Espírito de Revolução

1 A Tarefa Mais Difícil


Notas iniciais
Olá, pessoas do Nyah! :) Começa aqui a minha nova fanfiction Espírito de Revolução, que na verdade é uma versão reescrita da fanfic de mesmo título que eu escrevi e postei aqui há mais de dois anos. Nela eu tento fazer uma releitura da história do jogo Assassin's Creed 3 de uma forma mais literária do que ela pode ser narrada no jogo, e dessa vez tentando escrevê-la com uma abordagem mais realista e coerente do que a que eu tinha quando a comecei em 2014. Boa leitura e espero que gostem! ^-^

A meu ver, ser um Assassino nem de longe é tão difícil quanto ser um assassino. Um Assassino, com ‘A’ maiúsculo, é o arauto de um ideal, um agente das sombras com uma responsabilidade enorme em mãos. É preciso ter uma mente forte, e a mão-de-ferro para poder tomar decisões que chegam ao extremo. Mas a parte mais difícil desse dever é quando esse arauto precisa se tornar um assassino, com ‘a’ minúsculo. Em outras palavras, um homicida. É preciso mais do que mente forte, e sim sangue frio. Pois sangue frio é o que permite que uma pessoa junte a coragem para matar outra, e em seguida ver toda a vida, trabalho, sonhos e esperanças se esvaindo da vítima.

Sempre suspeitei disso, mas pensei que ambas as ocupações estavam tão intimamente ligadas que eu não sofreria quando precisasse causar a morte precoce de outra pessoa. Tarde demais eu percebi que estava errado.

Foi após duas semanas de cavalgada que cheguei na cidade. Era minha primeira missão oficial, e minha primeira vítima. Meu Alvo residia em uma remota mansão que levava seu nome, localizada no meio do bosque decíduo que caracteriza a região. Era lá que ele estaria hoje, presidindo uma negociação fatídica. Caso aquela negociação fosse bem-sucedida, ela não apenas prejudicaria os interesses dos moradores locais, como também acarretaria uma série de ações que poderia tomar consequências imprevisíveis e extremamente perigosas. Por meses temi que o Alvo enfim conseguisse realizar aquele acordo. Torci para que ele nunca acontecesse. Mas agora que ele estava em seu meio e tudo indicava que teria sucesso, eu não tinha mais tempo para hesitar ou mudar de ideia: a negociação teria de ser impedida. A qualquer custo. O Alvo tinha que morrer.

Quando cheguei às redondezas, corri pelos bosques em direção à mansão, me escondendo dos eventuais capangas que rondavam a área. Não demorou muito até eu chegar aos fundos da casa. Graças aos meus sentidos aguçados, eu podia ouvir o meu Alvo e outros homens discutindo no quintal da frente. Eu já havia estado lá antes; portanto, subi a parede segurando as nervuras das suas telhas e em pouco tempo eu estava no piso superior. O corredor estava deserto, mas eu podia ouvir vozes femininas no andar de baixo (provavelmente cozinheiras, empregadas ou, — pior — escravas).

Prossegui, contudo, e adentrei um quarto pessoal — não sem antes me certificar de que não havia ninguém lá dentro. Fechei a porta atrás de mim, e a bloqueei com uma escrivaninha de madeira pesada. Desse modo, se uma pessoa tentasse entrar, eu teria tempo o suficiente para fugir, me esconder ou me preparar. Com as medidas necessárias tomadas, me restava cuidar da abordagem ao Alvo.

Vesti meu capuz, dirigi-me à janela de vidro, abri-a discretamente e, com as cortinas semicerradas de modo a esconder minha presença, observei a cena do lado de fora. Era uma mesa de madeira colocada cerca de dez metros à frente da porta principal da mansão. Em torno dela estavam sentados dez homens, alguns dos quais eu já conhecera pessoalmente. Eles escutavam atentamente à proposta de negócios do meu Alvo, que estava de pé à ponta da mesa. Ele mantinha bem perto de si dois ou três sócios, além de dois guardas pessoais empunhando mosquetes, atentos logo atrás. Outra meia dúzia de guardas estava posta de modo a cercar a mesa, e cada um também tinha seu mosquete.

Agachado perto da janela, e atentando meus ouvidos à conversa daqueles senhores, eu levantei meu braço esquerdo e o encarei por alguns segundos. Com um sutil movimento dos músculos do antebraço, minha braçadeira ejetou uma lâmina polida e afiada de debaixo das minhas mangas. Fitei a lâmina oculta refletindo o Sol. Em seguida olhei para fora, em direção ao meu Alvo. De alguma maneira, não importando os guardas ou as testemunhas, eu teria de fazer aquele homem e aquela lâmina se encontrarem.

Ou talvez não. Em minha cintura havia um coldre com uma pistola de pederneira carregada. Se eu a armasse e apontasse aquela arma para o meu Alvo com paciência para atingir uma mira impecável, eu poderia acabar com tudo aquilo em um instante. Ambos os guarda-costas do Alvo, suspeitando dos homens da mesa, estavam de costas para mim. Bastaria apertar um gatilho, e a bala alojada na cabeça do Alvo acabaria com todos os meus problemas enquanto eu removia a escrivaninha para fugir e me esconder dos capangas que viriam atrás de mim.

Cheguei a armar a pistola e apontá-la... mas eu simplesmente não conseguia apertar o gatilho. “Talvez a venda não seja realizada”, eu dizia a mim mesmo. “E nesse caso o Alvo poderá continuar vivo”. Eu tentava ignorar o fato de que, se ele continuasse vivo, iria apenas persistir no assunto, para tentar uma outra negociação alguns meses depois, ou usar de métodos ilegais para prosseguir com seus planos. Sim, eu estava apenas buscando uma desculpa para não matá-lo. Continuei alguns minutos naquela janela, observando a discussão amigável entre os homens que não sabiam o quanto estava em jogo naquela reunião.

Até o momento em que a discussão deixou de ser amigável. Um desentendimento ocorreu, e um dos maiores opositores do Alvo levantou-se da mesa para insultá-lo. O Alvo continuou calmo e tentou convencê-lo a ceder à proposta da negociação. Quando ele continuou a se impor, o Alvo deu uma ordem a um dos guarda-costas atrás de si, que imediatamente apontou o mosquete para o homem, de modo a intimidá-lo. Os outros guardas já se preparavam para entrar em posição de segurar suas armas. Se os interesses do Alvo não fossem atendidos, eles certamente tinham intenção de atirar.

Não”, pensei. “Isso não. Não permitirei que vidas inocentes sejam tiradas”. Segurei minha pistola e levei sua mira para a cabeça do guarda-costas.

Mas hesitei. Não seria aquela também uma vida inocente? Que justiça havia em disparar escondido a bala que mataria o homem que apenas realizava o dever que um homem mais rico o pagara para cumprir? Por um breve segundo, segurei meu colar de presas de lobo, que havia pertencido a minha mãe anos antes. Pensei: se minha mãe estivesse me vendo naquele momento, será que aprovaria a minha atitude? O guarda-costas era apenas um peão naquele conflito, matá-lo não afetaria o plano maior das coisas. Mesmo assim, ele estava no caminho entre mim, meu Alvo e meus princípios. Era necessário tirá-lo do caminho...

Mas não. Havia outras formas além da morte. Se eu tiver a chance de atingir meus objetivos sem tirar a vida de um homem alheio ao fato de que sua morte está a apenas um gatilho de distância, eu aproveitarei essa chance. Revistei meu alforje rapidamente e de lá retirei uma bomba de fumaça. Tirando a sua tampa, a bomba começou a perder pressão; e, quando eu a arremessei aos pés do guarda-costas e do Alvo, ela rompeu-se, liberando uma nuvem de fumaça cinza grossa, opaca e atordoante. O caos tomou conta da reunião conforme os presentes tentavam entender o que acontecia.

E tudo em seguida passou bem rápido. Segurei o parapeito da janela enquanto me jogava para a frente, em um movimento que me deixaria pendurado. Um dos guardas que estavam longe da fumaça percebeu minha presença e começou a levar seu mosquete em minha direção. Enquanto isso, quando eu consegui manter meus pés firmes na parede externa da mansão, larguei a janela e me lancei para trás, começando a cair. No meio da queda, recolhi minhas pernas para rolar pelo chão antes de me levantar e correr em direção à fumaça. Retirei a pistola de meu coldre, segurando-a pelo cano. Adentrei a cortina de fumaça bem a tempo de desviar da bala que o guarda disparara para mim.

Assim que me aproximei do guarda-costas atordoado que poucos segundos antes ameaçara o opositor de seu chefe com um mosquete, golpeei-o com minha pistola. Bati a coronha da arma com força em sua têmpora, de modo que ele desmaiou quase que imediatamente. O segundo guarda-costas, percebendo o meu vulto, investiu sua baioneta contra mim, ao mesmo tempo em que gritava para que seu chefe, meu Alvo, fugisse. Conforme percebi a arma se aproximar de meu rosto, inclinei-me para trás, de modo também a passar meu pé por baixo das pernas do guarda. Conforme ele caía, segurei firme o cano do mosquete. Assim que um terceiro guarda se aproximou para me atacar, girei em um círculo, com o mosquete empunhado, para acertar o novo adversário com uma coronhada no rosto que provavelmente quebrou seu nariz, mas que não faria nenhum ferimento grave. Ao menos ele estava desacordado agora. A essa altura, a fumaça já estava se dissipando, e pude ver ao longe o Alvo fugindo em direção ao bosque. Ele tinha quinze metros de vantagem e eu não podia perder tempo com os outros guardas. Eu deveria correr atrás dele.

Foi arriscado virar minhas costas para a comoção que eu causara, mas pude ouvir o disparo de outra arma bem a tempo para, em uma fração de segundo e sem parar de correr, me abaixar e evitar outra bala. O Alvo continuava correndo, indo em direção ao bosque na esperança de me despistar. Esperanças vãs, pois a vantagem dele era de alguns metros, mas a minha vantagem era de quarenta e um anos de idade. Assim que entramos no ponto onde a floresta começava a ficar mais densa, ouvi os guardas correndo atrás de mim. Retirei a tampa de outra bomba de fumaça do meu alforje e segurei-a conforme eu corria. A bomba, perdendo sua pressão, deixava um rastro de fumaça atrás de mim, até eu lançá-la para longe. Uma cortina de névoa havia se formado na floresta, o suficiente para que os guardas que viessem atrás de mim logo me perdessem de vista.

A distância se reduzia entre mim e o Alvo. Ele mostrava sinais de cansaço, mas persistia. Decidi que a melhor maneira de alcançá-lo seria imobilizando-o. Assim, diminuí a velocidade e levei minhas mãos às costas para retirar uma flecha da aljava presa na parte de trás do meu manto, junto com meu arco. Segurei o arco com minha mão direita e, com a esquerda, posicionei a flecha. Mirei por alguns segundos e, com um tiro certeiro, a flecha se alojou na panturrilha esquerda de meu alvo. Ele tropeçou e caiu no chão no mesmo instante.

Acelerando em um trote, parei quando o Alvo já estava a meus pés. Ele tentava se arrastar, mas percebeu que era inútil, e a essa hora apenas levantou os braços em minha direção, pedindo misericórdia. Infelizmente essa misericórdia eu não poderia conceder. Agachei-me ao lado dele e segurei seu pescoço com minha mão direita, não com o intuito de enforcá-lo; apenas segurei-o com força o suficiente para prender seu corpo ao chão. Ele levou uma das mãos para tentar proteger o pescoço. Ejetei a lâmina oculta em meu pulso esquerdo e deixei-a pairando no ar.

Eu apenas deveria mergulhar o meu braço e fincar a lâmina no abdome do homem aos meus pés. Um ferimento mortal. Mas hesitei. O Alvo me olhava em desespero. Além de já ser velho, ele não trazia arma alguma consigo. Seria justo executá-lo daquela maneira?

Eu suspirei, com pesar.

Tenho que fazê-lo. É o meu dever”, pensei.

E penetrei minha lâmina no fígado do Alvo, com precisão e rigidez... apenas para me arrepender no instante seguinte. Simultaneamente ao golpe, seus olhos relampejaram. Pude fitá-lo, e ao ver seu olhar moribundo tomei consciência do que estava fazendo.

Nas semanas anteriores eu me acostumara a chamar aquele homem de “Alvo” de tal maneira que eu havia me esquecido de que ele tinha um nome: William. Eu havia me esquecido de que ele tinha uma esposa e vários filhos, alguns pequenos demais para entender a morte. Eu havia me esquecido de todo o seu celebrado histórico militar, do seu poderio econômico, e de todas as centenas de pessoas que o admiravam ou deviam a vida a ele.

E agora tudo aquilo — todas as conquistas que William realizara ao longo de sua vida de 59 anos — se esvaía diante de meus olhos. Entrei em um transe observando aqueles olhos desesperados.

William ainda tinha o suficiente para dizer algumas últimas palavras. Questionou-me o porquê daquilo. Levou dois segundos para que essa pergunta me tirasse do transe. Eu o respondi, defendendo o ponto de vista do povo local. Ele contra-argumentou, jurando que ele estava apenas fazendo o melhor para a terra. Suas palavras eram convincentes. Meu lado emotivo queria pedir perdão, mas meu lado racional sabia que aquilo era inútil a essa altura. Persisti em meu ponto de vista, e o vi proferir seu último suspiro de lamento.

Levantei-me, tremendo. Eu acabara de matar uma pessoa. Tentava dizer a mim mesmo que eu havia feito a coisa certa, mas convencer-me disso era bem mais difícil. Observei o cadáver aos meus pés, com sangue e bile escorrendo de seu abdome. Pus-me a lacrimejar. Agachei-me no chão apenas para recuperar a flecha fincada em sua panturrilha. Murmurei uma pequena reza em minha língua materna, desejando-lhe paz no descanso eterno enquanto eu fechava suas pálpebras inertes.

Retirei o meu colar e segurei-o em minha mão. O que minha mãe pensaria? Será que ela acharia que fiz a coisa certa, ou que apenas perpetuei uma guerra sem sentido?

Encarei o corpo de William por alguns segundos. Em seguida, segurei-o, já frio, e o arrastei até uma árvore próxima. Posicionei seu corpo inclinado no tronco da árvore, com seus braços por cima do ferimento. Ele estava morto, mas ao menos quem o visse de longe iria pensar que ele estava apenas dormindo pacificamente.

Este pensamento me alertou de que eu provavelmente estava sendo procurado. Olhei em volta para verificar se algum guarda estava próximo. Não encontrei nenhum deles, mas vi outra pessoa. Ao longe estava um cachorro, que acompanhava uma criança pequena vindo em minha direção.

Maldição”, pensei. “Um dos filhos de William

Comecei a correr na direção oposta, em fuga e implodindo em mágoa, sem soltar o colar de presas de lobo. Eu chorei pensando no que eu causara. Eu não chorava pelos admiradores de William. Também não chorava por sua viúva; Molly era uma mulher forte e eu sabia disso. Eu estava chorando por aquele garoto com o cachorro. Em poucos segundos ele seria o primeiro a encontrar o cadáver do pai. O pobrezinho era jovem demais, mas se confrontaria logo com a cruel realidade do mundo.

Sim, ele era pequeno. Tinha no máximo quatro anos.

A mesma idade que eu tinha quando vi minha mãe morrer na frente dos meus olhos.

Ser um Assassino é mesmo um trabalho difícil. E esse trabalho gera um ciclo que nunca o facilita.

Notas finais
Por aqui fica o prólogo. O próximo capítulo será postado no dia 23, e depois disso pulicarei semanalmente toda sexta-feira. E caso estejam procurando algo para ler enquanto esperam, permitam-me recomendar uma fanfic já finalizada que eu escrevi no ano passado: Captura em Le Cap, agora em sua 2ª edição, revisada e melhorada. Leiam no link https://drive.google.com/file/d/0B_ZDlgZih9kBRk5POVU2dUlfU0U/view