Espírito de Revolução
2 Um Homem Rude
Notas iniciais
Sim, a morte de William foi um trauma marcante. Contudo, foi apenas a primeira de muitas que tive de executar. Décadas se passaram desde aquele dia, mas eu ainda guardo uma parte daquele remorso. Por que recordar o episódio, então, neste diário? De certa forma, espero que estas recordações me tragam respostas. Afinal, por anos lutei pela liberdade. Lutei com todas as minhas forças por aquilo que eu achava correto. Se o meu trabalho rendeu frutos? Claro, isso é inegável.
Mesmo assim, quando olho para trás, não vejo muito daquilo que construí. Sinto-me sozinho. Chega a ser irônico pensar nisso: quando jovem, eu era tão convicto dos meus ideais... Agora, no entanto, toda essa convicção parece se esvair. Pois, quando olho para o lado, não vejo mais nem sequer a sombra daqueles que lutaram junto a mim. Será que a minha jornada os afastou? Será que eu estava errado o tempo todo?
De qualquer forma, eu andei trocando cartas com um dos meus contatos na Europa. Ele me disse que, no nosso trabalho, é comum enfrentarmos momentos de dúvida conforme as décadas passam. Pois a dúvida está no cerne de nossos ideais, e evitá-la iria contra a nossa própria natureza. Ele me disse que, quando estamos desolados e nos esquecemos daquilo por que lutamos, o melhor modo é recordar as nossas próprias lutas.
E é por isso que começo a escrever. Talvez se eu retornar aos meus dias de jovem... aos dias em que eu ainda tinha felicidade e, principalmente, transbordava em esperança... Talvez isso me ajude a superar as minhas perdas mais recentes. Realmente espero que isso possa me consolar. Pois, se há uma coisa que eu aprendi nessas décadas, é que nós não somos tão livres quanto pensamos. Aparentemente, somos peões de um jogo de xadrez há muito predestinado. Peão ou não, apenas torço para que meu papel nesse jogo tenha sido desempenhado corretamente, ainda mais depois de todas as difíceis escolhas que tive de tomar.
Seria muito doloroso se a resposta fosse negativa.
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Suponho que agora eu deva narrar como entrei em contato com a Irmandade dos Assassinos. Narrar a jornada de como um jovem mestiço iroquês se tornou um Assassino de sangue-frio. Ao contrário de muitos, não fui convidado para a Irmandade, nem busquei-a por interessar-me participar. Fui de certo modo conduzido, como se o destino houvesse me enviado em busca dessa vida. De qualquer forma, percebi bem cedo que essa vida e esses ideais me eram adequados.
Era o outono de 1769. Eu tinha treze anos de idade, e a caminhada entre a minha aldeia natal e a baía aonde haviam me dito para ir havia durado mais de três semanas. Nessas três semanas eu pude pôr à prova tudo o que meu pai adotivo havia me ensinado nos anos anteriores: me ensinado a caçar, a me defender e a sobreviver nos bosques. Mas após três semanas eu enfim chegava à baía. Alguns dias antes, um comerciante havia me dado as informações necessárias para encontrar o local, e eu aparentemente estava no lugar certo. Aquele comerciante era a minha única fonte; minha busca poderia ser infrutífera, mas eu tinha que aproveitar qualquer pista que eu tivesse.
— Já faz anos que eu não vejo esse símbolo. — O homem havia me dito. — Mas eu o vi sim! Em uma bandeira, numa pequena baía perto de Rockport.
— Ótimo! — Eu lhe respondi, entusiasmado. Era a minha pista mais relevante até o momento. — Você sabe o que significa?
— Eu não perguntei ao sujeito. Sou um mercador, meu trabalho é vender, não saber.
— É o suficiente. Você lembra onde fica essa baía?
— Sim, eu lembro. — Ele explicou, em meio a goles de seu caneco de cerveja. — Sempre passo perto de lá no caminho para Portsmouth; posso te indicar o caminho, se quiser... Mas devo avisá-lo que, na última vez em que estive lá, a bandeira já havia sumido.
— Não importa, tenho que ir para lá de qualquer jeito!
E, quatro dias mais tarde, lá estava eu na baía descrita. Depois de trilhar meu caminho por meio de um certo vale, eu havia chegado. Observei: À minha frente, um grande bosque se estendia, com árvores altas e finas. Ao longe, eu podia ver a água; uma grande massa de água sem fim, que continuava até onde minha vista alcançava. Era o mar, e na época eu o achei tão bonito quanto me disseram que seria. Uma grande embarcação de madeira encontrava-se destruída e encalhada no meio da baía. Mas, antes do mar, e no meio do bosque, outra coisa me chamou a atenção. Uma grande mansão pintada de vermelho, com telhados azul-escuro, construída não muito longe de um penhasco, formando a perfeita vista para o mar. Quando vi a mansão, eu soube: era lá que eu obteria minhas respostas.
Caminhei até a mansão, e já havia anoitecido quando cheguei lá. No caminho eu vira algumas outras construções menores, mas todas desabitadas. A mansão era ainda maior vista de perto. Ela tinha dois pisos, uma pequena varanda logo acima da porta e quatro chaminés, embora apenas uma soltasse fumaça. À esquerda, havia um prédio menor, com a mesma pintura da mansão; à direita, um estábulo, onde havia uma carruagem e dois cavalos; e, à frente da casa, um mastro. Em seu topo, nenhuma bandeira tremulava.
Subi a escadaria que levava à porta da mansão. Tentei abrir a porta, mas, como pensei, estava trancada. Isso era bom, pois significava que havia alguém lá dentro. Portanto, apenas bati na porta. Esperei alguns segundos, e, como ninguém respondia, bati de novo. Foi então que a porta se abriu, e fiquei surpreso. Eu esperava encontrar um homem branco, mas foi um negro quem abriu a porta. Tinha cerca de 60 anos; pude confirmar isso pela sua barba grisalha e pela bengala com que andava. Soube que aquele era o homem que eu procurava: o homem que, segundo haviam me dito, havia conhecido minha mãe e poderia me treinar para cumprir o misterioso destino que me cabia.
— O que foi? — perguntou ele, mal-humorado.
Hesitei ao responder, de certa forma intimidado pela carranca do homem.
— Ahn... Eu... soube que você poderia me treinar.
Por uma curta fração de segundo, sua mente se distanciou. Seus olhos fitavam o ar, como se memórias indesejáveis estivessem voltando à tona.
— Não — disse ele, severo, antes de fechar a porta.
O silêncio tomou conta do ar, ilustrando minha frustração.
Então seria desse jeito? Eu havia viajado de tão longe para levar uma porta na cara? Eu não deixaria assim. Bati na porta mais uma vez.
— Vá embora. — Ele respondeu de dentro da casa.
— Eu não vou! — exclamei.
Nesse momento, o céu nublado começou a trovejar. Iria chover logo.
— Não posso nem passar a noite aqui?
— Não!
Eu com certeza não desistiria, mas já estava tarde e eu precisava de abrigo. Fui até os estábulos e resolvi que iria dormir em uma das baias vazias. No dia seguinte eu tentaria de novo. Conforme eu me deitava em cima do cobertor que havia trazido comigo, fitei as luzes que se acendiam dentro da mansão. Um vulto ficou parado olhando pela janela na minha direção.
Pela manhã seguinte, investiguei o bosque. Encontrei um ponto onde várias lebres se reuniam. Cacei algumas delas com meu arco e, após ter feito uma fogueira, preparei o meu café-da-manhã. Algumas horas depois, fui novamente falar com o homem. Bati na porta, mas desta vez ele ignorou. Dei a volta no casarão e tentei a porta dos fundos. Novamente, nada. Falei em voz alta:
— Por favor, tudo o que eu peço é um momento do seu tempo!
Pouco depois, o homem apareceu em uma janela do piso superior, de onde ele falou lenta e sarcasticamente, como se eu não soubesse falar inglês.
— Desculpe-me se não fui claro, ou se por acaso minhas palavras te confundiram. Minha intenção nunca foi enganá-lo, então deixe-me esclarecer o assunto: caia fora da minha propriedade, diabos!
Dito isso, ele fechou a janela com força. Mas, ainda assim, eu não me deixaria abater tão facilmente.
— Eu vou subir! — disse.
Percebi que havia uma varanda que levava diretamente ao quarto onde a janela recém-fechada estava. Analisei as árvores em volta da mansão e levei meus olhos a uma que tinha nós firmes em sua casca. Escalei-a e lancei-me às outras árvores, rapidamente chegando à varanda. A porta que havia lá estava trancada, então eu a balancei.
— Apenas me escute! Está com medo do quê?
A porta se abriu de repente, e o homem saiu de dentro, com uma expressão furiosa.
— Medo? Você acha que eu tenho medo de alguma coisa, ainda por cima de um moleque sarnento convencido como você? — Ele segurou a bengala e a passou por debaixo das minhas pernas, me derrubando no chão. Ficou então de pé acima de mim, apertando o cabo da bengala contra minha garganta. Minha respiração cessou por um instante. — Você talvez sonhe em ser um herói. Em cavalgar até resgates e salvar o mundo. Mas, se você continuar assim, a única coisa que você será é um cadáver. — Ele soltou a bengala.
O velho saiu de cima de mim e começou a voltar para dentro da mansão. Apenas parou para olhar em minha direção e dizer:
— O mundo mudou, garoto. É melhor você mudar também.
E fechou a porta com um barulho estrondoso. Levantei-me e gritei:
— Eu não irei embora, entendeu? Não cheguei tão longe para parar agora, meu velho! Eu nunca sairei! Ouviu?
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