Arsonist's Lullaby- Interativa
19 XVIII- No Rest For The Wicked
Notas iniciais
Era o meio da madrugada quando Edward Waldford ouviu uma batida forte e insistente à sua porta.
As notícias do incêndio do início daquela noite já haviam chegado até ele horas antes, por meio de seus diversos informantes e contatos. Apesar de já estar ciente das motivações do Incendiário, os crimes daquele dia sem dúvida alguma haviam sido chocantes e extremamente violentos.
George Cohen estava morto, conforme ele sabia que estaria. Mas outra pessoa também havia morrido, uma pessoa que não deveria ter encontrado aquele destino tão cruel tão cedo.
Aaliyah Najjar. Uma de suas informantes, uma das mais úteis nos últimos tempos. A pessoa com quem havia se encontrado apenas alguns dias antes, a pessoa que havia suspeitado primeiro de George Cohen. A pessoa que ele havia prometido ajudar a derrotar o Incendiário. A pessoa que ele havia falhado em proteger.
Ele estava bem ciente dos riscos do que estava fazendo desde do início. Mas ele não conseguia deixar de sentir culpa em constatar que uma pessoa inocente havia se machucado. E que ele poderia ter evitado.
A pessoa à sua porta, portanto, poderia ser apenas uma. A mesma que havia sentido ciúmes de Aaliyah sem sequer tê-la conhecido quando Edward a mencionou na última conversa que tiveram. O ciúmes de Henrietta havia sido adorável, naquela hora. Agora, Edward sentia o coração pesado com a constatação de que ela e Aaliyah poderiam ter sido aliadas em outras circunstâncias, mas que agora nunca se conheceriam, e isso era parcialmente culpa sua.
—Edward….— ela disse o seu nome assim que ele abriu a porta, a voz fraca e trêmula— Eu não aguento mais…
Sem uma palavra sequer, Edward a puxou para um abraço.
A pele dela estava fria, grudenta com um suor febril e doentio. Os olhos pareciam enevoados, e o corpo dela estava fraco, praticamente desfalecido contra o seu.
Edward soube imediatamente o que era aquilo: morfina.
Isso talvez tenha feito com que ele se sentisse ainda mais culpado. Se Henrietta confiasse o suficiente nele, teria procurado sua magia ao invés da agulha de uma seringa para aliviar a dor que a assombrava o tempo inteiro. E que, com aquelas circunstâncias desafortunadas, agora deveria estar pior do que nunca.
—Henrietta…— Edward se afastou minimamente, e tocou o rosto da mulher, segurando sua bochecha com a palma da mão e fazendo com que ela olhasse em seus olhos— O que aconteceu com você?
Haviam lágrimas empoçadas nos olhos brilhantes e verdes de Henrietta. Edward não deveria deixar com que elas o atingissem, mas cada gota cristalina que manchava a pele pálida da mulher parecia um soco na boca de seu estômago.
—Aconteceu de novo…— a voz dela estava completamente alquebrada, quase um sussurro— Pessoas morreram, e eu não pude impedir. Eu nunca consigo salvar ninguém… Como eu posso ser a Líder se eu continuo deixando que todos ao meu redor se machuquem?
Ele pousou a outra mão no rosto dela, o segurando com o cuidado que lidaria com porcelana frágil.
—A culpa não é sua, meu amor— ele disse, com a voz mais gentil que conseguiu emitir— Nós vamos impedir o Incendiário, eu prometo. Mas você não pode se culpar por não conseguir salvar todos.
Ela ainda chorava, mas parecia ter tirado algum conforto de sua promessa vazia.
—Não me deixe sozinha essa noite, Ed— ela pediu, e ele nunca havia a ouvido soando tão frágil— Por favor. Eu não aguento mais ficar sozinha.
Ele a puxou para mais perto novamente, envolvendo-a em um abraço ainda mais apertado.
—Eu não vou a lugar algum. E eu não sonharia em te deixar sozinha— ele disse— Você vai se sentir melhor quando o sol chegar. Eu prometo.
Ele guiou Henrietta até sua cama, e a acomodou debaixo dos lençóis e cobertas. Ela parecia extremamente sonolenta, e ele não sabia se era somente a morfina ou também o estresse daquele dia terrível.
—Eu vou dormir no sofá, mas você pode me chamar se precisar— ele disse, pousando um beijo na testa dela.
Edward já havia virado as costas quando a voz dela ecoou pelo quarto escuro:
—Ed? Você pode dormir comigo? Está tão frio…
Ele hesitou por alguns segundos. Ela obviamente não estava em pleno uso de suas faculdades mentais, e portanto ele jamais pensaria em encostar nela. Mas aquele era um pedido inocente o suficiente, embora ele temesse o quanto a situação pudesse afetar seus sentimentos.
Ele sabia que já não tinha um afastamento emocional grande o suficiente dela há muito tempo. Mas também sabia que sua confusão ficaria ainda pior caso se permitisse tanta sinceridade, tanta ternura.
Ainda assim, ele não conseguiu dizer não.
—É claro. O que você quiser— ele respondeu.
Ele sentiu o exato momento em que ela adormeceu em seus braços, e não demorou muito para que o calor do corpo de Henrietta e o cheiro suave e herbal de lavanda em seu cabelo também o embalassem para um sono suave e sem sonhos.
A manhã seguinte não demorou a chegar, e ao menos uma das promessas que Edward fez no silêncio da madrugada foi verdadeira: Henrietta estava se sentindo melhor, embora por muito pouco.
A luz do sol entrava suavemente pelas frestas da cortina, e ela já não sentia mais o frio terrível ou o desespero que a haviam consumido na noite anterior. Ainda assim, a dor em sua cabeça começava a voltar lentamente, e uma parte de si se sentiu terrivelmente fraca e vulnerável por ter acordado na cama de Edward novamente.
Ele não estava ao seu lado, e, assim que sentiu o cheiro de chá perfumando o ar, ela soube que ele estava na cozinha, como costumava estar nas manhãs. Em todas as vezes que ela havia acordado naquela cama, naquela casa, ele sempre havia acordado primeiro e a recebido com uma xícara de chá. O que costumava ser adorável, mas, naquele dia, ela se sentiu ainda mais patética por ter estado tão emocional e vulnerável na noite anterior.
Tão fora de controle. E ela sequer podia culpar a morfina totalmente, mesmo antes da agulha achar o seu braço, a única pessoa em que ela conseguia pensar, que ela sabia que conseguiria confortá-la, era ele.
Assim que chegou à cozinha, Henrietta o viu, e toda a culpa ou dúvida que ela sentia antes desapareceu, pois ele simplesmente sorriu para ela e disse:
—Bom dia.
Edward estava recostado no balcão, aninhando uma xícara de chá fumegante entre as mãos. Apesar do sorriso, havia um brilho preocupado em seus olhos, o que fez Henrietta se aproximar lentamente, parando bem à sua frente.
—Bom dia— ela respondeu— Eu… sinto muito que você tenha que ter me visto daquele jeito ontem à noite. Eu prometo que não vai se repetir.
O sorriso dele vacilou por um segundo, mas a expressão dele ainda parecia gentil, e compreensiva.
—Você não precisa se desculpar. De verdade. É só que… eu fiquei preocupado com você. Eu sei que você é uma mulher forte, Henrietta, mas todos temos nossos limites— ele respondeu.
Henrietta se aproximou um pouco mais, e afastou uma mecha de cabelo escuro que caía sobre os olhos dele, deixando seus dedos pousados em sua pele por mais alguns segundos.
— E eu agradeço a sua preocupação. Mesmo. Mas por mais assustador que tudo isso seja, é o meu trabalho, e eu sei o que estou fazendo. O que aconteceu ontem não vai se repetir, e eu vou ficar bem. Só preciso que você confie em mim— ela respondeu.
Edward largou a xícara sobre o balcão, colocando uma mão sobre a mão de Henrietta que ainda tocava o seu rosto. A pele dele estava quente devido ao contato com a porcelana, o que mandou um arrepio intenso pela pele fria da Duquesa.
—Hettie— a voz dele tinha um tom calmo, mas muito mais grave e preocupada do que Henrietta jamais havia ouvido— Eu gosto de você. De verdade. Sei que não deveria, mas gosto. E por isso vou pedir que se afaste disso tudo. A verdade pode ser difícil demais. Não é sábio fazer perguntas levianamente, pois sempre se corre o risco de obter uma resposta. E talvez esse seja o tipo de resposta que é melhor não obter.
Henrietta o encarou no fundo de seus olhos por um segundo. Edward tinha olhos brilhantes e intensos, mas indecifráveis. Havia algo de muito forte ali, algo de sombrio, quase como um aviso. Mas também havia uma preocupação genuína, e talvez a menor das insinuações de ternura. Ela encarou e encarou, mas não conseguiu entender nada.
E então ela se afastou.
—Você está fazendo de novo— Henrietta murmurou, franzindo a testa.
Edward se desencostou do balcão, caminhando até estar novamente de frente a ela.
—O que eu estou fazendo, Henrietta?- ele perguntou, extremamente calmo.
A mulher soltou um suspiro longo.
—Está dizendo muito, mas sem realmente falar nada— ela respondeu, erguendo seus olhos para ele— Se tem algo que quer falar, Ed, fale com todas as letras. Preciso que confie em mim o suficiente para dizer a verdade. Ou não podemos continuar com o que quer que estejamos fazendo aqui.
Edward não parecia abalado. Não parecia sequer preocupado, não mais. A expressão em seu rosto era impassível.
—Hettie, o Incendiário sempre sabe onde as vítimas estão. Também sempre sabe onde os agentes da Ordem estão, e sempre sabe o momento exato de agir sem ser pego. Talvez você devesse considerar que ele não é um estranho, afinal. Talvez ele esteja muito mais próximo do que você pensa. E talvez você se prejudique menos não descobrindo quem ele é, e deixando que outra pessoa lide com isso—o homem disse, extremamente calmo, e Henrietta sentiu um arrepio intenso e estranho trespassando sua espinha.
Ela pensou em seus agentes. Todos eles haviam feito um juramento solene. Todos haviam proferido os votos sagrados, e dedicado suas vidas àquela causa, a manter o mundo seguro e livre do caos que se seguia à magia. Até mesmo Antigone, que parecia desprezar Henrietta, jamais agiria contra os interesses da Ordem, ou ao menos ela queria acreditar nisso. Ou será que ela seria capaz de ir atrás do poder do Hierofante para destruí-la e pegar o comando para si? Sua mágoa seria tão profunda? Ou Henrietta estava ficando paranóica? De quem mais Edward poderia estar falando?
Ele não poderia estar falando de si mesmo, poderia? Ela confiava nele, por mais que não devesse. E ele era a pessoa da qual ela estava mais próxima depois de tantos anos de solidão, é verdade. A pessoa que a conhecia melhor, para quem ela havia revelado partes de si que nunca havia tido coragem de encarar antes. Mas ele nunca trairia essa confiança, trairia? Não depois de tudo o que haviam passado juntos, das fraquezas que haviam compartilhado.
E, acima de tudo, apenas um tolo preveniria outrem acerca de si mesmo.
—Eu não estou entendendo o que você está querendo dizer, Ed. Você acha que eu deveria desistir, é isso? Que eu deveria parar de procurar mesmo que o culpado esteja tão perto quanto você diz que está, e deixar outras pessoas fazerem meu trabalho?— ela respondeu.
Edward respirou fundo.
—Eu… não, é claro que não é isso o que eu quero dizer. Somente… tome cuidado está bem? Cuidado para não ir longe demais. E principalmente cuidado com quem você confia— ele disse— Eu só não quero te ver sofrendo. Você não merece nada do que está acontecendo. Eu só queria poder te fazer feliz.
Henrietta queria ter ficado brava, mas havia uma certa vulnerabilidade na voz dele que a comoveu. E ela não resistiu, e acabou voltando a se aproximar, e segurou as mãos dele nas suas.
—Mas você já me faz feliz, Ed— ela disse, e sorriu para ele— Você é a única coisa boa na minha vida. E nós vamos enfrentar isso juntos, e vai tudo acabar bem.
Ele não disse nada. Apenas apertou suas mãos com mais força, e a puxou para um abraço.
Talvez Henrietta devesse ter suspeitado que algo não estava certo. Porque ele a segurava como se fosse perdê-la. Mas ela simplesmente pousou a cabeça no ombro dele e permitiu-se sentir seu calor, seu cheiro. E fingir que realmente tudo acabaria bem, como ela havia dito.
É claro que ela estava sendo ingênua, caro leitor.
No final, Edward estava certo: Henrietta deveria tomar cuidado com quem ela confiava. A começar por ele. Mas, àquela altura, nada que qualquer um dos dois dissesse poderia salvá-los. Por mais que nenhum deles mentisse ao dizer que gostavam um do outro, nada ali era tão simples. E uma verdade jamais poderá subjugar o poder de todas as mentiras que a antecederam e que a seguiriam.
E me dói ter que escrever tudo isso sabendo como essa história termina. Mas, assim como eles também não tinham, não é como se eu tenha alguma escolha.
Há mais uma coisa sobre qual Edward tinha razão, caro leitor: talvez Henrietta não devesse confiar em Antigone. Porque a Marquesa Lascelle certamente estava cada dia mais desconfiada dela.
Antigone havia passado a noite em claro. Novamente.
Ao menos Augustus também havia virado a madrugada ao seu lado. Secretamente, ela tirava algum consolo disso. Mas sabia que ambos acabariam exaustos muito em breve, até mesmo agentes experientes e esforçados não eram de ferro.
—Antigone?— Augustus chamou, a tirando de seus pensamentos— Você encontrou alguma coisa?
Antigone se levantou da cadeira da escrivaninha que vasculhava, negando com a cabeça.
—Nada aqui— ela respondeu— Alguma sorte com o restante da casa?
Augustus suspirou.
—Nada— então, olhando ao seu redor, ele completou, —Eu suponho que você esteja certa. O Incendiário levou as relíquias de Sofia Rodaki também, então parece dentro do padrão que ele levasse as de Aaliyah e George.
Antigone e Gus haviam passado a manhã vasculhando o quarto da pensão na qual George havia ficado hospedado, e o restante do dia ali, na casa de Aaliyah. Como Iluminados, eles eram responsáveis por guardar relíquias com os segredos do Hierofante, mas não havia qualquer resquício delas nos corpos ou no lugar em que eles costumavam viver.
—Eu me pergunto se essa não é parte da motivação para matá-los. Levar as relíquias, obter mais poder…— Antigone comentou, pensando alto.
Gus caminhou até onde ela estava e se recostou no tampo da escrivaninha, também parecendo pensativo.
—Pode até ser— ele respondeu— Mas essas são apenas três vítimas de treze que tinham alguma relíquia. Ainda sem motivação aparente para as outras dez.
—Blackburn também era um Iluminado, então são nove— Antigone revelou— O livro que ele deixou para Mihai é uma relíquia. Talvez essa tenha sido a motivação da morte, mas o Incendiário nunca achou a relíquia, porque ela estava com outra pessoa.
O olhar de Augustus ficou subitamente mais sombrio.
—Isso não soa nada bom para Mihai, então. Enquanto ele tiver aquele livro, ele pode estar em perigo— ele ponderou, cruzando os braços sobre o peito— Ainda assim, há outros três agentes da Ordem entres os mortos. E nem Benjamin, nem Violet nem Clarence pareciam ter envolvimento algum com os Iluminados. Sem falar nos feiticeiros que também morreram, e do fato de Fred Wilson e Joel Aubert terem morrido sem uso aparente de magia.
Quando descobriu sobre a guilda secreta dos Iluminados, e de toda a história antiga com o Hierofante, Antigone havia relutado em contar para Augustus. Agora, ela percebia que havia tomado a decisão correta em contar. Ela jamais conseguiria fazer tudo sozinha, e Lockhart era inteligente o suficiente para ajudá-la a organizar seus pensamentos.
—Nós temos que proteger Mihai e Zoe— Antigone concluiu— Se tem alguém que pode saber algo a respeito de Blackburn e Sofia Rodaki, são eles.
Augustus assentiu.
—E Henrietta? Você acha que devemos contar o que descobrimos a ela?— ele perguntou.
Antigone respirou fundo, tentando conter o desgosto à menção do nome da outra mulher.
—Acredite, Lockhart, ela já deve saber bem mais do que nós dois. E não é como se nós soubéssemos onde ela está— ela se limitou a responder.
Os momentos que se seguiram ao incêndio da noite anterior foram puro caos. Em um segundo, ela estava entrando na festa com Gus, no próximo, tudo já estava em chamas, e as pessoas gritavam e fugiam desesperadamente. Por algum milagre, o Incendiário só havia atacado no jardim, longe dos olhos da maioria e depois que quase todos haviam fugido, mas mesmo sem nada de claramente sobrenatural, um incêndio em uma festa e uma figura encapuzada e sinistra já havia causado muito rebuliço e especulação. Até mesmo pânico generalizado, e muitas lendas e histeria estavam começando a se espalhar pela Corte e pela cidade.
Antigone havia organizado a escala de agentes que patrulhariam a festa ela mesma, e estava confiante que, ao longo da noite, reuniriam um contingente suficiente para conseguir manter todos seguros. Ela estava errada, no final. Nenhuma quantia de agentes poderia ter impedido aquele ataque, ela sabia disso, mas ainda assim não conseguia deixar de culpar Henrietta parcialmente pelo desastre que havia acontecido.
Nos últimos tempos, estava cada vez mais difícil fazer contato com a Líder, e mais ainda coordenar qualquer tipo de plano com ela.
Antigone tentava se convencer que ela estava ocupada com as investigações, mas sua mente sempre voltava para o que tinha lido secretamente no escritório da outra mulher alguns dias antes: ela estava se encontrando frequentemente com uma pessoa desconhecida, o misterioso E.W. E até mesmo Lorde Blackburn, que havia lhe dado o cargo, costuma a considerá-la instável.
Estaria Henrietta investigando de modo correto e íntegro? Estaria perdendo o foco? Ou talvez simplesmente não fosse forte o suficiente para sustentar o fardo que todo Líder deveria carregar desde o princípio?
Antigone torcia para jamais ter de descobrir a resposta para aquelas perguntas. Torcia que, por mais solitário e misterioso que fosse o caminho que Henrietta trilhava, que ainda fosse caminho certo. Que, apesar de tudo, ainda pudesse confiar na outra mulher.
—Bem— a voz de Augustus interrompeu seus pensamentos— Eu acho que deveríamos falar com Mihai e Zoe, então.
Ela ergueu o olhar para Gus.
—Você conseguiu convencer o garoto a cooperar?— ela perguntou, um pouco incerta.
De acordo com Zoe, quando havia acordado de seu desmaio, Mihai não parecia muito disposto a ajudá-los.
—Digory conseguiu— ele respondeu— É para o próprio bem dele.
Antigone não demonstrou, mas ficou aliviada.
—E sua irmã? Ela ficou muito brava de ser a babá da vez?— Antigone questionou.
Augustus riu.
—Adel é professora de piano, já está acostumada a lidar com adolescentes chatos— ele respondeu— Embora ela não tenha ficado muito feliz com o pedido.
Antigone conteve um sorriso.
Com a necessidade de manter sempre uma vigilância sobre Zoe e Mihai, mas a indisponibilidade de agentes e tempo, Adelaide fora a solução. Antigone havia ficado um pouco incerta com a sugestão de Gus, a princípio, mas a necessidade havia falado mais alto, e Adel parecia ter mantido as crianças seguras o suficientes.
O caminho da casa de Aaliyah até o esconderijo foi feito pelos túneis subterrâneos, e em relativo silêncio.
Eles estavam quase chegando quando Augustus quebrou a quietude com uma pergunta que fez Antigone questionar todo o seu passado novamente:
—Você acha que deveríamos contar para Mihai? Do testamento do pai dele? Sobre a herança?
Antigone ficou em silêncio por alguns segundos.
—Eu creio que sim, mas não agora. Isso não vai trazer o pai dele de volta, ou compensar a ausência dele por todos esses anos. Mas talvez faça ele enxergar que nós da Ordem não somos de todo ruins, e que estamos do lado dele— ela respondeu.
Gus assentiu. Eles andaram em silêncio por mais alguns segundos, até que a voz dele ecoou pelo vazio dos túneis outra vez.
—Antigone…?
Ela se virou pra ele.
—Sim, Lockhart?
—Eu posso te fazer uma pergunta pessoal?
Antigone respirou fundo, imaginando que já sabia do que se tratava.
—Pode, mas há uma boa chance de eu não responder— ela replicou.
Augustus quase pareceu desistir, mas tomou coragem e disse:
—Quando as pessoas fizeram todas aquelas acusações sobre você, como você continuou seguindo em frente? Eu temo que Mihai também terá um caminho difícil quando assumir o título de Barão.
Ela já imaginava que ele perguntaria a respeito da morte de seu irmão mais novo, Everard, e sua consequente herança do título de Marquesa, mas aquilo a pegou de surpresa.
Desde seus dezoito anos, Antigone lidava com desprezo, desconfiança e hostilidade. As pessoas sempre duvidavam dela, e uma sombra terrível e pesada havia recaído sobre ela junto ao título. O fato de ela nunca ter podido revelar as verdadeiras e sobrenaturais circunstâncias da morte de Everard devido ao juramento que fez à Ordem parecia apenas aumentar a certeza das pessoas do pior.
Que ela havia matado seu irmão para ficar com o título para si. Que ela sacrificaria a vida de uma criança inocente por sua própria ambição.
O fato de Gus parecer acreditar nela com tanta facilidade e fé a consolou um pouco. Ou ao menos o suficiente para que ela respondesse:
—Eu sabia que minhas mãos estavam limpas de sangue, por mais que mais ninguém acreditasse nisso. E eu sabia que eu ia fazer a coisa certa. Acho que ele também precisa disso: certeza de que fez tudo o que podia, e que vai continuar fazendo.
Gus refletiu por um segundo. E então fez algo que a surpreendeu: parou de andar na sua frente, e colocou ambas as mãos em seus ombros em uma espécie desajeitada de abraço.
Antigone geralmente odiava ser tocada. Mas o gesto foi tão sincero que estranhamente a reconfortou.
—Voce é uma boa pessoa, Antigone. Não posso dizer isso sobre muitos agentes da Ordem, mas você é. E eu sinto muito por tudo o que aconteceu com você— ele disse.
No escuro do túnel, quase não foi possível ver a pequena insinuação de sorriso que se formou nos lábios da Marquesa.
—Eu também sinto, Gus. Mas o meu caminho é um pouco menos sofrido agora que sei que você acredita em mim.
E eles continuaram andando em silêncio, mas, daquela vez, foi estranhamente confortável.
A quietude do túnel foi um contraste e tanto com a cena que Antigone Lascelle e Augustus Lockhart acharam assim que abriram a porta da casa.
Pois Adelaide estava assentada ao piano, e a melodia mais agradável e bela enchia a sala do humilde esconderijo.
Mesmo com toda a tensão que sentia antes, Antigone teve que conter um sorriso ao ver Digory, Zoe e Mihai assentados lado a lado no sofá, ouvindo a música em silêncio.
Mihai parecia um pouco melhor que antes. Enrolado em um cobertor, meio encolhido no canto, ele ainda tinha olheiras sob seus olhos, e o cabelo estava um pouco atrapalhado, mas sua expressão era pacífica enquanto ele observava Adel tocar.
Antigone se lembrou de como Everard também ficava calmo quando ela tocava o violino para ele. Seu irmão era um menino doce, e sensível, e uma das únicas pessoas que costumava ser capaz de arrancar um sorriso de Antigone. Ele sempre pedia que ela tocasse, e ela nunca era capaz de negar.
E por isso ver aquela cena foi agridoce e familiar. Como voltar para casa depois de uma longa e sofrida jornada.
E Antigone não voltava para casa há muito tempo, tempo demais. Não tinha realmente um lugar naquele mundo há décadas. Talvez aquilo fosse o mais perto que fosse chegar de encontrar um novo lar.
Adel olhou por cima do ombro para eles, os dedos ainda pairando sobre as teclas, e Augustus fez um gesto com a cabeça, incentivando-a a ao menos terminar a música. Ela aquiesceu, continuando a melodia com destreza e um meio-sorriso nos lábios.
Gus se assentou ao lado de Digory, Antigone continuou perto da porta. Ninguém disse uma palavra sequer, mas havia um acordo silencioso ali. De ao menos aproveitar aqueles poucos segundos de paz antes que fossem obrigados a voltar para a realidade.
Mas nada dura para sempre, leitor, e nem mesmo aquela agradável melodia foi infinita.
Os dedos de Adel, com um último floreio que arrancou uma nota agradável e alta da tecla, se afastaram. E a sala caiu em silêncio.
—Eu nunca fui muito fã de música sem uma letra animada, mas isso foi lindo— Zoe quebrou a quietude com um comentário jovial.
Adelaide arqueou uma sobrancelha, mas acabou rindo.
—É um prazer saber que estou agradando, Zoe— ela respondeu. Então, se virando para Gus e Antigone, perguntou: — Aproveitaram o espetáculo?
Gus sorriu para a irmã.
—Como sempre— ele respondeu— As crianças se comportaram?
Zoe resmungou.
—Nós não somos crianças— ela reclamou.
Antigone não conseguiu conter um sorrisinho ligeiramente irônico.
—Quantos anos você tem mesmo, Zoe?— ela perguntou.
A menina franziu o cenho, e respondeu:
—Dezessete anos e dez meses.
—Dez meses, é mesmo? Realmente muito adulta e madura— Antigone provocou, e Adel riu.
—As crianças se comportaram bem— Adelaide finalmente respondeu— Embora Mihai tenha sumido por algumas horas. Não é mesmo, mocinho?
Mihai ergueu o olhar para Adel, a expressão ainda um pouco emburrada.
—Eu fui avisar à minha mãe onde eu estava— ele explicou— Estou passando tanto tempo nessa casa com vocês que ela ficou preocupada.
—Da próxima vez, avise antes de sumir— Adel respondeu, com um tom bem mais complacente do que Antigone esperaria— Bem, e então? Conseguiram descobrir alguma coisa?
Todos os olhares se fixaram em Antigone e Augustus.
Gus respirou fundo antes de responder:
—Sim e não. Na verdade, estávamos querendo conversar com Zoe e Mihai, e ver se eles poderiam nos ajudar a preencher algumas lacunas de informação.
Mihai se encolheu dentro do cobertor enrolado ao redor de seus ombros, mas respondeu com uma voz estável:
—Pode ser. Qualquer coisa que me coloque mais perto da verdade sobre o meu pai.
—O livro que seu pai te deu, Mihai— Antigone começou— Eu suponho que ele tenha feitiços estranhos, usando energias que você sequer sabia que existiam. E passagens em línguas antigas, falando sobre um nome em específico: o Hierofante.
Mihai franziu as sobrancelhas:
—Vocês leram o livro enquanto eu estava apagado?
Antigone negou com a cabeça.
Era uma mentira, é claro, mas ela fez parecer convincente o suficiente.
—Não foi necessário, Zoe afirma ter visto objetos parecidos no passado. A avó dela tinha uma biblioteca de artigos mágicos, e havia pergaminhos com conteúdo muito similar. Nós achamos que esses pergaminhos, assim como o livro que você tem em mãos, sejam algumas das relíquias do Hierofante.
O garoto parecia confuso.
—Eu não sei o que é isso, ou quem é esse tal Hierofante. Mas, pela descrição, é bem possível— ele respondeu.
—Nós também não sabemos direito. Só sabemos que, há aproximadamente vinte anos, houve uma seita. Pessoas que pareciam querer usar o poder do Hierofante, e que estavam dispostas a tudo para alcançá-lo. E também sabemos que algumas pessoas que tinham uma relíquia foram assassinadas pelo Incendiário, o que pode ser uma conexão entre um evento e o outro. Mas estávamos esperando que Zoe soubesse mais alguma coisa a respeito desse assunto— Augustus disse.
O olhar de Zoe era sombrio.
—Eu acho que vocês estão certos, tem sim alguma conexão. A mulher que morreu ontem. Aaliyah Najjar. O sobrenome é familiar, eu acho que a minha avó conhecia alguém da família dela. Ou ao menos eu já vi cartas com esse sobrenome na nossa correspondência, mas elas pararam de chegar há vários meses— ela disse.
Antigone não queria pressionar a garota, mas ao mesmo tempo sabia que tinha que fazer perguntas desconfortáveis para chegar à verdade.
—Você conseguiu ver o conteúdo de alguma das cartas?— ela inquiriu.
Zoe baixou o olhar.
—Bem, eu não deveria ter visto. Minha avó nunca gostou que eu bisbilhotasse o escritório dela. Mas a última carta a deixou muito transtornada, e ela saiu de casa no meio da madrugada e não voltou até a tarde do dia seguinte. Então eu li a carta, mas fiquei ainda mais confusa…— Zoe disse.
—O que a carta dizia, Zoe?— Augustus perguntou, com uma voz bem mais gentil e paciente que Antigone conseguiria proferir.
Zoe respirou fundo.
—Não muito. Apenas: “Cuidado com o que você sabe, Sofia. Ele está de volta”. Mas eu nunca entendi o que minha avó sabia de tão importante, ou quem é “ele”. Só sei que em menos de um mês minha avó estava morta, e ninguém nunca apareceu pra ajudar— a garota disse.
Antigone estava prestes a fazer mais perguntas, quando Digory se manifestou pela primeira vez na conversa:
—Eu… eu não sei se isso é relevante. Mas o agente da Ordem que foi assassinado na minha frente… as últimas palavras dele para o Incendiário foram “eu não sei de nada”. Vocês não acham que ele poderia estar falando da mesma coisa que a avó de Zoe supostamente sabia, acham?
Antigone encarou o garoto, percebendo pela primeira vez que, apesar de tão calado, ele era bem mais esperto que transparecia.
—Isso é um pensamento útil, Digory. Obrigado por compartilhar— Augustus disse— Essa pode ser realmente a conexão que procuramos.
Antigone refletiu por alguns segundos antes de dizer:
—Se todos os mortos pelo Incendiário tivessem acesso a uma informação em específico… talvez sobre as relíquias, talvez sobre a seita… isso poderia explicar a morte dos outros três agentes da Ordem. Tanto Clarence quanto Benjamin e Violet teriam idade o suficiente para terem tido contato com a seita de vinte anos atrás, e talvez consequentemente com alguma das relíquias.
—E se o Incendiário realmente está usando as relíquias do Hierofante e os feitiços nelas contidos para expandir seu poder, ele pode querer eliminar outras pessoas que conheçam esses segredos— Adelaide disse— Alguém que poderia rivalizar seu poder mágico. Ou talvez alguém que saiba como impedi-lo.
—Porque, se a última seita foi impedida por meio de uma coalizão entre Iluminados, feiticeiros e agentes da Ordem, ele pode querer eliminar todos aqueles capazes de impedi-lo novamente— Antigone concluiu— Então, se conseguimos determinar que todas as vítimas tiveram acesso a uma das relíquias ou estiveram envolvidas com a seita, podemos determinar uma motivação.
—E talvez possamos chegar às próximas vítimas antes dele e impedi-lo— Augustus completou.
Eles se entreolharam, um misto de apreensão e catarse suspenso no silêncio da sala.
—Se isso é mesmo verdade, nós temos que proteger a relíquia que temos a todos os custos— Mihai quebrou o silêncio— E não podemos deixar ninguém descobrir que está conosco. Ou estaremos em perigo.
—Não apenas em perigo, garoto. Se ele souber que nós temos uma das relíquias, nós seremos os próximos alvos— Adelaide disse, um tom sombrio em sua voz— Céus, Gus. No que você nos meteu?
Antigone, estranhamente, não conseguiu sentir medo ao chegar à mesma conclusão que Adel. Apenas gratidão que ela e Gus haviam achado Mihai e Zoe a tempo, e que teriam ao menos uma chance de tentar protegê-los.
—Não se preocupem, Lockharts e crianças. Ninguém vai cair sem lutar. E, se realmente as relíquias podem impedir o Incendiário, nós temos uma chance de vencer essa guerra— ela disse.
Eu não sei, caro leitor, se Antigone Lascelle estava certa, e eles poderiam ter vencido o Incendiário somente com aquela relíquia e a coragem de seus corações. Mas sou obrigado a concordar com a Marquesa em um ponto: se havia alguém que seria capaz desse grande feito, eram as seis pessoas reunidas naquela casinha perdida no meio do nada.
E ela estava mais do que correta em estar grata por tê-las encontrados.
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