Arsonist's Lullaby- Interativa
25 XXIV- Champagne Problems
Notas iniciais
Eu sempre achei interessante, caro leitor, como pessoas comuns também são capazes de pequenos rituais semelhantes à magia.
Cristais, olhos gregos, círculos de sal; enfim, toda espécie de superstição e misticismo, tem algum fundamento nos princípios da feitiçaria real. É claro que alguns são mais efetivos do que outros, e mais próximos dos rituais realmente mágicos. Mas, em seu cerne, todos são baseados, ainda que vagamente, no que os usuários de magia genuínos fazem ou já fizeram ao longo dos séculos.
Intuição, particularmente, é algo que sempre achei de certa forma sobrenatural. Próxima demais à magia premonitória de Luz para algumas pessoas; acurada demais, ao ponto de chegar a ser assustadora.
Mas Leonard Cohen nunca havia sido um sujeito intuitivo. Tudo o que concluía era através de observação cuidadosa e análise meticulosa dos fatos, e não de alguma espécie de revelação ou sexto sentido.
Talvez por isso ele não tenha estranhado o fato de estar dançando com uma viúva jovem e bonita, e também muito acima de si em posição social para estar dando bola para alguém como ele. O sucesso que tivera com Cecily talvez tivesse lhe subido à cabeça, pois ele agora estava achando muito natural receber atenção das damas da alta sociedade.
Logo depois do desmaio de Cecily ter sido apropriadamente manejado, o baile havia voltado à sua animação anterior, talvez com o incentivo extra de uma nova fofoca estar em circulação. A fofoca era, é claro, como é sempre seu hábito, ligeiramente distorcida e cruel, mas isso parecia apenas agradar à massa de aristocratas ainda mais.
—É a vergonha de ter se apaixonado por um plebeu— Leonard havia ouvido uma jovem dizer— Ainda mais depois dela ter sido tão soberba com seus pretendentes mais nobres.
—Bem, pode ter sido simplesmente o calor de estar nos braços dele— uma outra mocinha havia replicado— E que braços!
É desnecessário dizer que este último comentário apenas inflou ainda mais seu ego, que já estava bastante crescidinho naquela noite.
Parte do plano era manter as pessoas no salão distraídas por tempo o suficiente para que Charlotte fizesse sua parte sem ser interrompida. E, para isso, Leonard já tinha em mente o que deveria fazer: causar um escândalo ainda maior.
Ele olhou ao seu redor, com um certo ar de tédio, de displicência. Por dentro, estava medindo e avaliando cada um dos presentes, tentando bolar um modo de capturar a atenção de todos novamente. Até que seu olhar encontrou um outro, intensamente verde e brilhante, e ele decidiu que seu alvo estava definido.
A mulher estava conversando com Lorde Forrest Douglas, o que tornava tudo ainda mais fácil e apropriado para ele. Era bonita, muito bonita, daquela maneira composta e ligeiramente fria que as mulheres da nobreza costumavam ser. Deveria ter a idade próxima da de Leonard, mas não usava uma aliança em seu dedo. Ainda assim, seus cabelos castanhos estavam presos em um coque elaborado, e não parcialmente soltos, como os das debutantes. Provavelmente era uma viúva, e, pelo seu porte, pelos seus trejeitos, pelo seu modo de vestir, ela claramente possuía um título alto, e um finado marido de certa importância.
Ainda assim, esse ar de superioridade não a impedia de encarar Leonard. Ela provavelmente pensava que estava disfarçando bem, mas para ele era claro e perceptível como os olhos dela sempre voltavam para ele de esguelha. Havia uma certa curiosidade, mas também um certo interesse que ele sabia distinguir muito bem, no olhar dela. E tudo isso contribuiu para sua decisão.
Ele largou a bebida que segurava desde o desmaio de Cecily, se levantou de seu assento, e começou a caminhar com passos firmes até ela.
Durante todo o trajeto, ele tomou nota dos olhares dos mexeriqueiros, e do ar de descrença que ela esboçou ao vê-lo se aproximar.
—Senhor Cohen— Lorde Forrest Douglas o cumprimentou, reconhecendo sua presença, mesmo que ligeiramente a contragosto— Vejo que está aproveitando bastante o baile.
Leonard não deixou de notar o tom de amargura em sua voz, provavelmente devido ao fato que o Lorde odiava Cecily Campbell desde que ela recusara seu filho publicamente. O que certamente ele considerou o cúmulo da humilhação.
—Deveras, Lorde Forrest— Leonard se limitou a replicar, abrindo um grande sorriso— E quem seria essa adorável senhora?
A mulher arqueou uma sobrancelha. Isso desencorajou Leonard parcialmente, pois estava claro no silêncio dela até então que ela respeitava o protocolo. Estava esperando uma apresentação formal, e talvez não fosse se rebaixar ao ponto de dançar com um simples “senhor” quando ela estava conversando com um “lorde” até então.
—Senhor Cohen, essa é a Duquesa Henrietta Raycraft— Lorde Forrest apresentou, meio a contragosto— Duquesa, esse é o Senhor Leonard Cohen, do Parlamento.
A mulher hesitou, mas por fim estendeu a mão, que Leonard beijou com certa avidez.
—Estou encantado, Duquesa— ele disse, abrindo mais um sorriso— Eu suponho que o Duque não irá se ofender caso eu a convide para a próxima dança?
Henrietta riu. Havia um certo fio de ironia cortante no timbre da sua voz. Leonard logo decidiu que ela certamente era uma mulher interessante.
—Meu caro Senhor Cohen, o Duque está morto há quase quinze anos. Eu não suponho que ele vá se ofender se eu me permitir a indulgência de uma dança com um jovem bem apessoado— ela respondeu— Isso, é claro, se Lorde Forrest consentir em abrir mão da minha presença. Estávamos tendo a conversa mais interessante sobre as fábricas que vocês estão abrindo antes de você chegar.
Se Leonard já não estivesse planejando incriminar Lorde Forrest por assassinato e tomar controle de suas posses, ele teria ficado um pouco assustado com o olhar fumegante de ódio que o lorde lhe lançou naquele instante.
—Esteja à vontade, Duquesa— ele disse, respeitoso, embora Leonard ainda conseguisse notar a insatisfação dele— Mas se eu puder ter a ousadia de requisitar a dança depois dessa, a senhora me faria o homem mais feliz desse baile.
Henrietta sorriu suavemente, e assentiu.
—Será um prazer— ela concordou, e então aceitou o braço que Leonard oferecia para arrebatá-la dali.
Ainda sentindo o olhar raivoso de Lorde Forrest em sua nuca, Leonard conduziu Henrietta até o centro do Salão, satisfeito com a reações de supresa e choque que estava obtendo com tal gesto.
Os fofoqueiros estavam a mil novamente, e ele sabia que ninguém tiraria os olhos dele tão cedo.
A música começou a tocar, e Leonard e Henrietta inclinaram-se em suaves mesuras, um de frente para o outro. Então ele cingiu a cintura dela com um de seus braços, sua outra mão segurando suavemente a mão da dama.
Ela tinha um certo aspecto de fragilidade em sua aparência, mas essa impressão não se confirmou ao tato. Henrietta era magra, esguia, porém era possível sentir músculos firmes por debaixo das numerosas camadas de seu vestido, e foi apenas com a proximidade que Leonard percebeu que ambos tinham praticamente a mesma altura.
Ela tinha uma suavidade impressionante ao valsar, uma graça natural e característica de sua pessoa. Leonard a acompanhava com facilidade, é claro, sendo ele mesmo um exímio dançarino. Mas algo no modo que ela se movia era de certa forma intimidante; ela deixava-se ser conduzida pelo seu parceiro, mas nunca desviava o olhar do de Leonard, nunca dava a impressão que estava totalmente sob seu controle.
—Sabe, Senhor Cohen, eu ainda não sabia muito bem o que eu iria fazer se você não tivesse me convidado para dançar— ela comentou, após uma pirueta elaborada que os deixou especialmente próximos.
Aquilo era… um flerte? Leonard ficou confuso, sem saber o que responder por alguns segundos. O olhar dela era firme, sua voz séria. Não havia o mínimo indício de insinuação em sua expressão. Era um flerte estranho, mas ele decidiu responder como se fosse um flerte, independente da estranheza.
—Bem, senhora Duquesa, eu estava decidido a dançar com a dama mais bela do salão— ele replicou— Foi extremamente conveniente que ela estivesse conversando logo com o meu parceiro de negócios.
Inesperadamente, Henrietta riu. Mais uma pirueta, que ela executou em um rasante ousado, a saia esvoaçando ao seu redor, algumas mechas de cabelo castanho escapando do coque; e logo estavam novamente um de frente para o outro.
—Conveniente não, Cohen. Calculado. A Ordem está de olho em você há tempos, e nós precisávamos garantir que você não escapasse do salão de bailes enquanto os outros agente lidam com Charlotte— ela respondeu.
Leonard imediatamente sentiu o corpo inteiro se tensionar, o choque de ser pego desprevenido provavelmente transparecendo em seu rosto.
Ele percebeu tarde demais que, durante toda a dança, não era ele quem a estava segurando e conduzindo; era ela quem o mantinha em uma armadilha de seda pálida e olhos verdes.
—É, você me pegou, agente— ele forçou uma expressão de pouco caso— Mas não foi muito esperta de me avisar suas intenções. Ainda tenho tempo o bastante para escapar.
Henrietta arqueou uma sobrancelha.
—Estou te dando uma oportunidade de se entregar pacificamente, Leonard. Sem alarde, sem violência. É só permanecer no salão até que um dos nossos agentes venha te buscar para o interrogatório— ela disse— Mas se quiser da maneira difícil, tudo bem. Sinceramente, é possível que seja até mais divertido assim.
Leonard sorriu de volta, com alguma presunção.
—É isso o que vamos ver, Duquesa— ele disse, conforme a música finalmente se findava— Obrigado pela dança. É sempre um prazer dançar com uma bela dama, apesar das ameaças.
—Igualmente, Cohen. Te vejo no interrogatório.
Leonard ainda manteve a ameaça em mente enquanto fazia sua mesura e se separava de Henrietta, começando a procurar uma rota de fuga.
O salão estava tão cheio que ele ainda estava confiante de que não encontraria dificuldades para escapar. Entretanto, também sabia que, justamente por ter se colocado em destaque a noite inteira, havia sabotado a própria discrição em meio à multidão. Deveria ser rápido, e decisivo, portanto, ao se encaminhar para saída escolhida, achar um transporte, e finalmente desanuviar o ar do baile de sua presença.
Ele logo encontrou o que procurava em uma porta lateral, que provavelmente se abria para algum corredor interno do palácio. Não parecia estar vigiada, e ficava em um dos cantos mais ermos do salão.
Leonard procurou passar em meio às parte mais densamente povoadas da multidão, fazendo questão de se mover em zigue-zague, aleatoriamente, para despistar qualquer um que pudesse estar observando. Alcançou a porta escolhida dentro de alguns minutos, e suspirou de alívio ao perceber que estava, de fato, em um dos corredores internos e desertos do Palácio.
Estranhou que não houvessem guardas ali, mas decidiu não reclamar da sorte grande. Olhando ao seu redor, ele encontrou uma janela que dava para o pátio, e estava prestes a sair por ela quando ouviu o som de uma arma engatilhando atrás de si.
—Eu não faria isso se fosse você— uma voz feminina, jovial, avisou.
Leonard se virou, percebendo que a ameaça havia se cumprido: realmente a Ordem estava de olho nele.
A garota que apontava a arma para ele estava vestida de criada, e não parecia ser muito mais velha que uma adolescente. Era baixa, tinha cabelos curtos, castanho-claros, e grandes olhos escuros. A expressão era dura, principalmente para alguém que parecia tão jovem e tão frágil.
—Garota, você sequer sabe usar isso?— ele debochou, indicando a arma dela.
A agente, inesperadamente, sorriu.
—Lady Raycraft avisou que você era engraçadinho— ela replicou— Mas é irrelevante se sei eu atirar ou não, Leonard. Eu sou apenas a distração.
Tarde demais, Leonard sentiu a dor aguda, fina e perfurante, na parte de trás de seu pescoço. Teve tempo de se virar debilmente e de ver a silhueta da seringa de sedativo, e do jovem que a empunhava, antes de ser completamente envolto pela escuridão.
—Eu não acredito que deu certo— Digory Pembrook murmurou, ainda segurando a seringa com as mãos trêmulas.
Polly deu de ombros.
—Claro que deu certo. Não teriam confiado em nós se não soubessem que iria funcionar— ela disse, se abaixando e começando a arrastar o corpo de Leonard— Droga, ele é mais pesado do que parece. Pula pra dentro e me ajuda, Dig. Nós temos que levá-lo até a carruagem.
Vou poupar o leitor do processo sofrido, e desengonçado, que foi arrastar o corpo de Leonard; e também dos processos que envolveram transportar o corpo de Cecily, do outro lado daquele mesmo Palácio, e pular para o que importa: o interrogatório.
Cecily Campbell acordou em um lugar consideravelmente mais confortável do que o cativeiro reservado para Leonard Cohen. A única precaução que havia sido tomada foram as algemas cravejas de obsidiana ao redor de seus pulsos; exceto a isso, estava perfeitamente confortável, em uma cadeira forrada de couro, dentro de um pequeno escritório. Afinal, ninguém ainda acreditava completamente que ela tivesse machucado alguém, diferente de Leonard, que claramente não tinha boas intenções ao se aliar a Charlotte.
A pessoa que Cecily viu primeiro foi Antigone. Haviam decidido deixar os agentes mais experientes conduzir o interrogatório, e, portanto, Antigone cuidaria de Cecily; Henrietta cuidaria de Leonard. Também acharam sábio deixar Adelaide a postos durante o interrogatório de Cecily, afinal, fora ela quem a contivera durante seu surto sobrenatural, e era ela quem havia aprendido o ritual de contenção dos poderes de Hierofante. Augustus, portanto, ficou com Henrietta, caso Leonard tentasse mais alguma gracinha.
Pollyanna Pembrook, por suposto, foi expressamente proibida de comparecer ao interrogatório de sua patroa e amante secreta, por mais aflita que estivesse com as revelações. E, conhecendo todos os personagens desta história, leitor, e sobretudo a audácia de Polly, posso afirmar que essa foi uma decisão sábia.
Se você pudesse responder às minhas perguntas, caro leitor, eu perguntaria qual dos dois interrogatórios você gostaria de ver primeiro. Como isso é impossível, vou decidir por nós dois. Foquemos primeiro em Cecily, depois em Leonard. Afinal, todo o começo desse capítulo já esteve focado em nosso adorável vigarista, e até agora nada de muito substancial foi revelado sobre Condessa com poderes ocultos.
—Olá, Cecily— Antigone disse assim que a Condessa abriu os olhos— Como você está se sentindo?
Cecily olhou ao seu redor, absorvendo o ambiente desconhecido do escritório. Reconhecia Antigone de bailes e eventos da alta sociedade, mas não sabia quem era a outra mulher; e sequer o que estava fazendo ali. Suas pálpebras ainda estavam pesadas, seu corpo, fraco, e ela sentia uma dor pulsante, insidiosa, em sua cabeça.
—Lady Lascelle?— ela questionou, estranhando as circunstâncias nas quais se encontrava— Onde eu estou? O que está acontecendo?
—Cecily, você pode estar tendo sintomas estranhos agora. Isso é porque você usou magia, muita magia, antes de desmaiar— Antigone continuou falando, medindo as reações dela cuidadosamente— Você se lembra de alguma coisa?
Cecily soltou uma risada de descrença, ainda completamente desacostumada com como aquelas pessoas insanas falavam sobre magia tão naturalmente.
—É claro que não me lembro, eu não sou doida. O que é isso, afinal? Um hospício? Eu te garanto que não sou louca, não acredito em magia, nem em feiticeiros, nem em outra maluquice que Leonard Cohen esteja espalhando por aí— ela disse, ainda sem crer completamente na situação bizarra na qual se encontrava.
A outra mulher deu um passo à frente. Ela era um pouco mais jovem que Antigone, e tinha pele morena, cabelos escuros, e uma expressão muito desconfiada em seus olhos castanho-claros. Seria bonita, se não estivesse com a roupa suja de fuligem, e aparas do que parecia ser madeira grudadas em seu cabelo.
—Cecily— a voz dela era calma, apesar da expressão dura— Magia não é sempre abracadabras e explosões, embora possa ser também. Às vezes são coisas pequenas, que você nem se dá conta de que está fazendo. Pequenas intuições, ou deja vus, ou premonições. Às vezes é sempre conseguir o que você quer, sempre fazer com que coisas improváveis aconteçam se você as quiser com vontade o suficiente. Às vezes são coisas ruins acontecendo com seus inimigos sem que você possa explicar, por mais improvável que pareça. Às vezes são coisas estranhas que insistem em acontecer ao seu redor, e que você não consegue controlar, mas não consegue fugir.
Cecily desviou o olhar do dela, encarando os seus sapatos por alguns segundos. Trechos de memórias começaram a reavivar em sua mente. Logo antes do desmaio, de como ela havia sentido uma sensação explosiva da raiva e do medo de ter sido enganada e capturada. De como aquele ódio parecia porejar por sua pele como chamas vivas. Se lembrou ainda de seu noivo, de seu finado futuro marido, que havia morrido em um acidente tão improvável e inconcebível. E de quão ardentemente ela havia desejado que ele morresse. Talvez fosse hora de admitir que algo que não era totalmente normal e natural estivesse se enraizando em sua vida.
—Eu… o que você está falando não tem sentido. São apenas coincidências. Eu nunca machuquei ninguém, nunca quis machucar ninguém. A culpa de nada disso é minha— ela disse, mas sua voz saiu fraca, sem muita convicção.
Antigone puxou uma cadeira, e se assentou de frente a Cecily. A expressão dela nada delatava, nada revelava, mas havia um brilho de algo semelhante a medo em seus olhos cinzentos. Cecily se perguntou se seria medo dela. Talvez ela fosse algo a ser temido, e nunca tivesse percebido.
—Eu vou te contar uma história, Cecily. A história de um homem chamado Joel Aubert, que nos foi contada pela filha dele— Antigone começou— A história de como ele realizou um ritual que ele não entendia muito bem. E de como esse ritual gerou uma criança impregnada de um tipo de magia que nenhum de nós pode controlar. Talvez ao final da história você entenda melhor quem nós estamos achando que você possa ser.
E Antigone lhe contou tudo. De como esse homem, Joel Aubert, usava magia para ajudar casais inférteis a terem filhos. Por um preço, claro. De como uma mulher nobre o havia procurado, e nenhum dos poderes dele pudera ajudá-la. Até que ele usou a magia contida em um livro antigo, milenar, obtido na biblioteca de sua sogra. Uma magia estranha até mesmo para pessoas como ele, magia que misturava duas fontes que jamais deveriam ser misturadas: Luz e Sombras. E que desse ritual havia surgido uma criança, que, desde o ventre da mãe se mostrou instável e perigosa.
A criança era a única de seus pais, assim como Cecily. A mãe havia morrido no parto, assim como a mãe de Cecily. Tudo havia acontecido pouco mais de 20 anos antes, o que batia com a idade de Cecily.
—E é por isso que achamos que você possa ter algo a ver com os incêndios que estão acontecendo pela cidade— Antigone terminou de explicar— O anel que você estava usando esta noite costumava pertencer a Joel Aubert, e é uma joia amaldiçoada. O que quer dizer que é um potencializador para pessoas com magia de Sombra, e, no seu caso em específico, isso pode ter tornado seus poderes ainda mais instáveis.
Cecily não sabia o que dizer. Deveria chamar Lady Lascelle de louca, negar profusamente, não levar sequer uma palavra a sério. Mas tudo o que ela conseguiu fazer foi chorar. Copiosamente.
—Nós não estamos dizendo que é culpa sua— a outra mulher se aproximou, se ajoelhando na frente de Cecily e colocando uma mão em seu ombro— Você não sabia como controlar os dons que tem. Se as coisas aconteceram, foram apenas acidentes.
Aquilo explicava tanta coisa. E aquela velha sensação de culpa voltou a oprimir o peito de Cecily com a potência máxima. Fazia sentido que se sentisse culpada pelas mortes estranhas que sempre pareciam persegui-la. Realmente era tudo culpa dela. Cada uma daquelas improváveis tragédias tinha sua origem e explicação nela, em seus desejos obscuros, na escuridão que sempre carregou dentro de si sem saber.
—Tem alguma maneira de me livrar disso?— ela perguntou, quando por fim conseguiu controlar seus soluços— Alguma maneira de consertar o que eu fiz?
—Não, Cecily, você nunca vai conseguir se livrar dos seus poderes. Mas você pode aprender a mantê-los sob controle. E você pode usá-los para nos ajudar a parar esses incêndios de uma vez por todas— Antigone respondeu.
Cecily Campbell limpou as lágrimas com as costas das mãos. E então assentiu, determinação brilhando em seus olhos azuis.
—É o que eu vou fazer— ela disse.
O leitor provavelmente já espera que o interrogatório de Leonard Cohen seja bem menos suave e produtivo do que esse, e está certo nessa expectativa. Sendo uma pessoa propensa às evasões, Leonard era um alvo menos que ideal do qual extrair informação. Ainda assim, Henrietta estava determinada a fazê-lo falar.
—Tudo bem, Cohen. Eu sei que Charlotte Griffin e você estavam de conluio. E, ao que tudo indica, ela é uma assassina em série de feiticeiros, que copia os métodos do Incendiário original. Então, se você quer tirar o seu fora dessa, é melhor contar tudo o que sabe— a Líder da Ordem afirmou, a postura rígida e o olhar firme.
Augustus, que observava o interrogatório no fundo da pequena sala, havia compartilhado com Henrietta todas as suspeitas de Adelaide sobre um agente da Ordem estar cometendo uma parte dos crimes. Sobre os assassinatos de Fred Wilson e Joel Aubert terem sido cometidos sem uso de qualquer magia, e com uma tentativa de copiar os métodos do Incendiário. E tudo apontava para Charlotte Griffin, inclusive a captura de Cecily Campbell, e a frase que ela havia deixado escapar ao ser confrontada poe Antigone e Augustus.
Ainda assim, Leonard não pareceu particularmente intimidado pela fala de Henrietta. Havia acabado de acordar, passado o efeito do sedativo que Digory lhe havia administrado, mas não parecia muito afetado pela circunstância toda.
—Seria um prazer te contar tudo, milady, se eu ao menos soubesse alguma coisa a respeito desse assunto— ele abriu um sorriso evasivo, o tom de voz vago e agradável conforme ele olhava ao seu redor, absorvendo o ambiente— A Ordem é mais organizada do que eu pensava. Escritórios bonitos, agentes competentes. Eu sequer vi o menino com a seringa até que fosse tarde demais.
Estranhamente, Gus sentiu uma pontada de orgulho ao ouvir aquilo. Afinal, fora ele quem treinara Digory nos últimos meses, e não poderia deixar de nutrir um sentimento quase paternal em relação ao garoto e ao enorme crescimento que ele tivera em tão pouco tempo.
Henrietta não pareceu se distrair com a tentativa de fingir naturalidade de Leonard. Augustus também não acreditava que ele soubesse tão pouco quanto afirmava saber, e muito menos que sentisse toda a calma que projetava com sua postura de pouco caso. Em realidade, acreditava que Leonard tinha tanta culpa no cartório quanto alguém poderia ter, embora duvidasse que aquele interrogatório fosse acabar sendo proveitoso.
—Sim, Leonard, nossos agentes são mesmo muito eficientes— Henrietta concordou— Então por isso mesmo que eu pararia de enrolação, se eu fosse você. Se não quer falar por bem, vai ter que ser por mal. E ninguém lá fora vai sentir sua falta tão cedo.
Augustus sabia que aquelas eram ameaças vazias: a Ordem não torturava ninguém desde os tempos de Chapman, o Líder de três gerações antes, mentor do mentor de Henrietta. Ainda assim, Leonard não sabia disso, e uma pequena pontada de medo atravessou rapidamente seu semblante até então confiante.
—São bem interessantes os métodos que a Ordem desenvolveu para combater magia, sabe?— Henrietta continuou falando— Nos obrigou a ser criativos, e, no final das contas, o que funciona para pessoas com poderes sobrenaturais também funciona perfeitamente bem em pessoas normais. Talvez até um tanto melhor.
Leonard se remexeu, desconfortável, no assento no qual tinha suas mãos amarradas. Augustus conseguia ver que ele tinha um instinto de autopreservação aguçado. Apesar da audácia com que se portava, era inteligente o suficiente para perceber que a situação não lhe era nada favorável, e que precisaria negociar e ceder para sair ileso.
—Bem, eu não vejo porque mentir para vocês. Sim, você está certa. Charlotte Griffin é uma assassina em série, e buscava atacar especificamente feiticeiros. Ela admitiu para mim já ter feito algumas vítimas, mas eu não tive participação nenhuma— ele admitiu, ainda tentando aparentar calmo, mas Augustus conseguia enxergar as finas gotas de suor se formando nos cantos de suas têmporas mesmo à alguma distância.
Henrietta aparentemente também conseguia. Pois ela arqueou uma sobrancelha ao ouvir a última frase, não parecendo muito convencida.
—Não teve participação nenhuma, é mesmo? Cecily Campbell certamente gostaria de discordar. Ou vai tentar nos convencer que aquele desmaio foi pura coincidência?— ela questionou.
Ele deu de ombros.
—Campbell era uma feiticeira, não era? Pouco me importa o que acontece com esse tipo de gente, e também não entendo porque importa tanto para vocês. A Ordem está aqui para proteger cidadãos de bem, não bruxos— ele replicou— Eu não faria o que Charlotte faz, mas ela está fazendo um favor para todos nós.
Augustus concluiu que Leonard não tinha muita lealdade com ninguém além dele mesmo. Ele provavelmente falaria qualquer coisa para convencê-los de que deveria ser poupado, argumentaria sob qualquer dialética para obter clemência. Ainda assim, o ódio por feiticeiros foi a única coisa que soou genuína naquela frase, assustadoramente genuína. Augustus teve de conter uma careta, e desviar o olhar. Decidiu que não gostava nenhum pouco do homem, e que esperava que Henrietta acabasse com ele.
—E quem é Charlotte Griffin para decidir quem merece viver ou morrer? E quem é você para lavar o sangue das mãos dela?— Henrietta parecia irritada, algo que Augustus raramente a via parecer— Nenhum de vocês dois é ninguém, Leonard. E a Ordem não é um grupo de assassinos sem honra. Nós somos o escudo dos justos, não carniceiros.
Leonard encolheu os ombros, mas ainda fez seu melhor para se segurar à postura de calma e frieza.
—Não é meu interesse entrar nesse mérito, milady. Não gosto dos feiticeiros, como imagino que vocês também não gostem. Mas eu nunca matei nenhum deles— ele replicou— E eu não machuquei Cecily Campbell.
Henrietta respirou fundo, beliscando a ponte do nariz em uma tentativa de se acalmar. Augustus decidiu aproveitar a deixa, e se levantou de onde estava, caminhando até estar em frente a Leonard.
—Mesmo que isso seja verdade, Senhor Cohen, você sabia dos crimes de Charlotte, e em momento nenhum procurou nos contatar— Augustus disse— Isso é ser cúmplice. Você não é totalmente inocente nesse história toda.
Leonard alternou seu olhar entre Henrietta, que ainda parecia impaciente com ele, e Augustus, aparentemente mais calmo. Cohen pareceu decidir que tratar com Augustus seria mais fácil, pois manteve seu rosto virado para ele.
Ledo engano.
—E eu imagino que a Ordem realmente queira me punir por isso, mas eu sou mais útil livre— Leonard tentou argumentar— Eu posso ajudá-los a pegar Charlotte, se é isso o que vocês querem.
Augustus riu.
—Finalmente uma confissão de culpa— ele retorquiu— Por mim, você ficaria trancafiado, Leonard Cohen, mas, felizmente para você, nós temos outras prioridades no momento. E ameaças maiores que Charlotte, também.
—Sim, eu sei. Eu vi o maluco mágico que anda incendiando as coisas. E que matou o meu pai. Difícil não notá-lo— Leonard respondeu, ainda sem parecer muito apreensivo.
—Você não parece muito chateado com ele ter matado o seu pai— Henrietta observou— Estava bem feliz no baile hoje.
Leonard deu de ombros.
—O velho era um babaca. Sacrificou minha mãe em um ritual para ficar mais rico e poderoso. Sinceramente, estou feliz que ele morreu, e triste que não fui eu mesmo a despachá-lo— o tom de Cohen era frio, mas, pela segunda vez naquela conversa, Augustus viu sentimento genuíno em seu rosto.
Ódio, sempre ódio. Augustus tinha tanto medo de se tornar assim. Eram dois lados da mesma moeda, um homem injustiçado por feiticeiros, outro injustiçado pela Ordem. Quando aquele ciclo iria acabar? Quando todos estivessem mortos e esquecidos, meras cinzas manchando as mãos do Incendiário? Quando não sobrasse ninguém para matar e morrer?
—Magia de sangue. Um sacrifício que trás uma benção, uma morte que trás uma nova vida— Henrietta divagou, trocando um olhar pensativo com Augustus. Ele também estava pensando no Hierofante, em como todo ritual dele que trazia algum dom cobrava também uma tragédia— Você sabe se o seu pai tinha uma relíquia?
Leonard pareceu confuso.
—Eu… vou ser honesto com vocês. Desde que Aaliyah morreu, e eu descobri que ela era uma Iluminada, o que quer que isso seja, vim tentando descobrir o que exatamente o meu pai era. E eu acho que ele tinha sim uma dessas relíquias, me lembro de um pergaminho velho que ele guardava no cofre. Mas Aaliyah não tinha magia, tinha?
Augustus e Henrietta já tinham inferido a conexão entre Aaliyah, Leonard e George quando o assassinato de George havia acontecido. Ainda assim, o leve tom de tristeza que permeou a voz de Leonard ao falar da mulher morta o surpreendeu.
—Os Iluminados não deveriam ter magia, Aaliyah não parecia ter. O que seu pai fez ao usar magia foi um pecado capital. Eles deveriam impedir que o conhecimento daqueles objetos fosse usado, e não o usarem para seus próprios fins— Henrietta respondeu.
—Por que vocês simplesmente não destroem essas relíquias, então? Elas parecem trazer muito mais riscos que benefícios— Leonard perguntou. Novamente o desprezo pela magia permeava seu tom de voz e sua expressão.
—É impossível. Nenhuma magia ou ciência conhecida é capaz de destruir aqueles objetos— Henrietta explicou— Além disso, elas contêm instruções, adicionadas ao longo dos séculos pelos Iluminados, de como conter o mesmo tipo de magia que ensinam.
Gus pensou em Adelaide fazendo Cecily Campbell cessar seu surto mágico com apenas as palavras ritualísticas que havia retirado do livro de Mihai. Aquelas relíquias continham o veneno, mas também continham o antídoto. Os Iluminados haviam garantido aquilo. Se era impossível destruir aquele conhecimento, ele ao menos sempre teria como ser combatido.
—Então você só tem uma maneira de ser útil o suficiente para ficar livre, Cohen— Augustus concluiu— Nos ajudar a parar o Incendiário. Achar os outros Iluminados.
Leonard, mais uma vez, deu de ombros.
—Se todos os Iluminados já não estiverem mortos e enterrados, eu posso encontrá-los— ele disse, um tom de pouco caso permeando sua voz— Não deve ser muito difícil, para mim. Eu sou filho de um deles, afinal, deve contar de alguma coisa.
Augustus já estava mais que irritado com a postura forçosamente casual e o tom falso de Cohen, mas apenas assentiu.
—Nós temos suspeitas de que o Incendiário já tenha eliminado todos os Iluminados das redondezas de Londres. Talvez todos que vivessem na Inglaterra— Henrietta explicou— Eu enviei telegramas para a Ordem da França e da Itália, mas eles não tem muito conhecimento a respeito dos Iluminados, assim como nós não tínhamos. Sua melhor esperança de encontrá-los é o exterior, Leonard, mas mesmo lá, não vai ser uma tarefa fácil.
Leonard assentiu.
—Se meu pai pôde encontrá-los, eu também vou conseguir— ele replicou.
Henrietta e Augustus se entreolharam. A confiança excessiva ainda era um pouco irritante, mas, se ele realmente pudesse entregar o que prometia, seria de grande ajuda.
—Só não ache que essa é uma boa oportunidade de fugir, Cohen— Henrietta continuou, com um leve tom de ameaça— A Ordem está por toda a Europa, e pela maior parte do mundo. Todos os agentes receberam uma cópia da sua foto, e estarão te vigiando. Cada passo da sua jornada estará sendo assistido, então não tente nada tolo.
—Se você sair da linha, vai ser trancafiado— Gus concluiu— Simples assim.
Leonard riu.
—Vocês não são as primeiras pessoas perigosas com quem me envolvo— ele respondeu— Acho que vou me sair melhor do que vocês esperam.
Henrietta e Augustus estavam escolhendo uma estratégia arriscada ao confiar em Leonard, caro leitor, por mais que realmente tivessem a certeza de que ele seria vigiado em cada passo de seu caminho. Mas não posso realmente condenar a decisão como tola. Os Iluminados pareciam ter, de fato, um certo apego a estruturas familiares, e era bem mais provável que se abrissem com o filho de um membro do que com um agente da Ordem que surgisse bisbilhotando e fazendo todas as perguntas erradas.
É claro que eles também poderiam ter pedido a ajuda de Zoe Rodaki, mas não seria uma decisão sábia, quando ela parecia tão instável, e o Incendiário estava claramente atrás do sangue da garota. Leonard já havia sobrevivido a um encontro com o Incendiário, e, além disso, a perda dele não faria muita diferença ou causaria culpa em nenhum dos agentes. Parecia a oportunidade perfeita de matar dois coelhos com uma cajadada só: garantir que Leonard não fosse causar mais problemas; e encontrar outros Iluminados.
Ainda assim, devo admitir que eu não faria o mesmo, se estivesse na posição dos dois. Medidas de tempos de guerra são questionáveis, por vezes extremas, mas ultimamente eu estou cada dia mais inclinado a acreditar que certo e errado são conceitos reais e palpáveis, não apenas relativizações de momentos de desespero. Que a bondade e a maldade são como água e óleo, e que se aliar com alguém questionável demais pode te tornar questionável, também. Se você permite que alguém com as mãos sujas de sangue toque as suas mãos, elas ficarão manchadas também.
Mas do que eu sei, afinal, leitor? Mãos sujas de sangue talvez possam ser um testemunho a todos os sacrifícios feitos em prol daqueles que você ama, tanto quanto podem ser a marca de corrupção irreversível. Embora, na maior parte do tempo, mãos sujas de sangue sejam o exato motivo pelo qual as pessoas sucumbem e definham, independente de como elas as conseguiram.
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