Crônicas de um caderno engavetado
19 O vilão
Notas iniciais
O vilão nem sempre é aquela figura de rosto disforme, vestimentas em estado deplorável e porta um machado afiado por entre as mãos, à espreita num matagal e disposto a atacar deliberadamente.
Esse é apenas um estereótipo como tantos e tantos outros, nada além disso, meu bem.
Sabe qual é a real?
O bem e o mal moram dentro de todos nós. Vivemos nos patrulhando para que nos alimentemos de tudo aquilo que seja saudável para o corpo e a alma. No entanto, há aqueles cujos pés saem do chão, que são seduzidos pelo cântico da vaidade e a partir daí todos os limites respeitados e impostos não passam de ilustrações.
O topo é a recompensa. Olhar de cima todos os que estão lá embaixo. E tão só. A semente do amor não floresce onde o egoísmo prevalece.
Há altíssimas probabilidades de o vilão estar encarnado naquele sujeito que força uma barra para ser cavalheiro, simpático, que aos olhos de todos (pelo menos daqueles que não discernem suas reais intenções) seja encantador. Porque pode ser assim. A ardilosidade é um dom e geralmente os vilões o possuem, senão não seriam exitosos em suas empreitadas nefastas.
Ele posta foto com o cachorrinho para fazer parecer que é o maior protetor dos animais, lava um copo na pia e se considera o maior entendedor sobre a causa feminista, nem sequer pronuncia um palavrão em voz alta, parece um autêntico gentleman.
O sonho das iludidas e o pesadelo daqueles que vão ficando pelo caminho enquanto o mundo todo pensa estar diante de um prodígio.
A expressão de surpresa na face está no script. É preciso fazer de conta que não se esperava por tal promoção, pois o ego dele já não cabia mais onde ele estava, era miserável demais estar no alto e ainda assim relativamente longe do topo.
O topo continua sendo o único foco e os espinhos de sonhos alheios estilhaçados cobrindo todos os caminhos lá embaixo de onde ele vê o caos de camarote dando de ombros e fazendo de conta que se importa.
Ainda faltam alguns peixes que já não são tão pequenos. O bater das asas da borboleta negra anuncia que muitas lágrimas correrão e ele, cínico, se coloca a postos para brindar a tão meteórica ascensão nesse cálice salgado e amaldiçoado, com um sorriso de plástico, pronto para mais uma selfie patética.
Até rezar ele diz que reza. Não diz a lenda que o diabo era um anjo?
Bem, ele tem seguidores e não é tão óbvio. O objetivo de matar, roubar e destruir segue sendo cumprido à risca.
Roubar oportunidades e fazer parecer que foi fruto de reconhecimento sendo que atrás dele muitos outros eram mais merecedores, que legado e carisma não se surrupiam e às vezes tanta inteligência se não for dosada leva embora a humanidade e ao menos que se seja muito astuto para forjar alguma empatia, um fio solto desse tapete fica à mostra, quem sabe o sapato se enrosque nele e a queda se faça.
Matar reputações, sonhos, quebrar ciclos como se quebra um graveto bem ao meio, estilhaçar estilos.
Destruir a harmonia ao redor e cruzar os braços como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Pois sim, o propagador da discórdia é dotado sobremaneira de atrevimento para dominar a situação como se fosse um herói.
E onde estaria o herói?
Provavelmente bem longe dos ninhos de cobras, porque tal como o vilão, também não possui um estereótipo tão óbvio que nos permita identificá-lo. Sabe-se que nessa história todos os papéis invertidos e o final é tudo, menos feliz...
Quer dizer, o final feliz é celebrado pelo vilão porque ele está cada vez mais próximo do topo e se não se patrulhar, acabará deixando todos os escrúpulos para lá e quando menos esperar, a queda virá na mesma proporção que a ascensão. Rápida e surpreendente.
Se a justiça divina existir, é o que se espera. Aquele que machuca os outros um dia será machucado para aprender que o topo é solitário, só se foca nele quem é vazio de outros valores, quem gosta tanto de si mesmo que não enxerga todos os outros porque imerso em seu narcisismo parece anestesiado com a confusão ao seu redor, sentindo mais apreço em ser notado do que em empenhar os seus esforços para cativar corações, inspirar indivíduos e não apenas querer de todo modo que as luzes dos holofotes foquem o seu melhor ângulo e ele seja adorado como se fosse um deus ou até mais do que o próprio Deus.
Meus caros, tomem cuidado com as águas paradas, os filtros, os sorrisos de plástico e ascensões meteóricas. O vilão tem em posse um punhal invisível e não hesitará em degolar as reputações de quem for porque repete a si mesmo como um mantra que no topo em breve estará...
Certo, mas e depois?
E se o topo não for o bastante, o que será dele?
Bem, eu não posso responder, apenas dizer que certas coisas são como são, que o mundo é um lugar perigoso para os que sonham porque de uma hora para a outra uma pessoa pode vir e destruir um por um como se empurasse uma fila de dominó e fosse impossível conter a fúria com que as peças caem resolutas.
Onde está o herói?
Não precisa haver um embate histórico entre herói e vilão. O primeiro será vencedor mesmo que os holofotes não resplandeçam sobre a sua cabeça porque ele olha para o topo e se lembra de que todas as coisas mais importantes o dinheiro, a fama e o poder não são capazes de trazer. Apreciar o pôr-do-sol sem querer aparecer mais do que o astro rei, um passeio em família, a paz de colocar a cabeça no travesseiro e não ter o mundo todo curvado aos seus pés, contudo adormecer ao lado de quem se ama e ciente de que não precisou destruir ninguém para alcançar o que se tem.
Meu caro vilão, ontem, hoje e sempre você será um perfeito idiota e, acredite, você não é tão invencível assim. Um dia você vai estar na pele daqueles a quem feriu porque as regras do jogo mudam e mais cedo ou mais tarde nem essa sua mania de bancar o sabe-tudo vai te salvar.
Sua obstinação pelo topo é tão grande que em seu coração só há espaço para a ganância. O poder enlouquece, a fama desvanece, o dinheiro perde o seu valor.
Caro vilão, antes que a derradeira queda te coloque no seu verdadeiro lugar, que o amor te ensine a ser uma pessoa menos egoísta e te lembre de que o céu é grande e a sua estrela não é a única que tem direito a brilhar.
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