Crônicas de um caderno engavetado
18 Em pedaços
29 de julho de 2017.
As lágrimas não adubam sementes neste terreno cinzento. Não há terra nem árvores nem cores que não sejam pálidas como uma alma perdida de si própria.
Os prédios erguem-se na imponência de alcançarem os céus. Algumas pessoas são como prédios, querem porque querem ser maiores do que as outras e para chegarem ao topo se utilizam de artifícios sórdidos. São aplaudidas no palco onde todas as hipocrisias enraizadas são toleradas, naturalmente os chacais engomados dominam a arte da retórica e convencem meio mundo de que emanam luz. São astutas como serpentes que sabem exatamente quando e como destilarem o veneno. Brilham na arte de ascender da maneira mais vil possível, estilhaçando legados.
E eu vejo tantos desses chacais se erguendo como muralhas à prova de críticas.
Intocáveis.
Invencíveis.
Mentiras pronunciadas numa entonação convincente o bastante para romper ciclos prósperos, para que o merecimento de muitos seja a ruína de outros, para que se conheça o sabor amargo da injustiça e o invejoso se passe por invejado.
De onde estou eu posso ver tudo isso.
De onde ninguém pode me ver.
Minoria, como sempre fui e hei de ser.Ferida até o limite, metáforas à parte.
Os muros erguidos à minha volta não permitem que a luz do sol toque a minha alma e que as estrelas me cubram e mesmo assim eu vejo o mundo mudar num ritmo tão frenético que eu me sinto alucinada porque a tendência naturalmente me exclui e até as tardes de sol, as noites cálidas de verão onde eu sonhava com dias melhores e talvez algumas aventuras mais picantes sejam apenas retalhos de uma existência que segue sem explicação.
Até o presente momento. Faz tanto frio dentro do meu coração e aquela vela acesa num tímido candelabro cede à inconstância dos ventos, a esperança está arrefecendo a cada sonho que se esfumaça diante dos meus olhos, a cada memória que é derrubada pelo egoísmo daqueles que se dizem humanos e numa condição de superioridade se portam como se dotassem da certeza de que a impunidade os amparará. As lágrimas pesam no peito. A alma está um caos e a confusão é a bússola que me lembra diariamente de que ainda estou aqui.
Exatamente aqui.
Onde o nada é o tudo e dentro do peito cabe o meu mundo, pequeno demais, perigoso demais, solitário demais. Um lugar inóspito em que poesia nenhuma floresce.
Eis uma ilustração bastante fidedigna ao protótipo de uma alma cujos sonhos foram pouco a pouco sendo estilhaçados. Com palavras, sobretudo.As vidraças da alma sob escombros, desprotegidas, descobertas.
As fragilidades, uma por uma, desnudadas e ridicularizadas.
Para quem enxergar graças num ato tão triste quanto o espetáculo nefasto de uma alma atormentada pelo vazio de um horizonte estreito. As lágrimas ainda correm como se quisessem dessa maneira alcançar o que ainda resta da esperança, se ela não desistir de ao meu lado permanecer, como uma amiga que segura a sua mão gelada depois de uma noite difícil.
E quando todos os dias são noites? O que se faz? O que se faz quando eu me olho no espelho e não me reconheço?
Que não cubram a minha ilusão de que mesmo tão pequenininha a minha estrela está num ponto do céu e que não importa o que aconteça, sempre que eu olhar para ela nutrirei a convicção de que nem os ventos mais fortes, nem os golpes mais duros ou as mais infames injustiças serão capazes de apagar...
Se as lágrimas fizessem florescer do mundo todas as cores e o horizonte cinzento se transformasse num lindo jardim, eu correria por entre as campinas a plenos pulmões clamando para que a paz se compadecesse de mim.
Se os muros à minha volta não fossem tão grandes, eu pularia os cercados e correria sem olhar para trás, em busca da primavera, de ver na realidade a mesma graça que possuem os sonhos, o mundo dos sonhos, sobrevivente de uma guerra silenciosa entre mim e o mundo onde o segundo me vence sem grandes dificuldades...
Se as lágrimas encorajassem as minhas asas a se abrirem, eu voaria até ir de encontro ao infinito. Voar tão alto que a dor se rendesse e a inocência me fosse devolvida porque o que restou dela se limita a fragmentos onde me enxergo de maneira disforme.
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