observando a Aquila atracada na baía ao horizonte, até que a silhueta de Achilles voltou a aparecer na porta.
— O que diabos está esperando? Venha, me siga!
Ao que ele entrou, obedeci. Segui o velho conforme ele mancava até o seu escritório.
— Enquanto você esteve fora, tomei a liberdade de vasculhar os arquivos da nossa biblioteca. — Ele se agachou detrás de sua escrivaninha, alcançando uma grande pasta grossa e cheia de papéis. Ele jogou a pasta bruscamente em cima da mesa, levantando um tanto de poeira que prontamente me fez espirrar. — Considere isto como um presente de aniversário atrasado. Isto e, claro, o teto que eu te provdenciei pelos últimos anos.
— O que é isto? — perguntei, abrindo a pasta.
— A sua primeira missão oficial como Assassino. Esta é toda a inteligência que nossos Assassinos já recolheram a respeito do seu Sir William Johnson. Porém, o último a se encarregar desses arquivos morreu há treze anos, então algumas partes podem estar desatualizadas, mas creio que seu nariz já percebeu isso. Minha rinite atacou por três dias depois que desenterrei essa pasta.
Vislumbrei a quantidade de informações contida naquela pasta. Relatórios de batalhas, cópias de títulos de posse, notas emissórias, recortes de jornais... Havia de tudo e mais um pouco ali. Nada que dissesse respeito à vida de Johnson havia passado batido.
— Então esta é a minha primeira missão? Neutralizar a fonte de renda de William Johnson.
— Não — repreendeu o velho — Sua primeira missão é matar o homem.
— Matar Johnson? Mas...
— E também quero que você pare de falar esse nome. Nada mais de Williams e nada mais de Johnsons. — Ele apontou para um retrato na pasta. — A partir de agora este homem é seu Alvo. Este é o único nome de que você precisa daqui para frente. Não deve ser difícil lembrar.
Assenti, quieto, mas ainda irritado. Percebendo isso, Achilles prosseguiu:
— E não quero mais reclamações! Eu sou o Mentor aqui e estas são ordens.
— Não me surpreende. Atón'wah também queria me convencer a matar J- ...o Alvo.
— Bem, talvez eu devesse ter treinado esse Atón'wah em vez de você. Mas agora que paro pra pensar, um informante no interior de Nova York viria a calhar.
— Certo — retomei — E, depois de ler tudo isso, o que faço?
O velho Mentor me fitou.
— Assim que tiver alguma notícia de seu Alvo, o que pode demorar semanas, ou até meses... Faça uma pequena visita a nosso amigo Samuel Adams. Poucas coisas passam despercebidas por ele.
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