Aquilo que Nunca Morre
Aquilo que Nunca Morre
Capítulo 28 min de leitura

Capítulo Dois

Helena continuava namorando escondido.

Às vezes, queria contar para a mãe que tinha um namorado. Mas para sua mãe, ter um namorado era sinônimo de planejar casar-se com ele. Helena não queria casar. Sua mãe nunca iria entender.

Os dois se encontravam na casa de um amigo. Rachel namorava esse amigo. Helena e Neto ficavam na sala enquanto que Rachel e Miro não tinham lugar fixo para ficar.

Não demoravam nessa casa. Os pais de Miro podiam chegar a qualquer momento, além disso, elas precisavam ir para a praça depois, afinal tinham que manter o álibi.

Ainda não era hora para dizer que tinha um namorado. Nenhum deles era maior de idade e nenhum deles trabalhava.

Naquela cidade trabalhava-se desde cedo.

Meia hora depois, Rachel e Helena estavam na praça. Muitos vizinhos as viam conversando como se elas viessem da casa dos pais de Rachel. Não suspeitavam de nada.

Ou pelo menos não tinham nada do que suspeitar.

– Vamos ao cinema amanhã?

– Cinema? Mas muita gente conhecida vai lá!

– O que que tem, Rachel? No escurinho é mais interessante... Podemos dar uns amassos legais. Na casa do Miro tem muita pressão, não dá pra fazer nada direito.

Rachel não acompanhava a modernidade de Helena. Rachel pensava igual a todo mundo daquela cidade.

– O que você quer dizer com isso?

– Por favor, Rachel, não tô falando de sexo, só tô falando de uns amassos no cinema. No escurinho do cinema, chupando dropes de anil, longe de qualquer problema, perto de um final feliz... – disse cantarolando para convencê-la.

– Para com isso, Helena! Deus me livre!

– Deixa de ser santinha, Rachel. Eu duvido que você não fique a fim...

Rachel ficou branca.

Pasma.

– Isso não é verdade...

– Duvido. Tenho certeza que a sua calcinha é testemunha ocular disso.

Rachel ficou super vermelha. Não sabia onde esconder o rosto de tão envergonhada que estava. Desde quando aquilo era conversa para se ter?

Para Helena não tinha mal algum falar sobre isso. Considerava Rachel sua melhor amiga. E única. Além do mais, elas iriam passar por isso um dia.

Por que Rachel tinha tanta vergonha?

Mais cedo ou mais tarde todo ser humano experimenta.

– Você não entende, Helena. A gente não pode querer essas coisas.

– Por que não? Isso não é proibido, pelo contrário, é super normal.

– Porque são erradas, precisamos casar antes.

– Eu não quero casar. Já imaginou como seria meu casamento com o Neto?

– Não, realmente seria bizarro... – e como que voltando a si, disse: — Mas você não o ama?

Helena olhou a hora, viu que ainda era cedo, mas decidiu ir para casa. O cinema, apesar dos pesares, estava de pé.

Chegou em casa cedo.

Os pais estranharam. Teria acontecido alguma coisa?

– Brigou com a Rachel, filha? – perguntou a mãe jogando verde.

– Não.

– Você estava na praça?

– Eu só cheguei cedo, mãe. Não aconteceu nada.

Helena não queria papo. Foi direto para o quarto. A mãe curiosa queria saber dos detalhes e seguiu a filha logo em seguida. Achava que mãe e filha deveriam ser amigas, embora não soubesse muito bem como fazer isso funcionar entre ela e Helena.

– Helena, vamos filha, conta pra mim, o que foi que aconteceu?

– Nada, mãe. Não aconteceu nada.

O que Helena diria para a mãe? Que estava namorando, que era seu primeiro namorado... Diria o que mais? Ah, é claro, diria que já fazia um ano e seis meses que estava namorando, desde o aniversário de 15 anos da Rachel, e para completar diria sem cerimônias que queria saber como era fazer sexo.

A mãe não entenderia seus problemas adolescentes. Provavelmente teria um ataque.

O tempo era outro. A mente da mãe era igual a do pai. Os dois viviam nos anos 60. Cheios de tabus, como todo mundo naquela cidade, até a Rachel, isso sim que era mais indignante de aceitar.

– Você não costuma chegar tão cedo assim...

– Mãe, na boa, tá tudo bem. Eu estou bem e não briguei com a Rachel. Amanhã combinamos de ir ao cinema e vamos poder aproveitar para assistir filmes que seriam censurados, mas que não estão. E é claro, vou voltar na hora de sempre.

– Que filme vocês vão assistir? A ditadura nem era tão ruim assim... Ela se preocupava com os jovens da sua idade, evitando que vocês assistissem a filmes subversivos. Lembre-se que você só tem 16 anos...

– Mãe, a ditadura nunca pensou nos jovens da minha idade, muito pelo contrário, mas não vou discutir isso com a senhora, vamos assistir a um filme pra nossa idade, não se preocupe. O Deolindo nunca deixaria a Rachel e eu assistirmos algum filme subversivo...

– Sem brincadeiras, Helena.

Mas era verdade, o seu Deolindo, dono do único cinema da cidade não costumava passar filmes nacionais, apenas os “melhores filmes de Hollywood”. Sentindo-se, de alguma forma, convencida, a mãe resolveu deixar a filha quieta.

Era tudo verdade.

Naquela cidade todos se conheciam de longa data. Todos sabiam quem era o filho de quem.

Era uma organização tão bem estruturada a daqueles pais. Vigiavam os filhos uns dos outros. Como se tivessem medo de que algo ruim acontecesse. Reproduziam o mesmo modelo de seus pais, seus avós e assim por diante. Era o que tinham aprendido a fazer na vida.

Claro que tudo era para o bem deles, mas nem sempre o que é o bem para alguém é o mesmo bem para outra pessoa.

Helena pensava que não ia mais ter sossego. Queria escrever, contar para alguém o que estava lhe incomodando. Por que a Rachel não entendia? Não era errado. Era super normal. Ou era apenas ela que pensava nisso o tempo todo?

Helena fechou os olhos e começou a imaginar como seria. Ao mesmo tempo em que imaginava sentia vergonha.

Vergonha do quê não sabia, apenas sentia. Mas quem ia adivinhar seus pensamentos? Quem iria lhe censurar?

Ela mesma.

Então não era à frente de sua época? Não sabia o que queria e o que não queria? Por que tinha receio? Tinha de vergonha de quê? De quem? Não estava se reconhecendo.

Foi à cozinha. Talvez a mãe lhe ajudasse em alguma coisa. Não sabia bem em quê, não acreditava que iria adiantar, não contaria nem sob tortura o que se passava em sua cabeça. Mas podia tentar.

– Algum problema? Eu lembro que te deixei no quarto... – disse a mãe tentando ser legal e descolada. Até porque mãe sempre tem radar para essas coisas. Ela sempre pega no ar quando algo não está indo bem. Mesmo que não soubesse de fato o que acontecia, sabia quando algo estava acontecendo.

– Nenhum.

– Helena, talvez eu possa te ajudar, querida. Não tenho a sua idade, mas já tive antes. Me conta, que que você tem?

– Como você e o papai se casaram?

– Ora, nós já te contamos, Helena. Por que isso agora?

– Você sabe que não é bem assim... Por que você não me disse que já casou grávida de mim? É só fazer os cálculos...

A mãe puxou uma cadeira fazendo menção de sentar. Que importância tinha isso agora? Que importância?

Sentou-se.

Suspirou.

Respirou fundo.

Por que ela queria saber de uma coisa que acontecera há tanto tempo? O que isso tinha a ver com o problema da filha?

– Você não me procurou para saber disso.

– Mas eu quero saber.

– Você nasceu prematura.

– Essa conversa de novo, mãe? A senhora acha que eu sou tão boba para acreditar nisso? Agora só me faltava dizer que ter filhos prematuros é hereditário só pra que eu acredite…

– O quê? É claro que não! Você terá seus filhos todos saudáveis e de nove meses.

– Não tô falando disso, eu estava sendo irônica, eu tô me referindo ao erro...

– Que erro?

– Nenhum, mãe, bobagem minha...

Helena foi para o quarto. Já fazia um tempo que sabia que não tinha nascido prematura.

Um dia, vendo o álbum de casamento dos pais prestou atenção na data, eles tinham se casado em março de 1970. E naquele mesmo ano, ela nascera em novembro. Perguntando a avó, como quem não quer nada descobriu que nascera de nove meses completos.

O grande exemplo de moral que os pais tinham, na verdade, não passava de uma grande mentira.

Isso a revoltava. Mas o que revoltava era a mentira. A insistência nessa farsa que qualquer um podia descobrir.

Por que não tiveram coragem de enfrentar os outros? A quem eles deviam? Eram mais covardes do que ela imaginava. Ou ela pensava que era muito simples enfrentar isso.

Mas o que de fato acontecia é que eles queriam evitar que o mesmo erro viesse a acontecer, mas faziam aquilo da forma mais errada de todas.

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