Arsonist's Lullaby- Interativa
17 XVI- Blood Is Thicker Than Water
Notas iniciais
Antigone Lascelle estava há quarenta e oito horas em uma crise explosiva de enxaqueca.
Ela não sabia como, mas, de alguma forma, a dor havia acabado de piorar.
—É inacreditável, Lockhart, como você tem talento para arranjar problemas— ela disse, suspirando longa e pesadamente assim que abriu a porta e deu de cara com o colega— Ande logo, entre. Antes que alguém te veja.
Ela sinceramente sequer sabia se queria perguntar o contexto daquela situação, só sabia que não parecia nada boa.
Augustus, carregando um adolescente desmaiado e uma expressão preocupada no rosto, obedeceu, e ela trancou a porta atrás dele.
Digory correu até o jovem desfalecido assim que Augustus o deixou no sofá, e apoiou a cabeça dele em seu colo, os dedos trêmulos correndo por seu cabelo. Parecia à beira de lágrimas.
O fato de Zoe ter decidido emergir da cozinha bem naquele segundo, e estar olhando o garoto desmaiado com uma expressão estranha, não ajudou em nada a melhorar a situação.
—Céus, o que aconteceu com o seu namorado?— ela perguntou para Digory, que a encarou com uma expressão mais raivosa do que Antigone achava que ela era capaz de sustentar.
—Ele estava em uma das cenas de crime do Incendiário— Augustus respondeu antes que Digory, que não parecia nada feliz, pudesse falar— Estava atrás de Lorde Ephraim, por algum motivo. Não estava ciente que ele já está morto há meses, e apagou quando lhe informamos desse fato.
Antigone se aproximou do garoto desmaiado, ainda deitado no colo de Digory, e analisou-o atentamente.
Ele tinha a pele mais morena, e o cabelo um pouco mais ondulado. Mas algo no formato dos olhos, ainda que estivessem fechados, e do nariz, a lembrava do Barão Ephraim Blackburn, seu antigo mentor. E, apesar de Henrietta ter sido a favorita do homem morto, ele ainda assim havia confiado certos segredos a Antigone. E aquele em específico era um que ela sempre temeu ter de encarar.
—Lorde Ephraim…— ela começou a falar, percebendo que, por uma das únicas vezes em sua vida, as palavras pareciam faltar-lhe— Ele… tinha um filho. Eu nunca soube do paradeiro do menino, mas Blackburn mandava cartas endereçadas à mãe do garoto com certa frequência. Ele também deixou um testamento com Henrietta antes de morrer, dizendo que, se alguma coisa acontecesse com ele, nós deveríamos nos certificar que seu filho iria receber a herança.
Augustus a encarou, choque e confusão em seu rosto.
—Então você acha que esse é o filho de Lorde Ephraim Blackburn?— ele perguntou.
—Sim. Eu acredito que sim— Antigone respondeu.
Digory parecia pensativo, e, depois de ouvir isso, tomou coragem o suficiente para dizer:
—Mihai me contou algumas semanas atrás que estava atrás do pai. Se o que você está dizendo é verdade, eu creio que esse tal Lorde realmente pode ser quem ele procurava.
Antigone assentiu.
—Os dois são razoavelmente parecidos. As idades batem. E, ainda mais com essa informação, acho que são muitas semelhanças para ser uma simples coincidência— ela concluiu.
Augustus respirou fundo, parecendo ainda mais confuso do que antes.
—Bem, eu acho que esse é o desfecho mais lógico, mas seria bom ter certeza antes de tomarmos qualquer atitude— ele ponderou— Mihai te contou algo mais sobre esse assunto, Digory? Qualquer coisa já é útil.
Digory, que ainda corria os dedos pelo cabelo de Mihai, desacordado com a cabeça em seu colo, ergueu o olhar para Augustus.
—Ele falou que seu pai lhe deixou um livro— ele disse, após refletir por alguns segundos— E que esse livro tinha bilhetes, e anotações. Talvez, se pudéssemos dar uma olhada nesse livro, poderíamos achar algo de útil.
Antigone assentiu.
—Ele estava com alguma mochila ou bolsa?— ela perguntou para Augustus, que confirmou e lhe entregou uma bolsa de carteiro em couro marrom-escuro levemente puída.
Zoe, que até então observava a cena toda em silêncio, decidiu se manifestar antes que Antigone pudesse abrir a bolsa:
—Sabe, eu poderia usar um pouco de magia para acordá-lo. Acho que seria de melhor tom perguntar para ele sobre o livro que mexer em suas coisas sem autorização.
Antigone encarou Zoe por alguns segundos. Ela não estava errada. Mas, ao mesmo tempo, não sabia se tinha fortitude emocional para lidar com o dramalhão que certamente se desenrolaria caso acordassem o garoto.
—Deixe ele dormir um pouco mais. Não sei se ele reagiria bem se o acordássemos— Antigone disse.
Zoe deu de ombros.
—Depois nós feiticeiros que não temos ética— ela provocou, mas o tom mais monótono que realmente revoltado— Mas, se vai mesmo bisbilhotar, bisbilhote logo. Estou ficando curiosa.
Antigone conteve um pequeno sorriso, que certamente não seria apropriado para a gravidade do momento, e abriu a bolsa.
A primeira coisa que viu foi, felizmente, um livro. Uma encadernação antiga e grossa em couro, tão velha que as páginas pareciam amareladas e gastas antes mesmo que ela abrisse o livro.
—Esse livro está completamente enfeitiçado— Augustus murmurou assim que colocou os olhos no objeto— Eu nunca vi uma coisa tão cheia de magia antes.
Antigone, mesmo não sendo tão boa quanto Gus em identificar objetos mágicos, também podia sentir aquela estranha vibração na pele da sua mão que segurava o livro, e o ar mais denso ao seu redor.
—Sem dúvida alguma— Zoe prontamente concordou— Mas eu já vi algo assim antes. Se parece com os pergaminhos que sumiram da biblioteca da minha avó.
Antigone ficou ao mesmo tempo mais confusa do que antes, mas também com uma insinuação de ideia se formando no fundo de sua mente.
Os assassinatos. O Hierofante. A avó de Zoe. Lorde Ephraim. Se todos estavam conectados, o que haveria levado o antigo Líder da Ordem para o meio daquele emaranhado de perigo e mentiras?
—Sem dúvidas são objetos similares— Antigone disse, folheando as páginas— Várias menções ao tal Hierofante. E sem dúvidas era de Blackburn, a letra dele está rabiscada por toda a parte.
Antigone sentiu sua dor de cabeça piorar ainda mais. Como se fosse possível. Os feitiços escritos nas páginas pareciam tentar invadir sua mente, quebrar os últimos resquícios de estabilidade que ela tinha. Portanto, ela fechou o livro e parou de ler.
—Eu não quero que ninguém mais coloque as mãos nesse livro até que Mihai acorde e eu volte— Antigone decretou, por fim. Por algum motivo, Gus e Zoe pareceram decepcionados, mas Digory pareceu aliviado— A magia aqui é perigosa demais, e não queremos pular para conclusões antes de ouvir o que Mihai sabe.
—Tudo bem— Zoe concordou, ainda que com um resmungo meio contrariado.
—Acho que é o mais sábio a se fazer— Augustus assentiu— Mas onde você está indo?
—Para a Ordem. Tenho a impressão que sei onde achar mais pistas, se eu procurar no lugar certo.—Antigone respondeu— Lockhart, você está no comando até eu voltar. Cuide bem deles.
Augustus sorriu, e concordou com a cabeça.
Nos túneis subterrâneos que constituíam o caminho até a Ordem, Antigone se pegou pensando no que estava prestes a fazer. Já não bastasse ter pegado o livro de uma adolescente desacordado, ela estava a ponto de invadir a privacidade de um homem morto.
Talvez ela realmente fosse tão ruim e fria quanto as pessoas pareciam pensar que ela era. Estranhamente, não conseguiu se afligir muito com essas pensamento. Sua consciência estava tranquila. Não importa o que dissessem, suas mãos estavam limpas de sangue, e tudo o que havia feito foi para proteger a humanidade, por mais que ela parecesse rejeitá-la.
Pensou em Everard por alguns instantes. O que havia acontecido com ele era a razão pela qual ela, dia após dia, dava seu sangue e seu suor à Ordem. Lhe machucava profundamente que as pessoas pudessem insinuar que ela tivera alguma participação no fim precoce e trágico que seu irmão tivera. Ela preferiria mil vezes não ser uma Marquesa, e ter seu irmão vivo, do que sustentar aquele fardo e aquela perda. Mas era por Everard que ela lutava. Para que nenhuma outra pessoa tivesse o fim sombrio que ele teve.
Ao chegar à Ordem, percebeu que ela estava mais vazia que de costume. Naquele horário, grande parte das pessoas já havia voltado para casa, para suas famílias, para seu descanso. Esse era um luxo que ela não tinha desde seus dezoito anos.
Estranhamente, Henrietta não estava em seu escritório. Antigone não sabia se ficava aliviada ou preocupada. Ela era uma das poucas pessoas que sabia dos demônios da Líder da Ordem, da sujeira que ela escondia por detrás de sua fachada imaculada. No fundo, Antigone sabia que não era culpa dela. Ela sabia que Henrietta havia passado por uma situação que deixara traumas e sequelas, e que todas as seringas vazias e noites sem dormir eram culpa disto. Mas Antigone também era uma sobrevivente, e embora não tivesse cicatrizes para provar, como Henrietta tinha, ela também lutava contra seus próprios demônios. E sem a ajuda de nada ou ninguém.
De qualquer forma, o escritório estar vazio era terrivelmente conveniente. Caso Henrietta estivesse ali, ela teria pedido autorização. Como não estava, era bem mais fácil pedir desculpas depois. Entrou no escritório, e fechou a porta atrás de si.
Antigone já havia visto Henrietta com os antigos diários de Lorde Ephraim Blackburn diversas vezes. Era uma tradição dos Líderes da Ordem deixar registros com sabedoria e conselhos para seus sucessores. Embora Antigone raramente visse Henrietta escrevendo, ela sabia que ela lia os diários dos antigos Líderes com bastante frequência. Sobretudo os de Blackburn. E era justamente um destes que estava sobre a sua escrivaninha.
Havia um bilhete do lado do diário, combinando um encontro, e assinado “E.W.”. Antigone estranhou, mas pensou que era com esse tal E.W. que Henrietta deveria estar. Só esperava que, quem quer que ele ou ela fosse, fosse alguém útil e confiável. Henrietta precisava dar ouvidos a mais boas influências.
A verdade é que Antigone não confiava muito em Henrietta sozinha. Ela era leniente demais com feiticeiros, como Ephraim também havia sido. Ambos sempre tentavam negociar com pessoas que não mereciam confiança. E isso sempre os colocava em situações de perigo.
“A vida privada de Henrietta não te diz respeito”— Antigone pensou, apesar do misto de apreensão e preocupação— “Volte para sua tarefa e pare de bisbilhotar o escritório dos outros mais que o necessário.”
Ela pegou o diário, e concluiu que ele era um dos mais antigos, de poucos anos depois de Ephraim ter assumido o cargo de Líder da Ordem. Na época, ele deveria ter mais ou menos a idade que Antigone e Henrietta tinham atualmente, na metade para o fim da casa dos trinta. Ainda inexperiente, e tentando se impor como o novo Líder. Como Henrietta também estava. Fazia sentido que ela fosse buscar um rumo na situação similar que Blackburn havia vivenciado.
Antigone abriu na página em específico no qual estava o marcador do diário e correu os olhos por ela. Coincidentemente, aquele registro falava sobre ela e Henrietta. Ela se perguntou se realmente deveria estar lendo aquilo. Se realmente era necessário. Se ela realmente queria saber o que Ephraim costumava pensar das duas. Mas algo muito forte em si lhe dizia que ela precisava saber. Que era essencial que ela entendesse seu antigo mentor para conseguir entender como ele se encaixava em meio a todas aquelas tragédias.
“Henrietta está piorando a olhos vistos. Eu realmente tinha achado que a morte repentina de seu marido havia sido uma benção disfarçada, e que ela finalmente começaria a melhorar longe dele. Acho que eu estava enganado.
Às vezes me pergunto se Antigone não seria uma pessoa melhor para me suceder. Firme, racional, livre dos vícios e instabilidades que Henri parece acumular a cada dia que se passa. Mas Antigone não entende o perigo que nos espreita, que sempre nos espreitará. E acho que ela jamais entenderia as coisas que fomos obrigados a fazer para impedir a seita do Hierofante. Henrietta estava lá. Mesmo sendo só uma garota, e tendo quase morrido nas mãos deles, ela entendeu o que precisava ser feito para impedir que o Hierofante retornasse. Ela entendeu que precisávamos cooperar com os feiticeiros e com os Iluminados, mesmo que eu tenha certeza que ela os odeia um pouco.
Antigone nunca conseguiu superar a morte de Everard. Acho que ela nunca conseguirá perdoar a magia por ter levado seu irmão dela, acho que ela sempre verá seu uso com maus olhos. Ela seria perfeita para o cargo, se ao menos não tivesse princípios tão firmes. Não acho que ela teria um coração ruim ou que perseguiria feiticeiros. Mas acho que ela jamais poderia entender os caminhos duvidosos e tortuosos que devemos tomar como um Líder. Para o bem comum.
No final de tudo, eu creio que não tenho realmente uma escolha. Henri não está bem, e talvez Antigone fosse melhor para o cargo, mas apenas uma das duas tem a capacidade de fazer o que precisa ser feito. Apenas uma delas sabe como derrotar o Hierofante, caso um dia ele retorne.”
Antigone fechou o diário assim que terminou aquela página. Sentia um misto de raiva e tristeza, e precisou se assentar na escrivaninha para se recuperar do que havia acabado de ler.
Ela sempre tivera razão. Henrietta realmente era instável, e ela realmente seria uma Líder melhor. Blackburn também sabia disso. Mas o que quer que ambos tinham passado juntos, o que quer que eles haviam sido obrigados a fazer, era maior que qualquer competência que ela pudesse demonstrar. Todo o esforço que ela fizera ao longo dos anos para servir àquela Ordem, para tentar assumir o cargo que ela sabia que deveria lhe pertencer, havia sido em vão.
No final, Henrietta e Ephraim sempre estiveram conectados pelo seus passados obscuros.
Antigone sabia que Blackburn havia resgatado Henrietta quando ela era apenas uma garota, como também havia resgatado Antigone após a morte de Everard. Que desde então ela era sua protegida. Mas não fazia ideia de quão maior que qualquer um deles a situação toda era. Que havia uma seita, e a tal entidade aparentemente tão perniciosa e maligna do Hierofante, permeando tudo. E ela se ressentiu de ambos por nunca terem contado nada para ela.
Será que Henrietta já sabia que os incêndios estavam conectados ao Hierofante? Será que ela estava escondendo isso dela?
Antigone não saberia dizer se foi sua raiva, ou apenas seu desejo de saber mais. Mas ela continuou a ler o diário, e vários dos outros que conseguiu achar pelo escritório.
Quanto mais ela descobria, mais ressentida ela ficava. Por que Henrietta e Ephraim não haviam confiado nela? Depois de tudo o que ela havia feito por aquela Ordem? Por eles?
Ela descobriu ao que Ephraim se referia quando disse que precisou cooperar com os feiticeiros. Ele havia pegado uma das relíquias do Hierofante, o que quer que elas fossem, para protegê-la, depois dos eventos da seita. A descrição era compatível com o livro que ele havia entregado para Mihai.
Não apenas isso, mas Antigone descobriu que ele costumava manter contato regular com diversos feiticeiros, mesmo os membros sobreviventes da seita, para vigiar os outros portadores das relíquias do Hierofante. Em uma anotação em específico, ele os havia chamado de “Iluminados “, e ele aparentemente também era um deles agora que portava uma relíquia.
Antigone se perguntou se Henrietta também era como Blackburn. Se o tal “E.W.” com quem ela se correspondia também era um feiticeiro. Se ela também era hipócrita como seu mentor havia sido, e estava disposta a se associar a pessoas perigosas e imorais para obter informações. Se estava disposta a arriscar a vida e a segurança para conseguir o que queria.
Como eles ousavam insinuar que a fortitude moral de Antigone era um defeito? Que o fato dela ter perdido seu irmão para um feiticeiro a fazia menos adequada para o cargo?
Ela jamais machucaria usuários de magia inocentes. Ela havia estendido a mão para Zoe, e também para Mihai, mesmo sabendo do envolvimento de ambos com magia. Mas eles estavam certos: ela se recusava a cooperar com pessoas que usavam magia para machucar ou enganar os outros. E naquele segundo, ela teve certeza que precisava continuar suas investigações sozinha. Sem Henrietta, e qualquer que fossem as imoralidades as quais ela recorria.
Conforme ela saía do escritório de Henrietta, e tentava colocar seus pensamentos em ordem, ela se lembrou de Everard.
O dia em que ele havia sumido havia sido o segundo pior de sua vida. O pior foi quando ela o encontrou, os olhos arregalados e opacos, o sangue espalhado pelo chão em pentagramas e runas bizarras, uma faca nas mãos do feiticeiro que havia acabado com sua vida inocente.
Ela sabia que a magia não era de todo ruim. Mas ela se recusava a deixar pessoas como o homem que havia matado seu irmão impunes. Se ela precisaria fazer tudo sozinha, que fosse. Mas suas mãos estavam limpas de sangue. E ela se recusava a deixar que alguém as manchasse com seu toque maldito.
Acontece que, como o leitor deve ter suspeitado, Antigone realmente estava certa ao inferir que Henrietta havia sumido pois estava com o tal E.W.
E, conhecendo Edward Waldford, o leitor também deve ter imaginado que Antigone também estava certa em assumir que se tratava de alguém de motivações questionáveis.
Henrietta, entretanto, estava completamente alheia às recentes descobertas de sua colega. No momento, sua atenção estava dividida entre a dor lancinante em sua cabeça e o documento que tinha em mãos.
Pensou que realmente precisava de uma dose de morfina. Já faziam dias que ela não usava nada, e a dor de cabeça parecia apenas piorar. E quanto mais dor ela sentia, mais pesadelos e ansiedade a assombravam.
Se perguntou se era por isso que estava passando tanto tempo com Edward. Por mais estranho que parecesse, a presença dele conseguia distraí-la um pouco da dor, e de suas preocupações. E sempre que eles se encontravam para prosseguir as investigações, eles conseguiam discutir sobre as teorias e juntar alguns pontos.
Por mais que no momento não estivessem realmente conversando, saber que ele estava do outro lado da sala, também tentando chegar a uma solução para aquele mistério, lhe trazia algum conforto.
—Você está sentindo dor.
A voz de Edward a tirou do estado distraído no qual ela se encontrava, e Henrietta ergueu o olhar para encontrar o do homem.
Já estava acostumada eventuais a comentários levemente impertinentes, ditos com um ar calmo e levemente debochado, quando eles se encontravam para investigar. Mas, daquela vez, a expressão dele era de preocupação genuína.
—Como sabe? Está usando magia em mim?— ela retorquiu, colocando os papéis de lado e o encarando uma sobrancelha arqueada, um pouco desconfiada.
Ele não estava errado, mas ela ainda assim não queria dar o braço a torcer.
Edward riu, e se aproximou lentamente, atravessando a pequena sala e se ajoelhando no tapete de frente ao divã onde ela estava.
—Não preciso de magia para perceber que você está desconfortável— ele disse, erguendo a mão cuidadosamente e pousando os dedos sobre sua têmpora— Já faz um tempo que você não parece bem. Me deixe te ajudar.
Henrietta quase estremeceu com o toque de seus dedos frios, mas não se afastou.
—Você realmente acha que eu deixaria você usar um feitiço em mim?
Ele esboçou um sorriso triste, e então afastou a mão.
—Não poderia ser pior que toda a morfina que você injeta— ele respondeu, mas não havia ironia ou rispidez em sua voz, apenas preocupação.
Henrietta queria ter ficado irritada, mas o que sentiu verdadeiramente foi choque ao perceber que ele já sabia sobre seu segredo esse tempo todo.
—Como…?
—Achou mesmo que eu não iria reparar em todos os furos na sua pele? Ou nas mudanças de humor?— ele questionou, pousando a mão dessa vez sobre o seu braço, os dedos percorrendo suavemente todas as marcas de agulhas— Não estou te julgando, ou tentando explorar seus pontos fracos. Eu só quero te fazer se sentir melhor. Por favor, me deixe cuidar de você.
O pedido foi estranhamente comovente. Henrietta se pegou o encarando, sem reação, sem saber o que dizer. Os olhos cinzentos dele, pela primeira vez, não pareceram frios, e sim duas piscinas de prata líquida, hipnotizantes e elétricos.
Ela assentiu silenciosamente, retirando de seu pescoço o amuleto de obsidiana e o pondo de lado, e ele sorriu.
—Apenas confie em mim, e tudo ficará bem— Edward assegurou, e pousou a mão direita sobre o seu rosto.
Ela se sentia uma tola por estar confiando tanto nele. Ele poderia matá-la com facilidade, agora que ela estava sem seu amuleto e vulnerável à magia dele.
Ainda assim, ela não conseguiu sentir um pingo sequer de apreensão. Com certo choque, percebeu que não o temia mais.
Os lábios de Edward começaram a se mover, recitando palavras em latim, e sua mão esquerda realizava movimentos rítmicos no ar, desenhando runas e padrões para canalizar sua magia.
À princípio, nada aconteceu. Mas então uma energia dourada e pálida começou a brilhar, desenhando os símbolos por onde seus dedos passavam, e a mão que estava no rosto de Henrietta começou a esquentar, emanando a mesma luz.
Edward então se aproximou mais, e desenhou um último símbolo em sua testa. A energia fluindo pelo corpo de Henrietta a fez ter um forte espasmo, e ela se inclinou em direção ao toque dele, sentindo a dor desaparecendo aos poucos e sendo substituída por uma agradável sensação de tranquilidade.
Edward agora segurava seu rosto com ambas as mãos, a pele quente contra a sua. Henrietta ainda o encarava, e uma sensação estranha se apossou dela. Pela primeira vez, ela não estava simplesmente indiferente à proximidade repentina. Ela estava triste de saber que logo ele se afastaria.
Contudo, isso não aconteceu imediatamente. Edward a encarava de volta, e ela não conseguia desvendar aquele olhar.
—Os seus olhos…- ele murmurou, o polegar se movendo lentamente sobre sua bochecha— Eu achava que eram verdes, mas, de tão perto, parecem quase dourados.
Henrietta não se afastou, mas manteve a expressão séria. Ela sabia muito bem o que ele estava fazendo, o que ele queria. Já havia sido casada por quase meia década, sabia quando um homem a desejava, mas, ao mesmo tempo, nada nunca era tão simples com Edward. Ainda assim, não tinha certeza se queria impedi-lo. Estava disposta a ver até onde ele iria, mas não tornaria as coisas tão fáceis.
—Não ache que vai me comover com palavras bonitas, Edward— ela disse, ainda sustentando o olhar dele— Diga o que quer. Se vamos fazer isso, o que quer que seja, não quero joguinhos ou manipulação.
Ele riu.
—Por que sempre acha que tenho segundas intenções ou algum plano mirabolante em mente? Já não está claro o que eu quero?— ele perguntou— É tudo bem mais simples do que pensa. Eu não quero controle, poder, influência, nada. Nada além de você.
Os olhos dele queimavam em sua pele, intensos, e ela podia sentir toda a hesitação e desconfiança deixando seu corpo.
Ele se inclinou até ela, mas de maneira lenta, permitindo que ela se afastasse, se assim desejasse. Ela permaneceu parada, e suspirou quando finalmente sentiu os lábios dele nos seus, e suas mãos, de maneira quase inconsciente, buscaram pelos cabelos dele, o puxando para mais perto.
As mãos dele deixaram seu rosto e a seguraram pela cintura, e ele se alçou para cima dela, até que seu corpo pressionasse o dela sobre o divã.
—Você quer que eu pare?— ele perguntou, quando o fôlego faltou para ambos, se afastando alguns centímetros.
Ela negou com a cabeça, quase soltando um pequeno resmungo contrariado ao vê-lo tão longe de si. Edward pareceu extremamente satisfeito, quase convencido, com a reação, e abriu um grande sorriso antes de beijá-la novamente.
Se iriam mesmo assumir aquele risco, iriam até as últimas consequências.
O toque dele era preciso, quase cirúrgico. Ele sabia como beijá-la, quais partes do seu corpo tocar, como deixá-la completamente fora de si. Estava claro que tinha bastante experiência, mas ela também não era alguma debutante ingênua. Respondia à altura, e não cedia mais controle do que era obrigada a dar. Era quase como se estivessem dançando. Ou lutando. Sabiam quando recuar e quando avançar, e sabiam exatamente do que o outro precisava.
Mesmo com toda a mistura de sentimentos dentro de si, e todo o êxtase que o toque de Edward causava, Henrietta ainda estava ciente do perigo do que estava fazendo. Era inegável que ambos já desejavam aquilo há algum tempo, mas ela sabia o quanto era arriscado deixar que Edward se aproximasse tanto.
Ela perdia todo o controle quando estava com ele. E tinha medo de onde seu próprio coração iria levá-la.
Mas, naquele momento, não conseguiu formar mais nenhum pensamento coerente. Tudo no que ela conseguia pensar era em Edward, e isso não lhe parecia tão perigoso assim.
Caro leitor, a verdade é que talvez Antigone Lascelle estivesse certa, e esse derradeiro romance fosse a prova de que Henrietta Raycraft não era confiável, e nunca havia sido. Mas eu não posso realmente culpá-la, muito menos julgá-la. Como um homem que já se apaixonou perdidamente por alguém que não deveria, eu sei como o amor pode ser avassalador, e nos fazer perder completamente o controle.
E, mesmo sabendo como essa história termina, talvez eu esteja disposto a dizer que, o que quer que Henrietta e Edward construíram, à sua própria maneira distorcida, tenha valido a pena.
O último excerto desse capítulo diz respeito a uma figura que também andava passando por sentimentos conturbados e lidando com um passado desagradável.
Cecily Campbell, a pequena Condessa de Polly Pembrook, acordou no píer coberto de cinzas do palácio de Buckingham.
Seus pés estavam afundados na água, que ia até seus joelhos, e a barra da sua camisola branca estava ensopada. Sua pele estava gelada, e ela tremia de frio, e também de pânico.
Não era a primeira vez que ela acordava de um pesadelo em um lugar que não era sua cama. E não era a primeira vez que esse sonho envolvia aquele píer.
Era mais um pesadelo com o que havia acontecido com seu antigo noivo, o Conde de Derbyshire.
Cecily vivia sonhando com ele. Com como ele havia sido em vida, é claro. Mas muito mais com como ele havia sido em morte. O cadáver duro e frio, os olhos azuis vidrados e sem brilho, os lábios arroxeados e a pele mortalmente pálida. E no fundo ela sabia que era tudo culpa dela.
Ela nunca o havia amado. Em realidade, é provável que ela o tenha odiado ao menos um pouco.
Ele não um homem era ruim, ou cruel. Era apenas cerca de cinco anos mais velho do que ela, diferente de muitos dos velhos que a atormentavam atualmente. Sequer era especialmente mal apessoado. Mas algo no homem a havia irritado profundamente desde que seu pai havia arranjado o noivado, talvez a mediocridade, talvez a absoluta falta de ambição. A verdade é que ela havia desejado um milhão de vezes que aquele noivado acabasse. Mas ela nunca teria o desejado morto, muito menos da maneira que aconteceu.
Ainda assim, se não fosse por ela, ele ainda estaria vivo.
O sonho daquela vez havia misturado memória e alucinação. O início havia se desenrolado assim como na vida real, ela e o Conde assentados à beira do lago em um piquenique, Polly a tiracolo vigiando os dois para evitar qualquer tipo de boato escandaloso.
“Sabe, eu não sou tão entediante assim quanto você parece achar”— o Conde havia dito, um pouco chateado depois de um comentário especialmente ácido de Cecily— “Posso não ser tão galante quanto outros cavalheiros, mas serei o melhor marido que puder. Além disso, já vivi muitas aventuras, viajei para muitos lugares, já até escalei montanhas. Gosto de cavalgar, e de velejar…”
Cecily o havia interrompido com um risinho debochado.
“Você? Cavalgando e velejando? Me desculpe por duvidar de sua proeza, milorde, mas essas certamente não soam como suas melhores diligências. Talvez você se dê melhor com algo pacato, como sua pessoa, talvez damas ou xadrez”— ela havia respondido, e Polly a olhara com certa desaprovação.
O Conde se empertigou.
“Eu vou provar para você, milady. Se não posso conquistar o respeito da minha futura esposa, que tipo de homem eu sou?”— o homem havia respondido, e caminhado em passos decididos até um dos veleiros atracados no píer.
“Meu senhor…”— Polly havia tentado interferir— “O clima não está propício, por favor, vamos voltar para dentro. Os ventos estão muito fortes, e está quase anoitecendo…”
O Conde interrompeu Polly com um gesto.
“Confie em mim. Cecily ficará impressionada”— ele respondeu.
E ela havia realmente ficado um pouco, ao menos a princípio. Cecily havia ficado de pé no píer, observando o Conde fazer toda espécie de truque e manobra para tentar impressioná-la, e ela tentou manter uma expressão pouco impressionada, mas acabou sorrindo ao vê-lo sorrir para ela.
Mas Polly estava certa. O vento realmente estava forte demais. E o entardecer cada vez mais escuro. O detalhe derradeiro foi o mastro frágil que sustentava as velas se partindo violentamente após uma rajada de vento. E a embarcação tombou, virando-se de modo repentino e inexorável, enrolando o Conde entre as cordas e velas, e o arrastando para o fundo do lago.
Na vida real, Polly havia pulado na água para tentar salvá-lo, e Cecily havia ficado observando, olhos arregalados, conforme ela arrastava o corpo já sem vida para fora.
No sonho daquele dia, entretanto, algo ainda pior e mais estranho havia acontecido.
O barco havia começado a pegar fogo. Cecily gritou, completamente horrorizada, conforme as chamas se alastraram por cima da água, consumindo o Conde e o veleiro, e começando a subir para o píer. Ela sentiu conforme as chamas lambiam sua pele, mas se viu incapaz de correr, apenas de gritar e chorar copiosamente.
Ela havia acordado de repente, apenas para perceber que estava de pé perto do píer, tremendo e com lágrimas escorrendo por suas bochechas.
Ela respirou fundo, e girou no dedo o anel que Polly havia lhe dado para tentar se acalmar. Não era a primeira vez que sonhava com chamas, ou que tinha um ataque de sonambulismo. Realmente deveria parar de fazer tanto drama a respeito de um simples sonho.
“Você está apenas assustada com o incêndio, e misturando memórias”— ela tentou pensar para se acalmar, mas ainda podia sentir seu coração disparado— “Volte para o seu quarto antes que você pegue um resfriado. Você tem que estar bonita para o baile amanhã”
Cecily realmente voltou para o seu quarto, e tentou se secar e se acalmar o melhor o possível.
Mas não conseguiu se esquecer completamente da sensação das chamas subindo por suas pernas, consumindo sua pele. Mesmo com o frio da água gelada impregnado em seus ossos, ela ainda conseguia se sentir queimando.
No dia seguinte, ela usaria o vestido rosa que havia comprado, e pediria para Polly colocar fitas em seu cabelo, para combinar com o anel de quartzo que ela havia lhe dado. Iria sorrir e fingir que tudo estava bem. Mas mesmo conforme dançasse e risse dos gracejos dos cavalheiros, não conseguiria expulsar a horrível sensação de que algo terrível estava prestes a acontecer.
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