Vertigem Selvagem
Vertigem Selvagem
Chapitre 23 min de lecture

O café derramado.

Todas as manhãs, eu tinha o meu ritual: passava numa pequena cafeteria no centro da cidade, justamente ao lado da minha barbearia. A fachada era simples, uma porta verde com seis janelas de vidro, e lembrava uma cafeteria que havia visitado em Londres numa das minhas viagens.

O lugar tinha as suas particularidades. O sino pendurado na porta, um presente meu que o Sr. Jorge fez questão de nunca tirar dali. O cheiro forte de café. A máquina, que insistia em fazer um barulho engraçado toda vez que era ligada.

O som de Djavan e da chuva que caía do lado de fora tornava aquele ambiente perigosamente confortável.

Atrás do balcão estava o Sr. Jorge, como em todas as manhãs. Os cabelos grisalhos já dominavam boa parte da cabeça, e a barriga denunciava seu amor pela própria cozinha. Tinha sempre um pano de prato jogado sobre o ombro e um sorriso tranquilo no rosto. Eu nunca o via apressado.

Eram pouco mais de sete da manhã. A cafeteria do Sr. Jorge ainda estava vazia, como acontecia quase todos os dias naquele horário.

— Sr. Jorge, bom dia. Aquele nosso time ainda vai nos matar de angústia.

— Nem me fale, meu filho. O mesmo de sempre?

— Hoje eu quero um duplo. Vou precisar.

— Já preparo.

Sentei-me à janela, como de costume, e o Sr. Jorge trouxe meu café ainda soltando fumaça. Eu estava de cabeça baixa quando ouvi o sino da porta e, logo em seguida, o som de um salto ecoando pelo piso frio. Todo o resto do ambiente ficou distante. Só existia aquele som.

— Bom dia, Sr. Jorge. Como tem passado?

— Bom dia, Beatriz. Estou bem. O mesmo de sempre?

— Hoje preciso de um duplo, tenho muito trabalho.

— E como vão as aulas?

— Ah, Sr. Jorge, as aulas estão me matando.

Virei o rosto sem muita atenção… e o mundo pareceu desacelerar.

Lá estava ela, com gotas de chuva ainda no sobretudo. Perdi completamente as palavras. Ela se virou, me pegou observando e deu um leve sorriso. Foi o suficiente para a xícara escapar da minha mão. Ouvi a porcelana bater no pires e senti o calor atravessar a calça antes de entender o que tinha acontecido. O cheiro de café subiu de uma vez. Tentei disfarçar, o que só piorou a situação.

— Mas que merda… logo hoje que tenho uma reunião importante.

Aquela mulher segurou o riso e olhou para o Sr. Jorge.

— Acho que seu cliente vai precisar de um pano.

Sr. Jorge soltou uma risada baixa enquanto pegava alguns guardanapos.

— Tudo bem, meu filho? O que aconteceu aí?

Passei a mão no rosto, constrangido.

— Ah, Sr. Jorge… nem eu sei. Acho que me distraí com besteira.

Enquanto tentava limpar aquela sujeira que eu havia feito, ouvi o sino novamente. Levantei a cabeça, mas era tarde demais.

Ela já tinha pegado seu pedido e partido.

Depois daquela cena vergonhosa, tive que passar em casa para trocar a calça.

Depois de dias procurando por ela, quando finalmente a encontro, passo por aquela situação. O universo hoje me deu uma rasteira.