Arsonist's Lullaby- Interativa
30 Epilogue: Peace
Notas iniciais
Eu fiz uma promessa, e vou cumpri-la. Esse não é um final perfeito, mas é o final mais feliz que uma história tão trágica possivelmente poderia ter.
Três anos árduos e conturbados se seguiram a todos os eventos macabros descritos nesse manuscrito. Muito do que se passou permanecerá para sempre envolto em mistério, longe dos olhos e do escrutínio do público. Contudo, as mudanças são intensas e visíveis, e, com sorte, virão para o bem comum.
Antigone Lascelle e Henrietta Raycraft foram enterradas como heroínas, com todas as honras que um Líder da Ordem poderia receber. O nome da Marquesa Lascelle foi oficialmente acrescentado dentre os registros dos Líderes, um cargo honorário, mas que ela exerceu com excelência enquanto Henrietta não pôde. Augustus se certificou de que a memória delas fosse prezada com todo o respeito que elas mereciam.
Augustus Waldford, por sua vez, foi empossado como o mais novo Líder. Envergando o sobrenome de sua família, de seu irmão, orgulhosamente, pois não havia mais motivo para se esconder. Eles finalmente estavam em segurança, como Edward havia desejado.
Augustus Waldford foi o primeiro Líder da Ordem londrina a não ter ascendência nobre, assim o primeiro a ter linhagem conhecidamente mágica. Ainda assim, como favorito de ambas as antigas Líderes, e principal exponente da reforma da Nova Ordem, ninguém ousou questionar o quão natural era que ele assumisse o cargo. Com sua nomeação, iniciou-se uma nova era para a Ordem em Londres, e no mundo inteiro.
Mihai Beswick, ou melhor, o Barão Mihai Blackburn, atualmente é o favorito para suceder Augustus como Líder. O filho de um antigo Líder e de uma feiticeira parece ser o símbolo perfeito para sustentar os novos princípios da organização.
Cecily Campbell teve um belíssimo funeral, um dos mais belos e melhor frequentados da história de Londres. Muitíssimos jovens rapazes choraram, alguns até ameaçaram segui-la ao além-vida; e outras tantas pessoas sentiram uma pontada de alívio com o falecimento da jovem. Ninguém questionou aquela morte prematura e repentina; após o desmaio em público, vários rumores sobre a fragilidade de sua saúde já circulavam. Apenas os agentes da Ordem guardariam a lenda de seu último ato de heroísmo, que para sempre redimiria sua memória. Há quem diga que ela ainda assombra os corredores do Palácio, e que, na calada da noite, é possível ver o reflexo de uma jovem loira belíssima refletido nos espelhos das penteadeiras. Mas eu acredito que ela esteja em paz, e que essas histórias de terror não passem de histeria coletiva.
Edward Waldford foi enterrado por seus irmãos no mausoléu da família, ao lado dos pais. Alguns se questionaram se ele não deveria ter sido enterrado com Henrietta, mas no final todos concordaram que ele deveria repousar ao lado de Sienna e Henry Waldford. Aqueles que lhe deram a vida, e por quem, no final de tudo, ele havia dado a própria vida para vingar.
Edward, caro leitor, no final de tudo, conseguiu exatamente o que ele queria: ele destruiu a Ordem. Ou ao menos ele garantiu que toda a estrutura antiga se desfizesse, e nunca mais voltasse a existir.
A Ordem antes era juiz e algoz dos feiticeiros, cruel e indiferente às suas realidades. Agora, ela os acolhe em sua hierarquia e estruturas. Feiticeiros podem ser agentes, assim como pessoas comuns, e a magia não é mais proibida, apenas regulada. As novas leis garantem que o sobrenatural se mantenha em segredo da população comum e sob controle, e que ninguém use seus dons para o mal.
O Líder comanda ao lado de um Conselho composto por representantes de famílias e comunidades mágicas. Pessoas que quebrem as regras, sejam elas providas de dons mágicos ou não, são julgadas em tribunais compostos de feiticeiros e agentes sem magia em igual proporção, e, embora ainda haja atritos, os interesses estão cada dia mais equânimes e equilibrados.
Adelaide Waldford foi uma das maiores responsáveis por reger essa mudança, ao lado do irmão. Viajando pelo país e pelo restante da Europa, coordenando agentes e buscando novos aliados, ela foi a maior expoente da disseminação da nova Ordem pelo mundo. Em meio às viagens, ela encontrou um novo propósito, e aprendeu a aceitar o seu lado mágico, assim como achar um equilíbrio entre ele e a parte de si que sempre irá temê-lo.
As coisas estão longe de estarem perfeitas, mas estão melhorando cada dia mais depressa.
Alguns sussurros do Leste distante da Europa ainda trazem contos macabros de uma justiceira que ataca feiticeiros perversos na calada da noite. Alguns não tem tanta esperança, mas eu gosto de acreditar que um dia pessoas como Charlotte Griffin não terão mais um propósito tão violento, pois não permitiremos que iniquidades criem tamanha sede por vingança entre aqueles que não receberam justiça pelas tragédias que sofreram. Uma parte de mim ainda espera que, quando conseguirmos levar igualdade e paz entre os povos para todos os cantos do mundo, Charlotte irá enxergar a verdade. Mas, de certa forma, eu sei que não conseguiremos pegá-la ou mudá-la a não ser que a redenção parta dela.
Leonard Cohen, por sua vez, chegou o mais perto de redenção que alguém como ele poderia chegar. Um aliado, ainda que por vezes inconstante e questionável, da Ordem e sua reforma, ele é um dos contatos políticos mais úteis de nossa pequena revolução.
Mihai Beswick, o Barão Blackburn, atualmente usa seus dons mágicos para ajudar a Ordem e auxiliar em minhas investigações. Sua magia nunca voltou a ser a mesma desde seu breve contato com o Hierofante, mas ele eventualmente aprendeu a controlá-la, e telepatia e feitiços de memória se tornaram quase inatos para ele. Mesmo com todos os meus dons investigativos, e os relatos dos sobreviventes e testemunhas, teria sido impossível compilar um manuscrito tão detalhado relatando todos os acontecimentos da última seita do Hierofante e sua queda sem a ajuda do Barão.
O sobrenome Blackburn, inclusive, se tornou praticamente uma lenda em Londres. Usuários de magia, agentes da Ordem, e até mesmo pessoas comuns; entre todos muito se fala do garoto cigano que nasceu em vergonha e perseguição, mas que agora é um dos homens mais ricos da Inglaterra. Por mais que seja evidente que todos os nobres são parentes, primos distantes, em algum nível; ainda assim parecia uma sorte excessiva que, além da fortuna de seu pai, o jovem tivesse herdado a fortuna Lascelle e a fortuna Lovett-Raycraft aos dezenove anos de idade.
Agentes mais experientes teriam visto no testamento de Antigone e Henrietta, cujo conteúdo se limitava a “deixo todos as minhas posses terrenas à descendência mais próxima de meu primo, o Lorde Ephraim Blackburn” uma tradição antiga da Ordem; de deixar parte dos próprios bens para sustentar e apoiar a organização. Eu vejo um gesto de boa-fé, e de esperança. Em algum nível, creio que ambas realmente acreditavam que os interesses do filho eventualmente se alinhariam com os interesses de seu finado pai, e que ele seria acolhido e protegido pelo próximo Líder, independente dos títulos e do dinheiro.
Mihai hoje vive com sua mãe e seus irmãos na casa em que, há tantos capítulos atrás, ele sonhou em viver. Além do título de Barão Blackburn, ostenta também o de Marquês Lascelle e o de Duque Raycraft. Mas o título do qual ele mais se orgulha é o de guardião da antiga relíquia de seu pai, pois demonstra tão claro quanto a luz do dia o quanto confiam nele.
As relíquias, felizmente, acharam novos e confiáveis guardiões. Os Iluminados juntaram forças com a Ordem, e, embora impossíveis de destruir, os conhecimentos do Hierofante estão em mãos seguras, ou escondidos o suficiente para que nunca mais seja possível utilizá-los para o mal.
Por algum tempo eu me perguntei se a tentação daquele poder profano estaria sempre fadada a corromper aqueles que o tocassem. Mas, olhando para Augustus, e percebendo que por nenhum momento ele considerou ser como Joel Aubert, e usar aquela magia proibida para gerar a vida que não poderia criar sozinho, eu percebi que eu estava dando pouco crédito às pessoas. Ainda existem homens e mulheres cujas naturezas são muito mais nobres que suas fraquezas. Se Gus ainda sofre com o fato de nunca poder ter um filho, ele não demonstra. Em verdade, acho que ele sabe que, no final, ele conseguiu construir uma família para si, mesmo que de um modo um pouco inesperado.
Então eu apenas espero que, com a Ordem, os feiticeiros e os Iluminados trabalhando em união, seja possível manter a vitória que alcançamos juntos. Que todos possamos ser pessoas melhores que aqueles que nos precederam. Pessoas grandiosas. Como Antigone. Como Augustus.
Quanto a mim, e ao resto de nós que sobreviveu para contar a história, nós ainda lidamos com os fantasmas de nossos arrependimentos e dores. Mas, a cada dia que passa, estamos mais perto de alcançar a paz.
Todas as noites, antes de dormir, eu agradeço por não ter sangue em minhas mãos, e rezo para que eu nunca venha a ter. Todas as manhãs, assim que eu acordo, eu vejo o rosto do homem que eu amo ao meu lado, e eu o seguro em meus braços até que ele também desperte, e me segure de volta nos seus.
Eu nunca penso que houve um tempo no qual éramos inimigos, um tempo no qual nosso amor era proibido. Nós simplesmente permanecemos leais a nós mesmos, e a mera insinuação de que poderia haver algo de errado em um amor tão puro parece risível.
Apesar disso, eu nunca me esqueço dos tempos de escuridão, e não busco esquecê-los. Eu jamais poderia ser tão grato pela luz que me cerca sem a memória clara de tudo o que quase perdemos. Quando os pesadelos inevitavelmente vem, Mihai me abraça, e, entre beijos e palavras de conforto, murmura um feitiço que logo me coloca para dormir novamente. Tudo está exatamente do jeito que deve ser.
Polly e Zoe visitam com frequência, e Zoe diz que os pesadelos dela pararam há alguns meses. Ela me assegura de que os meus vão parar também algum dia. Eu não tenho tanta certeza assim, mas também não sei se gostaria que eles parassem. Toda vez que me lembro daquela época, a minha determinação de nunca mais deixar que as coisas voltem àquele ponto apenas cresce. E, apesar da dor, eu tenho certeza de que tudo teve um propósito.
Adel por vezes também volta para Londres, e sempre trás histórias incríveis e presentes exóticos. Ela tagarela tanto quanto Augustus nessas ocasiões, e os dois sempre fazem questão de cozinharem para nós.
Quando Adel tocava o piano depois do jantar, por vezes Gus chorava, mas isso ficou cada vez mais raro. Quando acontecia, eu simplesmente o abraçava com força, e, em pouco tempo, ele já estava sorrindo novamente.
“Eu só gostaria que Ed estivesse aqui”, ele disse, certa vez.
“Ele está”, eu garanti. E essa foi a última vez que eu o vi chorar.
Adel continua tocando o piano, agora, mas nós apenas sorrimos.
Nós perdemos muitas coisas, mas ao menos ganhamos uns aos outros. Eu tento me convencer de que valeu a pena. Na maioria dos dias, eu consigo acreditar nisso, pois não consigo imaginar minha vida de nenhuma outra maneira. E não consigo me imaginar sendo tão feliz com quaisquer outras pessoas. Em outros dias, a ausência daqueles que se foram parece quase insuportável, e as lembranças e a culpa me assombram.
Já fazem meses que não tenho um dia ruim como esses. Acho que os outros também estão sarando, lenta ou rapidamente, mas todos estamos achando nossa paz com o que aconteceu.
Hoje, Adel voltou de mais uma excursão pela Europa. Pela primeira vez, seu retorno foi acompanhado de outra pessoa: um homem de boa aparência e olhos brilhantes e apaixonados. O nome dele é Laurence, e Adelaide nos contou que já havia o conhecido muitos anos antes, em um sonho. E que finalmente havia tido a coragem de segurar a felicidade, e não de deixá-la escapar entre seus dedos, como antes. Há um anel em sua mão esquerda, e uma boa notícia que ela anunciou ao final do jantar: ela está grávida.
Ela permitiu que Mihai colocasse a mão sobre sua barriga, e, sorrindo, ele lhe contou que era uma menina. Que ela teria o sorriso gentil do pai, e o talento com o piano da mãe. Mas que ela teria olhos cinzentos, como os do tio que jamais iria conhecer.
E como os da mulher que havia salvado a vida de sua mãe.
Adel sorriu nesse momento. Um sorriso metade reflexivo, metade contente.
“O nome dela será Antigone”— ela anunciou após alguns segundos— “E ela também irá salvar a todos nós”.
Ao final do jantar, Adel e o marido tocaram um dueto no piano, e eu apoiei minha cabeça no ombro de Mihai enquanto ouvia, permitindo-me ter esperança quanto ao futuro. Permitindo-me acreditar que os dias de felicidade não chegariam a um fim.
Por isso, caro leitor, assim que o vinho fez seu feliz efeito e Gus adormeceu no sofá enquanto os outros conversavam em meia-voz, eu escapei para o meu quarto rapidamente. Para escrever esse último e humilde epílogo desse relato.
Acho que você, leitor, e eu, seu resignado narrador, merecemos o final mais feliz o possível, após tanto sofrimento. Então vou permitir a nós dois que acabemos essa história trágica com uma cena de esperança.
A vida nunca foi feita para ser um castigo, uma punição. A vida não foi feita para ser sofrida. Ela foi feita para ser vivida, e para ser desfrutada. Mesmo com escuridão e luta, no final, a vida é um presente. E cabe a nós garantir que ela permaneça sendo uma dádiva, um dom, e não um fardo.
Nós vamos cuidar uns dos outros. Nós vamos dar o nosso máximo para que a escuridão nunca mais volte, para que as tragédias jamais se assomem sobre nós ou esse mundo novamente. Mas, se as trevas vierem, apesar de nossos melhores esforços, eu tenho certeza que poderemos derrotá-las novamente. Porque cada um de nós olhou a morte em seus olhos frios e impassíveis, e sobreviveu. O que nós sabemos vai nos matar, algum dia, mas nós morreremos sorrindo. Pois temos a certeza da vitória.
O amor que achamos mesmo em tempos obscuros é do tipo que persevera, eu tenho certeza. E apenas o futuro dirá se conseguimos mudar o mundo para melhor permanentemente, mas, independente da resposta, eu descanso tranquilo, sabendo que o meu sono é velado por aqueles forjados em sangue e chamas, mas que ainda guardam bondade e esperança em seus corações. Eu espero que a paz que construímos permaneça. Porque esse é um mundo no qual ninguém precisa mais ter medo de fechar seus olhos. Eu espero que você também possa fechar os seus, leitor. E descansar em paz, sabendo que finalmente está em segurança. Sabendo de tudo o que aconteceu, e encontrando serenidade com isso, por mais tortuosa que tenha sido a estrada até aqui.
Com sorte, nossos erros serão o suficiente para evitar os seus. E nosso eventual sucesso, o suficiente para pautar o caminho que deve ser seguido. Se até mesmo pessoas tão assombradas e atormentadas por culpa e perdas como nós conseguiram achar algum resquício de felicidade nesse universo desolado, certamente há esperança para qualquer um que busque encontrá-la.
Acho que Gus acordou agora, eu consigo ouvir a voz de Anne, e a conversa está ficando animada e barulhenta de novo. Eu deveria descer, e voltar para minha família. Eles estão gargalhando alto, e eu não quero perder esse momento de alegria. Até porque não consigo pensar em um jeito melhor de terminar essa história.
Tudo o que consigo ouvir agora são risadas ecoando em minha casa. Eu espero que você também consiga ouvir risadas ecoando na sua. E eu espero que tudo continue bem para nós dois, caro leitor.
Cordial e esperançosamente,
Digory Pembrook, Escriba da Nova Ordem
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