Notas iniciais
Hello! Eu sei que prometo toda vez que não vou demorar e acabo demorando. Mas devagar e sempre vamos concluir essa história rsrs! Pelo menos, o próximo capítulo vai sair no máximo em Agosto, ao que tudo indica. Boa leitura ♥

O final de semana foi um período feliz, mas cheio de conspirações, para os irmãos Waldford.

Edward se entristecia por normalmente não poder passar tanto tempo em casa, mas, naqueles dois dias, deu tanta atenção quanto pôde aos seus irmãos. Tocou piano com Adelaide, e passou horas ouvindo os casos de Gus, e fez tudo aquilo com um sorriso no rosto. Durante todos os meses que havia ficado fora em suas investigações, havia sentido falta deles. Desesperadamente. E estava grato pela oportunidade de compensar o tempo perdido.

As conspirações começaram na tarde de domingo, enquanto os três preparavam o jantar.

Edward já estava reparando em um burburinho estranho entre Gus e Adel, mas decidiu ignorar, sabendo que, eventualmente, eles lhe contariam o que planejavam. Por isso, apenas cortou as cenouras pacientemente enquanto observava os dois sussurrarem entre si.

—Tudo bem, vamos falar com ele, então— Edward ouviu Augustus falando, então ambos os seus irmãos pararam seus afazeres e andaram até o seu canto da cozinha.

—Ed?— Adelaide chamou, com a voz bem mais manhosa que de costume— Podemos te pedir um favor?

Edward parou sua tarefa e assentiu, esboçando um sorriso complacente.

—Qualquer coisa que precisar, Adel.

Edward tentava evitar usar sua magia quando se tratava de seus irmãos, mas, principalmente com Augustus, que não tinha nenhuma magia de Luz para contrabalancear a dele, às vezes era difícil não arrancar uma memória ou duas acidentalmente. E, por isso, antes mesmo que seu irmão abrisse a boca, ele já sabia do que se tratava.

Edward viu o quarto abafado, as cortinas fechadas, os lenços respingados de sangue se acumulando na cômoda. E ele viu o rosto da menina, os olhos fundos e cansados, a pele pálida e sem viço, os ossos do crânio começando a se insinuar sob suas bochechas conforme ela definhava.

—É Eliza— Gus confirmou o que Edward já sabia— Ela está muito mal. Não acho que vá melhorar sem ajuda.

—E a ajuda que vocês querem é a minha— Edward inferiu, ao que Adel assentiu.

—Jasper é um feiticeiro habilidoso, mas não tem proficiência com Luz e cura. E Margaret não confiaria em ninguém além de você para ajudar a filha— ela explicou, ainda usando um tom levemente suplicante.

Ed pousou a mão no ombro de Adelaide, mais uma vez sorrindo calmamente.

—Bem, desde que Eliza ficou doente, eu sabia que esse momento chegaria— ele disse— Será um prazer ajudar. A menina já está sofrendo há tempo demais.

Adel soltou um suspiro aliviado.

—Muito obrigada, Ed— ela disse.

—Vocês podem sempre contar comigo, não precisam nem agradecer— ele respondeu.

A noite se aproximava, e o jantar estava quase pronto. Enquanto conversavam sobre como fariam para ir à casa de Margaret no dia seguinte, as mãos dos três Waldford estavam ocupadas colocando a mesa e servindo o ensopado que fizeram juntos.

Jasper estava na casa de Margaret, de modo que os irmãos ficaram sozinhos naquele final de tarde. O assunto logo se desviou para tópicos mais amenos e agradáveis enquanto eles comiam, com o eventual comentário sobre o quanto a sopa estava boa (sempre com Adel e Gus brigando para tomar o crédito do tempero para si).

—Mamãe sempre colocava alecrim na marinada da carne antes de acrescentar o resto do caldo da sopa— Adelaide comentou, com um tom levemente sabichão— Foi ela quem me ensinou esse truque, não teria como você saber dele também.

Gus torceu o nariz, contrariado.

—Pode até ser, mas a pimenta do reino era a assinatura do papai— ele argumentou— E fui eu quem a colocou junto com as batatas.

Edward se limitou a rir e observar como os irmãos ainda discutiam como se fossem crianças, com um certo ar de nostalgia. Ele sem dúvidas havia sentido falta daquilo enquanto estava longe.

Esperava que as circunstâncias permitissem que ele ficasse perto deles daquela vez. Ao menos quando tudo acabasse, e ele finalmente pudesse descansar, ele poderia mantê-los seguros.

—Bem— Ed disse, por fim, para apaziguar a discussão— Podemos dizer que foi um trabalho em equipe, então.

Adelaide reclamou, e Gus fez careta, mas no fundo eles sabiam que o trabalho de um não teria brilhado tanto sem o do outro.

Os últimos raios de sol minguavam timidamente quando os três se assentaram lado a lado no banco do jardim, acalentando xícaras de chá enquanto observavam a beleza do céu incandescente.

Edward gostava de como os dias nublados da Inglaterra acabavam com pores do sol tão brilhantes, com os raios sendo delicadamente filtrados entre as nuvens carregadas. Eram como sombras de um vitral de uma igreja antiga, com luzes diáfanas banhando gentilmente tudo ao seu redor, dando um brilho sépia a tudo aquilo o que tocavam.

—Sei que estamos todos sempre sob o mesmo céu— Edward comentou, após um tempo encarando o horizonte, pensativo— Mas ele nunca é tão bonito quanto em casa.

Adelaide encostou a cabeça em seu ombro, ainda com os olhos castanhos perdidos por entre as nuvens. Edward passou o braço ao redor dela, sentindo sua pele levemente resfriada pela brisa sob seus dedos.

—Você sempre fala que não há outro lugar que ame tanto quanto seu lar— ela murmurou— Mas mesmo assim não consegue parar de fugir dele.

Não havia julgamento em sua voz, nem mesmo seu habitual tom de provocação. Apenas uma pitada de melancolia, tão sútil que, se Edward não conhecesse sua irmã tão bem, não teria distinguido da sua ironia de sempre.

Ele sabia que, desde a morte dos pais, Gus e Adel precisavam dele. Tão desesperadamente quanto qualquer criança precisaria de um guia, de um protetor. E esse era um fardo que ele carregava sem sequer pestanejar. A responsabilidade nunca havia lhe soado como um castigo, e sim como um dever que ele cumpria com zelo e satisfação.

Mas sem dúvida lhe doía ter de manter tantos segredos. Contar tantas mentiras, e ver o quão perdidos seus irmãos ficavam sem ele toda vez que ele era obrigado a se afastar. Mesmo que tudo o que ele fizesse sempre fosse para mantê-los seguros, e para honrar a memória dos pais.

Sua casa havia sido o primeiro lugar do qual ele havia aprendido a fugir. Desde aquela fatídica noite, em que havia acordado no meio da madrugada e corrido com seus irmãos para longe do perigo, ele estava fugindo.

Ele só nunca esperaria ter de fugir daqueles que mais desejava proteger.

Talvez ele mesmo fosse o perigo.

Talvez, se não corresse rápido o suficiente, sua presença macularia as paredes daquela casa com escuridão, e ela ficaria tão vazia e assombrada quanto a antiga.

—Adel, você sabe que isso não é verdade— ele estava mentindo, é claro. Mas, àquele ponto, que diferença fazia? Àquele ponto, ele sabia que Adelaide e Gus acreditariam, como sempre acreditavam— Por que eu fugiria de vocês?

“Eu não posso ficar perto demais, ou vocês vão se machucar. Enquanto eu não terminar o que comecei, sempre colocarei vocês em perigo”— ele pensou, mas não deixou seus medos transparecerem, mantendo a expressão calma e gentil.

Os olhos de Adelaide eram inescrutáveis, mas os pensamentos de Gus não. Edward sentiu a leve tensão pairando no ar, como um formigamento estranho em sua pele, antes mesmo de olhar a expressão preocupada do seu irmão. Ele sempre era tão transparente, e Edward sequer precisaria de magia para adivinhar a fala que viria a seguir.

—Não seja tão dura com ele, Adel. Você sabe que ele é um homem ocupado, e que trabalha o tanto que trabalha para nos manter confortáveis— Augustus o defendeu, o que fez Edward se sentir pior ainda.

Ele não merecia ser defendido. Adel estava certa. Ele era um monstro.

Adelaide suspirou.

—Eu sei, Gus. Eu sei— ela disse— Mas eu ainda tenho o direito de reclamar, não tenho? É tudo o que me resta.

O seu tom havia retomado um leve tom de provocação, o que deixou Edward um pouco menos tenso. Ele abriu um sorriso, passando a mão pelos cabelos de Adel, desalinhando-os.

—E isso é algo que você faz com classe e propriedade. Uma reclamona da mais alta estirpe— ele provocou de volta.

Os três riram. O clima pesado se desfez. E eles continuaram observando os últimos raios do sol sumirem no horizonte em silêncio.

Naquele momento, tudo estava em paz. E nada mais importava, apenas o fato de que, finalmente, eles estavam juntos.

A manhã seguinte começou cedo para Edward. Enquanto Gus e Adel ainda dormiam, ele se levantou, começando os preparativos para a visita a Eliza.

O cheiro das ervas que ele separava, as guardando cuidadosamente em sua bolsa, perfumava o ar. Sálvia, tomilho, alecrim, artemísia, camomila. Todas colhidas cuidadosamente do jardim, com deferência e respeito, como sua mãe havia ensinado.

Sienna Waldford havia amado seu jardim com tanta devoção quanto havia amado a vida. A magia da mãe de Edward costumava ser fulgurante e intensa, mas supremamente gentil, como ela mesma era. Quanto tempo fazia que ele não usava nenhum dos ensinamentos da mãe? Aquele tipo de magia, a de cura, não poderia ser praticada sem um coração cheio e altruísta. Edward tinha quantidades absurdas de poder, mas, mesmo assim, temia que não fosse capaz de concluir os feitiços. Ele poderia fazer um lindo teatrinho para seus irmãos, mas sabia que não tinha a mesma gentileza da mãe.

Não, mas ele não era um homem egoísta. Nada do que fazia era para si. Era tudo para eles. E um coração preenchido de ressentimento não deixava de estar cheio.

Gus acordou primeiro, e, depois de um “bom dia” sonolento, começou a preparar o café da manhã enquanto Edward separava seus materiais.

—Já faziam anos desde que eu via as ervas do jardim sendo realmente usadas para magia— Gus comentou, dando uma breve espiada no que o irmão fazia— Passaram tempo demais sendo apenas tempero.

Edward riu.

—Não é uma função ruim, também. Mas fico feliz que Adel tenha cuidado bem das plantas, apesar de ela mesma não praticar magia. Elas sempre acabam sendo úteis— ele respondeu.

Gus pareceu pensativo por alguns segundos.

—Ela poderia praticar, se quisesse. Às vezes acho que não é bom para ela não usar os poderes, não é natural— Augustus refletiu— Chega a fazer mal. Como ficar constipado por tempo demais. Tem algumas coisas que simplesmente precisam sair, cedo ou tarde.

Edward não conseguiu segurar a gargalhada, apesar de ter entendido o sentido do que Gus queria dizer. Mas não podia deixar de apreciar o quão comicamente sem noção ele era, às vezes.

—É um jeito interessante de descrever esse fenômeno— ele provocou— Mas não discordo.

Augustus corou, apenas então percebendo que provavelmente havia sido desafortunado em sua comparação.

—Ora, você entendeu o que eu quis dizer. E sabe que tenho razão.

Ele realmente tinha. Edward sabia que a aversão de Adel pela magia era um mecanismo de defesa, uma reação de realocar a culpa da perda dos pais para algo além da Ordem e outras forças que não poderia controlar. Ele não a culpava, mas sabia que Augustus, de uma maneira ou de outra, estava certo. Viver uma vida fugindo do próprio poder não poderia ser fácil, ou saudável.

—Você não está errado, Gus. Mas é um assunto delicado, e ela é uma mulher adulta. Podemos conversar sobre isso depois, mas, no final, a escolha é dela— Edward respondeu.

Não tiveram muito mais tempo para estender o assunto, pois logo Adelaide entrou na cozinha, já completamente arrumada, vestida em um vestido de inverno verde-escuro.

—Bom dia— ela cumprimentou, se espreguiçando— Senti cheiro de bacon e vim correndo. Acham que eu deveria fazer algumas torradas para acompanhar?

Logo eles estavam devidamente alimentados e a caminho da casa de Margaret. Enquanto caminhavam, Edward tentava se relembrar da exata maneira que sua mãe costumava fazer aquele tipo de feitiço, e buscava se apegar àquelas memórias para construir sua confiança.

Ele já havia curado pessoas antes, mas havia sido anos antes. Os feitiços que andava praticando nos últimos tempos tinham os mais diversos objetivos, mas nenhum tão gentil ou reparador quanto uma magia de cura.

Embora nunca tenha demonstrado uma inclinação clara para Luz ou Sombras, ele sempre se achara mais parecido com o pai quando se tratava de seus poderes. Não eram algo que ele encarava com tanta leveza quanto sua mãe, Sienna, que fazia as flores do jardim desabrocharem no mesmo suspiro em que recitava um feitiço para organizar a cozinha. Assim como seu pai, Henry, Edward tinha uma deferência maior, não chegando ao ponto de temor, mas sem dúvidas com uma dose de cautela maior que de encantamento quanto a usar sua magia.

E ele sabia que a vida de Eliza dependia de sua capacidade de ser mais como a mãe, algo que ele não era há um bom tempo.

Precisaria encarar a magia como parte da vida e da natureza, e abraçar o lado mais incontrolável e inescrutável das leis que regiam o mundo, e não tentar controlar tudo ao seu redor, como sempre fazia. Como o pai costumava fazer.

Não era a toa que ele e Henry tinham o mesmo olhar exausto brilhando por detrás de olhos cinzentos.

Logo estavam próximos ao seu destino. Margaret os colocou para dentro rapidamente assim que chegaram, olhando apreensivamente para ambos os lados da rua antes de fechar a porta.

—Charles acabou de sair, e Eliza já está esperando— a mulher disse, os guiando até o quarto da moça— Já tem tudo o que precisa?

Edward assentiu.

—Se eu puder ficar sozinho com ela, seria melhor— ele pediu, e Margaret, apesar de hesitar, acabou concordando.

—Apenas salve minha filha, Ed. Ela já sofreu tempo demais.

A visão que Edward teve ao adentrar o quarto foi como um intenso deja vú, a exata mesma lembrança que havia surrupiado de Gus no dia anterior.

O corpo emagrecido e intensamente frágil de Eliza mal se moveu quando ele se aproximou, mas seus olhos, fundos e cercados por círculos escuros, se fixaram em seu rosto com reconhecimento.

—Edward…— a menina murmurou, a voz rouca— Por que não está usando uma máscara?

Todos sempre usavam pedaços de pano sobre o rosto quando entravam no quarto da doente, para evitar inalar o miasma e sucumbir. Mas Edward não temia a consumpção, estava lá para derrotá-lá com as próprias mãos.

—Não se preocupe, Eliza, eu ficarei bem. Apenas confie em mim.

Eliza assentiu, e logo ele início os preparativos para o feitiço.

Edward retirou de sua bolsa o cataplasma de ervas que havia feito mais cedo. Mesmo nas mãos de uma pessoa que não possuía magia alguma, aquelas plantas teriam propriedades medicinais, mas mal sabiam os leigos que, com apenas o murmúrio de um feitiço, elas poderiam canalizar a magia intensamente. Por isso grande parte dos usuários de Luz as usavam, elas facilitavam imensamente qualquer ritual.

Edward desenhou um símbolo na testa da menina usando o cataplasma, e outro em suas costelas, logo abaixo das clavículas. As espirais e círculos logo brilhavam suavemente conforme os lábios do feiticeiro começaram a entoar o encantamento.

As mesmas palavras que sua mãe havia lhe ensinado tantos anos antes. Ele sequer sabia o que significavam, na época, mas agora ele sabia, o que o fez se sentir ainda mais próximo de Sienna conforme sentia a própria magia fluindo por cada poro de sua pele, formando um halo ao redor de si e de Eliza.

“Não há nada tão perdido que não possa ser encontrado

Nada tão quebrado que não possa ser consertado

E nada é tão estático que não possa ser transformado”

A doença era uma dançarina habilidosa, e uma senhora cruel. Conforme Edward tentava contê-la com o feitiço, ela se esquivava com piruetas elaboradas e golpes destrutivos, e ele podia sentir sua própria energia vital sendo consumida com o esforço.

Os símbolos na pele de Eliza agora brilhavam com intensidade, iluminando cada canto do quarto escuro. Eles pareciam começar a se aprofundar no corpo dela, fazendo raios de luz brilharem por entre suas costelas como uma pequena chama dentro de uma lanterna de papel.

As palavras do feitiço continuavam ecoando, insistentes. Eram em uma língua antiga, o velho idioma celta que costumava ser o daquela terra que habitavam, as mesmas palavras que druidas e sábios proferiam há milhares de anos para curar seus doentes. As mesmas palavras que Sienna Waldford havia ensinado ao seu filho quando ele era apenas um garoto.

“Não há nada que a natureza tome sem devolver

Nada que desapareça sem remanescer

E nada é tão secreto que não se possa conhecer”

Eliza arqueou as costas conforme a energia em seu peito se intensificava, e Edward franziu a testa, buscando o máximo de sua concentração conforme controlava a doença com as próprias mãos. Conseguia sentir cada lesão, cada moléstia que marcava os pulmões arruinados da menina. Cada cicatriz e ferida que a consumpção habitava. E ele purgava uma a uma com a magia.

Eliza começou a tossir violentamente, o corpo todo se agitando conforme uma massa enegrecida e disforme de sangue seco e podridão saía de dentro de seu peito. Edward conteve a doença, e a retirou totalmente de dentro da jovem com um movimento preciso de suas mãos, e então, fechando seus olhos para o máximo de concentração, começou a destroçá-la.

“Não há nada tão terrível que não possa ser destruído

Nada tão antigo que não possa ser revivido

E nada tão injusto que não possa ser punido”

Purgar e destruir. Mesmo a magia mais gentil sabia que a cura jamais poderia vir sem uma dose de violência.

A doença havia desaparecido completamente, reduzida tão somente a um sussurro da dor que costumava causar. Dor essa que Edward tomou para si sem reclamar. E, com os últimos suspiros de sua força, calou para sempre.

Ele ajudou Eliza a se erguer da cama da qual não se levantava há meses. E a guiou para fora do quarto, com o brilho vivaz da saúde recém-adquirida iluminando seu rosto.

Margaret sequer tentou se conter. Conforme correu para abraçar a filha, a segurando com uma força que sequer sabia possuir, lágrimas caíram livremente por seu rosto.

Edward sorriu. Ele nunca havia visto Margaret chorando antes, e isso apenas o fez ter mais consciência da grandiosidade do que havia feito.

Ele não discordava de seu pai, a magia poderia ser perigosa, e era um dom que deveria ser usado com cautela. Mas, até aquele momento, Edward nunca havia se sentindo tão próximo da mãe. E nunca havia tido tanta convicção de que a magia era um dos maiores presentes que a humanidade possuía. Como alguém poderia olhar para a felicidade nos olhos de Eliza e Margaret e pensar que aquilo era ruim? Como alguém poderia querer destruir uma força tão gloriosa e piedosa?

A magia jamais poderia ser destruída. Ela era a própria destruição, e também a criação que se seguia. E qualquer um que ficasse em seu caminho seria aniquilado.

Adel e Gus logo se juntaram ao abraço de Eliza e Margaret, e puxaram Edward junto, o que ele permitiu sem hesitar.

Aquela era sua família. Era por eles que ele desbravava a escuridão e a perdição sem medo algum de se desvanecer. Eles eram sua âncora, o seu único motivo para continuar.

E ele nunca teve tanta certeza do que deveria ser feito. Custe o que custasse. Mesmo que o custo fosse a última gota de humanidade que tinha.

E, caro leitor, Edward Waldford faria valer essa promessa. Ele ultrapassaria cada limiar do que considerava são e íntegro, tudo em nome de seu objetivo, de seu ideal.

Mesmo depois de tantos tempo tentando entender a índole desse homem, eu ainda não tenho certeza se poderíamos realmente culpá-lo por qualquer uma de suas ações, leitor.

Ou se a culpa foi das pessoas que despedaçaram seu lar e a pessoa que ele costumava ser, tantos anos antes.

Pois é uma lei universal, tanto na magia quanto em qualquer outro âmbito da psique humana, que não pode haver cura ou transformação sem destruição. E, se Edward havia sido destruído e transformado, para se curar, ele deveria destruir o inteiro mundo ao seu redor.

Esse é um capítulo regido por pessoas semelhantes, com aspirações semelhantes, leitor. Órfãos com ambições de transformar ou destruir aqueles ao seu redor, mesmo que por motivos ligeiramente diferentes, e com métodos radicalmente distintos.

Porque, enquanto Edward Waldford praticava magia e conspirava, Leonard Cohen planejava uma festa.

Veja bem, caro leitor, jamais devemos subestimar o poder que conexões sociais e traquejos aguçados podem exercer. Leonard entendia muito bem o impacto que esses dons tinham em sua vida, e estava determinado a usá-los com destreza para alcançar seus objetivos.

A legislação pela qual ele tanto havia lutado estava finalmente sendo tramitada. A primeira fase de seus planos estava finalizada, e todo o resto engrenado para prosseguir.

O baile que organizava não era apenas um passo essencial de suas conspirações e para juntar os votos necessários, era também uma oportunidade de comemorar todo o sucesso que havia atingido. E ele não iria desperdiçá-la. Sobretudo pois, durante aquela noite, um dos passos finais e mais essenciais de todas as suas conspirações e maquinações se desenrolaria. E, se seguisse como o planejado, seria glorioso.

—Bem, aqui estão os últimos convites— a voz de Aaliyah, que o ajudava a organizar os envelopes que logo seriam enviados, interrompeu seus pensamentos— Vi que seu pai está entre os convidados. Você tem certeza sobre isso?

Leonard desviou o olhar das amostras de tecido que avaliava para as toalhas de mesa da festa, e encarou Aaliyah. Havia um tom genuíno de preocupação na voz dela, o que quase o fez se sentir culpado por mentir. Quase.

—Lorde Forrest insistiu, já que meu pai é potencialmente um grande aliado político e investidor— Leonard explicou— Ademais, não é como se eu e o velho realmente estivéssemos brigados. Só fazem muitos anos que não nos falamos.

Aaliyah fez uma careta.

—Eu sei que você não gosta de seu pai, Leonard, não precisa mentir para mim— ela respondeu, se levantando e caminhando até ficar de frente a ele— Podemos não enviar o convite, e fingir que ele simplesmente não quis vir. Tenho certeza que vocês irão sobreviver sem o investimento dele.

Leonard se levantou, e colocou as mãos nos ombros de Aaliyah com relativa gentileza, embora talvez também com a mais leve condescendência.

—Não se preocupe comigo, Aaliyah. Sou capaz de fazer sala para ele por uma noite. O dinheiro fará tudo valer a pena.

Aaliyah sorriu, mas ainda sem muita convicção.

—Tudo bem. Se você está dizendo— e ela voltou a organizar os convites enquanto Leonard começava a decidir se usaria flores ou candelabros para a decoração.

Lorde Forrest realmente havia insistido em chamar o pai de Leonard, George Cohen, apesar do homem viver na Irlanda, e não costumar aparecer na capital inglesa com tanta frequência assim. Isso havia, por suposto, sido sugestionado por Leonard, que deixou escapar “acidentalmente” que seu pai tinha muita influência entre a Câmara dos Comuns, assim como o hábito de investir em novos empreendimentos que pareciam lucrativos com quantidades significativas de capital.

O que ele havia negligenciado (ou melhor, omitido deliberadamente) em mencionar, era que as políticas que Lorde Forrest havia acabado de tramitar prejudicariam George Cohen imensamente, e que, assim que o homem descobrisse que o Lorde era um dos culpados por uma quantidade considerável de prejuízo que sem dúvidas havia sido gerada pelas novas leis, consideraria qualquer proposta de parceria comercial imensamente ofensiva. O que certamente geraria certo desconforto, e uma quantidade razoável de caos. Leonard estava contando com isso. De preferência, um caos deveras público.

Ele decidiu que um candelabro com um discreto arranjo floral seria uma decoração adequada para as mesas, por fim. Afinal, aquela noite certamente seria gloriosa, e merecia os melhores recursos possíveis.

Antes do final do dia, todos os convites haviam sido enviados, incluindo o de George Cohen. Leonard se certificou pessoalmente que o envelope chegaria seguro ao seu destino dentro de alguns dias.

Os convites direcionados a moradores de Londres e região, contudo, chegariam com bem mais agilidade. Pois, assim que a manhã seguinte raiou, Cecily Campbell tinha o elegante envelope em mãos.

A jovem Condessa abriu um sorriso animado ao descobrir que se tratava de uma festa. E mais animado ainda ao descobrir que ela aconteceria antes do fim do mês.

Ela precisaria de um vestido novo, e de joias. De preferência que combinassem com o anel novo que Polly havia lhe presenteado. Desde que havia ganhado a linda pedra de quartzo rosa, Cecily praticamente não o tirava do dedo. A lembrava de Polly, e isso lhe dava certa paz. Decidiu que o vestido seria rosa, certamente combinaria com a joia.

Os pensamentos da jovem nobre vagaram para todos os prospectos de pretendentes que estariam presentes, e, por alguns minutos, ela se distraiu com seu devaneios, girando o anel em seu dedo, mas rapidamente se esquecendo de Polly.

Vários outros de nossos personagens também receberam convites para o baile promovido pelos Lordes Forrest e Basil, com ajuda de Leonard Cohen, caro leitor. Nem todos planejavam comparecer, mas é um fato que, ao final da noite, o local seria um ponto de convergência de diversos acontecimentos e figuras inusitados, o que inclui diversas aparições não planejadas.

Mas estou me adiantando, leitor. Isso são divagações para um capítulo em um futuro próximo. Por enquanto, basta dizer que os três órfãos com sonhos grandiosos desse capítulo estavam bem menos em controle das próprias vidas, e bem mais perto do perigo do que poderiam possivelmente imaginar. E que a dor da perda e os comichões de uma ambição desenfreada podem pavimentar um caminho deveras sombrio para pessoas que procuram reparar erros do passado. Talvez, ao procurar vingança ou retribuição, elas também estejam se afastando da luz mais rapidamente do que poderiam imaginar. E talvez esse também seja um caminho no qual é perigosamente fácil se perder.

Notas finais
Momento de divulgação: a nossa incrível saturno escreveu uma oneshot sobre os Waldford. Ficou incrível, recomendo demais ler. Segue o link: https://fanfiction.com.br/historia/806097/Tears_of_Gold/ E tivemos uma amostra grátis do poder do Ed. E uma amostra grátis do veneno do Leonard. Vejamos o que esses dois vão aprontar no futuro. Espero que tenham gostado! Eu particularmente gostei de escrever a cena dos irmãos Waldford, eles me deixam sensível toda vez. Até a próxima!