Arsonist's Lullaby- Interativa
28 XXVII- Hope Is A Dangerous Thing
Notas iniciais
As mãos de Adelaide doíam, os nós de seus dedos adquirindo um preocupante tom de branco isquêmico, conforme ela segurava as rédeas do cavalo como se sua vida dependesse daquilo.
Sua montaria era mais veloz que a de seu irmão, e, olhando para trás, por cima de seu ombro, ela conseguia vê-lo alguns metros atrás de si, a expressão igualmente grave. A noite começava a se adensar rapidamente, pouquíssima luz permitindo que ela distinguisse os traços dele em meio à umbra, mas ela poderia jurar que algumas lágrimas ameaçavam verter de seus olhos castanhos.
Ela sabia porque seu irmão chorava. As palavras de Adelaide não haviam sido otimistas.
“Eu vi Antigone. Uma mansão. Uma caverna. Fogo. Um corcel negro.”— ela dissera. Premonições vagas, mas nada auspiciosas. Conseguia ver que Augustus também compartillhava de sua sensação de que algo estava terrivelmente errado conforme eles tentavam ir ainda mais rápido na estrada de Londres para Kent.
—À direita— Cecily, agarrada à garupa da montaria de Adelaide, indicou— O caminho é virando à direita.
Mal haviam tido tempo de pedir ajuda à Condessa, ainda sob custódia da Ordem; e muito menos de ir atrás de Mihai, que no momento estava com Augustus em seu cavalo, antes de irem onde as visões revelavam que Antigone estava.
Os gêmeos, principalmente Gus, haviam odiado ter que colocar Cecily e Mihai em risco, mas não tiveram como evitar. Não conheciam o caminho para a propriedade, e muito menos sabiam onde ficava a caverna, e Cecily, como havia crescido logo ao lado da casa dos Lovett, era a única pessoa que poderia ajudá-los a encontrá-la. Já Mihai havia insistido em ir junto quando Adelaide lhe contou que talvez precisassem da relíquia, e o que a havia convencido definitivamente a aceitar a presença do jovem feiticeiro foi a seguinte afirmativa:
“Só eu conheço os feitiços bem o suficiente para não morrer os conjurando”— a expressão dele era séria, e ele parecia bem mais velho com a responsabilidade pesando em seu semblante— “Vocês já me protegeram por tempo demais. Me deixe retribuir o favor.”
O clima era fúnebre, o vento, cortante, conforme o inesperado quarteto avançava pela estrada deserta. Nuvens pesadas no horizonte pareciam anunciar uma tempestade vindoura, e o frio se tornava mais inclemente quanto mais eles se embrenhavam pelas paisagens rurais e solitárias.
Ao menos eles haviam convencido Digory e Pollyanna a ficar para trás, cuidando de Zoe. Adelaide não sabia o que faria com a culpa de ter colocado ainda mais adolescentes em risco.
“Cecily tem mais de vinte anos. Mihai não é mais uma criança, também”— ela tentou se convencer. Mas, sentindo as mãos de Cecily tremendo contra seus ombros, ela se lembrou de quando ela mesma tinha aquela idade, de como tudo sempre parecia maior e mais assustador, e ela se sentia pequena, e perdida. E compreendeu que nem Mihai nem Cecily passavam de crianças um pouco altas demais, afinal.
Nem ela e nem Gus tinham filhos de seus próprios corpos, mas o instinto de proteger os mais vulneráveis nunca havia faltado para nenhum dos Waldford. E a culpa assombraria Adelaide para sempre, caso alguma coisa acontecesse a qualquer um dos dois.
—Estamos quase chegando em uma encruzilhada. Quando chegarmos, devemos tomar o caminho da esquerda, e já vai dar para ver a mansão dos Lovett— Cecily avisou, e, de fato, a silhueta de uma encruzilhada começou a se desenhar contra a escuridão da noite.
As nuvens pareciam mais densas naquela parte da estrada. Adelaide se perguntou se realmente eram nuvens ou se era… não, não poderia ser fumaça. Se recusava a acreditar que chegaram tarde demais. Assim que ela havia recebido a visão, eles haviam se apressado o máximo que podiam. Chegariam a tempo, suas premonições nunca haviam falhado antes. Mesmo com todo o terror e preocupação que lhe geravam, mesmo com as escolhas difíceis que sempre suscitavam, elas costumavam guiá-lá para o lugar certo na hora certa. Adelaide ainda se agarraria àquele fio de fé enquanto pudesse.
Suas esperanças minguaram, e se desfizeram como cinzas em sua boca, quando uma nuvem densa e rasteira de fumaça negra, com o odor característico de fuligem, cobrindo o caminho da esquerda, se abriu. E de seu meio surgiu um corcel cuja pelagem era da cor da meia-noite, o mesmo animal que havia visto em sua visão.
Um corcel sem cavaleiro. A sela estava vazia, e ela sentiu um aperto em seu peito. Uma parte de Adelaide ainda queria acreditar que veria Antigone, sã e salva, cavalgando em sua direção, aquele sorriso irônico em seus lábios. Mas tudo o que ela recebeu foi exatamente a visão que sua magia lhe havia concedido: um cavalo negro, e a silhueta de uma mansão começando a surgir no horizonte.
Ela sentiu um nó na garganta, uma terrível falta de ar e de coragem, conforme descia do seu cavalo e caminhava com passos cautelosos na direção do corcel perdido.
—Ei, garoto— Adelaide chamou o animal gentilmente. Seus olhos estavam arregalados, e assustados, mas ele pareceu relaxar ao som da voz dela. Talvez fosse a magia de Adelaide, talvez fosse somente a visível melancolia que ela demonstrava, mas ele parou, e se deixou ser guiado pelas rédeas até o restante do grupo, que também havia descido dos cavalos.
—Esse é o brasão dos Lascelle— Cecily observou.
De fato, o símbolo da família Lascelle estampava a sela, em um pequeno compartimento lateral. Não restava dúvida que aquele era o cavalo de Antigone.
—Tem um pedaço de papel naquele bolso— foi a vez de Mihai de notar um detalhe, e ele se adiantou para pegá-lo.
Um envelope pequeno, simples, de papel branco. Escrito com a caligrafia elegante de Antigone estava: “para A. Lockhart”.
Augustus e Adelaide se entreolharam. Não havia como saber para quem era a carta, mas sem dúvidas ambos deveriam lê-la. Mihai pareceu concordar, pois logo entregou o bilhete para Adelaide.
“Lockhart,
Isso é apenas uma garantia, pois o cavalo sabe o caminho de casa, e vai voltar mesmo que eu não volte. Mas eu vou voltar. Acho pouco provável que eu seja descoberta.
Eu desobedeci as ordens de Henrietta, e não quero envolver mais ninguém nisso. Ela queria a relíquia de Mihai, mas eu não vou entregá-la. Não tenho como provar, mas acho que Henrietta está de algum modo envolvida com Edward Waldford, e eu não confio nas intenções deles com a relíquia. Então vou segui-los, e descobrir do que isso se trata de uma vez por todas.
Até breve,
A. Lascelle”
Bastaram aquelas poucas palavras para que o mundo de Adelaide desabasse completamente. Edward, o seu Edward, o primogênito da família, que sempre a havia protegido, Edward, que bagunçava seus cabelos e a ouvia tocar piano; aquele Edward estava envolvido com a Líder da Ordem? Ela não podia acreditar, deveria haver algum engano, alguma confusão.
Ela entregou o bilhete para Gus com as mãos trêmulas, e conseguiu ver o exato segundo em que o choque tomava completamente o seu semblante.
A mesma pergunta martelava na mente de ambos: o que Edward estava fazendo ali? Não era possível que ele tivesse algum envolvimento com tudo aquilo, era? Alguma coisa estava errada, Antigone havia se enganado, de alguma forma.
“Mas qual a última vez que Antigone se enganou?”— Augustus pensou.
—O que está escrito? É importante?— Cecily questionou.
Augustus lhe entregou o bilhete, ainda estupefato demais para raciocinar.
Cecily e Mihai passaram alguns segundos em silêncio, ela com o bilhete em mãos, ele lendo por cima do ombro dela.
—Isso não soa nada bom— Cecily opinou— E quem é Edward Waldford?
Quem era Edward Waldford? A pessoa em quem Augustus mais confiava no mundo. Sua referência, seu modelo de vida, seu irmão. O homem que o havia criado, e aconselhado, e orientado, mesmo quando ele estava completamente perdido e prestes a desabar. O homem que havia pegado toda a raiva que Augustus costumava ter quando mais jovem, e a moldado em gentileza, em um propósito. O homem que havia feito rosas secas desabrocharem novamente, brancas e imaculadas, como se nunca a morte as houvesse tocado, como se elas nunca pudessem morrer novamente. O homem que sempre havia lhe dito para não se envolver com magias perigosas, para que não corrompesse sua alma. Esse era Edward.
Então por que Antigone parecia tão convencida de que ele estava de algum modo ligado ao mistério que os assombrava há meses?
—Ele é um dos feiticeiros mais poderosos da grande Londres— foi Mihai quem respondeu, pois Adelaide e Augustus não foram capazes— E um negociante de objetos arcanos. Talvez ele tenha se apossado de alguma das outras relíquias.
Todas aquelas viagens, todos aqueles sumiços. Augustus nunca havia estranhado antes, mas talvez as coisas finalmente estivessem a começar a fazer mais sentido, um sentido sombrio e terrível. Não poderia ser. Ele se recusava a acreditar.
—Nós deveríamos nos apressar, então— Adelaide quebrou o longo silêncio que havia se instalado, a voz tensa— Só Antigone pode explicar tudo, precisamos encontrá-la.
Os outros concordaram, mas Augustus ainda sentia um peso terrível em seus ombros conforme voltava a montar o cavalo, e seguia atrás de Adelaide pela estrada.
Ele soube antes mesmo de ver, e seus olhos de encheram de água antes que ele pudesse proferir qualquer palavra. Adelaide tinha visto a figura jogada na beira da estrada antes que Augustus visse, pois, quando ele correu até sua velha amiga, sua irmã já segurava o corpo nos braços.
Antigone estava com os olhos fechados, os lábios em um tom cadavérico de azul, mas não havia qualquer marca em seu rosto. As únicas lesões visíveis eram queimaduras por seus braços e pernas, e trechos chamuscados em seu vestido. Os dedos também estavam queimados, mas seguravam firme a pistola, apesar do metal ainda fumegante. A expressão em seu rosto parecia estranhamente calma, em paz, como se ela estivesse apenas dormindo.
—Antigone— Augustus queria gritar, mas o nome dela saiu apenas como um sussurro sufocado, e ele caiu de joelhos ao lado de Adelaide.
Ela também chorava, mas em total silêncio.
—Isso não deveria estar acontecendo— Adel murmurou, as lágrimas rolando pelo seu rosto— Eu tive uma visão… nós deveríamos ter chegado a tempo.
Mihai, que estivera de pé alguns a passos de distância, se aproximou com cautela. Não parecia surpreso com a menção de premonições por parte da Adelaide, e sim preocupado.
—As visões não chegam no tempo que queremos, a culpa não é sua— ele também se ajoelhou perto do corpo de Antigone, e colocou a mão no ombro de Adel— Mas vocês estão aqui por um motivo. Se não para salvar sua amiga, para impedir que algo ainda pior aconteça.
Augustus encarou o garoto, ainda destroçado demais para formar pensamentos coerentes, as mãos ainda tremendo e os olhos empoçados de lágrimas.
—O que de pior pode acontecer, garoto? A pessoa que podia impedir o Incendiário está morta— ele respondeu.
Mihai lhe ofereceu um sorriso, um sorriso triste, muito triste, mas em seus olhos marejados ainda havia um resquício de esperança.
—Vocês confiavam na Marquesa Lascelle. Mas ela confiava em vocês. Ela nunca se irá completamente enquanto vocês estiverem aqui, e vai ajudar como puder, eu posso sentir— o jovem feiticeiro disse.
Augustus deixou que aquelas palavras lhe trouxessem algum conforto, mas não teve muito tempo para refletir sobre sua dor e seu luto. Pois, na linha do horizonte, em meio à paisagem deserta dos prados, um raio de luz violento e dourado iluminou por alguns segundos toda a área, e ele soube que estava na hora de ir.
Antes que fosse verdadeiramente tarde demais.
Sem nenhuma outra palavra, Augustus ergueu o corpo de Antigone nos braços, e o pousou suavemente sobre o corcel negro que costumava ser dela.
—Ele sabe o caminho de casa— Augustus murmurou— Nós também sabemos. Vamos estar logo atrás de você, minha líder.
E o corcel desapareceu no horizonte, carregando Antigone para casa uma última vez, enquanto Augustus, Adelaide, Mihai e Cecily caminhavam na direção do perigo.
Talvez também pela última vez.
Esse é provavelmente o capítulo mais trágico de nossa humilde história, meu caríssimo leitor. Se eu pedi para que você abandonasse a leitura, era isso o que eu estava tentando evitar, a dor que sinto ao escrevê-lo, e que sem dúvidas você também sente ao ler minhas palavras.
Mas é impossível viver e fugir da dor, leitor. Ela nos persegue, e talvez seja ela que nós faça crescer. Ou ao menos que nos dê a coragem para fazer o que acreditamos que é o certo.
Edwarf Waldford sentia uma dor inexprimível com o que estava prestes a fazer.
Ele já havia repassado milhares de vezes todo o processo do ritual na sua cabeça, tantas vezes que suas mãos e seus lábios de moviam praticamente no automático. Henrietta, ainda desmaiada no centro de tudo, parecia inquieta, seu corpo reagindo à magia que Edward invocava.
Parecia uma troca justa para Edward. Ele a estava libertando, de certo modo. Ela não teria mais dores, não teria mais culpa, não se sentiria perdida e instável o tempo todo. Fora ele quem despertara o Incendiário, afinal, era sua obrigação colocá-lo para dormir novamente. Para sempre.
Então por que ele se sentia como se estivesse cometendo um ato de suprema traição?
Henrietta havia confiado nele. Ele estava prestes a colocar a vida de ambos em risco. Mas ainda assim tinha confiança o suficiente que tudo estava sob seu controle, e que seu propósito era nobre o suficiente para justificar aquela dor.
Ele fez um corte na palma da própria mão com uma faca, e as gotas de sangue se juntaram às outras que impregnavam o chão e as paredes da caverna em forma de símbolos e runas. Um brilho débil, mas crescente, iluminava as relíquias, e fazia as chamas das velas tremeluzirem, quase se apagando.
Com uma última palavra, um último gesto de sua mão, que aspergiu sangue, como água benta pelo ar, uma explosão de brilho dourado iluminou a caverna, os prados ao redor, o céu nublado sobre eles. E os olhos de Edward se reviraram para dentro de seu crânio, brilhando tão dourados quanto tudo ao seu redor, e ele se viu em um lugar completamente diferente.
Ele não sabia bem ao certo o que esperava ver quando invocasse o Hierofante, mas certamente não esperava estar de volta à sua casa de infância. Pensou que talvez houvesse uma certa justiça cósmica em ele ser forçado a revisitar aquele lugar, afinal, ele também havia convencido Henrietta a voltar à casa onde ela mesma havia crescido.
Ele estava no jardim, incialmente sozinho, mas logo ouviu passos atrás de si. Se virou bem a tempo de ver a mãe carregando uma cesta cheia de flores, um largo sorriso no rosto, os olhos castanhos brilhando ao vê-lo. Sienna Waldford parecia tão jovem. Ele sentiu um nó na garganta ao perceber que ele tinha a mesma idade que a mãe tinha quando morreu: trinta e cinco anos. Os cabelos dela estavam presos em uma trança, e ela tinha terra na ponta dos dedos.
—Ed— ela largou a cesta e caminhou até ele, o envolvendo em seus braços com todo o cuidado de uma mãe.
Ele era mais alto do que ela, agora. Sienna nunca havia tido a chance de vê-lo daquele jeito, crescido, poderoso, e não mais um garotinho frágil.
Totalmente absorvido pela ternura e pela segurança daquele abraço, ele só percebeu que a memória estava se desfazendo em névoa dourada tarde demais, quando, ao invés do calor dos braços de Sienna, o que ele sentiu foi frio.
Estava no mesmo jardim, mas era noite, e ventava. Ele ouvia passos de botinas pesadas esmagando a grama, e os gritos de sua mãe, ao longe.
“Você não pôde protegê-la, não é mesmo Edward? Nunca pôde proteger ninguém, por mais que tentasse”— uma voz totalmente desincorporada, sem nenhuma origem, acusou. Era metálica, cruel, impossivelmente grave, mas ao mesmo tempo com uma inflexão aguda e afiada. Como se um milhar de vozes diferentes sussurrassem ao pé do seu ouvido ao mesmo tempo.
Edward olhou ao seu redor, tentando achar de onde aquela voz vinha; ou alguma maneira de acabar daquela lembrança, qualquer coisa. Mas novamente tudo o que aconteceu foi que o cenário ao redor de si começou a se dissolver em névoa dourada, e ele se viu jogado em outra memória.
Dessa vez, ele viu o seu pai. Foi um choque ver Henry Waldford, pois ele percebeu que havia se tornado a imagem esculpida em Carrara do pai. Os traços sérios, o porte dignificado, os olhos intensos e cinzentos.
E a magia, a bendita, maldita, inexorável magia.
—Você tem que aprender a ser a pessoa no controle, Eddie— ele disse, uma das mãos em seu ombro— Sua mãe não vê perigo, mesmo depois de tudo que a magia trouxe de mau para vida dela. Mas nós sabemos melhor, não sabemos? Se você não controlar o que está dentro de você, vai acabar sendo controlado.
Edward sabia da história. De como sua mãe tivera que fugir da família adotiva após um acidente que acabara ferindo um agente da Ordem na tentativa de proteger um civil. Mas também sabia que o pai tinha a própria história com sua magia, uma história sombria, que ele nunca contava.
Será que algum dos dois realmente estivera no controle? Será que Edward estava?
“Está no sangue, não é mesmo, Edward? Esse orgulho, essa presunção. Você acha que está controlando, mas está sendo controlado. Ou realmente acha que é você a pessoa no controle aqui?”
Edward foi bruscamente lançado para fora do seu próprio corpo, forçado a ver de fora o que estava fazendo. Ele viu o exato momento em que Augustus e Adelaide chegavam à entrada da caverna, o medo e a decepção estampados em seus rostos assim que o viram flutuando no ar, névoa dourada ao seu redor como um halo, e Henrietta jogada aos seus pés, desacordada.
“Foi por eles que você fez tudo o que fez, não é, Edward? Mas olhe bem. Eles tem medo de você. E como não poderiam ter? Você está sendo consumido, só você que ainda não percebeu.”
Edward desesperadamente tentou interromper o ritual, usando o máximo da sua concentração, o máximo da sua energia, mas de nada adiantou. Estava preso, não tinha absolutamente como escapar. Não era para ser assim, Gus e Adel não deveriam estar ali, ele nunca quisera colocá-los em perigo.
“Você achou que poderia usar meu poder, me usar para sua vingança, sua justiça. Mas você é só um garoto tolo. Eu sou a vingança. Eu sou a justiça. Você não passa de um peão”
Com essas palavras, Edward se viu novamente em seu próprio corpo, preso em mais uma visão. Ele deu o seu melhor para não demonstrar medo, para manter a expressão neutra e a postura firme, mas, assim que aquela voz começou a se materializar à sua frente, tudo o que ele conseguiu sentir foi terror.
Ele havia buscado aquilo, não havia? Então deveria encarar as consequências sem hesitar. Mas parecia quase impossível manter-se calmo quando tudo fugia ao seu controle. Quando ele sabia que estava em perigo. Quando Gus e Adel estavam em perigo.
No fundo, ele sabia que não tinha o comando de nada naquela visão, que não havia sido ele quem invocara aquela parte do ritual, e que não fazia ideia de como quebrá-lo, de como fugir daquele inferno.
O que quer que fosse, a criatura à sua frente era quem possuía todo o controle.
Sombras e luz se condensaram no mesmo ínfimo espaço, tão entrelaçadas que não havia mais como diferenciá-las, e a visão parecia tão inatural que Edward desejou cobrir os olhos. Mas, ao mesmo tempo, havia algum mesmerismo em todo aquele caos, e ele não conseguia sequer reagir enquanto observava.
Incialmente, a figura assumiu a silhueta de uma mulher, uma mulher que seria impossível para ele não reconhecer. Os cachos de cabelos castanhos, o rosto fino, o sorriso brilhante. Mas a forma de Henrietta se dissipou rapidamente, e logo foi substituída pelo contorno impreciso da figura de um homem.
E Edward soube instantaneamente que aquela era sua forma verdadeira.
O feiticeiro e o Hierofante se encararam por alguns segundos, os olhos analíticos e frios de ambos se avaliando em silêncio.
—Você não parece surpreso— aquela voz terrível ecoou pelo vazio do espaço infinito no qual se encontravam, e retumbou dentro do crânio de Edward, espalhando um tremor por todo seu corpo.
A boca da figura de sombras sequer havia se mexido. Ele falava através de cada molécula daquele lugar. Tudo aquilo era parte dele, lhe pertencia, e respondia aos seus comandos.
—Eu não estou— Edward replicou, erguendo o queixo para encarar a figura, ainda se agarrando à sua postura calma, apesar do medo— Por qual outro motivo eu teria me aliado à líder da Ordem, se já não soubesse que você estava dentro dela?
O Hierofante riu, e sua risada foi o som mais perturbador de Edward já havia escutado. Metálico e afiado, praticamente uma lâmina rasgando sua pele.
—Nós dois sabemos que esse não é o único motivo. Você se apaixonou por ela.
Edward queria ter retrucado, mas se pegou totalmente desarmado perante à acusação. Ele sabia que havia começado aquela jornada pelos motivos certos, que havia se aproximado de Henrietta para ter acesso aos poderes do Hierofante, e que toda gentileza que havia demonstrado para com ela tivera o objetivo de manipulá-la.
Mas, parando para pensar em todas as pequenas atitudes que não haviam sido estritamente necessárias, ele sabia que havia um fundo de verdade naquelas palavras. Todas as vezes em que havia usado sua magia para ajudá-la, todas as vezes em que havia tentado mantê-la longe de perigo, todas as vezes em que havia acordado no meio da madrugada com seus braços ao redor dela. Não havia como negar que seus sentimentos por ela já haviam passado do estritamente necessário há muito tempo.
—Não mais do que ela se apaixonou por mim, tenho certeza— Edward replicou— E no final, é isso o que importa.
O Hierofante não riu novamente, mas Edward pôde jurar que viu as sombras de seu rosto se deformando para formar um sorriso.
—Ela gosta de você, isso é verdade. Eu a conheço bem, sempre soube que isso acabaria acontecendo, mas permiti que acontecesse. Ela merecia um pouco de felicidade, após tudo o que aconteceu com ela— o Hierofante disse— O que realmente me surpreendeu é como foi fácil manipular você, Edward. Ou realmente acha que você acabaria se apaixonando por ela se não estivesse nos meus planos, também?
Edward sempre soube que o Hierofante tinha influência sobre Henrietta, mas descobrir que esse controle era perene e constante o assustou. Sequer imaginava que ele estava o vigiando esse tempo todo, embora soubesse que haviam momentos nos quais ele assumia o corpo de Henrietta, como quando cometia os incêndios. A revelação o assustou mais do que gostaria.
—Então quer dizer que… você estava controlando a vida dela esse tempo todo?— Edward indagou, ainda chocado demais para se conter.
O Hierofante riu novamente, e a risada foi ainda mais assustadora que a primeira. Havia um tom de crueldade a mais nessa, também.
—“Controlar” é uma palavra forte. Mas sim, Edward, eu sempre estive vigiando, e cuidando dela, interferindo sempre que necessário. Gosto de pensar que apenas dei vazão ao que ela já desejava, que realizei o que ela secretamente queria. Mas sim. Fui eu quem me livrei daquele marido imprestável, e quem a tornou uma Duquesa. Fui eu quem a tornou Líder da Ordem, apesar da competição da Marquesa Lascelle. E fui eu quem permiti que vocês se aproximassem. Tudo serviu a um propósito. Ou realmente acha que eu permitiria que você estivesse na vida dela se já não estivesse dentro dos meus planos?
De repente, tudo passou a fazer sentido. O fato do marido de Henrietta ter morrido de uma doença misteriosa, sem deixar herdeiros, e passando a fortuna para ela. O fato de Lorde Ephraim tê-la indicado como futura Líder, mesmo que Antigone parecesse uma escolha mais adequada. E o fato dela ser sempre tão encantadora, tão magnética. Quase como se estivesse cercada por um feitiço. Porque estava. A presença silenciosa, mas constante, do Hierofante, era responsável por todos aqueles acontecimentos.
No final, era ele quem saíra ganhando com tudo. Ele agora tinha um receptáculo com poder, riqueza, e contatos. Habitava um corpo que tinha acesso a todos os segredos da Ordem, e que dividia a cama com um dos feiticeiros mais poderosos de seu tempo. Um feiticeiro que estava buscando por suas relíquias perdidas, e que as havia entregado para ele sem que ele sequer precisasse fazer um grande esforço. Edward se odiou por ter caído tão facilmente naquela armadilha, e odiou o Hierofante mais ainda por estar prendendo ele e Henrietta naquela rede de mentiras. Pouco o admirava que ela sentisse tantas dores, ou tivesse um emocional tão instável. Estava sendo consumida de dentro para fora, lentamente, há décadas. Mesmo que ela não se lembrasse de todas as mortes e violência que estava cometendo, a presença maligna se enraizava na Líder como um câncer, consumindo qualquer luz que ela pudesse ter.
—Liberte-a — Edward pediu, de repente, mesmo sabendo que o pedido soaria desesperado— Deixe-a livre. Ela não tem mais serventia para você, e eu posso ser o novo receptáculo. Sou mais poderoso, mais forte, você pode finalmente deixá-la ir e me usar para voltar à vida.
O Hierofante novamente esboçou aquele sorriso macabro.
—Você gostaria disso, não gostaria? Era sua intenção desde do início, canalizar todo o meu poder para dentro de você. É uma pena que seja arrogante demais para ver que eu nunca permitiria isso— ele respondeu— Sabe por que escolhi Henrietta, apesar de todos os feiticeiros poderosos que estavam lá no dia que fui invocado? Pois ela tinha o maior potencial dentre todos eles. Todos aqueles anos de treinamento, e sacrifício, mas nenhum dos membros da minha seita pôde se comparar à magia inata que eu vi naquela garota. Mesmo você, com todo seu poder, teria dificuldades em derrotá-la. E eu não trocaria Henrietta por nada, nem ninguém. Ela nasceu para isso, e eu a conheço, a vi crescendo, e se tornando a mulher que é hoje. Eu sei seus pontos fracos e fortes, sei como controlá-la, e sei como mantê-la feliz sob meu controle. A simbiose perfeita. Por que eu deveria escolhê-lo como meu novo receptáculo, sabendo que sem dúvidas você tentaria me controlar?
Edward abriu um sorriso calmo, lentamente, e ergueu as mãos.
—Porque não vou te dar escolha.
Então, ele invocou o feitiço que havia passado tantos anos estudando, o mesmo que finalmente libertaria Henrietta. O feitiço que canalizaria o Hierofante para dentro de um novo receptáculo: Edward.
Era estranhamente semelhante ao que ele havia usado alguns meses antes para despertar o Hierofante, até então dormente, dentro de Henrietta; e talvez um pouco similar ao que ele utilizava para contê-la quando a fúria assassina do Incendiário saía de seu controle. Mas muito mais poderoso e explosivo. Ele mal havia começado a entoá-lo, e já sentia suas forças sendo completamente drenadas.
Runas e palavras e cânticos voavam por sua mente. O poder fluía com tanta força que ele podia sentir sua sanidade sendo consumida aos poucos, seu corpo praticamente entrando em combustão. Seus lábios se moviam contra sua vontade, recitando as palavras sagradas, e ele sentia seus próprios pés se erguendo do chão, enquanto ele flutuava, luz e sombras dançando ao seu redor.
O Hierofante se limitou a sorrir.
—Garoto tolo. Acha mesmo que será tão fácil? Que você, sozinho, conseguirá sobrepujar o feiticeiro mais poderoso que já existiu? O único mortal que já venceu a morte?
Edward podia sentir seus olhos brilhando com o poder do feitiço, e soltou uma risada ao ver a confiança do Hierofante.
—Acha mesmo que estou sozinho? Que ela permitiria que você a controlasse por todo esse tempo sem lutar de volta?— Edward disse, e a forma do Hierofante começou a tremeluzir, enquanto a forma de Henrietta surgia lentamente ao seu lado— Talvez eu não tivesse chance contra você sozinho. Mas ela sabe de todos os seus segredos, tanto quanto você sabe dos dela. E o seu maior erro foi nos subestimar.
Henrietta parecia furiosa. Pela primeira, ela podia ver claramente que, por todos aqueles anos, ela havia sido uma refém. Todo aquele sofrimento, toda a dúvida, toda a sensação de vazio, e de culpa, tinha uma origem definida, como um parasita que lentamente roía seus ossos. Ela iria extirpá-lo, e virar todo aquele poder contra ele.
—Faça o que precisar, Edward, eu não me importo de morrer. Só acabe com ele— ela disse, estendendo as mãos para ele.
É claro que ele se importaria se ela morresse, mas o aval dela foi decisivo. Edward a puxou para perto, e logo sentiu o poder de Henrietta fluindo para dentro de si, sem nenhuma resistência.
A voz de Henrietta se uniu à de Edward, entoando línguas que ela nunca aprendera, invocando feitiços dos quais ela nunca havia ouvido falar. Sua existência, seu sofrimento, tudo começava a fazer sentido. Sempre havia existido magia dentro dela, ela havia nascido da magia, e estava retornando para ela. Mesmo que aquilo custasse sua vida. E morrer era o menor de seus temores. O que mais queria era justiça, assim como Edward, e não estender uma vida sem propósito por mais tempo.
Com uma explosão final de luz dourada, o ritual foi concluído.
Adelaide, Augustus, Cecily e Mihai, que só puderam observar o fim do ritual, tiveram esperança de que tudo estivesse acabado, finalmente. Eles viram os pés de Edward e Henrietta, flutuando no ar até então, tocando o chão, e a Líder da Ordem se apoiando no braço do feiticeiro.
Esperança é algo perigoso, leitor.
Essa história já está se aproximando de seu fim, mas esse não é ele. Não ainda. Por mais que você também possa ter essa mesma perigosa esperança que o pior já passou, ele ainda está por vir.
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