Arsonist's Lullaby- Interativa

27 XXVI- Castles Crumbling


Notas iniciais
Hello! Estou postando esse capítulo manualmente hoje, fiquei enrolando até o último instante para programar, e acabei decidindo postar eu mesma no horário de sempre. Não sei porque estou dizendo isso… acho que em algum nível subconsciente eu estou querendo postergar como essa história termina. Mesmo que eu já soubesse como ela terminaria desde que escrevi a primeira palavra. Enfim, estou até parecendo o narrador, perdão pelo drama kkkk! Boa leitura, espero que gostem ♥

Henrietta Raycraft havia pensado que nunca mais seria obrigada a colocar os pés naquele lugar.

A casa fora herdada em morgadio, o que era comum a muitas propriedades tradicionais da nobreza. Ela sabia que os títulos e posses de Antigone também foram herdados da mesma maneira; a Marquesa ficara com tudo simplesmente pois não existia um herdeiro do sexo masculino. Mas o testamento do Conde Lovett tinha condições mais específicas para nomear um sucessor: o marido de sua única filha seria o herdeiro. Felizmente para Henrietta, o Duque Raycraft havia morrido poucos meses após o Conde Lovett, e deixara tudo para ela em seu próprio testamento, e ela conseguiu manter as propriedades de sua antiga família.

Mas aquela casa em específico era uma das que ela nunca visitava. Muitas lembranças ruins. Henrietta era grata por ter herdado as propriedades de Londres, e até mesmo uma outra casa de campo, reclusa e charmosa, no litoral de Suffolk; e, é claro, pelos arrendamentos, sem os quais provavelmente teria dificuldade em manter seu padrão de vida. Mas, se ela pudesse, teria demolido a casa do Conde Lovett, e nunca mais olhado para trás.

Crescer naquele lugar sem uma mãe, e com um pai tão rigoroso, não era algo que ela desejaria para ninguém. Talvez esse fosse o motivo pelo qual ela costumava fugir para os prados desertos quando podia. E talvez por isso tenha sido tão fácil sequestrar a pequena Henrietta de catorze anos, distraída e sozinha em meio aos campos de grama alta, ingênua demais para perceber as figuras encapuzadas se aproximando até que fosse tarde demais.

Alguns criados ainda moravam na casa, para mantê-la minimamente limpa e organizada. Ela sabia que uma parte da nobreza que morava no campo, não em Londres, gostava de visitar casarões antigos, e portanto não poderia deixar a propriedade caindo aos pedaços sem suscitar fofoca e desaprovação. Ainda assim, vinte anos haviam tido seu impacto sobre a mansão rural, e isso era claro conforme ela andava pelos corredores.

A casa sempre tivera um aspecto intimidante, de certa forma sombrio, como um castelo gótico ou uma fortaleza. Pedra cinza e madeira escura no exterior; e o interior era entulhado com tapetes densos, móveis grandes e intricados, e antigas pinturas a óleo. Opulento, mas não acolhedor, e não a admirava que ela nunca tenha sido capaz de considerar aquele lugar como um lar. Vinte anos haviam trazido uma certa decrepitude decadente ao exagero de detalhes; as cores começavam a desbotar, o verniz não era retocado há décadas, e tudo tornava o lugar ainda mais estranho e desagradável.

Mas Henrietta estava ali com um propósito, e portanto tentou não se deixar consumir pelas memórias. Respirou fundo, e caminhou até os fundos da propriedade, os jardins que se abriam para os vários hectares de prados gramados.

Era ali que ficava escondida a caverna fatídica, onde o ritual havia acontecido. Onde ela quase havia morrido. Onde Edward Waldford a esperava.

Sua cabeça estava doendo, latejando, a ponto de explodir. Ela caminhava pelos prados com passos lentos, quase hesitantes. Aquele lugar trazia tantas lembranças ruins, tantos maus presságios, que ela parou na entrada da caverna, tendo que mais uma vez respirar fundo e controlar seus nervos antes de entrar.

—Edward?— ela chamou, os olhos ainda se ajustando à escuridão, procurando pelo homem que a havia feito ir até ali— Onde você está?

Edward surgiu de algum ponto escuro na sua frente, segurando seus ombros gentilmente. Ela teria se assustado, mas ele sorriu para ela de modo gentil.

—Estou aqui, Hettie— ele disse, e ela imediatamente relaxou contra o seu toque.

—Esse lugar é sinistro— ela comentou, em uma tentativa de descontração— Vai me contar por que me chamou aqui?

Henrietta havia feito as três horas de viagem de Londres até ali em sua própria carruagem; e não sabia bem ao certo que meio de transporte Edward havia utilizado. Sabia apenas que não poderiam ser vistos viajando juntos, ou juntos de qualquer maneira que fosse. Felizmente, aquela caverna era reclusa, o ar abafado e a poeira denunciavam que ninguém estivera ali em anos, provavelmente. Ainda assim, ela havia ficado preocupada ao receber o bilhete de Edward solicitando o encontro ali, parecia mais arriscado que o esconderijo em Londres.

—Eu queria te mostrar uma coisa— Edward disse, então moveu as mãos no ar com um gesto pomposo.

As inúmeras velas antigas e parcialmente derretidas, espalhadas pela caverna, se acenderam simultaneamente. A luz bruxuleante era tênue, débil, mas foi o suficiente para que Henrietta enxergasse o que Edward queria lhe mostrar.

Sua cabeça girou, e ela teve que se apoiar no braço dele, conforme as lembranças voltavam de uma só vez, um assalto de terror e fraqueza tomando seu corpo. As runas e símbolos espalhados pela parede, desenhados em um vermelho-escuro, cor de sangue, eram familiares demais. Ela se perguntou se aquele era o sangue dela impregnando a pedra ancestral daquelas cavernas, se havia tanta magia naqueles desenhos que eles não haviam se apagado mesmo vinte anos depois.

—A Ordem tentou destruir o local do ritual, e deve ter funcionado, na época. Mas o véu é muito fino aqui, e acho que é impossível destruir tudo totalmente sem uma relíquia— Edward explicou.

Henrietta podia sentir o ar vibrando ao seu redor, os pêlos de sua nuca se arrepiando com aquela inegável energia sombria emanando dos símbolos arcanos. Ela sentiu seus olhos se enchendo de água, e suas mãos tremendo, conforme ela agarrava o braço de Edward com ainda mais força.

—Isso precisa ser destruído— ela afirmou, totalmente resoluta— Se continuar assim, podemos não ser capazes de impedir que a nova seita tenha sucesso.

Edward pareceu perceber, apesar dos melhores esforços dela para esconder a própria instabilidade, que ela estava por um fio. Segurou gentilmente ambos os seus ombros, virando-a para encará-lo.

—Ei, não precisa ficar assim, Hettie. Eu posso destruir os resquícios desse ritual… bem, eu poderia. Se ao menos eu tivesse uma relíquia— ele disse.

Não ocorreu a Henrietta perguntar como ele sabia disso, Edward parecia saber de todas as coisas. E saber mais do que ela de muitos assuntos, principalmente magia.

—Então estamos perdidos, Ed. Eu não sei onde estão as relíquias, o Incendiário levou todas— ela respondeu, incapaz de dissimular o pânico na própria voz.

Edward franziu as sobrancelhas.

—Eu não sei se você está mentindo para mim ou se… não, não pode ser. Ela com certeza contou para você, você é a Líder— ele murmurou— Você pode me contar a verdade, Hettie, eu já sei que a Ordem tem uma relíquia.

Foi a vez dela de expressar confusão, o cenho igualmente se franzindo.

—Mentir para você? Eu não sei do que você está falando, Edward. A Ordem não tem nenhuma relíquia— ela replicou, a indignação crescendo em sua voz a cada palavra.

Como Edward ousava insinuar que ela estava mentindo? Estava sendo o mais honesta que podia desde o início daquela estranha relação, sendo a aliada mais confiável que sua posição lhe permitia. Era tão injusto que ele ainda a tratasse com desconfiança, quando ela estava arriscando tudo simplesmente para tê-lo como aliado.

—Henrietta, se você não está mentindo, isso quer dizer que os seus agentes estão escondendo mais do que deveriam de você— ele explicou calmamente— O filho do Barão Blackburn está com a relíquia dele, e o garoto está sob proteção da Ordem. É difícil acreditar que você não sabia sobre a relíquia.

O completo choque que pintou o semblante de Henrietta foi impossível de dissimular. Ela se sentiu absolutamente tola por não ter inquirido que Antigone lhe desse todos os detalhes, por ter confiado tão cegamente em seus agentes. Aquilo era grave, muito grave. Como iria combater uma ameaça tão grande se não tinha ciência de todos as armas disponíveis? Como iria suportar o peso da liderança de não podia confiar em seus próprios agentes?

—Ed, você tem que confiar em mim. Eu não sabia. Eu sabia sobre o garoto Blackburn, é verdade, mas a agente Lascelle não me contou sobre a relíquia— ela respondeu.

Edward encarou sua expressão por alguns segundos, e se sentir sob o escrutínio dele foi absoluta tortura para ela. Mas por fim o olhar dele pareceu suavizar.

Por nenhum momento ocorreu a Henrietta se questionar como ele tinha acesso àquela informação, e ela não. O sentimento de ser feita de tola, de ter sido traída por alguém em quem ela havia decidido confiar, apesar de todas as suas reservas, sobrepujou totalmente o seu juízo.

—Eu acredito em você, Hettie. Me desculpe pelo meu tom, eu não deveria ter falado assim com você— a voz de Edward era suave conforme ele a puxava para um abraço, e beijava o topo da sua cabeça— Mas você precisa conversar com sua agente. Eu entendo que ela queria manter a relíquia segura, mas nós precisamos dela para neutralizar esse ritual.

O leitor atento pode até notar o uso de “nós” contra “ela” na frase, mas Henrietta não notou. Estava assustada demais, angustiada demais, sua cabeça doía demais. Naquele instante, Edward parecia mais confiável que sua própria agente, que a mulher que havia servido à Ordem por décadas ao seu lado. Era impossível não se sentir absolutamente traída por aquela omissão; principalmente quando era aparente que ela se esforçava tanto para confiar em Antigone, mas que aquele esforço não era recíproco.

Edward havia conseguido exatamente a reação que queria.

—Eu vou conversar com ela— Henrietta garantiu— Me encontre aqui, quando o sol se pôr. Nós vamos destruir esse resquício de magia juntos, e então vamos usar a relíquia para acabar de vez com o Incendiário.

Edward sorriu para ela, e lhe deu um beijo casto nos lábios. Um gesto tão pequeno, tão simples, que parecia tão puro. Mas que era todas as coisas, menos isso.

Conforme o entardecer desse mesmo dia se aproximava, Antigone Lascelle ouviu uma batida à porta de seu escritório na Ordem.

Ela não esperava encontrar Henrietta. Os horários de ambas raramente coincidiam, principalmente agora que Antigone havia assumido a responsabilidade de proteger Mihai e Zoe. Ainda assim, ela não teria ficado irritada ou preocupada com a visita inesperada, principalmente após os bons termos de sua última conversa com a Líder, se não fosse a expressão grave no rosto de Henrietta.

—Henrietta— Antigone cumprimentou, o tom um pouco incerto, conforme a outra mulher entrava em seu escritório e fechava a porta atrás de si— Em que posso te ajudar?

Henrietta estava de costas para ela, encarando a escrivaninha, mas Antigone conseguia ver a tensão em seus ombros. Poderiam não ser amigas, mas se conheciam há quase vinte anos. Antigone sabia reconhecer quando algo não estava certo com ela, e, antes mesmo da Líder se virar para encará-la, ela previu a expressão dura em seu rosto.

—Quando você planejava me contar, Antigone?— a voz saiu baixa, mas hostil, como um sibilo, e Antigone teve que aprumar a própria postura para esconder sua apreensão— Ou você planejava mentir para mim até o fim?

A Marquesa Lascelle já havia sido tratada com todas as nuances de desprezo que um ser humano poderia receber, pela mais variada gama de pessoas, mas Henrietta nunca havia sido tão abrasiva antes. A sua voz gotejava veneno, uma revolta tão resoluta, que Antigone só poderia imaginar que aquilo se tratava sobre um assunto.

—Eu ia te contar sobre a relíquia— Antigone admitiu— Mas apenas quando já soubéssemos como derrotar o Incendiário. Eu não gostaria de tomá-la do garoto de Blackburn até que fosse a hora, ele parece entendê-la melhor que qualquer um de nós poderia.

Henrietta soltou uma risada baixa de escárnio, e então deu um passo na direção de Antigone. Elas nunca haviam estado tão próximas antes, e era uma sensação desconcertante, explosiva, como se finalmente pudessem enxergar uma a outra com clareza pela primeira vez.

—Essa decisão não era sua para tomar— Henrietta disse— Você parece se esquecer que eu sou a Líder, não você. Sabe o tanto que me fez parecer tola? Sabe o tanto de perigo em que me colocou ao esconder isso de mim?

Antigone negou com a cabeça, estupefata, mas não recuou ou desviou o olhar.

—Você não pode fingir que eu posso confiar totalmente em você com algo tão poderoso, Henrietta. Simplesmente não pode. Não quando você também não me conta a verdade sobre o que anda fazendo— ela replicou.

Henrietta a encarou com descrença por alguns segundos antes de replicar:

—Do que você está falando, Antigone?

Foi a vez de Antigone de rir com descrença.

—Você se acha tão esperta! Acha mesmo que ninguém iria notar seus sumiços, ou a viagem que fez hoje para Kent? Ou os bilhetes estranhos que chegam para você? Mas eu sei juntar os pontinhos, Henrietta. Vai me contar quem é “E.W.”? E o porquê de você parecer confiar mais nele que em seus agentes?— ela retrucou.

Henrietta não baixou o olhar, mas sua expressão denunciou sua apreensão. Mais do que nunca, Antigone teve certeza que ela estava escondendo algo muito grande e muito sujo.

—Ele é um aliado, e isso não te diz respeito— ela se limitou a dizer, mas sua voz era baixa, insegura.

—Se você não vai dizer quem ele é, eu digo, então— Antigone afirmou— É realmente muito estranho que você e Edward Waldford tenham sido vistos deixando Londres pela estrada para Kent no mesmo dia. E que a informação sobre a relíquia tenha chegado aos seus ouvidos logo hoje.

—Você está me vigiando? Mandou me seguir? O que tem de errado com você?

—Não, Henrietta, eu não mandei. Mas isso deveria te preocupar mais ainda. Os agentes simplesmente confiam mais em mim, pelo visto. Eles conseguem ver quem segue os princípios que nossa Ordem prega, e quem não segue. E aparentemente eles se sentem mais confiantes reportando o que veem para mim do que para você.

Henrietta finalmente abaixou o olhar, e deu um passo para trás. Seus ombros se encolheram, e ela voltou a dar as costas para Antigone, andando em um silêncio consternado de um lado para o outro do escritório.

Por fim, ela parou, e se virou bruscamente para Antigone mais uma vez.

—Eu não peço que você entenda o que eu estou tentando fazer…— ela começou.

—E eu te garanto que eu não entendo— Antigone cortou, fria.

—… mas eu não preciso que você entenda. Você me deve obediência, gostando ou não. E vai me entregar a relíquia.

Antigone Lascelle sempre fora uma pessoa que acreditava em regras, na necessidade de leis que mantivessem a ordem, que impedissem que tudo se degenerasse em caos. Nunca estivera em sua natureza ser desafiante, rebelde contra autoridades boas e justas. Mas aquela não era uma autoridade boa e justa, e ela não poderia confiar cegamente em alguém que a liderava para um caminho sem idoneidade, um caminho que fatalmente as levaria às profundezas.

Ela não iria entregar a relíquia. Simplesmente não poderia ter sua consciência tranquila fazendo algo tão inconsequente. Ainda assim, precisava sair daquela situação de alguma maneira. Sem colocar ninguém mais em perigo além de si mesma.

—Eu… vou conversar com Mihai. Ele vai entender— Antigone mentiu, e Henrietta pareceu suavizar um pouco a expressão.

—O nome do filho de Ephraim é Mihai?— ela perguntou, e Antigone assentiu.

—Acho que ele gostaria de conhecê-la, quando tudo estiver acabado. Mas não agora. Ele está confuso, e perdido. Não sabe em quem confiar.

Antigone quase se sentiu mal pela mentira, mas não poderia conceber colocar Mihai, Augustus ou Adelaide em risco. Se ela iria contra as ordens da Líder, não os envolveria nisso.

—Tudo bem— Henrietta concordou— Converse com ele, mas volte rápido. Eu vou esperar você aqui.

Antigone aceitou a deixa e saiu, resistindo ao impulso de correr o mais rápido que suas pernas permitissem.

Felizmente, ela já tinha uma boa ideia do que iria fazer. A página que Adelaide copiara da relíquia, a que continha o ritual que ela havia usado para conter Cecily Campbell, ainda estava guardada no escritório de Augustus. Tudo o que ela precisava era entrar, pegá-la, e despistar Henrietta por um tempo.

Pé ante pé, ela caminhou até a porta, menor e mais humilde, do escritório de Gus. Entrou sem bater, pois não esperava que ele estivesse ali. Para sua supresa, o escritório não estava vazio, mas não era Augustus, e sim Adelaide, que o ocupava; mas ela conseguiu se recuperar do choque rapidamente.

—Antigone?— Adelaide ergueu os olhos do arquivo que estava lendo— Eu estava esperando o Gus.

Antigone conseguiu forçar uma postura casual, apesar da tensão que sentia.

—Estou vendo— ela respondeu, e então se assentou no sofá ao lado de Adelaide— Você se lembra daquele pedaço de papel que usou para salvar a mim e Augustus no baile?

Adel arqueou uma sobrancelha, e riu.

—Claro que me lembro— ela respondeu— Bom ver que vocês ainda guardam alguma gratidão.

Antigone queria ter rido da piada, mas não conseguiu disfarçar sua apreensão totalmente.

—Então. Eu estava precisando dele. Acho que posso ter encontrado algo a respeito daquele ritual nas anotações de Lorde Ephraim, e eu gostaria de poder comparar— ela disse, se sentindo mal por ter de enganar Adelaide, mas convicta de seu propósito de protegê-la.

Adel deu de ombros.

—Claro. Está na segunda gaveta da escrivaninha.

Antigone se levantou e pegou a folha sem maiores dificuldades. Estava prestes a se despedir de Adel e sair, quando de repente a outra mulher segurou o seu braço.

—Antigone— seu olhar era preocupado, o seu toque, gentil, mas firme— Tem alguma coisa te preocupando.

Não era uma pergunta, mas Antigone assentiu. Não tinha o costume de mentir, e não sentia necessidade de mentir para Adelaide.

—Sim, e eu vou te explicar mais tarde— ela garantiu— Mas não até o problema estar resolvido.

Adelaide a encarou por mais alguns segundos, parecendo um pouco incerta; mas por fim soltou seu braço.

—Tudo bem. Eu confio em você— ela respondeu— É sem dúvidas sempre a pessoa mais indicada para resolver problemas cabeludos.

Antigone, dessa vez, conseguiu rir. Decidiu tomar como um elogio.

—Você também não anda nada mal nesse quesito, Lockhart— ela replicou— Inclusive, avise para o seu irmão que eu passei aqui, quando o vir.

—Certo, vou avisar. Até breve, então.

—Até breve— Antigone respondeu.

Adelaide ficou encarando a porta que Antigone fechara por mais alguns segundos, ainda com aquele estranho pressentimento a assombrando. Mas, naquele instante, nenhuma visão, nenhuma premonição, nada de concreto ou específico, veio avisá-la de perigo algum. Então ela decidiu apenas aguardar Augustus chegar, e torcer para que Antigone conseguisse resolver o que quer que estivesse a preocupando.

Antigone saiu por um dos túneis subterrâneos da Ordem, ainda segurando firme a folha com o ritual em mãos. Não queria voltar para o esconderijo, afinal, poderia estar sendo vigiada, e não queria revelar a localização para Henrietta. Ou, pior ainda, para Edward Waldford.

A folha não tinha um aspecto antigo o suficiente, então ela fez o seu melhor para sujá-la com poeira, e desgastar os cantos nas paredes de pedra. Enfim satisfeita com o resultado, e julgando que tempo o suficiente havia se passado, ela voltou para encarar Henrietta.

—Você demorou— a Líder comentou, e Antigone fez o melhor para se manter firme.

—Mihai estava hesitante— ela respondeu, um pouco apreensiva com a enganação que estava prestes a executar— Aqui está sua relíquia.

Henrietta pegou a folha, e não pareceu estranhá-la. Antigone não poderia estar mais aliviada, mas sabia que muitas relíquias não passavam de meros pergaminhos ou pedaços de pedra, então não havia motivo para que Henrietta desconfiasse daquele pedaço de papel.

—Obrigada, agente— ela respondeu— É bom saber que você ainda tem um resquício de bom senso.

O comentário deixou um sabor amargo na boca de Antigone, mas ela decidiu não retrucar.

—Eu posso ir agora?— ela simplesmente perguntou, tentando não transparecer sua raiva.

Henrietta deu de ombros.

—Pode. Mas você está suspensa de seus deveres. Não quero você perto da investigação até eu voltar para lidar com sua… insubordinação.

Antigone deu um sorriso debochado.

—Eu não sonharia em chegar perto do que quer que você esteja fazendo… Milady.

E, dando as costas para Henrietta, saiu.

Aquilo, caro leitor, era, é claro, uma grande mentira. Pois conforme Henrietta ia de encontro a Edward, mal ela sabia que tinha atrás de si uma sombra silenciosa e atenta, que planejava frustrar o que quer que eles planejassem com aquele ritual.

Henrietta, para bem ou para mal, não desconfiava de nada. Considerava o problema com Antigone plenamente resolvido, ao menos por hora. Estava satisfeita com o pedaço de papel em suas mãos, não tinha motivo para crer que havia sido enganada. Estava, por suposto, ainda um pouco afetada com o conflito, com o modo que fora tão abertamente confrontada a respeitos de suas ações questionáveis. Jamais esperaria que Antigone tivesse tantas desconfianças sobre ela, e que estivesse tão certa em suas acusações. Mas se consolava com a certeza de que estava fazendo o que era melhor para a Ordem, e que lutava contra o Incendiário com todas as armas que tinha disponíveis.

A viagem de três horas na carruagem passou rapidamente, e ela logo se viu na caverna no horário estipulado, bem quando o sol começava a se pôr. Ela não viu Antigone a seguindo à cavalo algumas centenas de metros atrás, e não viu quando a Marquesa a seguiu até a boca da caverna, oculta em meio à grama alta.

Edward chegou alguns minutos depois, carregando debaixo do braço rolos de pergaminho e livros de aparência antiga.

—Ed… o que é isso?— Henrietta questionou assim que o viu, notando a aparência similar das runas marcadas na parede e dos símbolos desenhados no papiro.

Edward se aproximou dela com passos lentos, calculados, seus próprios olhos fixados na folha que ela tinha em mãos.

—São as outras relíquias— ele respondeu, simplesmente.

A voz dela soou minúscula, apenas um fio frágil, conforme ela dizia:

—Mas… você disse que não tinha nenhuma relíquia.

Edward deu de ombros.

—Eu menti, meu amor— ele disse— É algo que eu faço muito, mentir para você. Mas eu não sou o único, sou? A Marquesa Lascelle também te entregou apenas uma cópia, não a relíquia original, ao que parece.

—O que… do que você está falando? Edward, você está me assustando.

Ele colocou os pergaminhos e os livros no centro de um círculo desenhado em sangue no chão, e caminhou até ela, um sorriso afável em seus lábios.

—Não se preocupe, Hettie, logo tudo estará acabado. Nós estamos quase lá— ele segurou o rosto dela entre suas mãos, e ela apenas o encarou, paralisada com confusão e medo— Você fez um bom trabalho. Mesmo sendo só uma cópia, esse ritual será o suficiente. Você sempre faz um ótimo trabalho, sempre me deixa orgulhoso.

Henrietta sentiu sua cabeça rodar, leve, tão leve que quase não sentia a dor latejante estraçalhando seu crânio de dentro pra fora. Os lábios de Edward murmuravam um feitiço em uma língua estranha, mas que era também estranhamente familiar. Havia névoa ao redor deles, ou sua consciência estava se esvaindo, flutuando para longe de si como fogo-fátuo? Ela não sabia, só sabia que os lábios dele se juntaram aos seus por uma última vez, e que o seu corpo finalmente sucumbiu, desfalecendo em seus braços.

Antigone Lascelle já tinha visto o suficiente para saber que aquilo era muito maior do que algo que ela poderia resolver sozinha. E que precisava sair dali. Rápido.

Havia deixado seu cavalo escondido atrás de algumas árvores, mais adiante, mas não o havia amarrado. Uma precaução. Se ela não conseguisse sair dali, ele precisava sair. Saberia o caminho de casa, e Augustus e Adelaide o encontrariam.

Ela se esgueirou pela grama alta até chegar ao cavalo, sempre olhando por cima do ombro, vigiando a entrada da caverna. Do ângulo que estava, não conseguia ver tudo tão bem quanto antes, mas ainda conseguia ouvir a voz de Edward ao longe, e ver raios de luz cegante de tempos em tempos.

Para seu alívio, conseguiu montar o cavalo, e galopar para longe dali o mais rápido que podia, na direção da estrada. Estava começando a acreditar que conseguiria voltar para Londres, e contar sobre o que havia visto, quando uma explosão ensurdecedora emanou de dentro da caverna.

Antigone já estava a algumas centenas de metros da caverna. Conseguia ver a estrada à sua frente, tão perto, mas tão distante. Olhando por cima de seu ombro, ela viu fumaça, negra, densa, mas estranhamente iridescente, emanando da entrada da gruta, como morte emanando da boca escancarada de uma caveira.

Ela esporeou o cavalo, precisava ir mais rápido. Tudo o que precisava fazer era sair dali antes que a fumaça a alcançasse. Antes que ele a alcançasse.

Antes mesmo de ver a silhueta sombria bloqueando seu caminho, ela pressentiu a presença do Incendiário. Quando finalmente o viu, já era tarde demais para desviar.

Cada traço feito de sombras condensadas daquele rosto disforme, assustador, pareceu se contorcer em um sorriso ao vê-la. Com um gesto de sua mão, Antigone foi lançada de cima de seu cavalo, impactando o chão com violência, todo o ar sendo espancado para fora de seus pulmões.

Ela se levantou, trôpega, a cabeça rodando, conforme observava sua montaria escapando, e o Incendiário se aproximando lentamente. Ela sabia agora qual o semblante que aquelas sombras escondiam, quem estava empunhando tamanho poder profano. Estavam frente a frente, agora, e a verdade não poderia ser mais clara, o mistério finalmente havia sido desvelado. Um reconhecimento terrível se apossou de Antigone ao ter que enfrentar a proximidade perigosa àquela presença que de certa forma sempre a assombrara.

Antigone Lascelle sempre estivera ciente de que o que ela sabia iria matá-la, algum dia, mas também sempre tivera a certeza de que morreria sorrindo, uma inflexão desafiante curvando seus lábios. Mas até mesmo isso foi arrancado dela. Aquela era uma visão terrível demais para suportar: a verdade não a libertaria, como ela sempre acreditou, e sim a consumiria totalmente, até não restar nada.

Um círculo flamejante se desenhou no chão ao redor da agente e do Incendiário, as labaredas altas e selvagens fechando o cerco cada vez mais depressa conforme aquele que as conjurava avançava. Antigone sentiu o fogo chegando antes que pudesse realmente vê-lo, e foi naquele momento que ela soube que não havia escapatória. Se ela tivesse lágrimas para chorar, todas evaporariam contra o calor das chamas, mas seus olhos estavam secos, suas mãos estavam firmes. Antigone já havia aceitado a verdade— não sairia dali viva— mas não iria embora sem levar ao menos um pouquinho do sangue do Incendiário junto com ela.

Conforme sacava sua pistola e abria fogo de novo e de novo contra seu assassino, cada vez mais próximo, ela poderia jurar que ouviu uma melodia familiar na cadência dos tiros. O eco do som suave de um piano, e a sinfonia distante de risadas juvenis, e isso a manteve atirando até que as balas acabassem.

A Marquesa Antigone Lascelle não morreu sorrindo, mas, conforme os seus olhos se fechavam e a escuridão a envolvia, tudo o que ela conseguiu sentir foi aquela suave melodia ecoando em seus ouvidos, e ela não teve nenhum medo.

Notas finais
Esse foi provavelmente um dos capítulos mais difíceis de escrever pra mim. E o mais difícil de postar. Se até Deus tem seus favoritos, imagine eu, uma pobre escritora. E a Antigone era uma das minhas favoritas. Isso doeu, e não foi pouco. Mas enfim, vou parar de choramingar aqui e viver meu processo de luto nos bastidores kkkk! Cosmic, que personagem incrível que você escreveu! Eu só tenho a agradecer. E torcer para que a trajetória dela aqui nessa história tenha feito jus à sua lindíssima criação. Espero que tenham gostado, apesar das tragédias, vejo vocês nos comentários. Até ♥