Convergencial
3 Máquina Serpenteante
Anália odiava coletivas de imprensa.
Não era timidez ou ansiedade social, ela em geral gostava de eventos sociais e, como tinha uma posição de liderança, não se sentia incomodada ao ficar no centro das atenções. Mas ela não tinha a menor paciência para o interrogatório de repórteres ávidos por uma falha sua. Ela era a delegada, não eles. De qualquer forma, aquela entrevista fora organizada para aplacar os ânimos da mídia com os assuntos recentes. Entre um compromisso na prefeitura, pois aparentemente o prefeito também era um leitor fiel de jornalecos sensacionalistas e ela tranquilizara suas preocupações, e seu horário na delegacia, aquele seria um dia corrido. Fez uma nota mental de ligar para os meninos mais tarde, para avisar que não estaria em casa para o jantar.
Na praça da prefeitura, cidadãos curiosos passavam por perto do grupo para pescar uma ou outra fala da delegada — e provavelmente distorcê-la do contexto — antes de seguirem para seus afazeres. Entre eles, uma mulher de cabelos castanhos curtos, claros e completamente entregues à vontade do vento, parou para observar a entrevista da delegada com um pouco mais de atenção que os outros curiosos. De óculos escuros, ninguém perceberia o interesse em seu olhar, mesmo se a delegada não fosse a única pessoa que poderia vê-la, já que estava no fundo da aglomeração. Mesmo cruzando o olhar descompromissado com ela algumas vezes, a delegada logo desviava a atenção para responder alguma pergunta. A mulher pôs as mãos no bolso do casaco em uma postura despreocupada, como se não tivesse nada melhor para fazer.
Descobriu, em poucos minutos de entrevista, que havia retornado para Sagrada em um momento no mínimo interessante. A delegada parecia mais impaciente do que deveria dada a delicadeza da situação. Anália Campos tinha uma aparência séria, com as sobrancelhas retas acentuando a profundidade dos olhos escuros e o nariz aquilino completando o desenho do rosto com os lábios comumente retos. Sua aparência não era muito chamativa, mas era bonita de uma forma simples. Quando o repórter do Oracular levantou a mão para fazer sua pergunta, o leve puxão de desagrado na ponta dos lábios tornaram a expressão neutra de Anália em algo sutilmente hostil.
— Delegada Campos, alguma relação do desaparecimento da maga com o terrorismo mundano?
O repórter era Fernando Aluísio Cerrado, e Anália o conhecia. Ela o achava um babaca, e não tinha nada a ver com o alinhamento de suas matérias, pois ela também não suportava a repórter do Alterna que sempre a perseguia tentando enxergar polêmicas e conspirações onde não havia nenhuma. Mas daquela vez, até que a pergunta era razoável, apesar da escolha de palavras, então sua postura se suavizou.
— Ainda é cedo para definir um suspeito. Temos poucas informações porque o Primeiro Dia Santo começou menos de uma hora depois e qualquer indício do que aconteceu após Ísis Deodato deixar o estúdio foi completamente varrido pelas festividades. Não é impossível que os sequestradores sejam alinhados com o Levante, mas no momento não podemos nos limitar a essa suposição. Dois meses atrás a vítima havia registrado uma ocorrência dizendo que estava sendo ameaçada pelos Sânticos por oferecer serviços mágicos para clientes mundanos, e essa possibilidade ainda não deve ser descartada.
Todos os repórteres começaram a falar ao mesmo tempo, um por cima do outro. Desde perguntas sobre por que a ocorrência não gerou um inquérito a se as armas contrabandeadas pelo Porto haviam sido usadas no sequestro. Anália passou direto pelo frenesi e sinalizou para a mulher de óculos escuros e mão levantada no fundo da aglomeração, aguardando educadamente por atenção.
— Delegada Campos, para subjugar uma maga eu suponho que tenham usado eletricidade. Cassetetes elétricos e armas de choque não são exclusividade da polícia?
O tom doce da pergunta foi recebido com a percepção amargurada da delegada de que deixar aquela mulher falar havia sido um erro. Tinha percebido que ela não era jornalista, mas se fosse uma coletiva fechada, teria feito em outro lugar. A população também precisava ter suas apreensões apaziguadas. Infelizmente, suas boas intenções a haviam traído novamente.
— Realmente, a perícia encontrou poucos traços de magia no estúdio, o que só pode significar esterilização elétrica do ambiente. Como essas ferramentas chegaram à posse deles ainda não foi descoberto.
— Não são ferramentas, delegada, são armas. — Acompanhada de um sorriso gentil, a resposta parecia mais a correção tímida e sem jeito do deslize alheio, em vez da acusação cínica que realmente era. — Seus policiais notaram o desaparecimento de parte de suas armas?
Anália suspeitou — e, tão logo quanto a suspeita surgiu, convenceu-se de que estava certa — que aquela mulher não queria ser a pessoa a acusá-la. Uma ideia dita em voz alta poderia conquistar algumas pessoas, mas nada é tão convincente quanto uma ideia formulada por elas mesmas. Esta própria suspeita de Anália era a prova empírica disso. Logo, o frágil silêncio instalado durante o curto diálogo se desfez, com perguntas surgindo em ondas pela aglomeração.
— Delegada, por que a informação sobre a esterilização elétrica não foi divulgada?
— É a primeira vez que equipamentos policiais são usados em crimes associados ao Levante?
— A senhora suspeita que os agressores sejam policiais ou que houve contrabando de equipamento?
Anália tentou pacificá-los para poder tentar responder, e de canto de olho percebeu a mulher se afastando sem sequer olhar para trás. Pelo visto ela tinha mais interesse em fazer perguntas do que ouvir respostas, e se deu por satisfeita assim que o público se virou contra a delegada.
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— Quer saber uma coisa que eu aprendi? — Theodora perguntou ao irmão com um tom de confabulação que dificilmente se adequaria à banalidade da “descoberta”. Antes de Dante responder, o que ele nem sempre precisava fazer, já que Thea costumava continuar falando imediatamente, ela se interrompeu. — Na verdade, eu posso mostrar. Tem um exemplo perfeito no Perpétuo.
— Não pode dar uma dica antes? — Ele perguntou como se soubesse o bastante das matérias dela para conseguir adivinhar qualquer coisa. O olhar descrente de Thea não o ofendeu, pois era o mesmo olhar que ele fazia quando ela aprumava a postura e, falando em um tom ensaiadamente pretensioso, fingia saber algo de Direito.
De qualquer forma, ele não precisou esperar muito. Antes de Thea pensar em uma dica para ele, avistaram o Perpétuo no céu. O trem serpenteante jamais parava em seu trajeto, nem mesmo para receber seus passageiros. Os vagões octogonais eram próximos o bastante para que os passageiros andassem de um para o outro, mas não eram fixos entre si, sempre com uns poucos centímetros entre eles. Por causa disso, quando era criança, Dante pensava no trem aéreo mais como um anelídeo gigante do que uma serpente.
Chamando a atenção do trem, o primeiro vagão desceu até o nível da rua para que embarcassem junto aos outros que aguardavam o transporte. Como Theodora era uma maga, bastou tocar o painel de pedra polida para ativar a luz violeta indicando que sua passagem tinha sido registrada. Dante precisou usar seu cartão de embarque. Sentaram-se em cadeiras vizinhas.
Naquele horário de fim da manhã, a plataforma estava sempre cheia, então, para conseguir atender a uma cidade tão populosa quanto Sagrada, haviam cadeiras em todas as oito faces internas dos vagões. Logo, o octógono girou em um pequeno ângulo em torno de seu centro vertical, deixando Thea e Dante na parede lateral enquanto mais pessoas entravam para ocupar os novos lugares. Não era nada incômodo, pois uma grande carga de magia cinética simulava a gravidade em todas as paredes. Mesmo se estivessem sentados de cabeça para baixo no teto, não sentiriam diferença alguma.
Enquanto isso, os vagões restantes seguiam seu caminho, e aquele que os recebera era agora o último da linha. Mas o Perpétuo continuava em seu trajeto imparável. Theodora procurou algo na bolsa e tirou um lápis comum. Brincou com ele algumas vezes, jogando-o para cima e pegando-o novamente, e nenhuma vez a gravidade tentou atraí-lo para o chão verdadeiro. Em seguida o jogou um pouco mais forte, e o lápis subiu girando até parar no ar no centro do vagão.
— Isso se chama centro de gravidade — explicou. — Ao que parece, ele existe em todos os ambientes com esse tipo de encantamento gravitacional.
Dante observou o lápis fixo no ar. Não era a primeira vez que via isso no trem, muitas vezes as crianças entediadas jogavam coisas naquele ponto, ignorando as placas de “MANTENHAM OBJETOS PESSOAIS GUARDADOS” em todos os vagões, mas ele nunca tinha pensado muito sobre o encantamento causador daquele efeito.
— Meio esquisito chamar de “centro de gravidade” um ponto onde a gravidade não funciona.
— Engano seu, meu caro Dan. É um ponto onde a gravidade age com a mesma força em todas as direções. Por isso objeto não se move.
Dante podia entender a lógica por trás disso. Imaginou se, com tempo suficiente, o lápis se partiria tentando obedecer as oito gravidades.
— Interessante, eu admito. Mas não vamos brincar com o encantamento alheio, ok? — Ele se levantou e pegou o lápis. — Não vamos dar motivo para nos jogarem para fora do trem.
Thea não acreditava que passageiros mal comportados eram jogados para fora desde que tinha 6 anos de idade, mas a piada interna permanecia. Pegou o lápis a contragosto e o guardou.
— Por que dentre todos os bilhões de pessoas no mundo, é justo meu irmão quem mais se empenha em dirimir minhas pequenas diversões na vida cotidiana? — Ela lamentou de olhos fechados, como se ter Dante como irmão fosse uma provação religiosa.
— Você ensaia esse tipo de coisa antes de falar?
— Por quê? Você costuma dirimir minhas pequenas diversões cotidianas com frequência?
Dante balançou a cabeça, desistindo previamente da discussão. Ele mal tinha olhado para o lápis durante a demonstração, mais atento ao interesse de sua irmã sobre o assunto. Era sempre tão fácil ver os sentimentos dela que ele não duvidou nem um pouco daquela fagulha de animação.
— Estou feliz que esteja gostando do curso, Thea.
Ela abriu um sorriso inseguro. Engenharia mecânica não era sua primeira opção — sendo sincera, nem era a segunda —, mas não significava que nada conseguia atrair seu interesse. Metade das matérias era um tédio martirizante, mas uma ou outra sabia capturar sua atenção. Sempre usou sua magia de forma muito livre, e realmente abria seus horizontes entender mais de suas aplicações diárias.
Dante já estava bem familiarizado com esses seus sentimentos, então ela preferiu não responder daquela vez. Em vez disso, lembrou-se de um compromisso inconveniente e inexcusável, e perguntou:
— Não pode mesmo ir hoje à noite?
— Estágio... — ele justificou, apoiando a cabeça no encosto. Se tivesse sorte, poderia dormir uns minutinhos antes da sua descida. — Além disso, eu não fui convidado.
— Estou lhe convidando agora, ora! Certeza que sua supervisora liberaria.
— Eu nunca lhe fiz nenhum mal e você me faz um convite desses?
Theodora não evitou rir, mas a resposta era uma pena. Sua noite seria bem mais agradável se Dante estivesse lá, embora soubesse que era um desejo um pouquinho egoísta. Dante em um jantar fino da elite mágica era como misturar água e óleo. A noite não seria agradável para ele.
Thea respirou fundo, preparando-se desde já para o evento da noite. Estava tudo bem. Não seria um jantar que iria lhe derrubar. Torceu para que ao menos a comida fosse boa, pois a companhia certamente não seria.
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