Já era noite e o homem olhava preocupado para o relógio temendo pelo pior, dez horas da noite. Talvez fosse comum nos dias de hoje só que o ele não sabia. Era muito calmo, já sua filha meio agitada meio quieta às vezes com o humor variável. Tinha cabelos loiros como os seus porem os cabelos dela eram cacheados como os da mãe, a menina era meio gordinha, e muito bonita. Ele pega o celular: chama, chama, chama e ninguém atende, ele deixa outro recado na caixa de mensagens e então a porta se abre:
__Onde você estava Katherine?
__Você sabe pai, eu estava no shopping. – Ela lhe dá um olhar de impaciência.
__Com quem? – Ele coloca as mãos na cintura olhando-a interrogativamente.
__Com a Diana.
O a pai olha com cara de desconfiado.
__Sei... E não tinha garotos lá?
__No shopping tinha, mas não com a gente né pai. – Ela responde com aquela típica impaciência adolescente.
__Tudo bem então. – Ele lhe olha meio desconfiado, mas ela não lhe dá tempo para mais perguntas.
Katherine vai direto para seu quarto ler, amava muito ler e não tinha muitos amigos nem era a mais inteligente, ao contrario sempre passava raspando e já ate tinha reprovado uma vez. Estava com 16 anos e ainda fazia o primeiro ano do ensino médio, mas não ligava.
Seu pai não brigou quando ela reprovou, apenas perguntou se ela tinha dificuldade de aprender. Ela não tinha, na verdade ela tinha um pouco de preguiça de fazer as tarefas então sempre ia no boletim com nota baixa. Estava lendo um livro muito bom de aventura, já havia lido alguns romances, mas não gostava muito porque sabia que o príncipe dos livros não existia.
Depois do colégio ela queria ir para a faculdade e fazer economia, mas isso porque queria montar uma sorveteria e doceria. Pegou seu notebook e foi no facebook, no bate papo, conversou com Diana, sua melhor amiga, uma menina muito bonita com longos cabelos ruivos e magra que sempre conseguia o que queria.
Depois foi dormir e ficou pensando naquele dia. Achou até legal, só não por uma coisa, Katherine gostava de um garoto do colégio, amigo do garoto que Diana estava no momento e ele foi também. Foram os quatro mais o irmãozinho de cinco anos de Diana ao cinema. Chegando lá Diana ficou quase engolindo o garoto e deixou o irmãozinho só e livre para fazer o que quisesse. Kathy cuidou dele por isso quase não teve tempo para conversar com o menino. Que era por sinal muito bonito, de todo jeito ela não percebeu que o menino estava interessado, porque Kathy se achava gordinha de mais.
Muito disso era pelo que diziam dela, como baleia e coisas do tipo, mas no geral ela não era realmente gorda. As pessoas no colégio e os garotos imaturos diziam que ela era gorda por maldade o que a deixava muito triste. Mas isso não importava em seus sonhos onde ela se sentia bem, sonhava apenas com coisas felizes desde muito tempo e amava isso, sonhar era ótimo. Os dias corriam bem e no dia seguinte um sábado, ela foi visitar um casal de velhos que gostava muito desde que se lembrava. Eles eram como avós para ela, a casa deles era reconfortante, ela amava ir aquele lugar que parecia velho e sempre tinha cheiro de torta de amoras.
Não tocou a campainha apenas entrou e gritou "vó" por que era assim que chamava a velha. Ela apareceu, deu um beijo na menina e foram tomar um chá. Kathy contou da noite anterior para a velha e esta apenas sorriu e lhe disse algumas palavras comuns como "Não se importe com isso" ou "essas coisas acontecem e quando se e jovem parece que é o fim do mundo, mas você verá que não é”.
Kathy se sentiu melhor, pois confiava na velha e sabia que ela estava certa. Tomaram chá e comeram torta de amoras o que sempre faziam quando a menina ia visitá-la. Depois Kathy, ligou para Diana e foram conversar sobre a noite anterior. Assim se seguiam os dias de Kathy, indo ao shopping às vezes, ao colégio de manhã, a casa da avó e a biblioteca. Aí esta uma coisa que amava fazer. Ir à biblioteca e ler ou às vezes somente ficar lá em um cantinho sossegado que achara. Um canto aonde ninguém ia nunca. Sempre jantava com seu pai e ele sempre fazia sobremesas e comidas maravilhosas, já que Kathy era péssima na cozinha.
No colégio tudo era muito comum, só se destacava em redação e literatura, o resto das matérias era sempre na média ou abaixo. Diana era um ano mais nova que Kathy, mas também era muito popular, líder de torcida e boa em quase tudo, só era ruim em redação e literatura.
O garoto ao qual gostava se chamava Dean Struck, era alto com cabelos muito pretos e lisos, tinha aquele ar meio selvagem, mas era o melhor da turma. Kathy gostava dele a um ano inteiro, mas se recusou ao ir ao cinema com ele e só foi porque Diana insistiu muito.
Os dias foram se passando e Kathy se tornou amiga de Dean, eles tinham muitas coisas em comum, e ele passara a ir com ela para a biblioteca. Eles liam por horas a fio e ele não interrompia sua leitura, entrar em um mundo diferente sempre que abria um livro, isso ela não trocava por nada. Então certo dia pensou por que todas as melhores aventuras quem vivia nos livros eram crianças, mas ela já sabia a resposta, as pessoas vão crescendo e se esquecendo de ter imaginação e sonhar. E pensar que nada é impossível, os adultos eram na verdade muito chatos, sempre deixando a rotina consumi-los. É difícil realmente imaginar um adulto se aventurando por lugares desconhecidos a não ser que seja extremamente necessário. Naquele momento prometeu a si mesma que não deixaria que isso acontecesse a ela, sempre iria... Sonhar!
Com o tempo que foi se passando eles pegaram mais intimidade, ela se deitava no colo dele e as vezes quando estava com frio se envolvia em seu abraço, quente e firme. Certo dia estavam assim quando ele disse :
__Kathy? — Ela se virou de modo a encara-lo e percebeu que estavam muito próximos.
__Oi — Respondeu habitualmente.
Ele foi se inclinando e ela se esquivou, pensou que aquilo não era certo, ele não gostava dela, não sentia nada, eram amigos. Ela se achava feia e tudo devia continuar como estava então fingiu que nada tinha acontecido e se deitou em seu abraço novamente. Quando chegou casa para o jantar seu pai estava na cozinha. Kathy sempre fora muito próxima do pai e como sempre conversavam à noite se sentiu feliz em poder perguntar a ele:
__Pai.
__Sim. – Ele a olhou com atenção.
__É... Como sabia que estava amando?
__Não sabia, apenas estava. O amor não pode ser medido, ou dito, não quando é de verdade.
Ela sabia que seu pai não diria mais nada, e não precisava, ela só saberia no momento que sentisse e se sentia bem por ter a certeza de não sentir naquele momento.
Estava feliz. Após o jantar pegou um pote de sorvete na geladeira e foi ver um filme com seu pai. Os dias se seguiram normais, comuns, certo dia estava na biblioteca quando pensou em sua mãe, uma mulher extremamente linda com longos cabelos cacheados e olhos verdes. Uma mulher extremamente linda e extremamente bondosa. O outro dia era passeio no colégio e foram a uma espécie de fazenda para observar melhor a natureza fora da cidade.
__Eu amo o campo! – Disse à Diana quando se sentavam embaixo de uma macieira.
__Eu também gosto, bom de preferência só de vez em quando. – Elas riram. – E você e o Dean? — Diana pergunta com um sorriso malicioso.
__Somos só amigos.
__Qual é? Vai esconder de mim senhora não namoro ninguém nunca?
__Se tivesse algo você saberia sua bocó.
No dia seguinte foi casa dos avós com Diana. Uma casa muito antiga a qual logo na entrada tinha um jardim com flores muito azuis que exalavam um perfume maravilhoso. Kathy pegou uma flor direto da raiz nunca vira nada igual e já estudara sobre a flor, mas nunca achou nada. Suas raízes eram negras e secas como se a flor nunca houvesse sido regada, porém todo o resto era vivo e lindo.
__Lembre meu futuro namorado de me dar uma coisa tão linda e única assim. – Diana comenta cheirando uma rosa.
__E o Carlos? — Kathy rebate indo em direção à porta.
__Cansei! – Ela responde cruzando os braços.
Logo que entraram sentiram o cheiro de torta de amoras que a casa sempre tinha. Kathy chamou pela avó e esta apareceu com um avental amarrado na cintura, deu um beijo em cada uma das garotas e foram tomar chá e comer torta. Conversaram sobre o dia e a noite anterior e Diana começou com seus habituais pedidos de conselhos sobre garotos. A velha é claro, sempre os atendia com carinho.
Kathy foi para a biblioteca após ir à sorveteria com Diana e chegando lá foi para seu cantinho, Dean já estava lá encostado em uma almofada:
__Oi Dean!
__Oi Kathy. Como tá? – Ele pergunta com um sorriso.
__Bem e você? – Kathy sorri e se senta ao seu lado.
__Bem.
__Lendo o que agora? – Kathy pergunta se inclinando sobre o livro que Dean segura.
__A travessia. É bem legal.
__Ah. — Ela se encosta em seu ombro e ele a abraça. — O que foi?
__Nada, só me acostumei com seu abraço.
__Ah, que bom. – Ele sorri e tira o cabelo por cortar dos olhos.
Ela pega seu livro: A princesinha. Depois saíram da biblioteca e foram tomar um sorvete, Kathy foi deixada em casa por Dean Ele tinha uma moto preta, quando se despediram Kathy lembrou que nunca perguntara onde ele morava nem nada do gênero.
__Espera aí, onde você mora? – Ela pergunta voltando-se para ele.
__Depois do lago, por quê? – Ele a olha com desconfiança.
__Nada, só curiosidade. – Kathy desvia o olhar.
__Moro sozinho. – Ele diz respondendo a pergunta que ela não fez.
__Ah! Por quê?
__Ah... Precisava do meu espaço. – Kathy se lembra que Dean tem dezoito anos.
__Ah! – Ela olha para seus pés.
Quando ela entra em casa vê seu pai na sala de estar:
__Quem era o garoto? – Ele pergunta meio sorrindo.
__Dean, um amigo. – Kathy sorri. – Relaxa pai.
__Ah! – O pai não afrouxa a expressão, mas Kathy sorri e lhe dá um beijo na testa.
Foi à cozinha pegou um lanche e foi para seu quarto. No dia seguinte foi ao shopping com Diana, viram um filme e comeram um lanche. Diana comeu uma salada como sempre e Kathy um hambúrguer com batatas fritas.
No dia seguinte na aula de matemática Dean joga uma bolinha de papel em Kathy que estava sentada no canto no fundo e ele um pouco mais ao lado, ele pediu que ela abrisse e ela leu o que estava escrito:
“Que tal irmos ao parque mais tarde?”
Ela rabiscou no verso: “Hoje não dá, emergência literária, madame Bovary”.
Depois da aula Kathy foi à biblioteca e pegou um exemplar de Madame Bovary indo direto para seu cantinho. Ficou um pouco surpresa ao ver Dean sentado, ao que parece só esperando-a. Ela se senta ao seu lado e ele a olha com apreensão.
__Queria te perguntar uma coisa. – Ele olha para baixo e depois a encara. – Você acha que nós... Ah, nós dois... – Ele parece meio confuso, mas Kathy entende o que ele quer dizer.
__Ah... – Kathy olha para seus pés, quis poder dizer que sim, mas não queria que as coisas entre eles ficassem estranhas, ou que acabassem como as coisas acabam quando não dão certo. — Somos amigos.
__Podemos ser mais que isso talvez.
__Eu não sei... Não quero que as coisas estraguem entre a gente.
Ele apenas fica de frente para ela e lhe da um beijo na testa. Kathy acha reconfortante então eles ficam assim, cada qual lendo um livro diferente.
__Qual a emergência literária com a Madame? — Dean pergunta depois de um tempo.
__Eu tenho que ler ele pra aula de História, um teste. Eu esqueci pra variar e ele já é amanhã.
A semana correu bem, ela estava estudando muito então quase não ia mais a biblioteca e via Dean apenas nas aulas. Diana estava sempre com ela buscando ajuda com os estudos, ela tinha certa dificuldade em redação e Kathy sempre a ajudava, elas faziam quase tudo juntas, menos ir à biblioteca porque Diana não gostava de ler.
Na semana seguinte ela conseguiu tirar a carteira de motorista. Seu pai lhe deu um carro comum preto de presente por ela ter conseguido e ela não podia estar mais feliz até mesmo por que já era fim de ano e ela havia passado de série no colégio. No natal como sempre ela o passaria na casa dos avós com seu pai.
Foi um natal muito divertido e tranquilo com muita fartura e alegria. Ela sempre ganhava presentes deles e do seu pai e esse ano ela pedira ao seu pai dinheiro extra para dar a eles um presente muito especial. E Mary a avó ficou muito emocionada ao receber o presente de Kathy.
Kathy ganhou um celular novo do seu pai e um lindo colar dos avós. Parecia um colar antigo passado de geração em geração. O colar parecia uma antiguidade com vários enigmas, contendo um pingente com galhos secos com espinhos e uma adaga no meio.
Não era muito de usar joias ou bijuterias, mas não pensava tirar aquele belo colar do pescoço momento algum. E a avó explicou a historia dele:
__Foi da minha tataravó e foi repassado por toda a geração de primogênitas da minha família, ela mandou faze-lo como esse símbolo significando que não iria se impor as regras da época. Sabe minha filha naquele tempo as mulheres não podiam fazer nada, ela foi uma mulher muito guerreira. Ainda casada pegou seus filhos e fugiu pra outra cidade recomeçar a vida longe de um marido ruim. Isso era muito difícil naquele tempo e ela ficou quase sozinha, todos a julgavam. Até que ela se casou novamente com um viúvo muito bom e que a amava muito e aceitou seus filhos amando-os como se fossem seus. O que quero que esse colar signifique é: Seja corajosa e saiba que sempre vamos te amar.
Quando Kathy estava indo dormir Diana lhe mandou uma mensagem:
“Réveillon comigo vaca, vamos numa festa na casa do lago u.u sem discussão”.
No dia seguinte foi dar um passeio com Dean, ele a levou para um parque que havia perto do lago. Sentaram-se no chão ao lado de uma árvore e comeram sanduíches e chocolates.
__Você trabalha?
__No momento tô parado, é meio difícil arranjar emprego com meu ofício. – Dean responde rápida e secamente como se não quisesse prolongar assunto.
__Qual seu ofício? — Kathy diz com a boca cheia de chocolate.
__Acho que não quero falar sobre isso agora, desculpe. – Dean pega um sanduíche e dá uma mordida.
__Ah! — Kathy fica meio desapontada, mas resolve mudar de assunto. — Você mora aqui há muito tempo não é?
__Na verdade faz mais ou menos uns oito anos.
__Você já reprovou?
__Não, só digamos que eu tive um atraso. Sabia que quase nunca vi meninas como você. – Dean diz virando-se para Kathy e repentinamente lançando lhe um sorriso, ela percebeu que ele não queria falar sobre si mesmo. Ficou um pouco desapontada, mas não comentou.
__An? – Ela responde com a testa franzida.
__Tipo, que não fala só em garotos, e não se preocupa em ficar com a boca cheia e falar ao mesmo tempo.
__Algumas pessoas achariam isso nojento. – Kathy ri. – Na verdade acho que todas elas achariam. Então você e muito amigo do Carlos não é? –Kathy pergunta referindo-se ao garoto que Diana estava saindo.
__Mais ou menos, a gente conversa de vez em quando. – Dean diz olhando para o céu.
__Ah!
O celular de Kathy toca e ela suspira ao ver a foto do pai na tela do celular.
__Oi pai. – Ela atende com uma certa impaciência.
__Querida, precisa vir pra casa... Agora — Kathy se preocupa por um instante ao perceber que a voz do pai falha, e que ele inspira fundo como quando faz quando está chorando.
__Tá, mas por quê? – Kathy pergunta tentando esconder o desespero na voz.
__Aconteceu uma coisa. – Sua voz agora parece tensa e arrastada.
__O que? – O desespero agora a invadia.
__Querida, só venha... Agora. – Kathy suspira e se levanta num salto. O pai já havia desligado a chamada na outra linha.
Virou-se para Dean.
__Preciso ir. – Diz respirando pesadamente.
__Tudo bem. – Dean se levanta sem perguntas com o olhar preocupado.
Ele a leva para casa o mais rápido que pode, Kathy ligaria para a velocidade se não estivesse tão preocupada. Ela entra em casa e vê seu pai encarando a televisão, mas sem realmente assisti-la, com o olhar vazio.
Kathy fecha a porta da sala e só se senta observando o pai e a gravidade da situação. Mil coisas passam pela sua cabeça, mas não tem coragem de perguntar ao pai temendo pela resposta. Ele se vira para ela, dando-se conta de sua chegada. Levanta-se e segura às mãos de Kathy olhando-a nos olhos. O desespero a inunda como uma onda, mas se mantém firme e encara o pai.
__Querida você precisa saber que uma coisa aconteceu, mas primeiro você tem que ficar calma... – Ele abaixa o olhar.

