Enquanto a vila de Pedra Alta despertava e Horácio fechava o livro de contas, e enquanto Magda suspirava sozinha num banco da praça, a floresta já estava acordada há horas. E, no coração dela, escondida entre raízes e troncos ocos, vivia a colônia dos gnomos.
Ninguém sabia ao certo quantos eram. Talvez cinquenta. Talvez cem. Eles se multiplicavam como cogumelos depois da chuva, e cada família tinha sua própria toca, escavada sob um carvalho ou dentro do tronco de uma árvore antiga. As tocas eram pequenas, redondas, com portas de madeira e janelinhas que se abriam para o chão da floresta. De fora, quem não sabia procurar, não via nada. Mas de dentro, as tocas eram verdadeiros lares — camas de palha, mesas minúsculas, prateleiras com potes de ervas e cogumelos secos, e sempre um fogão aceso, porque gnomo adora comer.
Havia gnomos e gnomas. As gnomas eram tão tagarelas quanto os gnomos, mas um pouco mais organizadas. Eram elas que cuidavam das hortas de cogumelos, que secavam as ervas, que faziam os chapéus e as roupas. E eram elas que mandavam nos gnomos, embora eles jamais admitissem isso em voz alta.
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Na toca mais alta da colina, morava Noddy. A toca dele era famosa por duas coisas: pelo cogumelo de madeira que ficava na janela (presente de um amigo que ele mencionava a todo momento) e pela bagunça. Noddy não era organizado. Nunca fora. Sua toca tinha cogumelos secos pendurados no teto, potes de barro espalhados pelo chão, e uma cama de palha que ele esquecia de arrumar todos os dias. Mas Noddy era feliz assim. Ele acordava cedo, tomava seu chá de cogumelo, e saía para a floresta em busca de novas espécies. Voltava ao meio-dia com a mochila cheia, e passava a tarde tagarelando com quem quisesse ouvir. Ninguém sabia como ele tinha tanta energia.
Na toca ao lado, morava Tito. A toca de Tito era o oposto da de Noddy. Tudo arrumado, tudo etiquetado, tudo no lugar. Ele tinha um caderno onde anotava tudo o que observava — o movimento dos pássaros, a mudança das estações, o humor dos outros gnomos. Tito era o mais metódico da colônia. Acordava antes do sol, fazia suas anotações matinais, e depois saía para observar a floresta com seus binóculos. Ele não falava muito, mas quando falava, era sempre algo preciso. Noddy dizia que Tito era "o gnomo mais chato das colinas", mas no fundo os dois eram amigos.
Bongo morava numa toca perto do riacho. A toca dele não tinha porta, porque ele vivia desenhando no chão da entrada e esquecia de fechar. Bongo era o artista da colônia. Desenhava em tudo — no chão, nas pedras, nas folhas, nos troncos. Não usava pincéis nem tintas, apenas um galho que ele carregava para todo lado. Seus desenhos eram simples, mas tinham alma. As gnomas adoravam. As crianças gnomos faziam fila para vê-lo desenhar.
Zinco morava na toca mais engraçada de todas. Ele colecionava chapéus. Tinha chapéus de palha, chapéus de folha, chapéus de cogumelo, e um chapéu enorme, desproporcional, que ele usava todos os dias e que caía da cabeça a cada três passos. Zinco era desastrado, mas tinha bom coração. Estava sempre disposto a ajudar, mesmo quando a ajuda acabava em confusão. As gnomas gostavam dele porque ele fazia rir.
Gundar morava na toca mais bonita. Ele cuidava do próprio cabelo azul com um esmero que ninguém entendia. Tinha pentes de madeira, óleos de ervas, e um espelho que ele mesmo polira. Gundar era vaidoso, mas não era arrogante. Gostava de elogiar os outros, de fazer companhia, de conversar. Era o mais sociável da colônia.
E, na toca mais antiga, no tronco do carvalho mais velho, morava Griswold. Ele era o mais velho de todos. Ninguém sabia quantos anos tinha. Diziam que já estava ali antes de qualquer outro gnomo nascer. Griswold falava pouco, mas quando falava, todos ouviam. Ele conhecia a floresta como ninguém. Sabia onde as ervas cresciam, onde os animais se escondiam, onde a água era mais doce. E, às vezes, quando o vento estava certo, ele ficava parado na porta da toca, olhando para o horizonte, como se estivesse ouvindo algo que só ele podia ouvir.
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Naquela manhã, a colônia estava movimentada. As gnomas saíam para colher cogumelos, as crianças corriam entre as raízes, e os gnomos se preparavam para mais um dia de trabalho.
Noddy saiu da toca com a mochila nas costas e o chapéu torto na cabeça.
- Bom dia, Tito! — gritou ele, ao ver o amigo na porta da toca ao lado.
Tito ergueu os olhos do caderno.
- Bom dia, Noddy. Você dormiu com o chapéu de novo?
- Dormi. É confortável.
- É ridículo.
- É confortável e ridículo. As duas coisas.
Tito balançou a cabeça e voltou ao caderno. Noddy riu e seguiu pela trilha, em direção ao riacho, onde Bongo já estava desenhando no chão.
- Bongo! O que você tá desenhando?
- Um cogumelo. — Bongo apontou com o galho. — Tá vendo? Esse aqui é o chapéu, esse é o caule, e essas são as lamelas.
- Tá parecendo uma pedra.
- Não é uma pedra! É um cogumelo!
- Se você diz.
Bongo fez bico, mas continuou desenhando. Noddy sentou-se ao lado dele e ficou olhando, tagarelando sobre os cogumelos que encontrara no dia anterior. Bongo ouvia, ou fingia ouvir. Já estava acostumado.
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Do outro lado da colina, Gundar penteava o cabelo na porta da toca quando Zinco passou, com o chapéu enorme cobrindo metade do rosto.
- Bom dia, Gundar! — disse Zinco, tropeçando numa raiz.
- Bom dia, Zinco. Cuidado com o chapéu.
- Eu tomo cuidado! — o chapéu caiu. Zinco suspirou, pegou o chapéu e colocou de novo. — Um dia eu vou arrumar um jeito de prender esse chapéu na cabeça.
- Você já tentou de tudo, Zinco.
- Menos de amarrar. Vou tentar amarrar.
- Já tentou amarrar. Na semana passada.
- Ah é. — Zinco coçou a cabeça. — Então vou tentar de novo.
Gundar riu e voltou a pentear o cabelo. Zinco seguiu seu caminho, tropeçando nas raízes e caindo duas vezes antes de chegar à toca de Griswold.
O velho gnomo estava na porta, com a bengala na mão, olhando o horizonte
- Bom dia, Griswold! — disse Zinco, ofegante.
Griswold olhou para ele.
- Bom dia, Zinco.
- O senhor tá olhando o quê?
- O vento.
- O vento?
- O vento está mudando. — Griswold fechou os olhos por um instante. — Algo está vindo.
Zinco olhou para o horizonte, mas não viu nada.
- Algo bom ou algo ruim?
Griswold não respondeu imediatamente. Apenas ficou ali, com os olhos pequenos e enrugados fixos na linha das árvores.
- Algo novo — disse ele, afinal. — Algo que vai mudar a floresta.
Zinco ficou em silêncio. Griswold às vezes dizia coisas assim, e ninguém entendia. Mas também ninguém duvidava.
- Vou avisar os outros.
- Não precisa. — Griswold virou-se para entrar na toca. — O que tem de acontecer, vai acontecer. A gente só precisa estar pronto.
E fechou a porta.
Zinco ficou parado por um instante, com o chapéu torto na cabeça. Depois, deu de ombros e seguiu seu caminho. Se Griswold dizia que algo estava vindo, era porque algo estava vindo. E os gnomos, como sempre, estariam prontos.
