Raízes de Carvalho
Raízes de Carvalho
Capítulo 16 min de leitura

Prológo - A Floresta e a Vila

Antes de haver um lenhador na clareira, antes de haver uma uma menina atravessando o bosque com sua cesta de vime, antes de qualquer história de amor ou segredo, já existia a floresta. E ela era antiga

As árvores dali não eram como as árvores de outros lugares. Eram carvalhos de troncos grossos, com cascas rachadas pelo tempo e galhos que se entrelaçavam no alto como dedos de gigantes adormecidos. Havia faias de folhas prateadas que brilhavam sob a lua, e pinheiros que subiam tão alto que suas copas desapareciam nas nuvens. O chão era macio de musgo e folhas secas, e o cheiro de terra molhada subia depois da chuva como uma respiração lenta.

No coração da floresta, havia uma clareira. Ninguém sabia ao certo como ela se formara. Talvez um raio, num verão distante, tivesse aberto o espaço entre as árvores. Talvez os antigos tivessem derrubado a mata para plantar, e depois abandonado a terra. O fato é que a clareira existia, ampla e silenciosa, banhada por um sol que atravessava as copas e se derramava em feixes dourados sobre a grama.

Perto da clareira, corria um riacho. A água era fria e clara, vinda das montanhas ao norte, e corria sobre pedras lisas que brilhavam como moedas. Era ali que os animais da floresta iam beber — veados, raposas, lebres, e de vez em quando um javali que ninguém ousava enfrentar. O riacho seguia seu curso, atravessava a mata, e ia desaguar num rio maior, que por sua vez levava as águas para longe, para terras que ninguém dali conhecia.

Havia também os gnomos. Mas eles viviam escondidos, em tocas dentro de troncos ocos ou sob raízes gigantes, e só apareciam quando queriam. A maioria das pessoas da região nem sabia que eles existiam. E os que sabiam, preferiam não comentar.

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A uma hora de caminhada da clareira, seguindo a estrada de terra que serpenteava entre as árvores, ficava a vila de Pedra Alta. O nome vinha das montanhas que a cercavam — paredes de rocha cinzenta que se erguiam ao norte e ao leste, protegendo a vila dos ventos frios e dos animais selvagens. A vila tinha cerca de três mil habitantes, o que não era pouco para os padrões da região. Havia ruas de terra batida, casas de madeira e pedra, uma praça central com uma fonte antiga, uma igreja de torre alta que se via de longe, uma padaria que abria antes do sol, uma taverna que fechava depois da meia-noite, e uma cadeia pequena, de paredes grossas e janelas minúsculas, que raramente tinha ocupantes.

O homem que governava Pedra Alta chamava-se Horácio. Era um homem de meia-idade, baixo e atarracado, com barriga saliente e olhos pequenos que não perdiam um detalhe. Usava roupas de boa qualidade, mas sem exagero — casaco de lã, botas de couro, um chapéu de aba larga que escondia o início da calvície. Governava a vila havia quinze anos, e em todos esses anos, ninguém pudera dizer que ele fosse injusto. Arrogante, sim. Mesquinho, às vezes. Ranzinza, quase sempre. Mas justo. Quando era preciso tomar uma decisão difícil, Horácio tomava. E quando era preciso defender a vila, ele defendia.

Naquela manhã, Horácio estava em seu escritório, sentado à mesa de madeira polida, com o livro de contas aberto à frente. A luz da janela batia em seu rosto, e ele tamborilava os dedos na mesa, um hábito que o acompanhava sempre que os números não fechavam. A vila estava crescendo, e com o crescimento vinham os problemas. Mais gente, mais casas, mais comida, mais impostos. E Horácio, que gostava de ordem acima de tudo, não tolerava desordem.

- Senhor? — a voz veio da porta. Era o chefe da guarda, um homem alto de barba por fazer. — O padeiro mandou avisar que a farinha chegou. E o ferreiro quer falar sobre o preço do carvão.

Horácio ergueu os olhos.

- Diga ao padeiro que mande a conta. E ao ferreiro que espere. Não tenho tempo para tudo de uma vez.

O guarda assentiu e saiu. Horácio voltou às contas, mas a mente estava longe. Ele pensava na praça da vila, que precisava de reparos. Nos bancos de madeira, que estavam apodrecendo com a umidade. Na fonte, que estava entupida de folhas. A vila precisava de um artesão. Alguém que soubesse trabalhar com madeira. Alguém que pudesse consertar o que estava quebrado e construir o que faltava.

Ele fez uma anotação no livro e fechou-o. Amanhã, mandaria alguém procurar.

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Do outro lado da vila, numa casa simples na periferia, Magda acordou com o sol batendo na janela. Ela morava sozinha. Nunca se casara. Dizia que ainda não encontrara o homem certo, mas a verdade é que os homens de Pedra Alta a evitavam. Magda era intensa demais, pegajosa demais, e tinha o hábito de se apaixonar por qualquer um que lhe desse atenção. Já se apaixonara pelo ferreiro, pelo padeiro, pelo filho do ferreiro, e por um viajante que passara pela vila há dois anos e nunca mais voltara. Nenhum deles correspondera.

Naquela manhã, Magda levantou-se, vestiu o vestido cor de vinho que ela achava que a favorecia, e olhou-se no espelho. O reflexo mostrou uma mulher de uns quarenta anos, com cabelos castanhos presos num coque apertado, olhos claros que ela achava que eram mais bonitos do que realmente eram, e um sorriso que tentava ser doce, mas saía forçado.

- Hoje vai ser um bom dia — disse ela, para si mesma. — Hoje eu vou encontrar alguém.

Ela saiu de casa e caminhou até a praça. A vila já estava movimentada. O padeiro abria a porta da padaria, o ferreiro acendia a forja, e as mulheres iam à fonte buscar água. Magda cumprimentou algumas delas, mas ninguém parou para conversar. Ela não era exatamente querida ali.

Sentou-se num banco da praça e ficou observando o movimento. As crianças corriam, os homens iam para o trabalho, as mulheres tagarelavam. Magda suspirou. Ela queria fazer parte daquilo. Queria ser vista, notada, desejada. Mas ninguém olhava para ela.

Foi então que viu o dono da vila saindo do escritório, com o rosto fechado e o livro de contas debaixo do braço. Ele passou por ela sem cumprimentar. Magda sentiu o peito apertar. Nem o Horácio olhava para ela.

- Um dia — murmurou Magda, com a voz baixa. — Um dia alguém vai me ver.

Ela não sabia, naquele momento, que o destino estava prestes a mudar. Que um homem calado e barbudo estava a caminho da clareira, e que a vida dela, e de toda a vila, nunca mais seria a mesma.