Arsonist's Lullaby- Interativa
18 XVII- Dancing Around The Lies We Tell
Notas iniciais
Eu não sei se você é do tipo de pessoa que aprecia festividades, leitor.
Assim como grande parte dos personagens dessa história, eu nunca fui um homem de apreciar celebrações e aglomerações grandes de pessoas. Claro, não sou completamente contrário a ocasiões especiais como aniversários ou natais em família. Mas devo admitir que festas grandes nunca foram meu estilo.
Já Leonard Cohen sempre foi uma pessoa que apreciou qualquer tipo de agito e reunião animada. Então é claro que o baile que ele planejava há quase um mês era uma ocasião que ele aguardava ansiosamente.
E, naquele momento, o grande dia finalmente havia chegado, e Leonard não estava nenhum pouco decepcionado.
A música era animada, com os violinos e as notas agudas do piano se misturando à conversa agradável e educada dos convidados e às risadas polidas das damas. O salão do palacete do Lorde Forrest Douglas havia sido decorado cuidadosamente, Leonard havia feito questão de escolher cada detalhe, e o resultado não poderia ser mais suntuoso.
Candelabros, lustres de cristal e pesadas cortinas de veludo se espalhavam ao redor dos convidados finamente vestidos, e Leonard não conseguia esconder seu êxtase em estar em meio a tanta glória.
Foi por causa do sorriso de orelha a orelha que ele exibia que Aaliyah, o braço entrelaçado no seu, também sorriu.
—É bom ver você se divertindo, ya helo— ela disse, e Leonard abriu um sorriso ainda mais largo.
—É uma noite extremamente especial— ele respondeu, puxando a mulher por entre os convidados e distribuindo cumprimentos e sorrisos— Estou feliz que você está aqui para ver meu momento de glória.
Aaliyah não fazia ideia do que Leonard realmente falava, assim como nenhuma das pessoas alegres e despreocupadas que frequentavam o baile.
Porque, embora todos soubessem que aquela festa marcava um momento de ascensão social e sucesso financeiro para Leonard Cohen, eles não sabiam que a noite também seria regada ao seu complemento favorito: vingança. E uma pela qual ele aguardava há longos e sofridos anos.
Veja bem, leitor, Leonard havia construído um nome para si mesmo, e, sendo um homem ambicioso, realmente estava feliz em se ver no topo. Mas eu estaria mentindo se dissesse que esse era o seu grande objetivo. Porque, como o leitor deve se lembrar, Leonard, assim como Edward Waldford, é um homem movido a uma única e fixa aspiração. E, de uma maneira ou de outra, ela iria se concretizar naquela noite.
—Senhor Cohen, essa é uma festa simplesmente magnífica!— a voz grave e retumbante do Lorde Forrest surgiu bruscamente ao seu lado, e Leonard se virou para cumprimentar o nobre— Digna de todo o sucesso que nossa parceria está alcançando!
—É muito bom saber que estou conseguindo agradar o meu mais prezado associado, milorde— Leonard respondeu, ainda sustentando o sorriso amplo e branco— Já conheceu minha acompanhante, a senhorita Aaliyah Najjar?
—É um prazer…
Leonard parou de ouvir a troca de amenidades e cumprimentos assim que a porta do salão de festas se abriu novamente, e mais um convidado entrou.
Aquele não era um convidado qualquer. Aquele era o homem que assombrava seus pesadelos desde que ele era apenas um rapaz. Aquele era o homem que havia lhe dado a vida, mas que depois a havia arruinado completamente.
Aquele homem era seu pai.
E assim que seus olhos e os de Leonard se cruzaram, George Cohen começou a andar em sua direção.
—Leo— o homem mais velho abriu um grande sorriso assim que se aproximou o suficiente, mesmo sabendo que Leonard odiava apelidos. Mesmo sabendo que Leonard o odiava— Já fazem muitos anos.
George colocou as mãos sobre os ombros do filho em uma espécie de abraço desajeitado. As mesmas mãos que estiveram ensopadas do sangue da mulher que ele havia jurado amar e proteger. As mesmas mãos que haviam tirado a mãe de Leonard dele. Mãos imundas de magia negra e hipocrisia, incapazes de construir qualquer coisa pura e verdadeira. Leonard se sentiu sujo meramente por deixar que elas o tocassem.
—Pai— ainda assim, Leonard se obrigou a sorrir, embora sentisse que mentir nunca havia sido tão difícil ou sofrido— Sim, já fazem muitos anos. Mas já passava da hora de nos reencontrarmos.
As pessoas não faziam ideia do que George havia feito. Com sua esposa, seus filhos, com sua terra natal. Como poderiam saber? George tecia mentiras com tanta facilidade quanto respirava. Fazia sentido que Leonard fosse sua cria, seu primogênito. A maçã nunca cai muito longe da árvore. Talvez Leonard também se odiasse um pouco por se parecer tanto com ele.
—Seus irmãos sentem sua falta— George comentou— Você deveria voltar para casa e nos visitar.
Leonard abriu mais um sorriso.
—Mas é claro. Não há nada que eu gostaria mais— dessa vez, não era uma mentira.
Realmente gostaria de voltar para casa. Mas apenas se fosse para dançar sobre o túmulo daquele homem.
Aaliyah, que até aquele momento conversava educadamente com o Lorde Forrest, decidiu interferir.
Ela não sabia da história toda, é claro, mas sabia que Leonard e o pai não estavam nos melhores termos. Leonard não sabia bem ao certo se ficava grato ou irritado pela intervenção dela.
—Olá! Você deve ser o Senhor George Cohen— ela sorriu, mas Leonard conseguiu ver uma certa tensão em sua expressão— Não vai nos apresentar, Leonard?
Ele forçou mais um sorriso.
—Claro que sim, que rude da minha parte. Pai, essa é Aaliyah, minha acompanhante. E esse é o Lorde Forrest Douglas, meu associado e benfeitor— Leonard os apresentou, e e todos trocaram os devidos cumprimentos.
O jeito que George encarou Aaliyah fixamente e beijou as costas de sua mão por mais tempo que seria necessário ou apropriado não passou desapercebido por Leonard, e ele sentiu seu sangue fervendo. Não por ciúmes, não, ele não era do tipo ciumento, e ele e Aaliyah não pertenciam um ao outro. Um pouco pelo tanto que ela pareceu desconfortável, talvez, encarando o homem de volta com intensidade semelhante, mas muito mais tensa. Mas mais por mais uma vez ficar tão dolorosamente evidente o quanto seu pai era um traste.
Como eles não haviam notado antes? Nem ele nem sua família? Todas as mentiras, a corrupção, as traições conjugais. George sequer fazia questão de esconder bem, ele nunca fora capaz de dissimular sua natureza podre completamente. Eles estavam cegos por escolha, pelo amor e respeito que tinham a ele.
Amor que ele matou junto com a mãe de Leonard. Que sacrificou por um ritual que consertasse todos os erros e atrocidades que havia cometido.
E havia dado certo. Lana Midgar Cohen havia morrido em circunstâncias extremamente suspeitas, mas George nunca fora punido. Ninguém sequer parecia desconfiar. Era como se todos estivessem enfeitiçados, e Leonard sabia que esse era o caso. O que quer que George Cohen tivesse feito, havia funcionado, e Leonard sabia que ele nunca seria punido pelos seus crimes. Que ele apenas prosperaria, se não o impedisse e fizesse sua tão merecida justiça com as próprias mãos.
—Sabe, pai, em meio às negociações e tramitações políticas, muitos esperavam que eu fosse conseguir o seu apoio— Leonard disse, lutando para manter a expressão o mais incipiente o possível. Se fosse a coisa errada naquele momento decisivo, todos os seus planos poderiam cair por terra— Tanto de maneira financeira como política. Sua opinião é estimada por todos.
George se empertigou, como Leonard sabia que ele faria. Um homem orgulhoso e tolo desde sempre, e que sempre reagia de modo previsivelmente presunçoso. Ou ao menos Leonard estava contando com isso.
—Bem, sempre é um prazer ouvir isso— ele respondeu, rindo, convencido— Suponho que o Lorde Forrest queira conversar a esse respeito, então, já que, pelo meu entendimento, vocês ainda estão precisando de investidores para a nova fábrica.
Leonard pôde ver pela expressão de Lorde Forrest que ele não havia gostado do tom de George. Outro homem orgulhoso e tolo. E que, com sorte, também reagiria com presunção previsível.
—Bem, Senhor Cohen, não estamos “precisando” de investidores— o Lorde respondeu, o tom ainda não hostil, mas definitivamente menos amigável— É uma oportunidade e um privilégio, então seria apreciado que se referisse à fábrica como tal. Além disso, já conseguimos tramitar a maior parte da lei sozinhos e…
Foi nesse momento que Leonard sabia que obteria sucesso. Pois a expressão de George mudou repentina e agressivamente.
—Espere, você está falando que essa aberração que insistem em chamar de projeto de lei é da autoria de vocês?— ele cortou a fala do outro homem, ríspido, a postura corporal se fechando.
O Lorde Forrest pareceu confuso por alguns segundos. Então, tão rápido quanto a confusão surgiu, ela deu lugar a um deboche frio e superior, e o homem abriu uma risada de escárnio retumbante e ligeiramente cruel.
—Agora eu entendo sua relutância em chamar seu pai, Leonard— Lorde Forrest se virou para ele, ignorando George completamente— Ele não é como você. Tem a mente simplória de um plebeu irlandês, e os investimentos sem ambição de um. Eu já deveria esperar que alguém da indústria carbonífera iria reclamar, mas não imaginei que seria logo ele.
Leonard conteve um sorriso. Ele havia pessoalmente colocado o inciso na lei que derrubava o protecionismo sobre a produção de carvão nacional, e havia sido muito celebrado devido aos gastos que isso pouparia às indústrias automobilísticas.
O que ninguém sabia era que Leonard não dava a mínima para as indústrias. Claro, ficaria feliz quando seus investimentos dessem retorno. Mas o verdadeiro objetivo daquilo tudo era prejudicar seu pai, um dos maiores investidores da indústria carbonífera nacional. E que dependia fortemente das legislação protecionistas em vigor, as mesmas que Leonard havia acabado de derrubar.
—Por favor, vamos manter a calma, senhores…— Leonard forçou um tom pacificador e preocupado, mesmo quando ele não desejava nenhum pouco que o conflito cessasse.
A essa altura, uma boa parte dos convidados do baile os olhavam de soslaio. A tensão entre os três era palpável, e Lorde Forrest e George Cohen ainda se encaravam com ódio no olhar.
Pareciam prestes a se engalfinhar. Leonard esperava que esse realmente fosse o resultado daquela conversa, ou ao menos quase isso.
—Você espera que eu mantenha a calma quando esse gordo imprestável me ofende desse jeito?— George ergueu mais ainda o tom de voz. Com a gritaria, os poucos convidados que pareciam alheios ao conflito definitivamente notaram o que acontecia, e o salão praticamente todo os olhava e cochichava— Para sua informação “Lorde”, esse plebeu irlandês tem investimentos bem mais rentáveis que os de um Barão sem herança como você! Coloque-se em seu lugar de insignificância junto com toda a sua corja de liberais e ladrões sem moral!
—Como você ousa?!— o Lorde Forrrest apontou o dedo na cara de George, o rosto vermelho de ódio— Somos bem mais honestos que sua laia de novos ricos sem princípios!
—Porco egoísta!!!— George retorquiu— Vocês vão afundar a economia nacional por capricho e estupidez!
Leonard decidiu que aquilo já era o suficiente. Não havia um dos convidados sequer que não tivesse visto a briga ou ouvido os gritos. Aquilo seria o suficiente para justificar o que viria a seguir.
—Por favor!— Leonard se colocou entre eles e abriu os braços para separá-los. Eles já estavam perigosamente perto, e, se ele demorasse alguns segundos a mais para interferir, era seguro que iriam iniciar uma altercação física— Vamos manter a civilidade, ao menos. Pai, por favor. Pense na reputação da família.
Leonard teria perdido que o pai de controlasse por ele. Mas sabia que George simplesmente não se importaria o suficiente. Talvez a reputação da família fosse o suficiente para fazer pens duas vezes em continuar aquela briga escandalosa.
—Só me tire de perto desse sujeito, Leo— George pediu, ainda com o inferno queimando em seu olhar— Agora.
Leonard não vacilou em obedecer, puxando seu pai para os jardins da festa, torcendo para que Aaliyah conseguisse apaziguar os ânimos de Lorde Forrest. Conhecendo a mulher e seu infindável charme, ele sabia que ela eventualmente conseguiria.
O ar da noite era frio, e o olhar das pessoas que haviam testemunhado a confusão, afiados. Leonard os ignorou o melhor que pôde, e guiou seu pai até um dos bancos de pedra que repousavam perto de algumas árvores, um local bem mais reservado que o burburinho do salão.
—Que sujeito petulante!— George ainda espumava pelas ventas, verborrágico e claramente irritado— Como você consegue se aliar a pessoas com esses princípios enviesados, Leonard? Com essa arrogância?
Leonard olhou ao redor, se assegurando de que estavam sozinhos. Quando não encontrou nenhum curioso os vigiando, ele finalmente deixou a máscara de preocupação cair. E fez o que era sua vontade desde que toda aquela briga havia começado: ele riu. Uma gargalhada sonora, até mesmo um pouco cruel, o que deixou George ainda mais confuso e irritado.
—Eu estou bastante acostumado a me associar com pessoas arrogantes e de princípios enviesados. Aprendi com você, pai— ele replicou.
George arregalou os olhos, chocado e afrontado.
—Como você ousa…?!
Leonard não deixou que ele continuasse sua exclamação de revolta, e o interrompeu:
—Sabe, pai, eu ainda fico ofendido quando você assume que todas as minhas vitórias e planos são da autoria de outras pessoas— Leonard disse, ainda sustentando o sorrisinho debochado— Lorde Forrest jamais seria inteligente o suficiente para construir aquele projeto de lei sozinho. Ou sequer para arranjar uma briga com você, se eu não o tivesse induzido. Ele foi um bom fantoche, mas não passou disso, um fantoche. Se você quer odiar alguém, eu lamento informar que o único culpado por tudo isso sou eu. E que eu ainda estou longe de acabar tudo o que eu planejei para atormentar o senhor.
Leonard esperava todo tipo de reação negativa de seu pai, mas não esperava a que recebeu: um tapa estalado e barulhento na bochecha, que fez o sangue pulsar em suas orelhas e sua pele arder. Mas que ainda assim não foi capaz de arrancar o sorriso superior de seu rosto.
—Você é mesmo igual a sua mãe, Leonard. Fraco e ignorante. Eu deveria ter matado você também, eu deveria saber que você jamais seria capaz de grandeza, apenas de conspirar e invejar a minha— George respondeu— Você me enoja.
O sorriso de Leonard finalmente desapareceu quando ele ouviu a menção de sua mãe, e ele sentiu o seu corpo todo se tensionando com uma raiva antiga e incontrolável.
—Eu vou matar você— Leonard prometeu, entredentes, a mandíbula fortemente cerrada— E ninguém jamais irá suspeitar de mim. Depois do escândalo que você fez na festa, todas as suspeitas irão cair sobre Lorde Forrest, e, como segundo acionista majoritário, eu vou receber não apenas o comando da fábrica, mas, como primogênito, toda a sua herança também, pai. E eu vou destruir tudo aquilo que você construiu, tudo aquilo o que você mais preza. Você não vai ter legado nenhum, e seu nome será apagado e esquecido da história. Eu vou garantir isso. Só assim mamãe será vingada. Só assim eu vou descansar: sabendo que eu te destruí e te sobrepujei. Até o último resquício.
George o olhou com desprezo.
—Você pode me ameaçar o tanto que você quiser, Leonard. Mas não é capaz de me matar. Você é fraco demais. Foi fraco demais para proteger sua mãe. E é fraco demais para vingá-la— ele respondeu.
—É aí que você se engana, pai. Você já está morto desde que colocou os pés nessa cidade. Eu nunca te deixaria sair daqui vivo— dito isso, Leonard puxou de dentro do seu sobretudo uma adaga.
Uma adaga cravejada de pedras de obsidiana.
Ele havia passado anos planejando aquilo, procurando maneiras de derrotar a magia de seu pai. Procurando um plano perfeito para se vingar dele e sair impune. E ele havia descoberto segredos o suficiente para completar seus intentos, afinal. Podia não querer se envolver com a Ordem, mas sabia que seus segredos e recursos contra feitiçaria eram valiosos.
George imediatamente tentou usar sua magia, como Leonard sabia que ele faria.
—Garoto tolo— George disse, movendo as mãos, as sombras ao seu redor respondendo aos seus comandos— Você realmente acha que uma faca estúpida é páreo para um feiticeiro?
Leonard riu.
—É isso o que vamos ver— ele respondeu.
George lançou contra ele um ataque de sombras, que deveriam ter envolvido e consumido Leonard completamente, mas que perdeu a força assim que se aproximou dos amuletos cravejados na adaga.
Leonard riu, e se preparou para desferir um golpe, quando uma explosão interrompeu bruscamente o início daquela briga mortal.
Ainda ouvindo o zumbido em seus ouvidos, e encarando, embasbacado, o palacete que começava a queimar cada vez mais depressa, Leonard quase não ouviu o brado que se seguiu:
—Leonard, corra!— era a voz de Aaliyah, e Leonard conseguiu vê-la surgindo de dentro da fumaça espessa do salão, uma expressão de completo desespero em seu rosto.
Antes que ele pudesse reagir, um vulto horrendo se assomou logo atrás de Aaliyah. A visão foi tão medonha e chocante que Leonard sequer foi capaz de se mover. Sentiu seus músculos se tensionando, congelando-o naquela posição de vulnerabilidade e terror, os dedos agarrando a faca inutilmente.
Leonard já havia visto magia antes. Já havia testemunhado todo o tipo de aberração e perversidade que aqueles dons malditos poderiam conjurar. Mas aquilo estava além de qualquer pesadelo que sua mente perturbada pelas lembranças terríveis do passado poderia criar. Aquilo era o inferno e a punição dos ímpios em forma corpórea, marchando altivamente para exercer sobre todos o juízo final.
George tentou correr. Mas antes que ele pudesse sequer se afastar, o jardim ao seu redor explodiu em chamas vivas e tão intensas que Leonard conseguia sentir queimaduras se abrindo em sua pele mesmo que elas não estivessem realmente o tocando.
A aberração encapuzada, o que quer que ela fosse, sorriu. Flutuando muito acima do chão, completamente envolta em sombras espessas e luz cegante, Leonard não conseguiu tirar seus olhos do vulto conforme ele avançava em direção de si e seu pai.
Tudo queimava ao seu redor. Não havia nada além dos dois, de Aaliyah, que havia se colocado na sua frente, e do espectro amaldiçoado que assomava sobre eles. Ao longe, ele conseguia ouvir os outros convidados gritando e fugindo, mas ele sabia que não havia esperança para os três. Mesmo se conseguissem correr, seriam completamente consumidos pelo fogo.
—Incendiário!— Aaliyah estendeu um amuleto de obsidiana como um exorcista estenderia uma cruz, mas suas mãos tremiam, e sua voz tinha um timbre frágil de medo— Para trás, eu exorto! Para trás! Em nome da guilda dos Iluminados e dos segredos milenares que guardamos, se você empunha a magia do Hierofante, recue imediatamente!
O Incendiário se limitou a sorrir novamente, e foi ainda mais perturbador do que da última vez. Dentes brancos e brilhantes se abriram por dentre as sombras, deformando a fisionomia oculta e retorcida, e Leonard estremeceu com a crueldade por detrás daquele simples gesto.
O Incendiário ergueu a mão, e o fogo que queimava o jardim obedeceu ao seu comando, iniciando uma espiral lenta e calculada ao redor de seu corpo, desenhando padrões complexos no ar e ao redor de seu vulto, como a auréola flamejante de um santo. Seria uma visão bonita, se não fosse tão profundamente assustadora.
Aaliyah pareceu entender a mensagem tão bem quanto Leonard e George, ainda parados e tremendo atrás dela. O Incendiário não recuaria.
—Ya helo— Aaliyah se virou para Leonard, uma mão ainda repelindo o Incendiário com o amuleto, a outra segurando a sua com força— Eu sinto muito. Por favor, fuja. Eu vou tentar te dar tempo o suficiente. Por favor, me perdoe. Por favor.
E Aaliyah derrubou o amuleto e soltou sua mão, e andou a passos decididos na direção do Incendiário.
—É uma briga que você quer? É uma briga que você vai ter. Nenhum Iluminado vai cair sem lutar, bruxo profano— ela disse.
Os lábios dela proferiram palavras que Leonard não reconheceu, mas elas tinham um timbre grave, poderoso. As mãos dela faziam gestos, garras e ganchos, ondas e floreios pelo ar, e era como se a noite ao redor deles respondesse aos seus comandos. Aquilo não era árabe, Leonard já havia visto Aaliyah falando sua língua nativa vezes o suficiente para saber reconhecê-la, aquela era uma língua antiga, e morta, e poderosa. Aquilo não soava como magia, ao menos nenhuma que Leonard tivesse conhecido ao longo da sua vida, mas surtia efeito semelhante. Parecia uma prece, um mantra de proteção. A luz tênue e tímida das estrelas parecia brilhar com mais força ao redor deles, e o fogo se afastou, permitindo que George tentasse fugir da cena novamente.
—Onde você pensa que está indo?— Leonard agarrou o pai pela gola do casaco assim que ele fez menção de correr.
—Você ouviu a garota— George respondeu— Ela nos mandou fugir.
—Você é um feiticeiro! Você tem que ajudá-la, seu covarde!— Leonard respondeu, agarrando a gola do casaco com mais força, praticamente suspendendo George no ar.
O medo no rosto do homem deu lugar a uma fina inflexão de deboche.
—Não seja tolo, Leo. Eu deveria ter reconhecido a filha dos Najjar mais cedo, mas agora reconheci. Ela sempre foi uma Iluminada mais poderosa do que eu, se ela não sabe como parar essa aberração, não vou ser eu quem vai saber— ele respondeu, se soltando das mãos de Leonard.
—Eu não me importo! Você vai morrer tentando!— Leonard disse, tentando segurá-lo novamente.
George simplesmente riu, e, com um gesto grandioso dos braços, lançou um ataque de sombras contra o filho, o lançando para trás com violência.
Leonard voou por alguns metros e caiu de costas no chão, sentindo o ar ser expulso de seus pulmões e sua cabeça acertando algo duro com força, uma dor aguda e pulsante em suas costelas e por dentro do seu crânio. Sua visão ficou turva, até que ele sentiu um par de mãos fortes e firmes o puxando para trás do arbusto mais próximo.
Olhando para cima, ele pôde ver um halo de cabelo escuro e cacheado brilhando na luz da lua, e dois olhos castanhos e desconfiados o encarando de volta, embora os braços da mulher ainda o segurassem com força.
—Você está seguro— ela garantiu, embora sua voz não soasse especialmente reconfortante ou amigável— Por enquanto.
E essas foram as últimas palavras que Leonard ouviu antes que a escuridão o envolvesse completamente.
Sinceramente, leitor, olhando para trás, Leonard deveria se sentir grato por ter desmaiado naquele momento em específico. A inconsciência se provaria um grande presente, e a consciência, uma grande maldição, como Charlotte Griffin, segurando um Leonard desacordado e escondida atrás de um arbusto, logo descobriria.
Charlotte havia chegado cedo à festa, e, antes da invasão do Incendiário, estava levando seu trabalho supreendentemente a sério. Embora fosse motivada por motivos escusos, é claro.
Apertada em um vestido que havia sido fornecido pela Ordem com o suposto objetivo de fazê-la se misturar melhor entre os convidados, ela mal havia conseguido bebericar uma taça de champagne antes de sentir o corset esmagando suas costelas. Portanto, havia permanecido a maior parte do início da festa sóbria e atenta, vigiando todos ao seu redor o melhor que podia.
Sua atenção havia ficado boa parte do tempo em uma jovem nobre loira, que parecia atrair rapazes como um poste de iluminação atraía mariposas. Puxando assunto e bisbilhotando, Charlie descobriu o nome da moça, Lady Cecily Campbell, assim como diversos boatos deveras desagradáveis sobre seu passado. O mais estranho sobre a moça, contudo, era uma joia familiar e sobrenaturalmente brilhante em seu dedo.
Mas sua desconfiança da jovem Condessa não durou muito tempo.
A festa não havia sequer batido a primeira hora quando a pequena confusão entre dois homens, incluindo um dos anfitriões, se iniciou, e sua atenção foi definitivamente capturada.
Ouvindo trechos das conversas dos outros, Charlie descobriu o nome dos envolvidos: Lorde Forrest, George Cohen, e seu filho há muito afastado, Leonard.
Charlotte sabia que deveria esperar os reforços da Ordem, que chegariam aos poucos ao longo da noite para não chamar atenção, antes de seguir Leonard e George.
Ela ainda se lembrava das palavras de Antigone mais cedo naquele dia, ditas enquanto a ajudava a se arrumar o suficiente para passar desapercebida entre os convidados do baile:
“Não faça nada perigoso sozinha. Não faça perguntas suspeitas. Se algo estranho acontecer, outros agentes mais experientes vão te chamar, você é apenas um reforço”
Mas na hora da confusão, Antigone não estava em lugar nenhum, e Charlie estava curiosa demais para se conter.
Ela havia visto a briga entre George e Leonard, e ouvido tudo também, escondida atrás do mesmo arbusto em que estava agora. Havia acabado de decidir que iria interferir caso o feiticeiro começasse a ganhar o conflito, quando a explosão havia acontecido dentro do salão, e o Incendiário havia surgido.
Agora, segurando Leonard enquanto o Incendiário pairava sobre Aaliyah e George, ela tinha apenas uma certeza: nada naquele mundo inteiro poderia convencê-la a interferir naquela briga.
Antes, quando a maior ameaça era apenas um feiticeiro qualquer, e Leonard parecia ser uma pessoa que pensava como ela, a situação era fácil o suficiente de lidar. Agora, com o Incendiário envolvido, ela só poderia torcer para conseguir sair dali com vida e com forças o suficiente para arrastar Leonard consigo.
Aaliyah ainda entoava o que quer que aquelas palavras fossem, e a prece parecia estar sendo efetiva o suficiente para conter o avanço do Incendiário. Contudo, assim que George começou a correr, a situação que parecia previamente contida voltou a desandar completamente.
Em um borrão de chamas e sombras e luz, o Incendiário voou em um rasante por cima de Aaliyah, contornando os limites da proteção da prece e ignorando a mulher completamente, e passando a perseguir George.
Aaliyah tentou reagir, mas o Incendiário era rápido demais, e logo já havia alcançado o homem.
—Para trás, besta do Hierofante!— George gritou, tentando lançar um ataque de sombras, que se dissipou inutilmente assim que tocou as chamas ao redor do Incendiário.
O vulto sorriu, e Charlotte sentiu um arrepio horrível trespassando seu corpo.
Ela não tinha motivo nenhum para sentir simpatia por George, muito pelo contrário. Pelo que havia ouvido da conversa entre ele e Leonard, ele parecia ser exatamente o tipo de usuário de magia que ela tanto odiava, o tipo que machucava inocentes e usava sua magia para fins perversos.
Ainda assim, ele não era nada comparado ao Incendiário. Aquela era uma entidade de puro caos e crueldade, e Charlotte percebeu que nunca havia sentido tanto medo em sua vida.
Aquela era Morte em si, toda a maldade que permeava aquele mundo perverso tomando forma em sua frente. Não havia bondade nenhuma naquela criatura, apenas uma sede por sangue insaciável, e um desejo sem fim de destruir.
O Incendiário ergueu os braços, e George foi erguido no ar, se debatendo inutilmente e ainda tentando lançar ataques de sombras, que pareciam cada vez mais fracos e inúteis.
—Aaliyah, me ajude!— ele gritou com suas últimas forças.
Aaliyah parecia completamente aterrorizada, tremendo, lágrimas escorrendo por suas bochechas, o vestido completamente arruinado pelo fogo que ainda queimava ao seu redor.
Charlotte raramente admirava outras pessoas ou suas ações. Mas mesmo ela precisava reconhecer que havia uma coragem incomensurável na maneira que, mesmo completamente aterrorizada, Aaliyah caminhou até o Incendiário e se colocou entre ele e George.
—Nós já banimos e destruímos pessoas como você inumeráveis vezes ao longo dos milênios, bruxo profano. Não ache que seus poderes roubados irão te proteger do resto de nossa guilda— ela disse, erguendo o queixo e encarando a entidade diretamente no rosto deformado de sombras— Seu reinado de terror acaba aqui.
Dito isso, ela voltou a entoar a prece, e a forma do Incendiário começou a estremecer, parecendo ser atingida pelas palavras da mulher.
Contudo, o que quer que aquilo fosse, não era forte o suficiente para salvar George.
Mesmo aparentando sofrer e estar mais fraco ao som da prece de Aaliyah, o Incendiário ainda parecia decidido a destruir George. Charlotte percebeu que aquele era seu objetivo desde o princípio, e por isso Aaliyah e Leonard ainda estavam vivos. O seu alvo principal era George, os outros não passavam de dano colateral.
Sangue começou a escorrer pelo rosto de George Cohen. Olhos, nariz, orelhas, todos porejavam o líquido vermelho abundantemente, e, quando ele abriu a boca para gritar de agonia, seus dentes também estavam manchados de vermelho. Todo o seu corpo começou a se retorcer, Charlotte não sabia se era de dor ou se o feitiço o estava destruindo de dentro para fora, mas no final não importou. O barulho era terrível, os gritos se misturando ao som do que parecia algo quebrando dentro do homem, mas isso não durou muito tempo.
Mesmo com os esforços de Aaliyah, mesmo com a prece sendo entoada cada vez mais alto, logo George Cohen não passava de um cadáver suspenso no ar, sendo lentamente consumido pelas chamas que o cercavam.
—NÃO!— Aaliyah gritou ao ver George morto, interrompendo a prece e caindo de joelhos no chão— Como…? Você deveria ter sido banido! Você deveria ter perdido o domínio sobre os poderes do Hierofante! Como você ainda está aqui?
O Incendiário sorriu novamente, e pousou no chão de frente a Aaliyah. Havia um divertimento cruel em seu rosto, e ele olhou Aaliyah nos olhos conforme chegava tão perto que logo estava tocando o rosto dela com uma mão envolvida em sombras.
Aaliyah não desviou o olhar do dele. Mesmo quando sombras e luz começaram a envolver seu corpo. Ela não gritou, não esboçou qualquer reação de medo ou de dor. Charlotte quase se perguntou se não havia algum tipo de misericórdia na maneira em que o Incendiário havia decidido matá-la. Porque, tão rápido quanto um piscar de olhos, ela estava caída no chão, morta, mas intocada, sem nenhuma marca em seu corpo. Se seus olhos não estivessem abertos e vidrados, ela pareceria estar simplesmente dormindo, mas já não havia vida alguma em seu corpo.
Charlotte percebeu que estava tremendo violentamente, e que, se o Incendiário decidisse atacá-la, não haveria nada que ela pudesse fazer. Estava completamente vulnerável e indefesa, a arma escondida em seu vestido não seria páreo para o poder dele.
Como se lendo seus pensamentos, a entidade se virou bruscamente em sua direção. Mesmo que seu rosto fosse apenas um borrão de sombras, Charlotte ainda conseguia sentir seus olhos queimando nela, um sorriso debochado em seu rosto.
Charlotte segurou Leonard mais perto de si, e fechou os olhos com força, se preparando para seu fim. Aceitando que não havia nada que ela pudesse fazer.
Porém, o fogo nunca veio. Quando ela abriu os olhos, ainda assustada, o Incendiário havia desaparecido, deixando para trás somente dois cadáveres e um jardim em chamas.
Charlotte respirou fundo, e, juntando todas as suas forças, começou a arrastar Leonard para longe dali.
O salão ainda estava completamente afundado em caos e fogo, pessoas gritando e tentando fugir desesperadamente. Ao longe, através das enormes janelas de vidro completamente estilhaçado, Charlotte viu alguns agentes da Ordem, incluindo Antigone e Augustus, tentando ajudar o melhor que podiam, mas ela sabia que precisava sair dali.
Quem quer que Leonard verdadeiramente fosse, ela esperava que ele pudesse oferecer algumas respostas. Ou ao menos soubesse melhor do que ela o que esperar do Incendiário. E, talvez, até mesmo do seu futuro.
Porque, caro leitor, Charlotte Griffin estava certa em assumir que o que ela havia acabado de testemunhar mudaria completamente o rumo dessa história.
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