Campus Esmeralda [primavera]
1 Sony
Notas iniciais
Era início da primavera, se me lembro bem, o carro fazia longas curvas pela estrada descendo as colinas, lá embaixo seria a minha parada. Meus pais estavam na frente enquanto eu batucava o vidro com meu pé atrás — pare com isso! — Alberto gritou — não é você que vai ter de tirar essa pegada da janela.
— Vamos lá querido, comporte-se — minha mãe falou, só então me acertei bem a tempo de ver os leões que emolduram aqueles portões, junto do nome "Campus Esmeralda". A é, esqueci de me apresentar, chamo-me Sony, minha mãe está no terceiro casamento e para não ter de me aturar me colocou nesse colégio, ou melhor, me largou ali, aos portões e partiu sem nem um abraço de despedida.
— Seja bem vindo a nossa gloriosa instituição! — a diretora Vanila surgiu das entranhas do abismo, pois eu podia jurar que aquela bela senhora de cabelos castanhos e busto farto não estava ali a meio minuto.
— Mas o quê! — eu tomei um susto enorme, mas ao vê-la melhor me acalmei — de onde você veio?
Ela suspirou, claramente eu não fui o primeiro a fazer tal pergunta — olha garoto, seu histórico pode não ser o pior que já aceitamos, mas esta longe de ser bom — ela me guiou para dentro dos portões que se fecharam sozinhos. Havia um amplo caminho com pequenas cercas de tijolos vermelhos e uma praça elevada, a qual demorei a perceber que tinha o logo do colégio no chão.
A partir da praça tínhamos a direita o dormitório feminino, a esquerda o masculino e a frente o prédio principal, atrás desse o ginásio e mais alem o campo de futebol. Ao lado do prédio tinha as garagens e oficinas e por fim a biblioteca, acho que você conseguiria desenhar um mapa fácil.
A frente do prédio estava lotado de alunos, calouros e novatos, como eu, se conhecendo e enturmando. É comum nesse tipo de lugar as pessoas se dividirem em grupos e odiarem os outros grupos, eu certamente não teria problemas para entrar na gangue dos descolados se não tivesse tomado a pior decisão da minha vida:
— Sai da frente! — ele devia ter uns 14 anos, num lugar com uma media de idade 19, aquele garoto loiro de lenço no pescoço esbarrou em mim como um carro num poste, fomos os dois para o chão. Não demorou até eu entender o que estava acontecendo.
Tudo bem, eu ergui o moleque pelo colarinho e gritei na cara — você está maluco?
Eu nem percebi quando o punho de Dreads afundou a cara daquele garoto, eu me afastei no susto, aquele cara era enorme, pele escura, dreads no cabelo acaju.
— Ai cara — ele disse me tirando do transe — valeu, eu assumo daqui.
— Ei, mas o que ele fez?
— Esse merda! — enfatizou enquanto levantava Tales como eu havia feito, mas agora o loirinho estava desacordado — ele invadiu o vestiário e colocou pimenta em todas as cuecas!
Eu gargalhei e até vi o sorriso na cara amassada do projeto alemão enquanto eu ficava sem fôlego — nossa cara, eu não faria melhor!
Lógico que a diretora novamente surgiu da quina entre a realidade e Nárnia para nos pegar bem na hora em que eu desviei do soco dele e o acertei um chute. Só de lembrar disso minha barriga já começa a coçar com vontade de rir, você devia ter visto o time inteiro de futebol se coçando freneticamente.
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