Raízes de Carvalho
Raízes de Carvalho
Capítulo 314 min de leitura

Cápitulo I

A praça central de Pedra Alta fedia.

Não era exagero. O fedor subia da fonte, que há meses não jorrava água. O que restava no fundo de pedra era uma poça escura e parada, onde peixes mortos flutuavam de barriga para cima, cobertos de moscas. O sol da manhã batia naquela água podre e fazia o cheiro se espalhar por todo o centro da vila, um odor doce e rançoso que grudava na garganta.

- Isso não pode continuar — disse a mulher do padeiro, com um lenço no nariz. — As crianças brincam aqui perto. Meu filho voltou para casa ontem com dor de barriga.

- É a água — respondeu o ferreiro, sem levantar os olhos da lâmina que afiava. — Água parada cria bicho. Bicho morto cria mosca. E mosca traz doença. Todo mundo sabe disso.

- Então por que ninguém faz nada?

O ferreiro ergueu os olhos, e no olhar dele havia mais cansaço do que raiva.

- Porque quem devia fazer algo está ocupado demais contando moedas.

Ele não precisou dizer o nome. Horácio. O dono da vila. O homem que governava Pedra Alta havia quinze anos e que, nos últimos tempos, parecia mais interessado em manter as contas equilibradas do que em manter a vila limpa.

A conversa teria morrido ali, como morriam todas as conversas sobre Horácio, se um grito não tivesse cortado a praça.

- Olha! O banco!

Era o sapateiro. Ele estava parado na frente de um dos bancos de madeira que ladeavam a praça, com as mãos na cintura e uma expressão que misturava espanto e nojo. O banco estava torto. A madeira, apodrecida pela umidade, cedia no meio, como se estivesse implorando para ser quebrada.

- Isso aqui tá podre — disse o sapateiro, tocando a madeira com a ponta do dedo. — Se uma pessoa mais pesada sentar, vai direto pro chão.

- E vai quebrar o pescoço — completou a mulher do padeiro. — Meu cunhado tem uns cem quilos. Se ele senta aí, morre.

- Ninguém aguenta mais — resmungou o ferreiro, voltando à lâmina. — A fonte tá morta. Os bancos tão caindo aos pedaços. A rua principal tem buracos que engolem carroça. E o Horácio? O Horácio tá lá no escritório dele, contando moeda.

A vila inteira parecia concordar. Os que passavam pela praça paravam para olhar o banco torto, balançavam a cabeça e seguiam. Era uma reclamação antiga, mas naquele dia parecia mais urgente.

Foi então que a estranha chegou

Ela veio pela estrada do norte, a que vinha da floresta. Uma moça jovem, de cabelos escuros presos num lenço, com uma sacola de viagem no ombro e os pés cobertos de poeira. Parou na entrada da praça, olhou para a fonte podre e para os bancos tortos, e sua expressão passou de cansaço para desânimo.

- Com licença — disse ela, aproximando-se do grupo. — Eu tô procurando a casa dos meus tios. Eles moram em Husterwius. Alguém sabe me dizer quanto tempo leva pra chegar lá?

O silêncio que se seguiu foi quase cômico. O ferreiro parou de afiar. O sapateiro largou o banco. A mulher do padeiro apertou o lenço contra o nariz com mais força.

- Husterwius? — repetiu o ferreiro, com uma careta. — A cidade do outro lado da floresta?

- É. Meus tios moram lá. Faz anos que não os vejo. Minha mãe morreu, e eu preciso avisar eles. — a moça engoliu em seco. — É o único caminho, não é? Atravessar a floresta?


O sapateiro soltou uma risada curta e sem humor.

- Atravessar a floresta. Sozinha. A pé.

- É o único caminho — repetiu ela, com teimosia.

- É o único caminho — confirmou o ferreiro, com a voz grave. — Mas ninguém em sã consciência faz isso sozinho. Tem lobo. Tem duende. Tem troll.

- Duende tarado — acrescentou a mulher do padeiro, com um arrepio. — Dizem que eles gostam de moça bonita.

A moça empalideceu, mas não recuou.

- Eu não tenho escolha. Preciso ir.

O sapateiro abriu a boca para responder, mas o ferreiro o interrompeu.

- Tem um homem que mora na floresta. Um lenhador. Ele corta lenha, esculpe umas coisas de madeira, vende na feira de vez em quando. — ele apontou com o queixo para a estrada do norte. — Mora numa clareira, a uma hora de caminhada daqui. Se alguém pode te ajudar a atravessar, é ele. Mas não sei se ele vai querer. É um homem calado. Meio esquisito.

A moça assentiu, com um brilho de esperança nos olhos.

- Obrigada. Vou procurá-lo.

Ela seguiu pela estrada, a sacola balançando no ombro, e o grupo da praça ficou em silêncio, vendo-a se afastar. O ferreiro voltou à lâmina. O sapateiro voltou ao banco torto. A mulher do padeiro suspirou.

- Coitada — disse ela. — Vai acabar comendo terra.

- Ou pior — completou o ferreiro, sem levantar os olhos. — Mas não é problema nosso.

O ferreiro pousou a lâmina na bancada e limpou as mãos num pano sujo.

- Sabe o que me irrita? Não é só a fonte podre. Não é só o banco caindo aos pedaços. É a menina. Uma moça jovem, sozinha, tendo que atravessar a floresta pra ver a família. Arriscando a vida e a dignidade. Porque não tem outro caminho.

- Pois é — concordou o sapateiro, sentando-se na beirada do banco torto com cuidado, como se estivesse testando se ele aguentava. — Se tivesse uma ponte sobre o rio, ligando aqui a Husterwius, a história era outra. A moça ia em segurança. As mulheres iam. As crianças iam. Qualquer um ia.

- Uma ponte — repetiu a mulher do padeiro, com um suspiro. — Imagina. Em vez de meter o pé no meio do mato, cheio de lobo, duende tarado e troll, a gente atravessava numa boa, com carroça e tudo.

- Mas quem ia construir? — perguntou o sapateiro, com um riso amargo. — O Horácio? O Horácio não constrói nem um banco novo. Que dirá uma ponte.

O ferreiro balançou a cabeça.

- A ponte ia resolver metade dos problemas da vila. A outra metade era a fonte, os bancos, as ruas. Mas a ponte... a ponte era o começo.

- E ninguém faz nada — disse a mulher do padeiro, com a voz mais alta. — Ninguém faz nada porque o Horácio tá lá, sentado na cadeira de couro, contando moeda. Enquanto isso, a menina vai ter que se virar com os duendes.

O sapateiro olhou para a estrada do norte, por onde a moça desaparecera.

- Ela foi atrás do lenhador. Quem sabe ele ajuda.

- O lenhador — disse o ferreiro, com um tom diferente. — Aquele lá, que veio da cidade grande ao sul. Já comprei duas colheres de pau dele. São bonitas. Lisas. Bem precisas nos traços. O homem sabe trabalhar.

- Já vi ele na feira — acrescentou o sapateiro. — É forte. Alto. Robusto. Não é de muita conversa, mas qualquer coisa sabe se virar. Se alguém pode atravessar a floresta com a moça, é ele.

- Se ele quiser — ressalvou a mulher do padeiro. — Ele é meio esquisito. Mora sozinho na clareira, não fala com quase ninguém. Dizem que fala com as árvores.

- Melhor falar com as árvores do que com o Horácio — retrucou o ferreiro, e o sapateiro riu.

A mulher do padeiro não riu.

- Eu só sei que a menina tá lá, andando na direção da clareira, e a floresta não perdoa. Se o lenhador não ajudar, ela vai ter que voltar. Ou pior.

O silêncio voltou. As moscas continuaram zumbindo sobre a fonte. O banco continuou torto. E a vila, aos poucos, voltou ao movimento de sempre, como se a moça, a ponte e o lenhador não passassem de mais uma conversa de praça.

A porta da sapataria se abriu com um toque leve, e o sino de latão tilintou uma vez. O ferreiro, que estava do lado de fora, ajustando uma ferradura na bigorna, ergueu os olhos. O sapateiro, que remendava um cinto de couro na bancada, parou a agulha no ar. A mulher do padeiro, que ainda segurava o lenço contra o nariz, baixou o pano devagar.

Ela entrou como quem não quer fazer barulho.

Era baixa. O vestido azul-claro caía até a metade da canela, e sobre os ombros trazia um capuz de véu vinho, de tonalidade aberta, que não cobria o rosto, mas emoldurava os cabelos negros, lisos, que desciam até a altura do seio. A pele era levemente bronzeada, como se tivesse passado tempo demais ao sol, e os lábios eram bem definidos, sem pintura. Mas o que chamava atenção eram os olhos. Cor de mel. Brilhantes mesmo na sombra da loja.


Ela carregava um pano dobrado, de onde escapavam maçãs verdes e vermelhas. E o cheiro que a acompanhava — lavanda, lavanda fresca, como se tivesse acabado de colher — invadiu a sapataria inteira, sobrepondo-se ao odor de couro e cola.

- Olá — disse ela, com a voz doce, mas sem timidez. — Gostaria de dois pares de meias brancas. Uma com renda e outra lisa. Tamanho pequeno, por favor.

O sapateiro piscou, como se tivesse esquecido onde estava. Depois, assentiu e sumiu atrás do balcão, revirando gavetas.

- Meias brancas... com renda... tamanho pequeno... — ele murmurava, os dedos correndo entre os novelos e os pares dobrados. — Aqui. Um par com renda. E aqui, um liso. Tamanho pequeno.

Ele colocou os dois pares sobre o balcão. A moça os examinou, passando a ponta dos dedos pelo tecido. Depois, ergueu os olhos.

- Quanto custa?

- Cinco moedas de prata pelos dois — respondeu o sapateiro, com a voz um pouco mais baixa do que o normal.

Ela assentiu, sem discutir. Tirou as moedas de uma bolsinha presa à cintura, contou-as com cuidado e as colocou na mão dele. Depois, pegou os dois pares, guardou-os na sacola que trazia a tiracolo e sorriu.

- Obrigada.

Saiu. O sino tilintou de novo, e a porta se fechou.


O silêncio dentro da sapataria durou três segundos. Foi a mulher do padeiro quem o quebrou.

- Quem era aquela?


O sapateiro deu de ombros.

- Nunca vi. Mas tem educação. Não é como a maioria que entra aqui e fica gritando.

O ferreiro, que voltara para a bigorna, comentou sem levantar os olhos:

- Menina estranha. Nunca a vi na vila. Pelo menos tem educação.

- O cheiro... — a mulher do padeiro ainda estava com o lenço na mão, mas agora não era por causa da fonte. — Lavanda. Cheiro de lavanda. Como se tivesse saído de um jardim.

- E as maçãs — acrescentou o sapateiro. — Verdes e vermelhas. No pano.

- Deve ter vindo da estrada do sul. Ou do norte. Sei lá. — o ferreiro cuspiu de lado e voltou ao trabalho. — Menina estranha. Mas educada. É o que importa.

A mulher do padeiro olhou para a porta por onde a moça saíra. Depois, para a fonte podre, para o banco torto, para a praça cheia de moscas.


- Estranha — repetiu ela, baixinho. — Mas educada.

Mas o cheiro de lavanda ficou no ar por mais alguns minutos, como um aviso. Ou uma promessa.

O cheiro de lavanda ainda flutuava no ar quando o relincho cortou a praça.

Era um som agudo, de cavalo acostumado a obediência, e veio acompanhado de um estremeço de sopro — uma trombeta de bronze, curta e grossa, que o guarda da vila tocava sem muita convicção. O som não era bonito. Era funcional. Um aviso. Todo mundo em Pedra Alta conhecia aquele som.

- Lá vem ele — murmurou o ferreiro, sem largar a ferradura.

O cavalo surgiu pela rua principal. Era um animal castanho, de pelo lustroso e crina bem aparada, o tipo de cavalo que custa mais do que a maioria dos moradores da vila ganha em um ano. Montado nele, com a postura de quem nunca precisou correr atrás de nada, estava Horácio.

O dono da vila vestia o casaco de lã cinza, as botas de couro engraxadas, o chapéu de aba larga que escondia a calvície. O rosto atarracado estava mais fechado do que o normal. Os olhos pequenos percorriam a praça como se estivessem contando os problemas.

Ele parou o cavalo no centro da praça, a poucos passos da fonte podre, e esperou. O guarda tocou a trombeta mais uma vez. As pessoas começaram a se aproximar — devagar, sem entusiasmo, como quem atende a uma convocação que já sabe que vai ser chata.

- Moradores de Pedra Alta — começou Horácio, com a voz grave e pausada. — Convoco todos para uma breve atualização sobre os assuntos da vila.

O ferreiro revirou os olhos. O sapateiro, que fechara a sapataria para ouvir, cruzou os braços. A mulher do padeiro, que voltara com um pano novo no nariz, ficou na porta da padaria, sem se aproximar.

- Como todos sabem, a vila tem crescido — continuou Horácio. — Nos últimos anos, recebemos famílias novas, o comércio aumentou, e as responsabilidades também. É meu dever, como dono desta vila, garantir que Pedra Alta continue sendo um lugar seguro e próspero para todos.

- Próspero pra ele — cochichou o sapateiro, e o ferreiro soltou um riso abafado.

- Tenho trabalhado incansavelmente para manter as contas em ordem — disse Horácio, e a palavra "incansavelmente" saiu com um peso que ninguém ali acreditou. — Os impostos deste ano já foram coletados. As estradas estão sendo monitoradas. A guarda está de prontidão.

- A guarda tá dormindo na taverna — murmurou alguém no fundo, e houve um coro de risinhos abafados.

Horácio fingiu não ouvir.

- Estou ciente de que alguns setores da vila precisam de atenção. A fonte, por exemplo. Os bancos. As ruas. — ele fez uma pausa, como se estivesse prestes a anunciar uma grande solução. — Estou avaliando as melhores opções para resolver essas questões. Mas é importante lembrar que Roma não se construiu em um dia.

- Que Roma? — perguntou o padeiro, baixinho, para a mulher. — Que eu saiba, a gente tá em Pedra Alta.

- É jeito de falar — respondeu ela, sem tirar o pano do nariz.

Horácio continuou. Falou sobre o festival da colheita, que precisava ser organizado. Falou sobre a feira, que precisava de mais barracas. Falou sobre a segurança, que precisava de mais guardas. Falou sobre a necessidade de manter a ordem, o respeito, a tradição. Falou por tanto tempo que o sol, que estava baixo quando ele começou, já estava mais alto quando ele parou.

- Portanto — concluiu ele, com a voz um pouco mais alta -, peço a colaboração de todos. Paciência. Compreensão. E trabalho. Juntos, faremos de Pedra Alta uma vila ainda melhor.

O silêncio que se seguiu foi educativo. Ninguém aplaudiu. Ninguém assobiou. As pessoas apenas ficaram ali, olhando para ele, com expressões que iam do tédio à irritação.


- É isso? — perguntou o ferreiro, por fim.


Horácio piscou.

- Como assim, "é isso"?



- O senhor falou por meia hora e não disse nada. A fonte continua podre. Os bancos continuam tortos. As ruas continuam cheias de buracos. E o senhor continua contando moeda.

O rosto de Horácio se fechou. Ele abriu a boca para responder, mas o sapateiro o interrompeu:


- A menina que passou aqui hoje. A que foi para Husterwius. Vai ter que atravessar a floresta sozinha. Cheia de lobo, duende e troll. O senhor não falou nada sobre isso.

- A ponte — acrescentou a mulher do padeiro, com a voz mais alta. — A ponte resolveria. Mas o senhor não quer saber de ponte. O senhor não quer saber de nada que não seja o seu livro de contas.

Horácio ficou em silêncio por um instante. Os olhos pequenos percorreram a multidão, e algo no rosto dele mudou. Não era raiva. Era cansaço. Um cansaço antigo, de quem já ouvira aquelas reclamações mil vezes e nunca soubera o que fazer com elas.

- Estou ciente das necessidades da vila — disse ele, com a voz mais baixa. — E estou tomando providências.

- Que providências? — insistiu o ferreiro.

Horácio não respondeu. Apenas puxou as rédeas do cavalo e virou-se para o escritório.

- A reunião está encerrada — disse ele, por cima do ombro. — Bom dia a todos.

E partiu, seguido pelo guarda da trombeta, deixando a praça em silêncio. As pessoas ficaram ali por mais alguns instantes, olhando para a fonte podre, para os bancos tortos, para a estrada do norte por onde a moça desaparecera.



- Providências — repetiu o ferreiro, com um riso amargo. — Se ele tomar providência, eu como meu martelo.


E a praça, aos poucos, voltou ao movimento de sempre.