Arsonist's Lullaby- Interativa
10 IX- Everyone has Ghosts
Notas iniciais
Digory, assim como sua irmã, havia se atrasado para o trabalho.
Entrando apressado pelos fundos da relojoaria, ele torcia para que seu pai estivesse distraído na oficina, e para que Mihai estivesse ocupado com um cliente. Assim ninguém notaria o horário tardio de sua chegada.
Não havia sido culpa dele, assim como os atrasos de Polly certamente também não eram culpa dela, leitor. A verdadeira culpa poderia ser atribuída a Augustus Lockhart, que havia pedido ajuda aos jovens com as provas recolhidas do incêndio da casa de Joel Aubert no meio da madrugada; mas também poderia ser atribuída a Charlotte Griffin, que havia ateado o fogo em primeiro lugar e causado a necessidade de horas extra de trabalho.
De qualquer maneira, de quem quer que fosse a culpa, Digory conseguiu se esgueirar pela oficina, onde felizmente seu pai estava distraído, e passar até o balcão da loja.
Infelizmente para ele, Mihai não estava tão ocupado quando Peter Pembrook. Assim que ouviu o ruído suave da porta se fechando, ele ergueu o olhar de sua tarefa- organizar a bancada- para mirar o outro jovem.
Digory não pôde deixar de reparar que os olhos de Mihai pareciam cansados. Ainda gentis, e naquele tom supremamente cálido de castanho, mas cercados de círculos escuros e pálpebras ligeiramente pesadas.
—Bom dia— Mihai sorriu, iluminando o ambiente sem sequer se esforçar— Não conseguiu dormir bem?
Digory esfregou as mãos, um pouco sem jeito.
—O que te faz pensar isso?— ele indagou— E bom dia.
Mihai riu.
—Bem, você está bastante atrasado. Isso geralmente só acontece quando não dorme bem e não consegue levantar na hora certa— o rapaz explicou.
Digory sentiu seu rosto esquentado. Mihai não estava errado, mas ele não estava acostumado a ser lido como um livro aberto com tanta facilidade. Sentia como se Mihai já o conhecesse há anos, e entretanto sabia que só faziam algumas semanas.
—Pelo menos não dormi mal sozinho— Digory observou, se aproximando de Mihai e apontando para seu rosto— Achou que eu não iria reparar nas olheiras?
Mihai desviou o olhar, visivelmente embaraçado. Digory havia reparado nos últimos dias que ambos tinham o mesmo problema: timidez. Chegava a ser cômico como recuavam e hesitavam o tempo todo em suas tentativas desajeitadas de se aproximarem um do outro.
—Acho que nossa insônia nos conecta, afinal— Mihai concluiu, dando de ombros.
Digory sorriu, mesmo que não realmente tivesse insônia, e sim apenas a obrigação de ajudar a Ordem. Se perguntou o que mantinha Mihai acordado de noite, e se ressentiu um pouco do que quer que fosse. Deveria ser uma verdadeira honra ser a causa dos pensamentos inquietos de alguém tão tranquilo quanto ele.
—Você nunca me pareceu do tipo que tem problemas para dormir— Digory comentou, pensando alto.
—Já me disseram mesmo que tenho cara de sono o tempo todo— Mihai comentou.
Digory corou.
—Não foi isso que eu quis dizer— ele disse rapidamente, tentando reparar seu erro— Eu gosto da sua cara, ela não é de sono. É tranquila, e gentil. Não sei porque alguém diria isso.
Esfregou as mãos nervosamente ao perceber que certamente havia dito mais do que deveria, mas Mihai apenas sorriu timidamente.
—Obrigado— ele respondeu— Eu também gosto da sua cara, mesmo que você esteja vermelho como um pimentão a maior parte do tempo.
Isso, é claro, apenas fez com que Digory corasse mais ainda.
—Você tem mesmo que gostar, afinal costuma ser culpa sua— Digory retrucou, franzindo levemente o cenho, mas sem conseguir se livrar completamente de um sorrisinho.
Mihai se remexeu, um pouco inquieto, mas riu, e replicou:
—Em minha defesa, geralmente não é por querer.
—“Geralmente” implica que é de propósito algumas vezes.
—Bem, é fácil demais para não ser um pouco tentador, de vez em quando.
Digory ainda não conseguiu conter o pequeno sorriso, mesmo que sentisse seu rosto queimando violentamente.
—Então era isso o que tirou o seu sono? Estava pensando em novas que maneiras de rir às minhas custas?
Mihai novamente deixou escapar uma pequena risada.
—Claro que sim. No que mais eu estaria pensando?
Digory o acompanhou em sua risada, apreciando como as bochechas de Mihai também pareciam levemente rosadas. Contudo, não comentou nada. Talvez fosse apenas impressão sua. Ou talvez ele simplesmente não quisesse estragar o momento.
—Mas é sério. O que está te preocupando tanto?— Digory perguntou, após alguns segundos, quando as gargalhadas baixas finalmente minguaram.
Mihai ergueu o olhar, parecendo um pouco mais sério. Seus dedos mexeram na ponta de seus cabelos em um gesto ligeiramente ansioso, e então ele prendeu o cacho atrás da orelha, colocando as mãos sobre o colo e ajeitando a postura logo em seguida.
—Tem a ver com o meu pai— ele admitiu, um timbre de hesitação em sua voz— Ele e minha mãe nunca se casaram, e eu nunca o conheci. Sempre assumi que ele não queria nada com a gente, mas, alguns dias atrás, minha mãe me entregou um livro que ele deixou para mim.
—Um livro…?— Digory questionou, interessado.
—Sim, quase uma espécie de diário. Está coberto de anotações dele. E, pelo que parece, ele sempre nos acompanhou de longe, mas tinha motivos para não poder ficar— ele continuou, e Digory pode ver, pela primeira vez, um brilho de tristeza e confusão naquele rosto geralmente tão tranquilo— Não sei como me sentir, ou sequer se ele está falando a verdade. Mas minha mãe parece confiar nele, apesar de não o ver há anos, e dele ter sumido complemente.
—Não sei nem o que dizer…- Digory disse, se sentindo mal por Mihai. Não conseguia imaginar o quão difícil deveria ser passar pelo que ele estava passando— É uma situação complicada, eu sinto muito que você tenha que passar por isso.
—Eu também sinto— Mihai suspirou— Mas o pior é que não faço ideia se estou fazendo a coisa certa procurando por ele. Talvez ele estivesse mentindo para minha mãe, e não queira ser encontrado. Talvez ele tenha sumido de propósito.
O olhar perdido havia se intensificado e se tornado desolado. Para Digory, ver aquilo foi como tomar um soco na boca do estômago. Mihai costumava ser cheio de luz e esperança, e vê-lo naquele estado doía, de um jeito quase pessoal. Nos momentos mais obscuros dos dias que se sucederam à morte de Ron, era a Mihai e sua perseverança que Digory recorria, e ver toda aquela resiliência que costumava ser tão natural e constante vacilando o fez ficar arrasado, também.
Digory hesitou por um segundo, mas então tomou coragem, se aproximou de Mihai, e o abraçou. O segurou firme, tendo que se alçar nas pontas dos pés para envolver seu pescoço com os braços, mas o esforço valeu à pena. A pele dele era supreendentemente quente, e tinha um cheiro suave de incenso e grama recém-cortada, e o jeito que seus corpos se encaixavam um no outro parecia natural e reconfortante.
Mihai pareceu surpreso, a princípio, mas logo estava abraçando de volta. Digory conseguiu sentir o exato momento em que seu corpo relaxou em seus braços, e ele pareceu menos chateado.
—Se você está fazendo o que seu coração manda, você está agindo certo— Digory assegurou, se afastando minimamente de Mihai para olhá-lo nos olhos— Desde que meu melhor amigo morreu, eu também vivo me questionando. Se estou fazendo o suficiente para honrar a memória dele, ou para proteger nossas famílias. Mas a verdade é que não podemos ser infalíveis, mas podemos tentar nosso melhor. E, enquanto permanecermos leais a nós mesmos, estaremos fazendo a coisa certa.
Mihai colocou as mãos nos ombros de Digory, e sorriu. Um sorriso com resquícios de tristeza, mas confortado, de certa maneira.
—Bem, eu acho que você está certo— ele respondeu, por fim— Mesmo que talvez não seja a melhor decisão, eu estou seguindo meu coração. E, por enquanto, isso é o suficiente.
Digory sorriu de volta.
—E eu estou orgulhoso de você por estar enfrentando essa situação com tanta coragem— ele disse— Sei que não nos conhecemos há muito tempo, mas estou aqui para o que quer que você precisar.
—Digo o mesmo— Mihai respondeu, descendo as mãos pelos seus braços e segurando suas mãos— Se precisar conversar sobre seu amigo, ou qualquer outra coisa, sempre estarei aqui para ouvir.
As mãos dele eram macias, mas suavemente calejadas. Digory se segurou a elas como se sua vida dependesse disso. Talvez realmente dependesse.
—Eu sei que as coisas não estão fáceis. Mas tenho certeza que podemos passar por isso, se enfrentarmos tudo juntos— Digory disse, e Mihai sorriu.
—Também acho.
Ambos sabiam que não estavam contando toda a verdade um para o outro, como o leitor certamente já deve ter reparado. Fragmentos da realidade não são mentiras, é claro, mas todas as omissões que ficaram subentendidas nas entrelinhas eram poderosas demais para que a confiança ali estabelecida fosse plena.
Contudo, nenhum dos dois se deu conta disso, naquele momento. E o sentimento de conexão que eles sentiram foi o suficiente para que pudessem fingir que seus segredos sequer existiam.
Mas é claro que um agente da Ordem e um feiticeiro não poderiam viver nesse adorável faz de conta para sempre. Eles eram quem eram, e, como Digory havia dito, permaneceriam leais a si mesmos.
Uma hora, eles teriam se confrontar a realidade.
Mas não naquele momento. Aquela manhã não era tempo de guerras milenares ou segredos obscuros. Era apenas um tempo para que dois jovens pudessem tomar chá e conversar, e, lentamente, começassem a precisar cada vez mais um do outro.
Em outro ponto da cidade, uma outra personagem não podia se dar ao luxo de tanta paz.
Como o leitor já deve ter percebido, a Marquesa Antigone Lascelle tinha uma rotina normalmente bastante agitada, e, naquela tarde, não seria diferente.
Antigone havia tido uma manhã conturbada, talvez pela privação de sono que os eventos da madrugada causaram, talvez pelas tarefas exaustivas que seu cargo como nobre adicionava aos seus afazeres.
Entre a Ordem e o Palácio, Antigone já havia catalogado provas e delegado partes da investigação sobre Joel Aubert a outros agentes, feito o inventário da reforma que seria necessária na sua propriedade no interior, e participado de uma reunião com outros nobres a respeito das festividades de Páscoa, que estavam cada vez mais próximas.
Ela havia almoçado rapidamente, e, por fim, havia voltado a se dedicar às investigações da Ordem.
Pela primeira vez, achava que conseguira uma pista promissora, que revelaria ao menos um caminho para seguir. Pois Joel Aubert tinha uma conexão com uma outra vítima dos incêndios, Sofia Rodaki. E essa conexão poderia ser uma peça central do mistério.
Sofia era uma conhecedora do oculto, o que queria dizer que não havia sido agraciada ela própria com dons mágicos, mas que conhecia alguns fundamentos de magia, o que lhe permitia transitar entre os dois mundos. A Ordem já estava de olho nela há algum tempo, sobretudo por conta de sua ocupação: assim como Ottis Wilson, ela era conhecida por distribuir artigos e pergaminhos mágicos, embora em escala bem mais restrita. A maioria dos itens em sua posse eram antigos e raros, e sua coleção funcionava muito mais como uma biblioteca do que como uma loja.
Sua ancestralidade grega facilitava na obtenção de objetos milenares e poderosos, e ela lidava com uma gama diversa deles, mas de um jeito bem menos comercial do que outros do ramo. Ela parecia valorizar o conhecimento por si só, e não apenas o dinheiro ou as regalias que ele poderia proporcionar.
Infelizmente, tanto Joel quanto Sofia estavam mortos, e portanto jamais poderiam esclarecer quais os motivos que levaram ambos ao mesmo fim tão trágico e repentino. Porém, ainda havia uma pessoa viva que poderia. A mesma pessoa que os conectava um ao outro.
E essa pessoa se chamava Zoe Rodaki.
Zoe Rodaki era uma menina magra, de no máximo dezessete anos. De certa forma, era muito parecida com a avó, com os mesmos traços angulosos, mas tinha um aspecto muito menos sábio e mais selvagem. Seus cabelos loiros tinham um corte curto e irregular, arrepiando-se com qualquer mínima brisa, e seus olhos tinham um brilho desconfiado. Antigone imediatamente reparou em seus braços e mãos, cobertos de pequenas cicatrizes irregulares, e nos anéis em seus dedos. Uma feiticeira, usuária de Sombras, sem dúvidas. Poucas outras pessoas tinham tanto despeito pela dor e tanta necessidade de sangue a ponto de se fazerem sangrar com tanta frequência e descaso. Apenas usuários de Sombras, cujo substrato para muitos feitiços consistia do próprio sangue, teriam um padrão tão característico de cicatrizes.
Era irônico que ela fosse uma usuária de Sombras, tendo em vista que ela havia herdado a magia do pai, e ele nunca havia conseguido usar Sombras muito bem, apenas Luz. Apesar disso, ela tinha os olhos dele, Antigone reparou. Grandes, e azuis, e estranhamente gentis para um rosto tão hostil.
Aquela menina poderia ser um ponto crucial para desvendar o mistério de Incendiário, uma vez que era próxima de duas das vítimas. Neta de Sofia Rodaki. Filha de Joel Aubert.
—Boa tarde, Zoe— Antigone cumprimentou, polida, mas fria, assim que a garota abriu a porta— Poderíamos conversar? É sobre um assunto que te diz respeito.
A garota ainda morava nos restos carbonizados da casa da avó, e Antigone teria sentindo pena, se a jovem não tivesse a olhado de cima a baixo com desprezo.
—Nenhum assunto da Ordem me diz respeito, dona— Zoe replicou, fazendo menção de fechar a porta— Não volte aqui, a não ser que queira colecionar algumas maldições.
Antigone não teve sequer que se perguntar como a garota sabia que ela era uma agente da Ordem. Sabia que seu rosto era um dos mais conhecidos dentre os usurários de magia, uma vez que era ela quem geralmente assumia a frente de missões mais operacionais, enquanto Henrietta preferia comandar da sede. E, mesmo se Zoe nunca tivesse ouvido falar dela antes daquele momento, Antigone não se enganava: a quantidade de anéis amaldiçoados em seus dedos e itens poderosos que deveriam haver dentro daquela casa permitiriam que ela fizesse quantos rituais desejasse para descobrir se estava sendo vigiada ou não.
E estava. Antigone já rodeava a casa queimada e sua misteriosa habitante desde que havia recebido a notícia da morte de Joel Aubert, e não planejava sair dali sem cumprir seus objetivos.
—Se está tentando me assustar, Senhorita, devo informá-la que será bem mais difícil do que isso— Antigone replicou, segurando a porta em um movimento ágil, antes que Zoe pudesse fechá-la— Além disso, não há necessidade para toda essa encenação de durona. Não estou aqui para falar sobre você ou me meter em suas atividades, não se preocupe. Apenas preciso falar sobre sua família.
O olhar que a garota lhe lançou foi profundamente odioso, mas ela não fez menção de tentar fechar a porta novamente.
—Se vai perguntar sobre o meu pai, seja rápida— Zoe disse, por fim— Só depois de morto mesmo para o coroa dar o ar da graça.
O interior da casa estava supreendentemente limpo, apesar da aparência decrépita e queimada do exterior. Antigone conseguia quase sentir o ar pesado com magia e tragédias passadas. Alguns feitiços sem dúvidas haviam sido empregados para tornar as ruínas habitáveis, mas o mais notável eram as marcas que o incêndio havia deixado e que nem mesmo Zoe poderia apagar.
—Pode se assentar, mas não espere que eu te ofereça chá ou algo assim— Zoe indicou algumas poltronas e cruzou os braços— O que quer saber sobre meu pai?
Antigone estranhamente apreciou que a garota fosse direta.
—Algumas perguntas talvez envolvam sua avó— Antigone avisou, e Zoe deu de ombros.
—Já me fizeram perguntas sobre ela na época do incêndio— a moça respondeu.
—Naquela época seu pai ainda estava vivo, e não havia conexões concretas entre nenhuma das vítimas— Antigone explicou— Mas agora temos duas pessoas da mesma família. Isso poderia tornar o motivo do criminoso mais claro, se encontrarmos pistas.
—Não éramos uma família— Zoe replicou, com desgosto— Meu pai foi embora quando minha mãe morreu. Eu tinha apenas alguns dias de vida, e ele quase nunca veio visitar depois disso. Foi minha avó quem realmente me criou. Por que acha que uso o sobrenome dela, e não dele?
Antigone já sabia dessa história pelas investigações prévias que havia feito, mas ouvir o rancor na voz de Zoe foi intenso de qualquer forma.
—Então ele e sua avó não tinham muito contato? Nenhuma atividade em comum, algo que os conectasse?— Antigone questionou.
—Minha avó não o odiava tanto quanto eu. Até mesmo achava que eu deveria perdoá-lo. Mas eles não eram próximos, e tinham óticas bem diferentes a respeito da magia, então duvido que já tenham colaborado.
—“Óticas diferentes”?— Antigone interpelou— O que quer dizer com isso?
Zoe soltou uma risada amarga.
—Que meu pai era um mercenário, e, minha avó, uma idealista— a menina respondeu— Ela nunca entregaria informação para ele, sabendo como ele acabaria usando.
—E como ele usaria?
—Olhe, dona. Joel era um péssimo pai, mas eu sei separar as coisas. Como feiticeiro, ele não costumava ser tão ruim— Zoe respondeu com uma evasiva— Mas tinha um grande defeito, que era não saber os próprios limites. Se tivesse muito dinheiro na jogada, ele poderia usar as informações que tinha de maneira não convencional, e, às vezes dava certo. Mas, às vezes, tragédias podiam acontecer.
Antigone já havia cavado o passado de Joel Aubert, e lido sobre o episódio ao qual Zoe possivelmente se referia. Mas todos os detalhes vagos nos arquivos levaram a Marquesa a perguntar de qualquer forma:
—Que tipo de tragédias, Zoe?
A menina baixou os olhos pela primeira vez desde o início da conversa, parecendo genuinamente desconfortável, e não mais irritada.
—Sabe porque continuei nessa casa, mesmo minha avó tendo me deixado uma herança decente?— a menina novamente evadiu a pergunta— Porque, aqui, é fácil ver fantasmas. Passo o dia todo falando com eles, mesmo com os que eu não falaria quando estavam vivos. Meu pai disse que não foi culpa dele, e eu acredito. Fantasmas não costumam mentir.
—Zoe, precisa me dizer o que seu pai lhe contou— Antigone insistiu— A segurança de muitos depende disso.
Os olhos da menina se ergueram novamente, se fixando nela. Contudo, não pareciam realmente enxergá-la. Estavam desfocados, difusos. Como se ela visse algo que Antigone não podia ver, além da visão de qualquer mortal.
—Quando você entrou por aquela porta, um garotinho entrou com você. O véu é fino aqui, e todos temos fantasmas. Ele é parecido com você, os mesmos cabelos escuros, os mesmos olhos claros. Não tinha falado nada, até agora— Zoe continuou divagando, apesar do apelo de Antigone— Ele disse que não é culpa sua, Antigone. Que você não poderia tê-lo salvado.
“Everard”— Antigone pensou, tendo de lutar para se manter calada e composta. Contudo, sua vontade era chorar, e perguntar à Zoe como seu irmãozinho estava.
—Fantasmas não são coerentes, mas são sinceros. Não sentem mais dor, mas se lembram dela, e são tão assombrados quanto as casas que habitam— a menina prosseguiu— Meu pai estava coberto de queimaduras quando me contou a história de seu maior fracasso. Talvez tenha sido uma história desconexa, mas não acho que seja mentira. Confio mais em gente morta que em gente viva, sei que fantasmas não tem mais motivo algum para mentir.
Antigone sabia que aquela garota não estava bem. As falas desconexas, a raiva constante, o jeito que seus olhos pareciam enxergar mais os fantasmas que as pessoas de carne e osso. Estava sendo lentamente consumida pela própria magia, incapaz de viver sem o auxílio constante dela. Ainda assim, Antigone sentia uma curiosidade enorme sobre o que ela sabia, e decidiu deixá-la continuar, mesmo sabendo que teria se interferir, cedo ou tarde.
—Meu pai tentava usar sua magia para ajudar as pessoas. Por um preço, claro, mas em geral ele não fazia nada de errado. Mas, uma vez, quando ele era jovem, as coisas saíram dos limites. Acho que por isso o mataram, alguns nunca se esqueceram da abominação que ele fez. Se o Incendiário for mesmo um justiceiro, como falam, talvez esse seja seu crime.
—O que ele fez, Zoe?
A menina respirou fundo. Suas mãos tremiam, e seus olhos estavam perdidos no ambiente ao seu redor, procurando vultos invisíveis.
—Ele matou uma mulher. Não foi de propósito, mas ele matou. Ela queria aquele filho a todos os custos, e acabou pagando com a própria vida. Talvez a culpa tenha sido tanto dela quanto foi dele. Você não mexe com magia se não está disposto a pagar um preço.
Antigone se inclinou em direção à garota, e, muito calmamente, segurou suas mãos, a fazendo focar seu olhar nela.
—Você precisa me contar exatamente o que aconteceu, Zoe.
A menina tinha lágrimas nos olhos, mas assentiu, ainda que suas mãos não tivessem parado de tremer.
—Ela era uma nobre. Alguns dizem que até tinha sangue real. E iria perder a herança para um primo distante, se não conseguisse ter um filho. Ela já tinha tentado de tudo, vários feiticeiros já haviam usado suas melhores magias de fertilidade, e nenhuma demonstrou resultado. Mas meu pai sabia um feitiço, um que havia surrupiado da biblioteca da minha avó. Usava Sombras e Luz juntas, uma aberreção, e eu sequer sabia que isso era possível. Ele achou que conseguiria controlá-lo. Mas foi feitiço que acabou consumindo a ambos— as palavras fluíam de sua boca em uma voz assustada, e ela agarrava as mãos de Antigone como se sua vida dependesse disso— No início, tudo pareceu maravilhoso. A barriga da mulher inchou e cresceu, e vida surgiu ali tão naturalmente quanto com qualquer outra. Mas aquele não era um filho normal. Era um filho de magia e sangue, e as Sombras sempre cobram seu preço.
—O que aconteceu com a mulher, Zoe?
—Ela fez o que as mulheres grávidas fazem de melhor— a garota soltou uma risada maníaca, e Antigone teve ainda mais certeza de que ela não estava bem— Morreu. Assim como minha mãe. Assim como devo morrer, um dia. É o básico, como não conseguem ver? Para criar uma vida, outra deve ser sacrificada. E geralmente é a sua.
—O feitiço a matou?
—De certa forma. Mas foi o bebê quem realmente fez o trabalho. Antes mesmo dos nove meses, estava tão grande e forte, roubando tanta da energia da mãe, que se cansou de seu ventre. Quebrou suas costelas e rastejou para fora, uma pequena criatura abominável. Aquela não era uma criança comum, era uma cria de magia profana. Quando meu pai viu aquilo, sequer soube como reagir. Não conseguiu salvar a mulher, mas sabia que não podia deixar aquela coisa viva.
—Ele matou a criança também?
—Aquilo não era uma criança. E ele não teve escolha.
—Mas, ainda assim, houve quem o julgasse por isso, não houve?
—Sempre há. E talvez não estivessem errados. Aquele era um feitiço proibido, ele não deveria ter sido tão arrogante a ponto de achar que poderia controlá-lo.
—Você conhece alguém que poderia querer matar o seu pai por isso?
—Qualquer justiceiro ou vigilante o condenaria por isso. Apesar dele ter tentado se redimir em todos os anos que se seguiram— a menina respondeu— Mas todos somos assombrados por nossos passados, não somos? Por mais que tentemos fugir. Ele sempre volta para nos ferrar.
Antigone soltou as mãos de Zoe, mas permaneceu perto o suficiente para que o olhar da jovem não vagasse novamente.
—Você disse que esse feitiço foi retirado da biblioteca da sua avó— a agente afirmou, e Zoe assentiu— Acha que essa pode ser a conexão que fez o Incendiário atacar ambos?
Zoe deu de ombros.
—Pode ser. Meu pai falou muito sobre essa magia profana, embora quase nada fosse coerente. Mas um nome me chamou a atenção. Ele disse que o feitiço era do Hierofante. E a minha avó tentava esconder os livros com esse nome, mas eu já tinha os visto antes, trancados longe de todos os outros. Pareciam importantes, e perigosos.
—O Hierofante— Antigone repetiu, embora o nome não lhe fosse familiar— Sabe mais alguma coisa sobre esse assunto?
—Não. E nem quero. Depois de todo o sofrimento que essa magia causou, não quero nada a ver com ela.
—Talvez você devesse fazer uma pausa de toda essa magia das Sombras, também. Não acho que esteja te fazendo bem.
Zoe havia conseguido retomar parte de sua compostura hostil, e se limitou a soltar uma risadinha debochada.
—Para alguém que prometeu não se meter em minhas atividades, você parece bastante envolvida— a garota provocou— Não me venha com essa história de corrupção pela magia, eu sei o que estou fazendo, e estou bem. Não vai conseguir me separar dos meus fantasmas.
Antigone sabia que não adiantava brigar, mas certamente mandaria Augustus ou algum outro agente com mais traquejos sociais para conversar com Zoe mais tarde.
Por motivos estritamente profissionais, claro. Não precisava de outra usuária de Sombras com traços de psicopatia solta por aí causando problemas.
—Tudo bem, tudo bem. A vida é sua, tenho certeza que sabe o que está fazendo. Mas, se precisar de alguma coisa, ou se lembrar de mais algum detalhe, pode me procurar. Tenho certeza que tem meios de me encontrar— a agente respondeu.
Zoe deu de ombros.
—É claro que tenho. Mas não volte aqui tão cedo. Vai pegar mal com os vizinhos ficar recebendo alguém da Ordem na minha casa.
No caminho de volta para o Palácio, a Marquesa pensava no Hierofante, quem quer que ele fosse. Estava satisfeita por finalmente ter conseguido uma pista, mas também intrigada. Nunca havia ouvido falar de nada parecido antes, e a descrição de Zoe sobre a magia proibida a havia deixado em alerta. O que quer que tivesse de investigar a partir daquilo, tinha certeza que não seria fácil, ou seguro.
Mas precisava ser feito. Por mais que seu desejo verdadeiro fosse voltar até Zoe e lhe perguntar mais sobre Everard, e descobrir se ele estava bem. Descobrir se ele havia conseguido perdoá-la por não ter sido capaz de salvá-lo. Ela se odiava por ter se deixado ser tão afetada pela mera menção do irmão, mas aquela fora uma tragédia que ela nunca conseguiu verdadeiramente superar, ou sequer entender.
Antigone abriu a janela da carruagem e respirou fundo. Precisava manter sua mente focada. Tinha uma missão, e não descansaria até cumpri-la.
Outra pessoa que estava tentando se focar em sua missão, mas sendo distraída pelo passado, era Henrietta Raycraft.
Lendo os antigos diários que Lorde Ephraim havia deixado para ela, a mulher tentava buscar alguma direção ou sabedoria de seu finado mentor. Mas só encontrava nostalgia e dor.
Ainda se lembrava de seus primeiros anos na Ordem. Ela havia entrado com dezessete anos, apenas alguns meses antes de Antigone, que tinha dezenove. Lembrava de como Ephraim fazia seu melhor para fazer ambas se ajustarem, embora Antigone estivesse bem inconformada de estar ali, inicialmente. E de como ambas pareciam estar lidando com as próprias tragédias, mas nunca haviam conseguido se apoiar uma na outra.
Talvez isso fosse culpa da competitividade de ambas. Talvez elas simplesmente não fossem feitas para serem amigas. Mas estavam sempre se digladiando, tentando superar os feitos da outra, embora tudo não passasse de uma válvula de escape para seus sofrimentos pessoais.
Antigone e seu irmão morto, mas que deveria estar vivo.
Henrietta e seu marido vivo, mas que deveria estar morto.
Os primeiros anos, nos quais Lorde Ephraim ainda não era o Líder, mas sim o sucessor preferido, foram intensos, pois ambas queriam cair em suas graças. Por motivos diferentes, mas no final não fazia diferença. O desprezo mútuo foi crescendo aos poucos, eram pessoas diferentes demais para se entenderem.
Henrietta se lembrava de ter de esconder os hematomas em seus braços e pescoço toda vez que aparecia para trabalhar. E jurava que a maquiagem escura era um jeito de Antigone esconder os olhos inchados de choro. Mas a dor as fez apenas mais implacáveis.
Ela confiava nas habilidades de Antigone como agente. E queria acreditar que ela nunca iria contra si, enquanto permanecesse sendo uma Líder competente.
Mas isso parecia cada vez mais difícil.
Henrietta fechou o diário, e decidiu não pensar mais sobre o passado naquele dia.
Sabia que ambas ainda lidavam com suas próprias dores e traumas, mas, naquele momento, tinham um objetivo em comum. Julgou ser o suficiente para confiar na outra mulher. Por enquanto.
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