Notas iniciais
Hello! Esse é o último capítulo dessa história. Eu tô com um sorriso enorme no rosto enquanto escrevo essas notas iniciais, porque mal estou acreditando que eu finalmente consegui finalizar uma história. Eu só tenho a agradecer a todo mundo que leu até aqui, mas ainda vou fazer um agradecimento mais completo quando postar o epílogo. Eu apenas espero de todo o meu coração que vocês gostem desse capítulo, porque eu coloquei todo meu sangue, suor e lágrimas (muitas lágrimas) nele. Boa leitura ♥

—Edward, funcionou?

A resposta que a pergunta de Henrietta obteve foi um grito ensurdecedor de agonia, e Edward caiu de joelhos no chão, veios dourados brotando como rachaduras ao longo de cada centímetro de sua pele.

—Ele… ele está tentando sair— foi o que o feiticeiro conseguiu articular em meio à dor, antes de voltar a gritar.

O sofrimento no rosto dele era aparente, e isso estraçalhou a alma de Henrietta. Talvez devesse se sentir tola, após tudo que havia descoberto sobre aquele homem, mas uma parte dela ainda se importava. E muito.

Foi nesse momento que Henrietta notou Augustus, Adelaide, Cecily, e um garoto moreno que ela não conhecia, a encarando da entrada da caverna.

—Ed?— Adelaide chamou, e seus olhos estavam marejados— Ed, o que está acontecendo?

Outro grito lancinante cortou o ar antes que ele conseguisse respondê-la:

—Adel, não chegue perto. Por favor. Eu não quero machucar vocês.

Henrietta não entendeu a relação entre Adelaide, Augustus e Edward imediatamente, mas ainda assim se sentiu compelida a ajudar Edward a protegê-los.

—O Hierofante está dentro dele. E eu não sei por quanto tempo Edward vai conseguir manter o controle. Se afastem, por favor— ela pediu.

Ainda assim, o garoto que ela não sabia o nome, e que segurava um livro, possivelmente a verdadeira relíquia, deu um passo à frente.

—Nós precisamos banir o Hierofante, então. Se ele está nesse plano, e tentando se libertar, não somos apenas nós que corremos risco— ele disse.

Algo no jeito de andar, de falar, no jeito em que ele demonstrara uma coragem tão instintiva ao assumir a frente da situação, mesmo sendo tão jovem, fez Henrietta assumir que aquele era o filho de Blackburn.

“Mihai, o nome do garoto é Mihai”— ela pensou.

Ao som dessas palavras, Edward se levantou e se empertigou, mesmo com a dor ainda estampada em cada traço do seu rosto.

—Eu não posso permitir que vocês façam isso— ele disse, a voz séria, resoluta— Eu não passei por tudo isso à toa. Tenho o poder do Hierofante, agora, e vou usá-lo para destruir a Ordem. E nenhum de vocês pode me impedir.

—Ed— Augustus disse, a voz baixa, quebrada— Esse não é você… não era para ser assim. Ainda não é tarde demais para voltar atrás, nós ainda podemos fazer isso da maneira certa.

Edward olhou para Augustus com um sorriso triste, e então respondeu:

—Gus… essa é a única maneira. Eu sinto muito. Mas eu preciso que vocês confiem em mim.

Edward sequer precisou falar uma palavra, ou entoar um feitiço, simplesmente ergueu os braços, e foi como se toda a estrutura do universo se desdobrasse para acomodar seus desejos. Ele se ergueu do chão, flutuando alto, gracioso de uma maneira assustadora, conforme uma luz fulgurante emanava das rachaduras brilhantes em sua pele.

—Ed!— foi a vez de Henrietta de tentar seu apelo— Não faça isso, por favor!

Mas já era tarde demais. Ele não conseguia ouvi-la, estava concentrado demais no poder que invocava, qualquer que fosse seu propósito.

Naquele instante, ela soube o que deveria fazer. Havia um vazio dentro dela onde antes o Hierofante estivera, um vácuo de poder, mas também de caos, de dor. Estranhamente, isso a fazia mais consciente da magia que sobrara, da marca reminiscente e pulsante daquele enorme poder que ela já carregara, e que nunca se iria completamente. E foi esse poder que ela invocou para estender a mão, e flutuar até Edward, entrando no mesmo transe em que ele estava instantaneamente.

Henrietta certamente não esperava encontrar paz, muito menos em meio a tanto caos e tanto sofrimento. Mas foi isso que ela encontrou.

Estava em um jardim nos fundos de uma casa. Vários arbustos se espalhavam pela grama cuidadosamente cortada, todos podados à perfeição, exceto por um.

Uma roseira. A única planta do jardim que parecia crescer desordenada, selvagem. Espinhos, flores secas e murchas, e folhas ressecadas poluíam a perfeição dos belos botões de rosa que ornamentavam o arbusto. Edward estava ajoelhado de frente para a roseira, com uma tesoura em mãos. O céu tinha um tom brilhante e claro de dourado, que faziam sua pele morena parecer ainda mais radiante.

—Ed?— Henrietta chamou, e ele interrompeu sua tarefa e se virou para ela, sorrindo.

—Hettie!— seu tom era afável, parecia feliz em vê-la— Eu suspeitei que você poderia vir atrás de mim.

Ela ficou ainda mais confusa do que estava antes, mas ele não pareceu se abalar. Continuou podando cuidadosamente as partes indesejáveis da roseira, a tesoura arrancando cada flor morta, cada espinho, com cuidado.

—O que você está fazendo?— ela se ajoelhou ao lado dele, observando conforme fios de névoa dourada se erguiam a cada movimento da tesoura.

Edward olhou para ela mais uma vez, ainda sorrindo, calmo, as mãos executando sua minuciosa tarefa.

—Acho que você já sabe, não sabe? Também consegue sentir o que eu sinto.

Nessa hora, Henrietta entendeu, e isso a encheu de terror. Ele estava fazendo exatamente o que tinha prometido. Cada corte daquela tesoura era uma vida sendo ceifada, um fio do destino sendo rompido.

Ainda assim, ela não se sentiu impelida a impedi-lo. Ele estava cortando os espinhos, as partes mortas. O arbusto não iria morrer, e sim crescer mais forte.

—Acho que compreendo— ela falou, por fim— Mas você sabe que não temos muito tempo, não sabe?

Ele olhou ao seu redor, e viu a razão da preocupação dela. Chamas douradas começavam a queimar a partir das extremidades do jardim, cada vez mais próximas. Logo estariam os cercando. Se ele não se apresasse, tudo iria queimar. Edward, Henrietta, o arbusto, as rosas. Nada passaria de cinzas.

—Eu sei. Mas eu vou ficar até o fim, até que eu cumpra meu dever. Você ainda tem uma chance de sair daqui, se quiser— Edward disse.

—Eu não quero— Henrietta respondeu, sem hesitar— Vou ficar com você. Até o fim. Você vai precisar de ajuda quando chegar a hora.

Ele assentiu.

—Provavelmente. Eles já estão lendo o ritual de banimento, mas não vão conseguir sozinhos. Eu sabia desde do início que eu conseguiria contê-lo por tempo o suficiente, mas também sabia que corria o risco de ter que bani-lo, quando acabasse— ele divagou, as mãos ainda ocupadas com as rosas.

Henrietta suspirou, e disse.

—Eu também estou ajudando a contê-lo. As chamas já teriam chegado, se eu não estivesse.

Ele sorriu mais uma vez. Aquele sorriso brilhante, tão brilhante, que ela havia aprendido a amar apesar de toda a racionalidade.

—Sim, eu sei, meu amor. Você sempre me deixa orgulhoso— ele respondeu.

As chamas começaram a ficar próximas demais, quentes demais, apesar dos melhores esforços de ambos. Henrietta sabia que Edward também estava sentindo, mas apenas aguardou pacientemente, sem dizer uma única palavra. Mesmo quando o fogo começou a arder em sua pele. Mesmo quando a saia do seu vestido desabrochou em labaredas douradas.

Um último corte, o último resquício de podridão caiu. O arbusto estava perfeito, apenas rosas brancas e imaculadas o adornavam. O sobretudo de Edward queimava, mas ele sorria.

—Chegou a hora— ela disse, e estendeu a mão.

—Sim, chegou a hora— ele concordou, e segurou a mão que ela oferecia.

Eles trocaram um último olhar, apertaram as mãos um do outro pela última vez. E então as vozes de ambos se ergueram juntas, ecoando como música, emanando luz.

Há vários mistérios nessa história, caro leitor, que eu nunca fui capaz de decifrar. Segredos que não pude descobrir, momentos sagrados que meus olhos e ouvidos jamais puderem contemplar. Os relatos dos vivos, as lamúrias dos mortos, as memórias surrupiadas com magia, os sussurros, boatos, e evidências, nada é completamente infalível, e algumas partes permanecerão para sempre um mistério.

Esse é um desses momentos indecifráveis.

Toda vez que qualquer artifício mágico foi usado para tentar vislumbrar o exato segundo em que o ritual de banimento foi concluído, tudo o que foi possível enxergar foi luz branca, e duas vozes cantando em uníssono.

Eu gosto de acreditar que Edward e Henrietta morreram em paz, e com a certeza de que seus respectivos propósitos foram cumpridos.

O que eu posso contar ao leitor, porém, que me foi possível descobrir, é a respeito do que acontecia fora dessa prisão mágica, dentro da caverna.

Assim que Edward começou a invocar o ritual, Mihai Beswick abriu sua relíquia na página do ritual de banimento. Anotações e runas nos cantos das páginas, na letra do seu pai, davam orientações exatas do que deveria ser feito, de quais palavras e feitiços deveriam ser invocados.

—Mihai— Augustus disse, preocupado— Você tem certeza que vai conseguir?

Mihai assentiu.

—Eu tenho que conseguir— ele respondeu.

Dito isso, ele começou a entoar o feitiço.

Pequenos pontos de luz branca flutuavam ao seu redor, como vagalumes, como uma sinfonia de estrelas. Ele nunca havia sentido tamanho poder, tamanho peso, em qualquer tipo de magia antes. Suas mãos, que seguravam o livro com força, começaram a tremer.

Nesse momento, Adelaide deu um passo à frente, colocou uma de suas mãos no ombro de Mihai, e começou a entoar o ritual junto a ele. Uma nova torrente de força correu pelas suas veias, a luz brilhou mais forte, miragens fulgurantes, cometas, nebulosas, dançando ao redor de ambos. Ele sequer conseguiu sentir supresa ao sentir a magia dela unir-se à sua, apenas gratidão.

Ainda assim, a visão de Mihai começou a se turvar, a mão de Adelaide começou a tremer contra o seu ombro. Era demais, poder demais, demandante demais. Estavam sendo consumidos, a energia exigida para completar aquele ritual, para enfrentar a própria magia do Hierofante, simplesmente era além do que eles tinham para oferecer.

Ele podia sentir o ar ao seu redor se agitando conforme o Hierofante tentava se libertar, romper o véu, voltar à vida totalmente. Estavam brigando contra um poder muito mais antigo e indestrutível do que qualquer um deles poderia conceber. Acabariam sucumbindo antes de concluir o ritual, naquele ritmo.

Felizmente, não estavam sozinhos.

Augustus e Cecily se entreolharam. E então também deram um passo à frente, se colocando um de cada lado de Adel e Mihai, também entoando as palavras do feitiço, os braços se apoiando.

As vozes dos quatro feiticeiros pareceram se ampliar, a luz inundou toda a caverna. Um coro de dezenas, centenas, milhares de outras vozes, em todas as línguas vivas e mortas, todos os tipos de magia conhecidos e esquecidos, parecia ecoar cada palavra que fluía de seus lábios.

Mihai foi o primeiro a desmaiar. Adelaide tentou segurá-lo, mas também acabou no chão, ao lado dele. Augustus teria começado a chorar de desespero, se sua cabeça também não estivesse tão leve, e a visão turva se apagasse completamente segundos depois.

Em poucos minutos, Cecily Campbell era a única de pé.

Ela não parou de entoar o ritual, mesmo quando a mesma fraqueza a qual vira seus companheiros sucumbindo a consumia. Ela não podia parar, não agora que sabia o que ela era, sua verdadeira natureza, seu verdadeiro propósito. Carregava culpa demais, vergonha demais, para desistir tão facilmente de sua única chance de expiar seus pecados.

Em meio ao coro de milhares de vozes que ecoavam pela caverna, ela ouviu a voz de Henrietta, e a voz de Edward, se juntando à dela. Erguendo o olhar para as silhuetas flutuantes de ambos, Cecily pôde ver que seguravam a mão um do outro, e que seus lábios se mexiam junto aos dela.

Cecily Campbell sabia que estava morrendo, mas continuou a deixar sua magia fluir. Mesmo quando o brilho ao seu redor parecia cegante. Mesmo quando tudo explodiu em luz.

Mihai foi o primeiro a acordar, assim como fora o primeiro a sucumbir. Já era manhã, e uma névoa suave e fria enchia a caverna.

Ele se levantou, trôpego, olhando ao seu redor. Não havia fogo, brilho dourado, sangue, nada. Apenas a bruma matinal começando a refletir o laranja gentil dos primeiros raios de sol.

A maior parte dos círculos, runas e símbolos haviam se apagado. Adelaide e Augustus ainda estavam desmaiados, mas ele verificou a respiração de ambos, o que o deixou mais tranquilo. Cecily, infelizmente, não parecia ter tido a mesma sorte. Ela não respirava, e, pelas pequenas queimaduras nas pontas de seus dedos, ele assumiu que provavelmente fora ela quem concluíra o ritual.

—Obrigado, Condessa— ele se ajoelhou ao lado dela respeitosamente, e pousou a mão sobre sua testa gelada por alguns segundos— Obrigado pelo seu sacrifício.

Ele caminhou em passos lentos, incertos, até o centro da caverna. Até onde Edward e Henrietta haviam estado. Mas ele encontrou apenas duas pilhas de ossos esturricados, tão entrelaçados uns aos outros que era impossível distinguir qual era de quem.

Ele começou a chorar, baixo, quase em total silêncio.

Não saberia dizer quanto tempo se passou, mas logo sentiu duas mãos, uma em cada um de seus ombros. Adelaide e Augustus.

—Vamos sair daqui, garoto— Gus chamou, a voz fraca, triste, mas gentil.

Mihai apenas assentiu, e se deixou ser guiado para fora da caverna. Havia chovido durante a noite, pequenas gotas de água ainda se empoçavam sobre a grama. Mas, naquele momento, não havia uma nuvem sequer no céu, e o dia estava ensolarado e límpido. Mihai ainda conseguia sentir lágrimas escorrendo por suas bochechas, mas decidiu se concentrar no calor do sol, e de um dos braços de Gus ao redor de seus ombros, o outro apoiando Adelaide.

A luz do dia brilhava nas gotas de orvalho, e nas lágrimas nos rostos dos três feiticeiros. E, apesar da dor, aquele parecia um lembrete de que até mesmo a noite mais escura eventualmente se desfaz em alvorecer.

Coisas estranhas haviam acontecido em Londres durante aquela fatídica madrugada. Pessoas morreram inexplicavelmente, caindo às centenas, como as gotas da tempestade. A história oficial que circularia seria de uma epidemia de cólera e miasmas tóxicos, mas nós sabemos da verdade. Todos os mortos daquela madrugada eram agentes da Ordem. Agentes que tinham um histórico de serem injustos, cruéis ou truculentos. Pessoas que tinham sangue em suas mãos.

Alguns dias mais tarde, eu descobriria que esse fenômeno não se limitou a Londres. Por cada canto da Europa, e até mesmo nas Américas e na Ásia, onde a presença da Ordem era menor, milhares de agentes com passados e condutas duvidosas pereceram misteriosamente. A maioria das pessoas nunca saberá da verdade, mas eu e você sabemos, leitor.

Edward Waldford havia, de fato, obtido sua vingança. Sua justiça.

Digory e Pollyanna Pembrook não estavam cientes de nada disso antes que o corcel de Antigone chegasse ao esconderijo, contudo. Ele de fato sabia o caminho de casa, mas, talvez por já ter feito o caminho tantas vezes até aquele pequeno lar, ele tenha ido para lá, não para o palacete dos Lascelle.

Ou talvez ele considerasse ali a sua casa.

É desnecessário entrar em detalhes a respeito da noite de dor e apreensões que os dois jovens Pembrook e Zoe Rodaki passaram após terem achado o corpo de Antigone. Eles fizeram o seu melhor para consolarem e acalmarem um ao outro, mas, quando o dia raiou e nenhum de seus amigos havia voltado, e ainda por cima a carruagem funerária parecia fazer hora extra na rua, eles começaram a falar sobre ir à sede da Ordem, e descobrir o que estava acontecendo.

Felizmente, antes que pudessem fazer isso, a porta se abriu, e três dos quatro que saíram na noite anterior retornaram. Foi um reencontro desajeitado, mas com muitas lágrimas e abraços. Mihai e Digory demoraram bastante tempo para serem convencidos a tirar os braços de um ao redor do outro, mas ainda havia assuntos sérios a serem tratados.

—Onde está Cecily?— Pollyanna perguntou.

Augustus a encarou com uma tristeza inimaginável em seus olhos castanhos.

—Sentem-se. Nós temos muito o que conversar.

E então ele contou tudo. Sobre como a Líder da Ordem era na verdade o Incendiário, e como o Hierofante estava preso dentro dela há vinte anos. Sobre como esse poder dormente havia sido despertado por Edward Waldford e suas relíquias, e tomava o controle. Sobre como o Hierofante usou Henrietta para se livrar de todos que tinham conhecimento a respeito da última seita, todas as pessoas que pudessem impedir sua ressureição. Sobre como Edward Waldford, o irmão deles, planejava usar esse poder para destruir a Ordem, e, pelo que estava visível no caos que enchia as ruas, provavelmente havia conseguido. Sobre os sacrifícios de Antigone e Cecily, sobre como, sem elas, eles estariam mortos, também.

Foi um choque para todos, inclusive para Augustus, conforme contava a história, finalmente encarar os fatos dolorosos da realidade.

—As pessoas… as pessoas não podem descobrir sobre isso. Nós temos que manter segredo. Nós temos que reconstruir algo melhor do que foi destruído, e não precisamos do caos que essas informações iriam gerar— Mihai murmurou.

Ninguém protestou.

Eles logo iriam descobrir que, apesar das muitas mortes, também houveram muitos sobreviventes à purgação daquela noite. Os agentes que ainda viviam eram pessoas justas, tolerantes, que não se oporiam a uma liderança mais moderada quanto ao assunto da magia.

Afinal, é impossível impedir totalmente o uso da magia. Como diversos personagens de nossa história vem a provar, mantê-la forçosamente dormente pode levar a explosões mais perigosas que seu exercício cuidadoso, metódico e deliberado. Embora, é claro, seu uso indiscriminado e inconsequente possa gerar tragédias incomensuráveis, e seja necessário manter regras de conduta sobre sua prática.

Começava a existir um consenso quanto a essa opinião entre os agentes remanescentes nos meses que foram necessários para articular novamente as operações da Ordem. E ficou claro que essa mesma crença que unia todos os sobreviventes seria a chave para uma reforma de todos os princípios sob os quais haviam servido anteriormente. Apenas os que continuariam lutando por justiça foram poupados da morte, e eu consigo enxergar muito claramente a meticulosidade de Edward Waldford por trás disso.

Leonard Cohen voltou alguns meses mais tarde, acompanhado de dois estrangeiros: uma mulher do Norte da África, e um homem do extremo Oriente. Leonard havia cumprido sua promessa, e realmente foi capaz de achar dois Iluminados, que foram responsáveis por ajudar a reforçar o ritual de banimento, e destruir qualquer resquício de magia profana que ainda perseverasse naquela caverna maldita.

Leonard, inclusive, foi, estranhamente, uma peça essencial da nova articulação entre a Ordem e os Iluminados sobreviventes, espalhados pelo mundo. Ele parecia particularmente interessado em garantir que aquela magia que havia destruído sua vida nunca mais fosse utilizada, e trabalhou com afinco para garantir isso. Manter o Hierofante em segredo não havia funcionado, ao que parecia, e uma história esquecida é uma história que está condenada a se repetir. Portanto, todos discutiram o assunto abertamente, criaram meios de impedir a formação de outra seita, e escolheram novos guardiões para as relíquias. Eu devo admitir, leitor, que, em minha opinião pessoal, elas estão mais seguras que antes.

Por alguns meses, eu acreditei que Charlotte Griffin havia perecido naquela mesma noite, mas rumores suspeitos vindos do Leste logo me convenceriam do contrário. Talvez por ela nunca ter oficialmente sido empossada como agente, o feitiço não a tenha atingido. Talvez ela tenha obtido novos meios de proteção contra a magia. É um mistério, mas não é um que eu queira destrinchar. Depois de uma história tão longa e tão sombria, prefiro me abster dos assuntos referentes à Senhorita Griffin e suas atrocidades, por enquanto.

O que eu posso contar é que Augustus fez um bom trabalho coordenando uma reconstrução lenta, minuciosa, de uma nova Ordem. Uma Ordem que não lembrasse em nada a Ordem que ceifou a vida de seus pais, ou que atormentou seu irmão por anos com desejos de vingança. Ele e Adelaide pareciam concordar nesse quesito: se queriam quebrar o ciclo de injustiças e violência, eles deveriam escolher o perdão. Por mais que aquilo doesse. E muito.

Algumas coisas; na verdade, a maioria das coisas, nunca iria voltar a ser como era antes. Todos carregávamos perdas, cicatrizes, de todas as tragédias às quais sobrevivemos. Augustus e Adelaide, e a noção de que agora eles eram a única família que restava um ao outro, e que eles tinham que lutar todos os dias para não deixar que a escuridão e a raiva dentro deles prevalecesse sobre a bondade e a gentileza. Mihai, e o legado de seu pai, e a sua magia crescente, que parecia uma ferida aberta pulsando em seu corpo desde que ele havia tocado os feitiços proibidos do Hierofante. Digory e Pollyanna e as responsabilidades que teriam de sustentar agora, a perda de Ronald, a perda de Cecily, a perda da inocência que restava a ambos. Zoe, e a morte da sua família, mas o início do que poderia ser uma nova família, florescendo lentamente ao seu redor.

E a memória de Antigone Lascelle, que para todos nós sempre seria muito querida. A mulher que havia dado a vida tentando nos proteger. Não poderíamos deixar de nos esforçar ainda mais quando pensávamos no quanto a fria e indiferente Marquesa havia aprendido a ter sentimentos maiores que as tragédias de seu passado, e que deveríamos sempre buscar ser como ela: pessoas que lutam para crescer, para sempre mudar para melhor. Nobres e corajosos, por mais que o sofrimento e as limitações de nossas próprias naturezas pudessem estar contra nós.

Apenas os anos dirão, caro leitor, se esse é o final de toda a dor. Talvez isso seja impossível, e a dor não tenha realmente um fim.

Mas, ultimamente, eu estou inclinado a ter esperança, por mais perigoso que isso possa ser. Espero um dia finalizar esse manuscrito com boas notícias, mas essas são as notícias que tenho para dar por enquanto. Não vou afirmar que esse é o fim de nossa história, pois não creio que seja. Deixarei simplesmente a promessa de trazer um final assim que eu também descobrir qual ele é.

Notas finais
Esse capítulo não foi programado, eu estou postando manualmente porque quero viver intensamente a emoção junto com vocês kkkk! Decidi postar o epílogo semana que vem, ainda não estou preparada para me despedir definitivamente dessa história que foi uma parte tão grande da minha vida. Então nos vemos semana que vem. Saibam que, se você leu até aqui, já me fez a pessoa mais feliz do mundo! Mas fica um agradecimento ainda mais enfático para minhas queridíssimas amigas, Cosmic e aphrodi. Acho que vocês sabem tão bem quanto eu que eu jamais poderia ter chegado até aqui sem o apoio de vocês. Semana que vem vou lançar um textão ainda maior nas notas finais, se preparem kkkkk! Mas até lá, vejo vocês nos comentários ♥