Crônicas de um caderno engavetado

15 As duas faces da moeda


A moeda tem duas faces, uma dela está submersa na opressão. A plena liberdade para descobrir o que se passa é o ópio do homem moderno porque a lei em vigor tem como sustentação o julgamento. De si próprio. Do outro. De uma projeção lançada para convencer aos mais desatentos de que é o que se é e não há nada a esconder.

Eis outro equívoco.

Ninguém é o que é sem esconder uma boa parte (ou tudo que) se é. Porque ser o que se é pode significar um caminho sem volta e nem todos estão plenamente maduros para calcularem os riscos de conhecer a outra face da moeda sem olhar para ela com repulsa.

Tudo aquilo que é novo e diferente causa pavor, gera controvérsias, teima em separar o certo do errado para impor ali um modo de segregar mais uma vez um mundo já cansado de uma guerra silenciosa que nenhum noticiário mostra: a do homem consigo mesmo.

Certo e errado, será que são conceitos imutáveis ou relativos?

Ser o que se é para muitos pode ser completamente abominável porque vai contra os princípios do que se apresenta como certo para o outro e essa discussão infinita sempre ganha outras observações porque se o mundo é plural, não me parece justo que os conceitos a regê-lo sejam binários e opressores para aqueles que destoam do senso comum.

Ser o que se é num mundo que tenta nos transformar em produções em série se entende como um ato de heroísmo, desde que a vaidade não se exceda e que no outro oposto o medo não engula a autenticidade que pode não ser tão genuína, mas ainda assim é mais digna do que a hipocrisia.

A moeda tem duas faces e para que o homem possa se conhecer, não pode nem deve ignorar aquela que está virada para baixo porque as regras do jogo podem alterar-se a qualquer instante e o lado escuro da lua ser o sol.

01 de julho de 2017.