Aquilo que Nunca Morre
Aquilo que Nunca Morre
Capítulo 13 min de leitura

Capítulo Um

1986

Era tarde.

Helena tinha que chegar em casa antes das dez.

O namorado nem a coragem de deixá-la em casa tinha. Mas também, eles namoravam às escondidas.

Eram os anos 80.

Naquela época quase tudo era permitido. Herança dos hippies.

Se Helena tivesse nascido nos anos 40 ou 50 com certeza teria sido hippie.

E com certeza seu pai enfartaria.

As ruas da cidade eram sempre cheias de gente. Não havia muitos crimes. Os casos mais chocantes aconteciam nas grandes cidades.

Helena queria viver na cidade grande.

Acreditava que nunca nascera para casar, ter filhos ou ser dona de casa. Helena se achava "antenada" nos discursos feministas.

E ser ligada nessas correntes não era bem visto por aquelas pessoas de mente fechada.

Cidade pequena não era lugar para pessoas como Helena.

Chegara em casa.

O pai reprovava essas saídas noturnas, mas a mãe intervinha. Qual era o problema? Eles viviam numa cidade pequena. Todos se conheciam. Que mal poderia haver?

Mas pai era pai. Desconfiava de tudo. Até da sua própria sombra.

Helena assim que chegava tinha vontade de sair correndo para o quarto o mais rápido possível. Mas sua mãe nunca deixava. E começava o bombardeio de perguntas.

– Como foi lá?

– Lá aonde?

– Na casa da Rachel.

– Foi tudo bem. Nós saímos para dar uma volta. O clima na casa dela não tava muito legal.

– Por quê?

Helena olhou para a mãe com reprovação. Já estava subentendido o que estava acontecendo com a família da Rachel. Não era legal da parte dela ficar enfiando o dedo na ferida.

O pai apenas ouvia tudo calado. Não se envolvia muito com a única filha que tinha.

– Vocês foram até aonde?

Helena detestava a curiosidade inconveniente da mãe. Mas se não queria levantar suspeitas, respondeu. Afinal, tinha um álibi. Ninguém iria suspeitar de nada nunca.

Até porque seu pai sempre procurava saber se sua história era verdadeira, o que não era nada difícil de descobrir.

– Fomos até a praça, mãe. Comemos um pastel, conversamos, tomamos sorvete e enfim, resolvemos voltar pra casa. Aqui estou.

E ainda acrescentou:

– Ah e que outro lugar nós teríamos pra ir? Essa cidade só tem uma praça.

A mãe se entristecia com algumas atitudes da filha. E essa era uma delas.

Helena não sabia, mas seus pais a protegiam do mundo lá fora. Era mais seguro viver ali.

– Pelo menos temos uma praça, né, filha?

– Graças a Deus, não é mesmo, mãe?

O pai nunca se metia. Praticamente não acreditava naquelas histórias. Sabia ou, pelo menos, suspeitava que os jovens daquela cidade estavam todos loucos. E sua filha não estava de fora.

Só não sabia como a filha conseguia despistar o que fazia. Mas um dia aconteceria o que ele mais tinha medo: descobrir tudo e cair na vergonha alheia.

– Você não precisa ser sarcástica, Helena.

– Desculpa, mãe...

– Você quer comer alguma coisa?

– Não, vou dormir. Boa noite.

Helena evitava escrever em seu diário. Era arriscado, além do mais já tinha passado dessa fase. Entretanto, sempre anotava algumas frases na agenda. Cismara com uma “Sou imprudente e você está mudo”. Não sabia dizer por que, mas aquela frase era a sua cara.

Preferia não manter um diário, porque sabia que a mãe leria seus segredos.

Ansiava pelo momento em que se tornaria maior de idade. Era só uma questão de tempo para ir morar com a tia na cidade grande.

Mas mal sabia ela que nem de flores o mundo era feito…

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