Notas iniciais
Hello! Peço desculpas pelo pequeno atraso, e espero que gostem do capítulo! Boa leitura ♥

O dia de Mihai Beswick certamente havia sido bastante estranho e desagradável depois do esbarrão inesperado com Digory Pembrook no bonde.

Eles passaram o dia inteiro trocando poucas palavras, e todos os diálogos pareciam forçados e constrangedores. O que foi ainda mais angustiante, porque eles geralmente passavam as manhãs e tardes conversando e se divertindo bastante entre uma tarefa e outra, então o silêncio parecia ainda mais sepulcral.

Mihai não saberia dizer se o fato de Digory ter saído mais cedo do turno tinha a ver com isso. Ou talvez ele estivesse indo encontrar Zoe novamente. Mihai decidiu não perguntar, seria humilhante demais. E talvez ele não quisesse realmente saber.

Já bastava toda a confusão que investigar seu pai estava gerando na cabeça do jovem. Agora, além de tudo, ele tinha que lidar com o fato de que claramente tinha sentimentos por Digory, e de que eles claramente não eram recíprocos.

Mihai se sentia um tolo. É claro que Digory jamais poderia gostar de alguém como ele. Um feiticeiro, um pária. E, acima de tudo, ele sequer sabia se Digory também gostava de garotos.

Mihai sabia já há alguns anos que seu coração era igualmente propenso a se apaixonar por moças e rapazes. Às vezes se esquecia que a maioria das pessoas não era como ele, e que a maioria provavelmente o acharia abominável por ser assim. O fato de ter visto Digory em público com uma garota havia sido um choque de realidade brutal, mas talvez exatamente o que ele precisava para acordar.

Ele tinha que parar de ser ingênuo. Provavelmente estava se iludindo esse tempo todo, e nunca havia tido uma chance real de que Digory fosse gostar dele de volta.

Por isso, ele decidiu voltar a focar suas energias em algo que realmente poderia lhe trazer resultados: encontrar o seu pai.

Ele fechou a loja no fim do dia, e se despediu de Peter na oficina antes de ir pegar seu bonde.

Mihai normalmente não usava muito o transporte sobre trilhos da cidade, mas, nos últimos dias, essa era a única maneira de chegar até seu mais novo local de investigações. Pois, após exaurir completamente as evidências disponíveis na casa do Barão Blackburn que havia sido abandonada, ele havia começado a investigar uma outra construção, cujo endereço ele havia encontrado entre as anotações do Barão.

Era uma casinha humilde, e bem afastada do centro da cidade. Mihai estranhou que um nobre, principalmente um que claramente tinha tantas riquezas quanto o Barão, fosse passar tanto tempo em um local tão precário e suburbano. Mas isso sequer era a parte mais estranha de tudo aquilo.

A parte que mais o assustou é que a casa havia claramente sido incendiada. Todo o andar térreo estava em ruínas, completamente consumido pelas chamas e se desfazendo em cinzas. A única parte da casa que ainda estava minimamente funcional era o porão, no qual Mihai havia achado pistas o suficiente para ocupar sua mente pelos últimos dias. E ainda tinha a vantagem de ser isolado o suficiente para permitir que ele praticasse sua magia.

Ele entrou pela janela quebrada, que ficava rente ao nível do meio fio, indo parar diretamente no porão. O ar estava abafado, o que o fez tossir um pouco, mas logo ele murmurou um feitiço para fazer a poeira ser soprada por uma lufada de vento, e mais um outro para acender as velas espalhadas pelo recinto.

Na última semana, ele definitivamente havia passado bastante tempo aprimorando sua magia. Havia passado mais horas sozinho, com o livro de feitiços e seu poder, do que com qualquer outra pessoa. E estava começando a sentir os efeitos. Sua magia parecia mais poderosa, mais explosiva. Feitiços antes de dificuldade moderada agora pareciam banais, e feitiços grandes não exigiam mais o mesmo esforço. Ele poderia facilmente ter tirado a poeira e acendido as velas com as próprias mãos. Mas por que faria isso quando os encantamentos já estavam na ponta de sua língua, e pareciam tão triviais quanto respirar?

Mihai correu os dedos pelas anotações e registros que o Barão Blackburn havia feito. A grande maioria não parecia tão antiga assim, de alguns meses atrás. Algumas até mesmo tinham datas, que indicavam que aquele lugar estava vazio no máximo desde do início do ano.

Os objetos que ele havia encontrado ali não se provaram tão promissores quanto a pistola que havia pegado na mansão, quando usados no ritual. Revelavam memórias triviais ou confusas demais, e ele ainda estava à procura de um artigo que fosse suficientemente atrelado a lembranças relevantes. Precisava continuar suas investigações, mas não sabia como fazer isso sem o auxílio do feitiço de memória que tanto havia praticado. E não podia continuar a usá-lo sem ter um substrato bom o suficiente para fornecer as memórias.

Mesmo com seu encantamento prévio para limpar as cinzas e a poeira do porão, alguns pequenos amontoados ainda se juntavam nos cantos da sala. E foi justamente quando seu olhar vagou sobre um deles que ele viu um brilho metálico, em um tom pálido de azul. Pegando o objeto, constatou tratar-se de uma presilha de cabelo, intrincadamente decorada com pequenas pedrinhas brilhantes esculpidas em delicados losangos. Havia algo de peculiar sobre aquele objeto, uma energia forte, e por um segundo ele considerou largá-lo.

Mihai franziu o cenho. Aquele claramente era um enfeite de cabelo que pertencia a uma mulher. O que raios aquilo estaria fazendo no esconderijo do Barão?

O jovem feiticeiro hesitou por um segundo. Ao mesmo tempo que queria descobrir a história por detrás daquela presilha, não estava certo se realmente queria saber. Teria o Barão uma outra família? Uma outra esposa? Ou talvez uma filha?

Mihai agitou a cabeça para espantar esses pensamentos, e começou a preparar o ritual. Qualquer que fosse a verdade, ele deveria encará-la, e não fugir dela. Somente assim encontraria seu pai. Por isso, ele colocou a presilha no centro do círculo de encantamento, se assentou no chão, e, conforme se concentrava, transcendeu para as memórias atreladas àquele objeto.

A primeira coisa que Mihai viu foi um par de olhos extremamente brilhantes, em um tom que pairava entre o verde e o cor de mel. Olhos cercados por cílios escuros e grossos, da mesma cor dos cachos que a pessoa tinha caindo pelas costas. Realmente era uma mulher, Mihai constatou, e notou a presilha fixada em meio aos fios de cabelo castanho. As lembranças começavam quando ela ainda era bem jovem, tão jovem quanto ele, e a acompanhavam até que ela fosse uma mulher no início da casa dos trinta.

Um nome surgiu no fundo de sua mente: Henrietta. Henrietta Raycraft.

Ele começou a tentar procurar o Barão Blackburn em meio às memórias, mas a grande maioria parecia desfocada, enquanto uma em específico brigava pela sua atenção. A memória do dia em que a jovem mulher ganhou aquela presilha de cabelos.

Mihai a viu assentada no chão de carpete do que parecia ser um palacete ou uma mansão. A decoração era suntuosa, mas a jovem chorava copiosamente, cobrindo o rosto com as mãos. Por entre os dedos, era possível ver fragmentos da pele alva violentamente maculada por hematomas e raias de sangue.

Um homem caminhou até ela. Ele parecia bem mais velho, talvez com idade para ser seu pai. Mas, quando ele segurou o queixo da moça entre os dedos e passou o polegar pelos seus lábios ensanguentados, Mihai soube imediatamente que esse não era o caso.

Aquele era o marido dela, ele constatou, com um pouco de repulsa ao chegar a tal conclusão.

“Você deveria parar de chorar, Henrietta”— o homem disse, em um tom de desaprovação— “Você sabia o que ia acontecer quando não calou a boca quando eu mandei, não sabia? Então pare de drama, você foi avisada”

A jovem soluçou, incapaz de articular uma resposta. Mihai conseguiu sentir todo o medo e humilhação que ela sentia naquele momento, e cerrou os próprios punhos para conter a raiva.

O homem se ajoelhou na frente da jovem mulher. Novamente colocou a mão no rosto dela, dessa vez na bochecha, e afastou os cachos de cabelo que cobriam seu rosto.

“Vamos, agora pare com isso. Nossos convidados estão chegando para o baile, e eu te quero bonita para eles. O que vão achar se te verem nesse estado?”— dizendo isso, ele tirou a presilha de dentro do bolso, e prendeu as mechas que insistiam em cair no rosto da garota— “Assim está melhor, não acha? Uma coisinha bonita para outra coisinha bonita.”

Ele deu as costas e foi embora, deixando a garota novamente chorando sozinha. Ela tirou a presilha do cabelo e a segurou nas mãos. Apertou forte o suficiente para que as pequenas joias incrustadas no enfeite tirassem sangue de sua pele.

Então, respirando fundo, ela se levantou, caminhou até um espelho, e usou o enfeite para prender os cabelos novamente. Ensaiou um sorriso, que mostrou dentes manchados de vermelho. Então limpou o sangue em seu rosto com a manga do vestido, e caminhou até o seu quarto. Tinha que esconder os machucados antes da chegada dos convidados.

Mihai ficou tão perturbado que logo se viu incapaz de continuar naquela memória, e foi arremessado para outra, sem muita escolha de qual seria. Estranhou, pois geralmente tinha mais controle quando usava aquele feitiço, mas daquela vez as memórias pareciam ter vida e vontade própria.

Felizmente, assim que viu o cenário tomando foco novamente, ele percebeu que essa memória incluía o Barão Blackburn.

Blackburn estava assentado de frente para a mulher. Estavam no que parecia um escritório, e dessa vez Henrietta parecia ser mais velha, com trinta e poucos anos. A presilha brilhava, prendendo seus cabelos para o alto.

“Por favor, não minta para mim de novo”— Henrietta disse. Pelo tom de voz, e pelo contexto, Mihai pôde perceber que ela e o Barão costumavam ser próximos, mas ele não conseguiu determinar de que maneira— “Você precisa me contar a verdade para que eu possa te ajudar”

Blackburn deu um sorriso cansado.

“Não tem nada de errado, Henri. Eu agradeço pela sua preocupação, mas eu estou contando a verdade. Está tudo bem”— o homem disse, e Mihai soube tão bem quanto Henrietta sabia que ele estava mentindo.

“Por favor”— ela insistiu mais uma vez— “Me conte a verdade. Confie em mim.”

Com aquela expressão assustada e suplicante no rosto, Mihai percebeu que Henrietta lhe era familiar. Subitamente, ele percebeu onde a havia visto antes.

A memória do Barão conectada à pistola, na qual ele salvava uma menina acorrentada de um grupo de pessoas encapuzadas. Ela era Henrietta, Mihai concluiu, arregalando os olhos.

Por isso os dois pareciam tão próximos. Porque eram. Ele havia salvado Henrietta da morte. E esse era o tipo de dívida que apenas uma vida inteira de lealdade poderia pagar.

“Você vai entender tudo em breve”— o Barão abriu mais um sorriso triste— “Eu quem lhe peço: por favor, confie em mim”

E, tão rápido quanto a memória havia se formado, ela se desfez.

Mihai se viu adentrando uma última lembrança. A que parecia mais recente, mas, estranhamente, ela estava desfocada, pálida. Como se uma emoção muito forte a nublasse.

Ou como se houvesse algum tipo de interferência, ou bloqueio. Aquela energia forte e mágica que ele havia sentido ao pegar a presilha nas mãos se intensificou de modo quase insuportável.

Ele estava naquele mesmo porão no qual se encontrava atualmente. Contudo, ele parecia ainda mais arruinado do que quando Mihai o havia encontrado, com cinzas e fumaça cobrindo o chão e as paredes, a vigas do teto quase desabando.

Havia fumaça, muita fumaça. Ele mal conseguia enxergar um palmo a frente de seu rosto. Só sabia que estava chorando, e que suas mãos tremiam, conforme seu coração disparava sem nenhum motivo aparente.

Assim como Henrietta chorava. Ele conseguia ouvi-la, mesmo sem vê-la direito.

Ela estava no centro de tudo, ajoelhada em meios às cinzas. Mihai tentou caminhar até ela, mas o ar parecia denso, pesado, e ele cambaleava forçosamente.

A lembrança parecia querer expulsá-lo. Como se fosse algo doloroso demais para lembrar. Como se ele não pertencesse ali. Como se a magia embrenhada naquele objeto rejeitasse sua presença, sua intrusão.

Seus pés pareciam chumbo, mas ele finalmente conseguiu se arrastar até Henrietta. Estava prestes a se ajoelhar de frente a ela, para tentar entender o que estava acontecendo, quando a mulher ergueu o rosto, e o olhou diretamente nos olhos.

Em um movimento ágil e inesperado, ela estendeu a mão, e agarrou seu pulso com força.

Aquilo não deveria estar acontecendo. Nenhuma das lembranças nunca havia interagido com ele, Mihai sempre era um mero expectador. Mas, daquela vez, os olhos verdes e brilhantes de Henrietta estavam fixados diretamente nos dele, e a mão dela o segurava com força.

—Nunca te ensinaram que você não deve usar um objeto amaldiçoado em um ritual de memória, garoto?— a voz da mulher saiu distorcida, como se realmente não a pertencesse, e sim a outrem.

Mihai tentou se afastar, horrorizado, tentando sair da memória, acordar do transe. De repente, a realização de que não era capaz o atingiu, e ele se viu ainda mais indefeso e apavorado. Estava preso, e completamente à mercê da magia maligna que embrenhava aquele objeto.

—Nós vimos tudo. Tudo. Como você pôde ser tão ingênuo em tentar espiar aquilo oculto em um objeto embrenhado de danação?

A voz definitivamente não era de Henrietta, ele concluiu.

Aquele grampo, o que quer que tivesse testemunhado, havia se contaminado de energia mágica. Absorvido tragédias demais, desgosto demais.

O que havia acontecido naquele porão? O que Henrietta tinha encontrado? O que era horrível o bastante para amaldiçoar aquele objeto para sempre?

—É melhor você acordar agora, garoto. Antes que se esqueça como.

E, em uma explosão de Sombras e Luz, Mihai se viu bruscamente expulso de dentro da memória.

A presilha, no centro do círculo do ritual, soltava fumaça e chiava.

Olhando ao seu redor, ele percebeu que todo o vidro dentro do porão havia se estilhaçado com a explosão, incluindo a janela, e, ao longe, ele podia ouvir um cão latindo, provavelmente assustado com o barulho e com a luz.

Foi nesse momento, ainda zonzo e assustado, tentando processar tudo o que havia acabado de ver, que Mihai ouviu passos pesados vindo em sua direção. Luzes, aparentemente provenientes de lampiões, logo cegaram sua vista, e ele tentou se esconder, sem entender muito bem o que estava acontecendo.

—Senhor, acho que tem alguém aqui!— uma voz masculina disse, e logo uma outra respondeu:

—Pois trate de pegar esse malfeitor, Sargento! Não o deixe fugir!

Mihai tentou sair pela janela quebrada e correr pelos destroços da casa, mas logo um par de mãos firmes e rudes o agarrou pela gola de seu casaco.

—Onde pensa que está indo, garoto?— o policial que o havia agarrado perguntou— Foi você quem causou essa explosão e toda essa algazarra, não foi?

As palavras entalaram na garganta do jovem. Suas mãos ainda tremiam, e ele se sentia à beira de lágrimas.

Ele poderia ter reagido. Poderia ter apagado o policial com um feitiço e corrido. Mas ele percebeu que não era capaz. Nunca havia machucado ninguém antes, e não sabia como sua magia poderia se comportar após aquele episódio paranormal e intenso.

O policial o algemou, e estava prestes a arrastá-lo até o outro, quando um homem moreno surgiu das sombras, um distintivo erguido e uma expressão autoritária no rosto.

—Sargento— Augustus Lockhart disse— Eu assumo daqui. Investigações oficiais da Scotland Yard.

Pelo canto do olho, Mihai viu uma outra figura espreitando a cena, o rosto carregando preocupação intensa, mas os olhos fixados nele. Digory. O que diabos ele estava fazendo ali?

Para que o caro leitor não se encontre tão perdido e confuso quanto Mihai, me vejo na obrigação de regredir levemente nos acontecimentos daquele dia, e relatar um pouco sobre os episódios que se desenrolaram para Digory Pembrook e Augustus Lockhart.

Como previamente comentado, Digory havia saído mais cedo do trabalho. Porém, diferentemente do que Mihai havia suspeitado, isso nada teve a ver com a atmosfera pouco confortável que havia se instaurado entre os dois desde o encontro deselegante que tiveram no transporte público da cidade.

Mas tinha a ver com Zoe, como Mihai havia temido, embora suas conclusões a respeito disso tenham sido precipitadas.

Augustus e Digory estavam se revezando para fazer a vigilância do abrigo desde que Zoe havia se escondido lá, e portanto andavam passando boa parte do tempo livre guardando a casa. Durante o dia, eles procuravam se alternar, mas, durante a noite eles combinaram de trabalhar juntos até que Antigone chegasse, o que tinha acabado de acontecer naquele momento.

Portanto, eles estavam andando de volta até a sede da Ordem, onde iriam terminar de preencher um pouco de papelada e depois ir para casa.

Durante o trajeto, Digory estava confuso e distraído. Quase tropeçou nas pedras do calçamento por mais de uma vez, e não conseguiu conter um suspiro longo e sofrido quando um casal sorridente passou andando por ele e Augustus na rua.

—Ei, garoto— a voz de Augustus interrompeu seus pensamentos de melancolia e autocomiseração— Você está bem?

Digory estava prestes a mentir (algo que fazia notavelmente mal), quando deu de ombros, e decidiu contar a verdade. Afinal, Augustus parecia paciente e confiável o suficiente. Apesar de se conhecerem a pouco tempo, ele já havia salvado sua vida, e o ajudado depois disso diversas vezes. Ele decidiu que ele era a melhor pessoa para ouvir seu desabafo.

—Na verdade não— Digory admitiu, e Augustus esboçou uma expressão preocupada.

—Você precisa conversar? Dizem que sou um bom ouvinte.

Digory abriu um sorriso triste.

—Espero que você esteja preparado para um pouco de drama adolescente— ele brincou, e Augustus riu, mas não interrompeu, o que ele tomou como um incentivo para continuar falando— Bem, tem esse meu… amigo. E não faz muito tempo que nos aproximamos, mas eu gosto muito dele, e acho que ele também gosta muito de mim. Só que recentemente eu descobri algo duvidoso sobre ele, e eu não sei se eu deveria contar para ele que eu sei o que sei, porque talvez ele fosse parar de gostar de mim se descobrisse que eu sei. Mas também ele pode começar a me odiar se descobrir como eu descobri o que descobri, e que eu sou o que eu sou, e que por isso descobri o segredo dele, e que ele é o que é. Só que ele não sabe que eu sei, e se ele soubesse, ele saberia que eu só sei o que sei porque sou o que sou… E… e…

Digory começou a gaguejar ao perceber que estava se enrolando com as próprias palavras. Estava tentando seu melhor para não revelar que era amigo de um feiticeiro, já que não sabia se Augustus desaprovaria disso, mas ao mesmo tempo percebeu, tarde demais, que provavelmente já havia falado demais.

Augustus, supreendentemente, apenas riu.

—O seu amigo é um usuário de magia. É isso o que você está tentando dizer, certo?— o homem perguntou, e Digory arregalou os olhos— Não precisa ficar assustado desse jeito, garoto. Nem todos os agentes da Ordem odeiam feiticeiros. Eu pelo menos não odeio.

Digory suspirou.

—Sim. Ele é um feiticeiro. E eu tenho medo que ele me odeie se descobrir que sou um agente da Ordem— ele respondeu, após se recuperar do susto.

Augustus pareceu pensativo por alguns segundos.

—Sabe, uma pessoa da qual gosto muito também é um feiticeiro. E ele não me odeia por eu ser da Ordem, porque sabe que estou fazendo o que faço pelos motivos certos— Augustus disse— Você também está fazendo pelos motivos certos, não está? Você nunca machucou ninguém, e luta todos os dias pra proteger todo mundo, aqueles com e sem magia. Então, se ele realmente gosta de você, ele vai entender, e não vai te odiar. Ele provavelmente não seria capaz de te odiar nem se tentasse.

Digory absorveu as palavras em silêncio. Então abriu um sorriso tímido.

—Bem, eu sei que eu não poderia odiá-lo nem se tentasse. Nem se ele jogasse um feitiço em mim— o garoto disse, e riu— Espero que ele também goste de mim tanto quanto gosto dele. Ou ao menos o suficiente para tentar me entender.

Augustus sorriu, e passou a mão pelos cabelos de Digory de modo paternal.

—É difícil odiar você, garoto, isso eu garanto— o homem respondeu— Acho que você deveria conversar com ele, e ser honesto. Quem ama conta a verdade, e a mentira nunca leva a lugar nenhum.

Digory assentiu, se sentindo mais em paz, e decidido a conversar com Mihai no dia seguinte.

Afinal, seria melhor que descobrissem a verdade um sobre o outro da maneira fácil, e não da difícil. E que fossem honestos.

Infelizmente, leitor, o universo tinha outros planos.

Porque, conforme eles dobravam a esquina, Augustus e Digory ouviram o estrondo de uma explosão.

Como o leitor já deve ter imaginado, essa era a explosão causada por Mihai ao tentar espiar as memórias atreladas a um objeto amaldiçoado.

E, bem no momento em que ele estava sendo levado pelos policiais, Augustus e Digory avistaram a cena.

—Gus!— a voz de Digory saiu desesperada, seus olhos arregalados, conforme ele puxava a manga da camisa de Augustus— É ele! Meu amigo! Você precisa ajudá-lo, por favor!

Augustus pensou rápido, e sacou seu distintivo falso da Scotland Yard de dentro do bolso, andando a passos largos e decididos em direção à cena.

—Fique aqui, garoto. Eu vou resolver isso.

E, caro leitor, se há algo que pode ser dito a respeito dos Waldford é que eles possuem línguas de prata quando lhes convém, provavelmente um traço de família.

Porque, poucos segundos mais tarde, Augustus e Digory se afastavam da cena da explosão com Mihai, e, embora todos estivessem confusos, eles estavam seguros.

O caminho para longe da cena foi feito em meio a explicações apressadas e um clima desconfortável.

—Então você é um agente…— Mihai murmurou conforme Digory soltava suas algemas— E já sabia há alguns dias que eu era um feiticeiro, mas não pensou em me contar nada.

Augustus podia ver a expressão traída no rosto de Mihai, e culpada no rosto de Digory.

—Eu ia te contar, eu juro— Digory tentou se justificar, mas Mihai não pareceu convencido.

—Bem— Augustus interrompeu antes que aquela conversa escalonasse para uma discussão que os distraísse do verdadeiro problema ali— Eu odeio ter que fazer isso soar como um interrogatório, garoto. Mas o que diabos você estava fazendo naquele porão?

Mihai desviou o olhar de Digory para Augustus.

—Investigando— ele respondeu, um tom propositalmente vago.

Augustus respirou fundo.

—O que você poderia possivelmente investigar em um lugar terrível como aquele?— o homem indagou.

Ele sabia o que havia acontecido naquela casa. Ele estava com Henrietta no dia em que tudo aconteceu. Ele havia arrombado a porta destruída pelas cinzas com as próprias mãos, e visto a destruição com os próprios olhos.

Ele sabia que nada de bom poderia vir dali.

—Aquela casa pertencia ao Barão Blackburn, e eu tenho negócios a tratar com ele— Mihai respondeu, ainda tentando manter seu tom inexorável.

Augustus ficou ainda mais confuso.

Oh céus… o garoto provavelmente ainda não sabia das notícias. Ou não estaria procurando pelo Barão.

Augustus odiava ter que dizer aquilo, mas Mihai merecia a verdade.

—Mihai, há algo que você precisa saber…o Barão Ephraim Blackburn está morto. Ele morreu no início do ano, em um incêndio naquela mesma casa. Eu sinto muito.

Augustus não sabia que reação ele esperava de Mihai, até porque não entendia muito bem o porquê de ele, um feiticeiro, estar atrás de Lorde Ephraim Blackburn, o antigo Líder da Ordem. Mas ele certamente não esperava o que aconteceu a seguir.

Mihai Beswick desmaiou.

O choque da notícia aparentemente foi simplesmente demais para ele, e o garoto desfaleceu sem conseguir falar uma palavra sequer.

Antes que seu corpo pudesse atingir o chão, Digory o segurou, e sustentou o feiticeiro em seus braços, uma expressão de choque e preocupação em seu rosto.

—Gus…— ele disse, a voz trêmula— O que nós vamos fazer?

Augustus pegou Mihai nos próprios braços, tomando naquele momento uma grande decisão.

—Vamos levá-lo para o abrigo junto com Zoe, e esperar ele acordar— ele disse— Não vamos contar nada para a Ordem por enquanto, mas tenho a sensação que Mihai vai precisar da nossa ajuda.

Digory assentiu. E, juntos, eles trilharam o caminho de volta para o abrigo, levando Mihai e tentando refletir sobre a situação na qual haviam acabado de se meter.

Augustus sabia que nunca havia verdadeiramente servido à Ordem. Que só havia se metido naquilo tudo para ajudar Edward e lhe repassar informações, e manter-se vigilante quanto a instituição que havia assassinado seus pais.

Mas nunca antes daquele momento ele havia desacatado tão publicamente a Ordem. Esperava apenas que pudesse confiar em Digory e Antigone. Para o seu próprio bem.

Mas, antes de tudo, Augustus era um Waldford, e ele não deixaria um garoto indefeso ser punido por simplesmente ter nascido com dons extraodinários em um mundo ordinário. Um garoto como ele, como seus irmãos, como seus pais. Augustus era um feiticeiro, e morreria antes de trair seus iguais. Antes de trair seu próprio sangue.

E, inadvertidamente, Augustus Waldford, ao ajudar Mihai Beswick, também estaria ajudando todos aqueles ao seu redor a chegar um passo mais perto da solução do grande mistério que os atormentava.

Alguns dizem que nenhuma boa ação ficará sem ser punida. Mas, talvez, apenas talvez, por ao menos uma vez, a benevolência tenha sido o caminho mais fortuito.

Notas finais
Quando a gente achava que Digory e Mihai não poderiam arranjar mais problemas um com o outro, eis essa grande revelação. E o que acharam sobre a identidade do pai do Mihai? Vejo vocês nos comentários, até a próxima ♥