Arsonist's Lullaby- Interativa
26 XXV- Canary In a Coal Mine
Notas iniciais
Uma garoa fina, mas fria e cortante como uma chuva de alfinetes, castigava Charlotte Griffin em sua fuga pelos subúrbios londrinos.
Ela sabia que tinha que sumir da cidade, e depressa. Antes que a Ordem percebesse suas intenções de escapar do país, e antes que tivessem tempo de articular-se para sua captura.
Charlotte havia enrolado um sobretudo por cima de seu disfarce de criada, e prendido os cabelos dentro de um quepe, esperando que isso fosse ajudá-la a se misturar aos transeuntes e chamar menos atenção. Já havia ido até seu esconderijo, pegado o que restava do dinheiro, e agora se encaminhava até os portos. Esperava comprar uma passagem no primeiro navio que estivesse saindo em direção ao leste, e desaparecer em algum país que tivesse menos presença da Ordem.
Aquilo era um contratempo para seus planos, mas ela não se sentia completamente frustrada. Ainda tinha em si a resoluta certeza de que poderia continuar seus desígnios sombrios em terras longínquas, inacessíveis a quaisquer leis e regras impeditivas. Tudo o que precisava fazer era sair dali sem ser pega.
Os portos estavam cheios de homens barulhentos, como a maior parte dos lugares que ela costumava frequentar sempre estavam, apesar do horário tardio. Logo seria o auge da madrugada, a noite ia tão avançada quanto as horas que circundam a meia-noite costumavam ser. Não era tarde o suficiente para que os marinheiros estivessem dormidos, ou desmaiados, após suas generosas libações. Ainda assim, em seu disfarce, ela passou relativamente desapercebida, e conseguiu chegar até um dos navios que sabia ser russo.
Ela havia dormido com o primeiro imediato da embarcação há alguns meses; ainda se lembrava da sensação daquela barba distintamente loira contra sua pele, mas duvidada que ele fosse reconhecê-la vestida como estava. Teve a sorte adicional de achar o contramestre, não o imediato, no convés.
O contramestre era um homem loiro (Charlotte estava começando a achar que a maioria dos russos eram loiros), mas bem mais velho que o imediato. Deveria ter em torno de cinquenta anos, pele sardenta devido à exposição solar de longa data, rugas pesadas ao redor dos olhos. O cabelo era em um tom de dourado mais escuro, também, quase castanho, e ele não tinha barba. Estava sozinho no deque, com uma garrafa de vidro parcialmente vazia na mão, e os primeiros botões da camisa desabotoados, apesar do frio.
—Ei!— Charlotte chamou e assobiou, para chamar sua atenção.
O homem imediatamente se levantou a caminhou até ela. Inclinou-se sobre a amurada, e apertou os olhos, em uma tentativa fútil de distingui-la no meio da escuridão.
—O que você quer?— ele perguntou, em inglês. Não havia necessariamente hostilidade em seu tom, mas alguma impaciência.
Charlotte sabia que aquele navio era de carga, não de passageiros, mas que eventualmente eles transportavam marinheiros, pelo preço correto. Pensava que estaria mais segura da Ordem ali, onde sua presença era menos esperada. E, acima de tudo, os países eslavos tinham uma ocupação consideravelmente menor da Ordem, quando comparados à parte Ocidental da Europa. Se conseguisse passagem ali, considerava que estaria suficientemente segura.
A mãe de Charlotte era francesa, e portanto ela conhecia a língua razoavelmente bem. Ainda se lembrava das canções marselhesas que Celine Griffin cantava para ela quando criança, então não teve muita dificuldade de evocar o idioma e começar a falá-lo, por mais enferrujado que estivesse.
—Companheiro, acabei de chegar da Normandia— ela forçou uma voz mais grave, mais masculina, torcendo também para que o sotaque não fosse tão horrível a ponto de delatá-la— O navio está um caco, vai ficar em reparos por meses; mas eu preciso chegar rápido à Moldávia para negociar uma outra carga. Por quanto você ajudaria um colega marujo, se tiver espaço no navio?
O homem, felizmente, parecia falar francês; mas um mau francês, o que ficou evidente no carregado sotaque da sua resposta:
—Nossa rota até Rússia, companheiro— ele pareceu refletir por alguns segundos— Mas eu parar em algum porto antes, você descer. Cinco libras?
Charlotte sabia que o preço estava um pouco caro, próximo ao que um navio de passageiros a cobraria, mas ela tinha dinheiro sobrando. Ainda assim, decidiu pechinchar:
—Eu só tenho três.
O homem pareceu refletir por um segundo, e então deu de ombros.
—Três justo. Mas você dormir junto com outros marinheiros— ele avisou.
—Por mim tudo bem— ela respondeu.
—Embarcar amanhã cedo. Quando sol nascer— o contramestre explicou— Trazer pagamento.
—É um trato— Charlotte concordou.
Um problema já estava resolvido, ela pensou, se afastando do barco, e voltando a se enfiar em meio aos becos. Só lhe restavam noventa e nove a mais para resolver.
O sol logo chegaria, e dissiparia a tensão daquela noite tão cheia de eventos inesperados. Mas, até lá, muitas horas ainda se passariam, e muitas paranóias poderiam fermentar na cabeça de Charlotte Griffin. Ela se assentou em um canto deserto do porto e limpou sua coleção de armas, uma por uma, com zelo e paciência, esperando a alvorada. O que quer que estivesse para vir, ela estava pronta. Se alguém tentasse provar seu sangue, iria provar sua pólvora primeiro, e ela sempre quis deixar aquele mundo com a explosão de um tiro ainda ressoando em seus ouvidos. E, para onde quer que o destino a levasse, ela tinha certeza que ainda ia fazer soar muitos tiros antes que atirasse o seu último.
Já deve ser evidente para nós dois, caro leitor, que corações sombrios são mais propensos a desígnios sombrios, como Charlotte vem a demonstrar. Mas também espero que esteja claro que a escuridão chega para assombrar mesmo aqueles que buscam a luz.
Mihai Beswick estava tendo uma noite tão difícil quanto todos os outros personagens de nossa história, embora em circunstâncias bastante particulares.
Ficar sozinho com Zoe no esconderijo não era sua ideia de paz e conforto, mas isso não seria tão incômodo assim, se ao menos ela não parecesse cada dia mais instável. Mas o pior de tudo sequer era a paranoia da jovem feiticeira; o pior de tudo é que ela muito provavelmente estava certa em sentir medo. O Incendiário realmente estava à espreita, e, com a operação da Ordem para vigilância do baile daquela noite, os dois estavam sem nenhum agente para protegê-los.
Quando a chuva começou a cair, foi como se o último fio de paciência que mantinha Zoe composta arrebentasse de repente. Mihai observou, igualmente apreensivo, conforme ela andava de um lado para o outro na pequena sala, seu desespero parecendo aumentar conforme os trovões começavam a ressoar pelas paredes da casa.
—Os mortos estão inquietos— ela murmurou, fixando seu olhar absurdamente azul em Mihai— Tem alguma coisa acontecendo, eu posso sentir.
O próprio Mihai não saberia afirmar se o sentimento de mau presságio que experimentava naquele momento era apenas uma reflexão da paranoia de Zoe, ou se sua magia também parecia ressoar na frequência ominosa que assolava a cidade naquela noite.
Ele decidiu que não importava; ficar gastando suas energias com medo desincorporado não era útil, ou necessário. Sabia muito bem que não era tão mais velho assim que Zoe, apenas dois anos os separavam, mas decidiu que ela precisava de uma figura madura e estável naquele momento para controlar sua própria ansiedade. E ele poderia fingir ser isso muito bem, apesar do próprio medo.
—Zoe, você poderia vir aqui?— ele perguntou, em seu tom mais gentil, e apontou o lugar ao lado de si no sofá.
Zoe o olhou com desconfiança, como costumava fazer sempre, apesar das semanas de coabitação que deveriam ter criado algum sentimento de familiaridade.
—O que você quer?— ela questionou, ao invés de obedecer.
Mihai deu de ombros.
—Sua ajuda com um feitiço— ele respondeu, sabendo que isso provavelmente atrairia a atenção dela— Minha mãe sempre me disse que esse funciona melhor com dois feiticeiros se concentrando.
Os olhos dela brilharam, e ela finalmente fez o que ele havia pedido, se assentando ao seu lado e cruzando as pernas sobre o sofá.
—Que feitiço?— ela o encarava diretamente, e Mihai conseguia ver que provavelmente estava desesperada para dar vazão às suas apreensões de alguma forma. E magia sempre era a forma preferida daqueles que abusavam cronicamente dela.
—É de Luz, mas isso não deve ser impedimento para você— ele explicou— É para manipular a sorte, trazer boa fortuna e proteção. É tradicional do meu povo, foi minha mãe quem me ensinou.
Zoe pareceu refletir por um segundo.
—Nós precisamos de sorte, nisso você está certo. E de proteção também— ela replicou— O que eu tenho que fazer?
Mihai quase sorriu ao ver a mudança repentina no humor dela; de hostil para prestativo em um piscar de olhos, simplesmente porque a oportunidade de invocar um feitiço lhe havia sido oferecida.
—Eu preciso que você me ajude a focar a energia— ele disse, estendendo a mão para ela— Minha mãe costumava pegar a minha mão e me mandar pensar em coisas boas, pensar em vezes em que a sorte me favoreceu.
Zoe soltou um risinho irônico, mas, mesmo assim, segurou a mão dele.
—Não são muitas— ela replicou— Eu não estaria aqui se a sorte costumasse me favorecer.
Mihai não se deixou desanimar pela relutância de Zoe. Podia sentir as pequenas cicatrizes na pele dela contra a sua, os dedos frios de quem passava mais tempo entre os mortos que entre os vivos. Isso não o intimidava, ele sempre havia tido luz o suficiente para dissipar qualquer penumbra.
—Pode ser qualquer coisa. Por menor que seja. Eu também não sou muito sortudo, mas esse ritual ajuda— ele explicou.
Zoe deu de ombros, e disse:
—Tudo bem. Eu preciso fechar os olhos ou alguma coisa assim?
—Só se te ajudar a se concentrar.
Ela fechou os olhos, e Mihai se sentiu aliviado. Zoe tinha os olhos de uma pessoa a quem não restava muita sanidade, e encará-los por muito tempo o fazia questionar a própria sanidade, também. Mihai, do mesmo modo, fechou os seus olhos, e começou a evocar as memórias mais felizes e afortunadas nas quais conseguia pensar.
Ele pensou em sua mãe, nos cachos de cabelo castanho, nos fios brancos começando a surgir nas têmporas. Pensou no sorriso dela, fácil e aberto, nas pequenas rugas que surgiam ao redor de seus olhos quando ela gargalhava. A última vez que a havia visto rir daquele jeito fora no aniversário de quarenta e cinco anos dela, quando Mihai a surpreendeu com um bolo que ele mesmo fez.
O som melódico da risada dela foi ecoado, de modo completamente inesperado, por outra risada, feminina e igualmente gentil, dentro de sua cabeça.
Mihai viu uma mulher mais velha, talvez beirando seus setenta anos, de cabelos pálidos, que mesclavam loiro e branco. Seus olhos azul-escuros eram gentis, pacientes, e o sorriso dela, estranhamente, o lembrou o da sua mãe.
Ele demorou algum tempo para conectar os pontos, e concluir que estava observando a avó de Zoe, Sofia Rodaki.
Aquilo nunca havia acontecido antes, e ele já realizara aquele feitiço com ajuda da sua mãe incontáveis vezes. Sempre que estavam para se mudar de cidade, antes de uma viagem longa e perigosa, era garantido que tirariam um tempo para se concentrar naquele feitiço. Mas, mesmo em todas essas vezes, ele nunca havia sido capaz de acessar a memórias que Leoni visualizava em sua própria cabeça. A sensação era muito similar à de quando usava seu feitiço de ver memórias em objetos antigos, mas menos instável. Como se ele estivesse sendo convidado a compartilhar daquela lembrança, e não a invadindo. Havia um sentimento de acolhimento, e não de perigo, na vivência daquelas cenas, sem o enorme esforço arcano que ele precisava exercer para acessá-las antes.
Na lembrança, Zoe parecia mais jovem, mas não muito. Mihai chutou que não era uma memória tão antiga assim, ela parecia ter catorze ou quinze anos, e seu cabelo estava um pouco mais comprido. Era como se Mihai estivesse vendo através dos olhos de Zoe, e não sendo um expectador, como no outro feitiço; e só conseguia distinguir o rosto da garota devido a ela estar assentada de frente ao espelho de uma penteadeira.
Sofia ria baixinho, e Zoe parecia um pouco emburrada, mas não tão emburrada quanto era atualmente. Sua irritação parecia fingida, pois um sorriso teimava em aparecer em seus lábios de tempos em tempos.
“Você deveria ter me pedido ajuda, minha vida”— a mulher mais velha falou em grego, mas, estranhamente, Mihai entendeu, porque Zoe entendia.
Zoe fez bico.
“Eu queria fazer uma supresa”— respondeu.
Mihai viu, através do espelho, que Sofia penteava pacientemente o cabelo de Zoe, acertando com uma tesoura as pontas tortas. O cabelo dourado ia caindo em pequenas seções, mas Zoe não parecia chateada, pelo contrário. Apesar de um pouco decepcionada com o próprio fracasso em cortar o cabelo sozinha, parecia feliz e grata com a ajuda da avó.
“Não ficou tão ruim assim na parte da frente”— Sofia admitiu— “Mas seus braços são curtos demais para alcançar a parte de trás, o cabelo ficou todo torto”
Zoe riu.
“Foi friamente calculado.”— ela teimou.
Sofia também riu.
“Claro que foi, minha vida. Você estava só querendo fazer estilo.”
Ainda com a sensação dos dedos de Sofia em seu cabelo, Mihai se viu voltando para suas próprias lembranças.
Ele tinha dez anos, e havia se perdido em uma cidade para qual eles haviam acabado de peregrinar. Um grupo de meninos mais velhos havia começado a implicar com ele, quando, de repente, sua irmã mais velha, Hadria, apareceu.
Ela era onze anos mais velha que Mihai, e bem mais alta, na época. Mais alta também que os meninos que estava implicando com ele. E, mesmo se não fosse, o pedaço de madeira que ela trazia em mãos teria feito o trabalho de espantá-los muito bem de qualquer maneira.
“Você deveria tomar mais cuidado, pequeno”— ela o havia abraçado quando os meninos fugiram, dando um beijo no topo de sua cabeça— “O mundo pode ser cruel com pessoas como nós”
Mas o mundo não parecia cruel ali, nos braços de sua irmã. Ele se sentiu protegido, apesar do perigo que havia acabado de passar. Hadria sempre fora sua protetora, foi ela quem insistiu que o marido os acolhesse quando o grupo queria expulsá-los devido ao pai de Mihai não ser um cigano, e ela era quem sempre enfrentava qualquer pessoa que tentasse ofendê-lo. Nem sempre ele entendia Hadria, ela parecia achar que o mundo era um lugar sombrio e desprezível, e às vezes ele tinha pena dela por pensar assim. Mas Mihai era grato por aquela proteção, e nunca poderia deixar de ser.
A lembrança de ser protegido por uma pessoa que não compreendia completamente o arrastou de volta para as memórias de Zoe.
Ele viu o pai dela, o que o surpreendeu. Ela nunca havia falado nada de bom a respeito de Joel Aubert, na verdade, era bem aberta com a história de abandono parental e suposta negligência desde então. Mas, naquela memória, ele estava ajoelhado de frente a Zoe, encolhida em uma poltrona e chorando. Os olhos dele eram muito parecidos com os dela, Mihai pensou, enormes, e assustadoramente azuis.
“São os fantasmas de novo? Sua avó me contou que você os está vendo cada vez mais, ultimamente”
Mihai não conseguia enxergar Zoe muito bem, afinal, era como se observasse tudo através dos olhos dela. Mas, nos pequenos detalhes, conseguiu ver que essa era uma memória antiga. Conseguia sentir o cabelo longo dela nas costas, então era uma memória anterior à de Sofia cortando as madeixas. As mãos de Zoe, visíveis segurando as de Joel, também pareciam menores, e ainda não havia nenhuma cicatriz ou marca nelas. Quando Zoe falou, a voz soou infantil, e vulnerável:
“Eu estava tentando procurar a mamãe. Mas não encontrei, e os outros mortos foram malvados”
Joel tinha uma expressão triste, que ele tentou disfarçar com um sorriso gentil.
“Você sabe o significado do seu nome, pequena?”— ele perguntou, e a menina negou com a cabeça— “Zoe significa “vida”. Os mortos vem até você porque você está cheia de vida, e de magia. Mas é justamente isso o que lhe permitirá controlar os fantasmas, se você quiser.”
A menina olhou para baixo, e depois levantou os olhos para o pai novamente.
“Nem todos são malvados”— ela admitiu— “Alguns só parecem perdidos. Outros me contam histórias. Você acha que eu poderia ser amiga deles, se aprendesse a usar minha magia?”
Joel riu.
“Você poderá ser bem mais que amiga deles, pequena. Eles vão te obedecer, como se você fosse uma princesa.”— ele respondeu.
Zoe sorriu de volta, parecendo satisfeita.
“Eu ia gostar disso”— ela respondeu.
Joel tirou um dos anéis que estavam em suas próprias mãos, um que estava em seu mindinho, de prata e ônix. Pegou uma das mãos de Zoe, e encaixou a joia em seu polegar, mesmo que ainda tenha ficado um pouco larga.
“Esse anel é encantado, vai te ajudar a ser obedecida”— ele explicou— “Você não precisa ter medo dos fantasmas, minha pequena. Eles que deveriam ter medo de você”
Mihai sentiu a memória se esvaindo aos poucos, e as mãos de Zoe, as mãos reais, presentes, apertadas às suas durante o ritual, tremiam. Pela reação, ele podia ver que momentos de ternura entre ela e o pai foram raros, e que aquele em específico lhe era muito querido.
Ele conseguia sentir a alegria daquelas memórias como uma bruma morna ao seu redor, aquecendo seu rosto apesar do frio da noite. Estava leve, como uma pluma, como se todo o medo e apreensões se dissipassem, e uma certeza de que tudo ficaria bem se apossasse de ambos.
Mas o ritual ainda não estava concluído. Seus lábios se moviam, recitando as palavras romani que sua mãe lhe havia ensinado, sua mão que não segurava a de Zoe desenhando gestos no ar. Ele ainda precisava de uma memória para concluir a proteção de maneira adequada, podia sentir que a névoa de azar e escuridão ao redor deles era particularmente densa, e precisaria de um ritual ainda mais forte para ser dissipada.
Então ele pensou em Digory. Sua maior fonte de luz e alegria ultimamente.
Pensou na primeira vez em que o havia visto, em como ele parecia triste e abatido, mas havia sorrido de volta para ele. E, naquele segundo, mesmo que os dois estivessem cheios de angústias, foi como se mais nada no mundo existe a não ser o brilho no olhar um do outro.
Ele pensou na primeira vez que o havia beijado, nas mãos trêmulas, no desespero misturado ao êxtase, nos cabelos atrapalhados e dentes se esbarrando. De como havia sido desajeitado, mas cheio de sinceridade, e de quão largo era o sorriso nos lábios de Digory quando se separaram dos seus.
Dessa vez, sua memória não ecoou nenhuma memória de Zoe. Ele percebeu que ela nunca havia se apaixonado, nunca havia sido beijada, nunca tivera tempo para romances inocentes em meio às tragédias da sua vida.
Estranhamente, depois de tirar essa conclusão, e sentir uma pontada de pena, Mihai teve uma premonição. Foi curto, e desfocado, mas ele conseguiu enxergar olhos castanho-claros, enormes, cercados de cílios escuros, estranhamente parecidos com os de Digory. Ele viu cabelos escuros e curtos, e um sorriso que era assustadoramente similar ao de seu bem-amado.
E ele viu esse rosto através dos olhos de Zoe, com extrema adoração e devoção, cercado de luz, corado e sorridente.
Aquela pequena esperança para o futuro, aquela migalha de conhecimento acerca de uma felicidade vindoura, foi o suficiente para lhe dar energia para finalizar o ritual. Com um sorriso no rosto, ele pronunciou a última palavra, executou o último gesto, e abriu os olhos.
Zoe estava sorrindo de volta para ele, parecendo completamente em paz, e um vago brilho dourado envolvia a pequena sala de estar, vazia exceto por aqueles dois jovens que se agarravam ao mesmo fino fio de esperança.
—Obrigada por isso, Mihai— ela disse— Estou realmente me sentindo um pouquinho mais sortuda.
Mihai estava prestes a responder, quando a porta da casa se abriu.
Isso deveria ter assustado a ambos, ou ao menos os sobressaltado, mas, após o feitiço, compartilhavam de uma estranha sensação de conforto e fé de que tudo ficaria bem.
E, de fato, a porta, ao se abrir, não revelou nada de assustador, muito pelo contrário. A proteção que eles haviam pedido chegara, a sorte de que eles tanto precisavam talvez estivesse finalmente do lado deles. Pois a pessoa que marchou esconderijo a dentro era a mesma jovem que Mihai enxergara no futuro de Zoe.
Ao vivo, em carne e osso, ela era ainda mais parecida com Digory. A mesma estatura delicada, os mesmos olhos, os mesmos cabelos, o mesmo sorriso. Os gestos dela eram um pouco mais confiantes, mas havia um certo brilho de uma timidez muito familiar quando seu olhar se focou em Zoe.
—Olá— a jovem disse— Eu sou a Polly. Polly Pembrook. Meu irmão Digory pediu para eu vir aqui ver se está tudo bem com vocês.
Mihai nunca vira os olhos de Zoe parecerem tão brilhantes antes.
—Então você veio nos proteger?— Zoe questionou, e Polly sorriu para ela e assentiu.
—O melhor que eu puder— ela respondeu, e então se virou para Mihai— Meu irmão falou muito de você. Mihai, certo?
—Sim— ele sorriu— E eu também já ouvi falar muito de você, Polly.
O universo agia de maneiras misteriosas na vida de Mihai Beswick, mas ele suspeitava que estava começando a compreender pelo menos uma pequena fração de seus propósitos. E, não pela primeira vez, ele teve fé que poderia enfrentar a escuridão, desde que continuasse tendo sorte o suficiente para usufruir daqueles pequenos momentos de luz.
O universo também andava agindo de maneira misteriosa para outro personagem dessa história, caro leitor, um personagem que, pelos últimos capítulos, se ausentou, de certa maneira.
Edward Waldford recebeu as notícias sobre a captura e a verdadeira natureza de Cecily Campbell com algum choque, embora muito rapidamente mitigado por seu raciocínio frio e imparcial.
Fazia sentido, afinal, que o ritual do receptáculo tivesse sido realizado várias vezes ao longo dos milênios, e que existissem alguns filhos da magia proibida espalhados pelo mundo. Várias seitas já haviam tentado ressuscitar o Hierofante várias vezes, então vários receptáculos haviam sido criados, por acidente ou não. Edward havia suspeitado que poderia haver ao menos um em Londres, tendo em vista os incêndios estranhos, mas que ele sabia não terem sido causados pelo Incendiário em si. Era o tipo de coisa que costumava acontecer às pessoas de magia não controlada quando ocorria um pico do sobrenatural em suas proximidades, aquele tipo de evento paranormal caótico e aleatório.
Seu único temor a respeito daquela situação era o quanto a Ordem poderia descobrir sobre o Hierofante agora que sabiam mais sobre seus rituais e o tipo de magia que ele empunhava. Os agentes já possuíam uma relíquia, e agora possuíam um receptáculo, embora eles certamente não soubessem que essa era a natureza do propósito da concepção de Cecily, estivesse Joel Aubert ciente ou não ao criá-la.
—É mesmo, Gus? Isso tudo é bem maluco, não acha?— Edward disse, após ouvir pacientemente o que seus irmãos lhe contavam, e escondeu a própria expressão atrás de sua xícara de chá.
Gus estava tagarelando com Adel na mesa do café da manhã, e era sempre um suplício para Edward ter que mentir para seus irmãos. Gus demonstrava claramente em suas falas que a Ordem, apesar das diversas pistas, ainda estava perdida, sem entender completamente o propósito dos artefatos aos quais tinham acesso. E Edward odiava o fato de que não poderia contar a verdade a Augustus e Adelaide. Não via seus irmãos há dias, e, no que deveria ser uma inocente refeição em família, tudo o que ele conseguia fazer era mentir.
—Uma loucura— Augustus concordou— Estamos tentando entender esses feitiços do Hierofante, mas muitos não parecem fazer sentido.
—Pois é— Adel concordou enfaticamente— Por que ele criaria um ritual para conceber uma criança com tanta magia? Para servi-lo? Para fundar mais seitas? Não consigo entender o que ele poderia querer com a criação de alguém como Cecily Campbell.
Mas Edward sabia. Passara anos de sua vida estudando cada detalhe, cada feitiço, cada lenda, a respeito do Hierofante. E ele sabia que um sacrifício específico era necessário para a ressurreição completa. Alguns textos falavam sobre uma donzela de sangue nobre, mas isso era um mero detalhe. O que era realmente essencial é que a pessoa sacrificada fosse capaz de receber o Hierofante em seu corpo sem ser completamente consumida. E apenas alguém com uma magia inata fortíssima seria capaz de suportar o ritual sem morrer antes do momento oportuno. Capaz de receber o Hierofante em seu próprio corpo, o ancorando àquele plano de existência, até que ele pudesse ser completamente libertado.
Nenhum dos feitiços das relíquias havia caído nas mãos erradas por acidente, então ele supôs que o nascimento de uma criança amaldiçoada por aquela magia profana tivesse sido do desejo do Hierofante, em algum nível. As pessoas que usavam aquela magia, incluindo Joel Aubert, simplesmente não sabiam que estavam servindo a um propósito muito mais sombrio ao serem seduzidas a proferir os feitiços. E todas elas acabavam permanentemente marcadas por terem tocado algo proibido e profano, nada poderia voltar a ser como antes daquela magia distorcida ter entrado em suas vidas. Sempre haveria uma cicatriz, um preço a pagar.
—Eu tampouco consigo imaginar o porquê de ele fazer algo assim— Edward mentiu, sentindo um peso opressivo em seu coração a cada palavra falsa que saía de sua boca.
Ele tomou mais um gole de seu chá, e pensou que aquilo fazia sentido, afinal. Cecily havia nascido cerca de vinte anos antes, exatamente quando a última seita havia tentado ressuscitar o Hierofante pela última vez. A influência do Hierofante estava em seu auge, e não era difícil imaginar que ele conseguisse manipular os acontecimentos a ponto de gerar um sacrifício perfeito, caso aquela tentativa falhasse.
Ou talvez ele já soubesse que aquela tentativa estava fadada ao fracasso desde o princípio. E, para um ser milenar, esperar vinte e um anos para poder finalmente alcançar a hegemonia absoluta era um mero contratempo, que passaria em um piscar de olhos. E foi o que havia acontecido.
—Bem, mas chega desse papo esquisito— Adelaide disse, pegando mais uma fatia de torrada— Estou feliz que você está aqui, Ed. Andou sumido.
Edward dissimulou a culpa com um sorriso, e estendeu a mão para atrapalhar o cabelo da irmã.
—Eu também estou feliz de estar aqui, Adel— ele respondeu— Estou trabalhando muito, talvez tenha que viajar por alguns dias. Mas vocês sabem que tudo o que eu faço, faço por vocês, não sabem?
Adelaide retribuiu o sorriso, mas era um sorriso um pouco triste, sem brilho, ao responder:
—Claro, Ed. Eu sei.
Gus pareceu querer dissipar aquela pequena melancolia rapidamente, e logo tratou de fazer perguntas e puxar conversa:
—Para onde você vai, Ed?
Mal ele sabia, mas essa pergunta também era uma que arrancaria uma mentira de Edward como resposta, e, portanto, mais um ciclo de culpa e dor.
—Vou negociar um carregamento de livros em Essex— ele prontamente respondeu, ao mesmo tempo impressionado e triste com a facilidade com que a mentira saía de seus lábios— Não devo passar muito mais que alguns dias fora.
—Bem, ao menos você vai voltar rápido— Gus sorriu, com um otimismo contagiante. Edward gostaria de compartilhar daquela tranquilidade.
—Sim, ao menos isso— ele concordou— Vão ficar em segurança quando eu me for? Não gosto de ver vocês tão envolvidos com magia tão perigosa.
Adel o encarou com certa descrença.
—Falou o senhor Edward “magia perigosa” Waldford— ela zombou, imitando seu tom de voz, o que o fez rir, apesar de tudo— Nós somos grandinhos, Eddie. Não vamos chegar perto demais de nada que vai nos matar.
O pai deles costumava chamá-lo de Eddie. Ninguém mais o chamava assim. Ele se sentiu ainda mais melancólico. Seus pais haviam escondido muitas coisas deles para mantê-los seguros, e ele gostaria de acreditar que estava fazendo o mesmo. Mas havia uma linha tênue, tênue demais, entre proteger e enganar. Talvez ele estivesse começando a ser egoísta, talvez eles merecessem saber a verdade, por mais que ela fosse machucá-los.
—Eu sei que vocês são— ele disse, a voz um pouco mais baixa, a emoção transparecendo em cada palavra— Mas eu sempre vou ver vocês como meus irmãozinhos. Eu sempre vou querer manter vocês longe do perigo.
Adelaide estendeu a mão, e apertou a dele sobre a mesa.
—Nós vamos nos cuidar, Ed, e cuidar um do outro— ela prometeu— Só pedimos que você se cuide também.
Edward se forçou a sorrir.
—Eu vou me cuidar, Adel— ele mentiu mais uma vez— Eu prometo.
Mas é claro que isso não era verdade, caro leitor. Mais tarde naquela noite, quando finalmente tivesse tempo de propriamente investigar a informação sobre Cecily Campbell sozinho, ele descobriria mais coisas que reforçariam a urgência da viagem cuja necessidade ele antecipara ao mentir mais cedo. Mas ele não iria para Essex, como havia dito a Adelaide e Augustus, e sim para uma propriedade rural na fronteira com Kent. Uma morada nobre e antiga, que costumava ser do Conde Lovett, e onde a última seita do Hierofante havia tentado o ritual de ressurreição vinte anos antes.
Os Campbell eram vizinhos do Lovett, e a mãe de Cecily provavelmente estava morando bem ao lado de onde tudo aconteceu quando decidiu ir a Londres em busca de magia de fertilidade. O tempo e a localização coincidiam, e a possibilidade de seus sonhos e desejos estarem sendo afetados pela proximidade à seita era real.
Edward Waldford tinha todas as relíquias, exceto por uma. A relíquia que costumava ser do Barão Blackburn, a que o Lorde havia conseguido esconder de tudo e todos, até mesmo de Edward, por tantos anos. A relíquia que agora estava com o filho secreto do Barão, sob proteção da Ordem. Mas ele nunca esteve preocupado com ela, sempre teve em mente um plano para obtê-la de volta. E aquela era a hora. Todas as dúvidas e pontas soltas estavam resolvidas, todos os incêndios estranhos explicados, e ele tinha certeza de seu propósito.
Edward Waldford iria invocar o Hierofante; não para ressuscitá-lo, mas para consumi-lo, controlá-lo, tomar todo seu poder para si. E apenas assim ele seria capaz de destruir a Ordem que há tantos anos o atormentava. Apenas assim ele poderia garantir que Gus e Adel estariam seguros. Para sempre.
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