Crônicas de um caderno engavetado
17 Impublicável
Todas as cores do amor se condensaram no vidro embaçado de onde ela via o horizonte cinzento, coloridos eram apenas os carros que passavam pela avenida, nunca eram os mesmos, como ela não era mais a mesma também e reconhecia a cada dia que passava que aquela visão mórbida era o cume do precipício. As últimas árvores estavam com os galhos secos e enfraquecidos, as folhas amareladas faziam um contraste melancólico ao cinzento daquela calçada cheia de buracos.
Um celular à mão, nenhuma mensagem. Caixa vazia. Totalmente vazia. Apenas os olhos estão cheios e não é mais de ternura, mas de lágrimas que molhavam as costas das mãos, o travesseiro, as folhas de papel onde vários poemas incompletos expunham aquele misto de raiva, indignação e uma pontinha singela de ilusão, de que aquilo não fosse uma mentira, uma despedida.
Se ninguém morreu de coração partido antes, seria ela a primeira?
Se coração partido não mata de uma vez, é mais sádico no modus operandi porque enlouquece a alma sã aos poucos e perder o juízo de discernir realidade de delírio é muito pior do que a morte porque o simples decreto de que a criatura atormentada enfim encontrou descanso de todos os pecados e males mundanos, não suspira de dor ao lembrar que seu coração foi partido em mil pedaços junto com os seus sonhos, sua inocência, seu entusiasmo quase quixotesco para mudar o mundo através da esperança, com a força do amor.
Mas como poderá ela mudar o mundo se a desilusão roubou sua fé no amor?
Algum tempo antes, o cupido acertou a flecha nela num momento em que tudo de que mais precisava era de outro coração cálido e sedento por todas as cores do amor. Como ela. Alguém com quem dividir seus sonhos e segredos, um grande amigo que segurasse em suas mãos sem querer caminhar na frente ou atrás e sim ao ladinho porque não importa quão longo seja o caminho, quando alguém está ao seu lado, até os passos ganham uma sincronia mais palatável, o cansaço é compartilhado, o desejo une dois corações honrando o mesmo propósito, um braço se estende na direção do outro, nunca estarão sós àqueles que verdadeiramente amam.
Convicção unilateral, versos jogados ao vento cortante de um outono nebuloso, palavras entrecortadas e um silêncio que augurava aquele mau presságio que ela teimou em não ouvir. Ela não tampou os ouvidos para os ruídos incômodos de uma avenida em constante movimento. Aquela angústia ecoava nas noites insones.
Sinto dizer-lhes que o cupido era meio míope, meio fanfarrão e mirou o alvo errado na hora errada. Ela precisava de todo amor do mundo, porém ele não podia dar esse amor, porque não queria, porque algumas pessoas não sabem amar, apenas machucar. Ela não sabia que por trás daquele sorriso estaria o motivo da sua derrocada.
Acreditar.
Findar-se em ilusões, olhar para uma tela esperando que a qualquer momento o nome dele lhe trouxesse algum alento, que aquele poeta escondido despontasse para trazer de volta a alegria que aquela interminável espera consumia pelas beiradas até acertar o centro do coração e os olhos lacrimosos enxergarem a realidade.
Não adianta esperar, ele nunca mais voltará...
Mal-me-quer, sussurrou o vento, inclemente, com ares de deboche às esperanças de uma mensagem que nunca chegará, não por incompetência dos pombos-correios, preguiça dos carteiros ou em último caso um problema sério na conexão. A incorrigível pane decorre no caráter daquele que desperta o amor de outra pessoa visando apenas à efêmera diversão que transcorre para quem segue os passos do desejo.
A primavera que ela trazia no olhar não se refletiu nas esferas marrons daquele ser impessoal, enigmático, soberbo e egoísta. Até um grande bloco de gelo teria maior receptividade ao saber que era amado. Houve uma escolha — por mais inconsciente que seja — e um coração foi despedaçado.
O dela.
Ele nunca foi afeito às palavras apesar de ter tão bem encarnado o papel de poeta, portanto, é declarado incapaz de mensurar o impacto do abandono causado em outrem.
Existe a outra e ela está bem.
Eles estão bem.
Do outro lado, muito longe do conto de fadas, o submundo da dor de quem se enxerga nos destroços de uma ilusão. Ela foi à parte descartada como se não passasse de um agasalho puído sem serventia senão para lustrar o chão onde ele pisava porque ela não sabia desde o início que todo o lance acabava numa ejaculação, era para os braços da outra que voltaria no final da tarde e tão logo, naquele leito improvisado, uma nova aventura despertaria nele o desejo da conquista.
E tão só, meu bem... Não pode florescer amor onde não há fidelidade e honestidade... Amor também é comprometimento...
Os versos perderam a métrica, o compasso, o ânimo, o foco. Nunca mais falaram de amor, são tristes por excelência porque há muitos anos a poesia nunca mais saudou a primavera, todos os dias são gélidos e aflitivos como se espera de um rigoroso inverno.
Se todas as cores do amor pintassem uma capa para este conto, seria uma bagunça de nuances. Se as lágrimas tivessem cor, seriam vermelhas para representar uma ferida que sangra.
O horizonte cinzento às vezes se torna menos monótono quando o sol de dia e as estrelas de noite cobrem a dor com alento, porém as folhas secas espalhadas pela calçada e o tenebroso frio indicam que ainda falta muito tempo para a primavera voltar e o sol de uma tarde de outubro seja capaz de fazer aqueles olhos brilharem como uma criança prestes a se sentar no balanço e nele embalar o frio na barriga também, esse que deixa a vida mais suave de se encarar, porque a emoção é importante e escrever contos sobre coração partido já não têm mais sequer fundamento.
Esta história não tem um final, muito menos feliz, é apenas mais um recorte frustrado de amores de plástico, como tantos e tantos que adoecem a alma e atrasam o progresso, sem moral, sem decência, sem decoro, sem um ponto convincente e um epílogo decente.
Mal-me-quer. É isso aí, vento. O senhor é o único sensato no final das contas, sua sabedoria provém dos milênios, nada tenho a contestar. Eu prometo se possível for, escrever textos menos soturnos a partir de agora, já estou farta dessas histórias sórdidas sem eira nem beira e espero que as flores voltem a se refletir no olhar de todos aqueles que no meio do caminho conheceram alguém que lhe roubaram a esperança.
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