Fragile
Fragile
Capítulo 213 min de leitura

September 1st

— Venus, você já acordou? Lembra que temos hora pra sair — Minha tia enfiou a cabeça pela porta do meu quarto, me vendo já pronta e lendo um de seus livros trouxas — Ah, em horas como essa eu me lembro que você é mesmo filha de Cassandra.

Eu sorrio para ela sabendo que não poderia ser mais verdade. Não importa que ela tenha cuidado de mim nos últimos anos, eu sempre teria todos os hábitos de Cassandra Youngblood.

E era por isso que eu estava pronta e ela vestia apenas apenas uma calça de couro verde escuro e um pé de seu coturno favorito, vermelho-cereja.

— Então... viu meu outro pé de sapato?

Ri com seu clássico sorriso maroto, me lembrando do mesmo sorriso que reveria em meus amigos hoje, depois de não poder ter passado o verão com eles. Passei por Carmen através da porta já descendo rapidamente as escadas para o térreo do nosso pequeno sobrado a alguns minutos do centro de Londres.

O sapato estava na super apertada lavanderia, junto da calça de anteontem, mergulhado num balde de metal maltratado, com uma escova encantada esfregando-o bem violentamente.

É claro que a minha tia Carmen achou que a solução para salvar as suas posses que foram afundadas numa poça de lama ate quase o joelho, era simplesmente deixa-las largadas na varanda de casa durante uma noite inteira até que eu as achasse e fizesse algo. Ela apenas riu com a situação, me fazendo rir junto, e deu de ombros, entrando em casa para se trocar de vez.

A maior parte de nossas conversas devem parecer levemente neandertais para um observador externo, já que é quase toda envolvendo gestos, olhares e expressões faciais, mas considerando que esses são alguns dos mais básicos dos meus, poucos, meios de se comunicar com terceiros, é melhor usar eles do que pergaminhos e penas encantadas, vivas e flutuantes em bairros 100% trouxas.

...

Na estação havia rostos conhecidos por todos os lados. Pessoas com as quais eu convivia diariamente na maior parte do ano por 5, agora 6 anos e com as quais eu nunca troquei nem uma palavra. HÀ, entenderam? É porque eu não falo! Okay, essa foi uma piada muito, muito ruim.

Como é comum numa King's Cross lotada de embarque para Hogwarts, eu quase fui atropelada por uma pequena menina ruiva. Ela tinha sardas por todos os lugares de seu pequeno corpo, no seu rosto de nariz arrebitado, nas pequenas mães, e seu cabelo estava presos em duas tranças cruzadas em sua cabeça, com flores reais colocadas na tiara formada por seus cabelos. A pequena estava sendo seguida por uma criança ainda menor, de cachos negros e compridos e eu rapidamente os reconheci e mais importante, me preparei para um terceiro impacto.

A criança ruiva que tem 16 anos na cara e 1,76 de altura.

Aphrodite Roxtran-Evans era a minha melhor amiga desde o primeiro ano, mesmo com com todas as milhares de diferenças entre nós duas. Os exemplos eram facilmente reconhecíveis, por exemplo, eu estou vestindo um vestido com xadrez em tons de rosa, assentado ao meu corpo, e que estava sendo sendo todo amarrotado pela ruiva que trajava seus favoritos trajes no melhor estilo Woodstock, uma de suas inúmeras saias hippies, hoje num tom verde claro e uma camisa de meia manga preta, com um guaxinim, seu animal favorito, em desenho animado e chinelos de dedo de um laranja quase fluorescente. Ela sempre atraia, ou melhor, sugava, toda a atenção que eu evitava. Assim como sua família.

A minha excêntrica tia punk rock, com suas tranças rastafári verdes como sua casa de Hogwarts, era fichinha para a família Roxtran. Carmen os amava, e já estava cumprimentando o batalhão que acompanhava minha amiga ao expresso todos esses anos.

Aphrodite sempre vinha com suas 2 mães e o batalhão de crianças Evans. Aphrodite tinha 2 irmãos de sangue que carregavam seu sobrenome original, Roxtran, na verdade, Percy e Louisa, tão ruivos e brilhante quanto ela.

Após a morte da mãe deles de um infarte fulminante, eles haviam parado na família após um apelo desesperado da assistente social que havia feito a adoção da primeira filha do casal, Leigh Anne Chang-Evans que não havia aparecido esse ano por já estar na faculdade, que elas haviam adotado anos antes já com 12 anos pois era difícil conseguir pais para a menina apenas por ela ser asiática e crianças brancas serem mais procuradas, a assistente se lembrou do casal quando caiu com outro caso difícil em suas mãos, as 3 crianças Roxtran haviam ficado órfãs a menos de 3 meses e já estavam prestes a separa-las, Louisa era um bebê e Percy tinha 5 anos, deixando-os interessantes para a adoção, mas a mais velha estaria fadada a não ser jamais adotada provavelmente, o casal Evans não pensaram duas vezes em adotar os irmãos.

Depois deles vieram ainda outros quatro. Micca, a minha favorita de todos os irmãos de Aphrodite, ela tem 14 anos e tem um grau mediano de autismo e por razão disso ela não fala, mas Aphrodite aprendeu a língua de sinais e a ensinou e no verão passado, ela "percebeu" que eu também não conseguia falar e rompendo suas barreiras sociais que só envolviam família, se empenhou em me ensinar, algo que eu devia ter aprendido quando pequena mas minha família decidiu não me ensinar.

A cumprimentei em BSL* e ela sorriu pra mim. Nicolla e Percy, os garotos mais velhos com 12 e 10, acredito eu, simplesmente haviam encontrado um banco e se acomodado com suas leituras, Nicolla um quadrinha de super-herói e Percy um livro em italiano, maldito pirralho prodígio que fala 2 línguas a mais que eu, e sempre fazia questão de me zoar por isso.

Maison, o caçula continuava a correr com Louisa, mas dessa vez ao redor de suas mães, Jenna e McKenzie.

As duas mulheres eram opostos mas eu sempre as vi como um casal que se completavam. Jenna é uma diplomata, um cargo trouxa importante, e de acordo com Aphrodite isso era a unica razão delas poderem ter adotado todos os seus filhos, já que os trouxas em sua maioria tem o mesmo preconceito que algumas poucas famílias bruxas tem com gente gay, e trabalhava na embaixada inglesa nos EUA, onde conheceu McKenzie. que e professora primaria e bastante hippie, provavelmente a quem Aphrodite puxou mais.

— Venus, querida! Sentimos tanto a sua falta em Venice nesse verão, você com certeza bota mais jeito naquele grupo do que eu e Mackie juntas! — Eu ri de leve com o comentário de Jenna, sentindo falta de ter ido para a casa de verão delas nos EUA como havíamos feito nas férias sempre desde o verão depois do segundo ano.

— Você com certeza perdeu bastante coisa nessas ferias

O sorriso maroto clássico de Aphrodite se tornou uma risada alta quando tirei da minha bolsa o pergaminho e pena enfeitiçados que eu costumava carregar, a pena se moveu formando as palavras "eu saberia mais se você passasse menos tempo flertando na praia e mais me escrevendo sobre o que estava rolando" e Roxtran deu uma piscadela e formou silenciosamente a palavra "marinheiros" me fazendo revirar os olhos.

O furacão ruivo tamanho kids chamado Louisa resolveu gastar sua energia de primeira infância correndo com o pequeno Maison, não mais ao redor de nós e sim em meio a multidão. Sem esperar o pedido de Jenna, Mackie ou Carmen nós duas fomos atrás dos caçulas, já que ano passado Lou resolveu brincar na plataforma e acabou dentro do trem e se não fosse por Sirius, que entrou por último, atrasado, ela provavelmente teria ido para Hogwarts conosco.

Louisa tinha o pique de Aphrodite e ambas já haviam disparado a frente, mas eu em todo meu sedentarismo, fui capaz de puxar Maison pela fralda que escapava da calça. Ele tem 3 anos e um andar de pato que quem ainda está aprendendo.

Eu me senti realizada por ele não chorar, e agradeci aos meus cachos que pareciam mante-lo entretido o suficiente para esquecer a sua brincadeira. Fiz sinal de que ia leva-lo de volta e Roxtran assentiu, disparando novamente através de Lulie, como só Aphrodite a chamava e me havia habituado a chamar também, como a esportista nata que é, e que eu jamais serei.

[Aphrodite Roxtran]

Preciso concordar com minhas mães, a minha irmã é parecida ate demais quando pequena, o que nem sempre é vantagem. Como agora, onde a minha corrida é apenas parte da brincadeira para ela. Mas sou em quem tem 5 irmãos mais novos, e eu já aprendi que nem sempre o preparo físico é a resposta certa. A carta que eu tinha na manga e que Louisa ainda estava aprendendo a lidar era a poderosa chantagem emocional.

— Lulie! Se você ficar correndo eu vou ter que ir sem me despedir de você!

Na mesma hora ela parou, ainda distante de mim. com seus olhinhos azuis escuros me dando um "olhar de cachorrinho" e suas tranças praticamente se soltando da tiara, e eu juro que parei onde estou e meu coração derreteu na hora, eu nunca poderia amar tanto alguém quanto amo meus irmãos, biológicos e de coração, ou minhas mães, também incluindo a biológica da qual eu ainda tenho as mais doces lembranças, e eu acho que poderia apertar a carinha sardenta dela até explodir!

— Hey, menininha! Cuidado aí!

Ainda distante dela, eu vi um primeiranista indo em direção a ela com um carrinho e um menino de cabelos pretos correndo na direção de Lulie, talvez o que gritou para que ela se afastasse, e eu também corri na direção da minha irmã.

O problema é que focando em minha irmã, esqueci de olhar ao redor por bagagem largada, senti uma topada forte contra algum malão e com a dor acabei pisando na barra da minha própria saia, e tropeçando um pouco antes de me chocar contra o garoto que nada tinha a ver, e o derrubando de costas no chão, e caindo de joelhos no chão, com as mãos amparando minha queda e impedindo que eu quebrasse o meu nariz mais uma vez, e pude ouvir uma grande quantidade de gente dando risadas discretas, ou nem tanto, de nós, inclusive o primeiranista do carrinho e a menina do malão em que eu tropecei.

— Isso foi bem burro da parte de vocês sabiam? Eu podia só ter dado dois passos para o lado.

Obvio que enquanto eu me ajeitava a minha irmã geniosa, intrometida resolveu ir bater um papo com o menino de pele clara que reconheci como um sonserino, e que neste momento com as bochechas vermelhas lhe apareciam sardas que eu sei que nem sempre estavam ali.

Ah, merda. Eu conheço esse garoto.

Ah, puta merda. É Regulus Black.

Ah puta merda do caralho ao cubo! Os pais deles viram a nossa cena ridícula e estão vindo em nossa direção.

Regulus se levantou rapidamente e eu me preparei para sair de fininho com Lou o mais rápido possível. Mas Walburga olhou diretos nos meus olhos e eu juro que seu olhar parece congelar meu sangue, alma, e pés naquele exato lugar.

— O que está acontecendo aqui?

Regulus escondeu suas mãos atrás das costas, e elas tremiam. Eu me pergunto se Sirius estava mesmo certo sobre ele ser um protegido dos pais.

— Minha irmã estava na direção de um carrinho desgovernado, Regulus tentou ajudar, eu tropecei e acabei esbarrando nele também.

Minha voz tremeria se eu não me concentrasse mais no ódio que tenho por essa mulher do que no medo que ela me causa. Walburga Black parecia uma emissária da própria morte. Suas vestes eram todas em veludo negro e até mesmo suas ricas joias mais pareciam algum artefato das trevas disfarçado do que meros acessórios, e eu não duvido que realmente sejam.

— Foi apenas um reflexo!

Orion assentiu e parecia estar pronto pra dar fim a historia, e eu para ir embora e voltar pra perto da minha própria família. Mas é claro que a bruxa má do oeste não parecia satisfeita.

— De onde você e meu filho se conhecem o suficiente para se tratarem pelos primeiros nomes?

Eu senti que Regulus ia dizer algo que acabasse o assunto e disfarçasse minhas origens mas eu não precisava de ajuda.

— Além do obvio fato de que estudamos na mesma escola, eu sou amiga de seu filho mais velho, Sirius.

— Eu tenho apenas um filho, mas os Potter tem um deliquentizinho, traidor de sangue chamado Sirius. Talvez deve estar pensando nesse garoto, porque eu só tenho Regulus de filhos.

Meu sangue ferveu, o jeito que aquela mulher tratava alguém tão extraordinário como Sirius, meu melhor amigo, estava quase no topo da lista das poucas coisas capazes de me tirar dos eixos. Pedi a Louisa que voltasse para perto de nossas mães e Venus e a família, mas pude sentir que o clima estranho e a família mórbida e hostil a deixavam nervosa.

— Não se preocupe, Louisa, são só algumas pessoas muito estupidas com as quais eu terei que lidar, ai eu te encontro, okay?

Eu fiz questão de falar isso alto, e me virei para Walburga, seu rosto era impassível, e me lembrei de Sirius me contando de como ela nunca nem movia um músculo do rosto, não importando quando ele já tivesse apanhado ou o quanto pedisse perdão, ela ficava impassível até que ele cedesse e fizesse o que quer que fosse.

Regulus me olhava com cautela, seus olhos azuis pediam que eu não começasse uma briga com Walburga e Orion.

No inicio, quando ele entrou na escola, ele andava conosco, eu o tinha como um amigo e como meu próprio irmão caçula, ele falava com o irmão e sorria o tempo todo.

Até que as primas contaram para os pais dele que ele andava com traidores de sangue e nascidos trouxas, sendo eu um exemplo deles, por influencia do irmão.

No verão antes do ano passado, Sirius foi culpado de ser um mau exemplo e tomou uma surra horrível quando voltamos no final do verão, e ele teve que passar o resto do tempo até as aulas com os Potter, que queriam que ele morasse com eles, mas Sirius recusou para que Regulus não fosse punido também.

Quando voltamos as aulas, Sirius voltou a falar com os pais deles por Reggie, mas o mesmo nunca mais se aproximou de nenhum de nós e andando só infeliz atrás de suas primas e seu grupinho de comensais-teen.

— Eu sei quem você é, sua pirralha insolente, você é aquela sangue-ruim para quem meu antigo filho fugia para viajar no verão. Bom talvez você deva dar uma olhada no seu amigo e e como ele está, para ver o que a sua amizade nojenta o causou!

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