A sexta passou e o sábado chegou depressa. Ainda é bem cedo quando saio de casa e vou correndo pra casa de Tamy. Ela está uma verdadeira pilha de nervos – como sempre fica no dia em que dá uma festa –, mas quando tudo finalmente está pronto e do jeito que ela quer, ela se acalma e respira aliviada. Eu já estou mais do que acostumada com esse jeito maluco dela de ser que já nem ligo mais. Volto pra minha casa apenas para me arrumar antes da festa começar.
Visto uma calça jeans justa, uma camiseta preta com glitter e uma bota de cano médio de couro. Meus cabelos estão presos em um rabo de cavalo com algumas mechas loiras soltas. Passo um batom claro com um pouco de gloss por cima e estou pronta. Paul passa pra me buscar um pouco depois do horário marcado e saímos no carro dele em direção à casa de Tamy.
A entrada da casa está toda iluminada e várias pessoas estão do lado de fora conversando, bebendo e namorando. A festa não podia estar mais animada.
Entro ao lado de Paul e logo nos distanciamos. Ele sai de encontro a um amigo do time enquanto eu vou atrás da anfitriã da festa.
Encontro Tamy conversando com o DJ e quando ela me vê, vem até onde estou segurando um copo de vinho na mão.
- Ainda bem que você chegou! Tenho duas pessoas pra te apresentar.
Antes que eu possa perguntar quem são ela me arrasta até onde eles próprios estão. De costas estão dois rapazes. Um de boné e outro de cabelos cor de mel. Eles não escutam quando chegamos perto por causa da música alta. Apenas quando Tamy põe a mão livre no ombro do rapaz de boné é que eles se viram em nossa direção. E é aí que eu quase caio pra trás.
- Esse aqui é Bright – Ela aponta para o de boné. — E esse é Skater. — Ninguém menos que o rapaz do skate.
- Na verdade, esses são nossos apelidos. — Skater interrompe, sem dizer seus nomes reais.
Ele olha pra mim e eu fingo que não o conheço. Após passar o susto de vê-lo ali, tento disfarçar fingindo que nunca o tinha visto antes e lembro que ainda não tinha contado sobre o acidente pra Tamy. Sorrio para os dois e para o meu desespero, Skater sorri de volta. Só pra mim.
Nesse momento percebo que Paul já voltou e está parado bem ao meu lado. Ele coloca suas mãos na minha cintura e dá um rápido aceno com a cabeça para todos. Skater continua me olhando sem se importar com o olhar desconfiado que Paul está lhe dando. Ele não é nada discreto, disso tenho certeza.
- Quer alguma bebida, Lara? — Paul pergunta e antes que eu me dê conta já estou afirmando com a cabeça.
Ele me dá um rápido beijo na boca e sai em busca da bebida. Percebo que Tamy já sumiu e com ela o tal de Bright, o menino do boné. Então restamos apenas eu e o maluco do skate. Que maravilha!
Antes que Paul apareça e arme um escândalo, tento me esquivar e sair de perto dele, sem sucesso. Ele segura meu pulso, me fazendo parar a centímetros dele.
- Espera. Nós ainda não fomos apresentados como deveríamos. — Ele diz e estica a mão em minha direção. — Lara. Nome bonito.
- Skater, hum? É mesmo a sua cara. — Digo sendo irônica. E para ser educada, aperto a mão dele.
- Foi Bright que inventou esse apelido. Por sinal, o nome dele é Fred e Bright é seu sobrenome, mas ele detesta ser chamado pelo primeiro nome. Eu me chamo Liam.
- Legal. — É tudo o que digo. Depois tento sair de perto novamente, mas ele torna a falar.
- Que foi? Eu já te pedi desculpas, tá legal? — Liam parece chateado.
- Desculpas aceitas. Agora será que você poderia...
- Dar o fora? — Ele me interrompe, percebendo que estou nervosa. Paul pode voltar a qualquer minuto e... — Já entendi. Aquele que vem vindo ali é seu namorado, certo? O cara das flores amarelas.
Não respondo. Fico tensa imaginando a reação de Paul quando perceber que Liam não para de me olhar e que estamos conversando desde a hora que ele saiu. Às vezes, Paul tende a ser muito ciumento.
- Ok. Até mais. — Liam se mistura na multidão e desaparece. Não tenho tempo de ver se ele estava (muito) bravo com minha atitude.
Paul chega e me vê sozinha parada no canto da sala, mas o estrago já tinha sido feito.
- O que ele queria com você?
- Nada demais. Ele só estava puxando papo.
- Puxando papo? E você deu confiança pra ele?
- O que você queria que eu fizesse, Paul? Que fosse mal educada com todo mundo que viesse falar comigo na festa? — Eu estava irritada. Sempre detestei essas cenas de ciúme na frente de todos.
- Não com todo mundo. Só não quero que você dê motivos para que eu desconfie de você.
- Desconfiar de mim?? Mas eu amo você! Só tenho olhos pra você, e você sabe disso. Eu nunca te trairia.
- Então não me dê motivos para imaginar o contrário!
- Mas eu não dou! Eu não fiz nada! — Tento me defender, mas tudo que digo é em vão. Ele não demonstra acreditar em nada do que digo.
- Você me desrespeitou e não parece me amar tanto assim como diz. — Ele bebeu o líquido do seu copo todo de uma vez antes de prosseguir. Eu estava atônita. — Pra mim, chega. Vou embora dessa festa ridícula. E você – Ele aponta pra mim e algumas pessoas param para nos olhar. — Não me siga. Acabou.
Em seguida, saiu me deixando completamente só com meus pensamentos de culpa.
Caminhei até fora da festa a passos lentos. Tamy não me viu sair e foi melhor assim. Ela estava muito ocupada com os convidados que não paravam de chegar.
Do lado de fora nenhum sinal de Paul e o carro dele também não estava mais lá. Eu não sabia pra onde ele tinha ido, já que ele nunca dizia pra onde ia depois que brigávamos.
A praia ficava próxima, a apenas 2 quadras da casa de Tamy. Andei até lá e, como já era de se esperar àquela hora da noite, ela estava completamente vazia. Sentei em um banquinho de frente pra areia da praia e abracei meus próprios braços por causa do vento frio que vinha do oceano. Fechei os olhos e tentei me concentrar no barulho das ondas do mar.
Mas meu sossego foi interrompido por uma voz que eu já conhecia.
- Ele não merece você.
Me viro pra ele e despejo toda a minha raiva.
- A culpa é toda sua!
- Você não gosta de amarelo, né? — Liam pergunta e em seguida se senta ao meu lado no banco, sem se deixar abalar pelo meu ataque de fúria.
- Por que? — Pergunto ríspida, mas ao mesmo tempo estou curiosa. Seco as lágrimas antes que ele perceba que estou chorando.
- Você não recolheu as flores do chão.
- E o que isso tem a ver com o amarelo?
- Ou é isso ou você não gosta tanto dele assim. — Ele responde calmamente.
Fico sem fala. Ele parece estar certo, e pra piorar eu já não tenho tanta certeza de qual seria a minha resposta.
- Vamos, está muito frio aqui. Eu te acompanho até em casa. — Me imagino dizendo que não, que nunca iria aceitar sua companhia. Porém, não é isso que faço. Acabo por balançar a cabeça concordando. — Está tarde e esse caminho é perigoso a essa hora da noite.
Olho pro skate em sua mão e me dou conta de uma coisa. Antes que eu pergunte, ele mesmo diz.
- Você se importa de ir andando? — Seus olhos azuis estão mais brilhantes do que antes enquanto ele sorri sem graça esperando minha reação.
Sinalizo que não com a cabeça e começamos a caminhar. Ele segura o skate com o braço e me acompanha a pé.
Aos poucos vou me sentindo mais relaxada e a raiva que eu sentia vai passando com o tempo. O silêncio que nos envolve logo se torna inconveniente e tomo coragem pra iniciar uma conversa.
- Parece que você é mesmo fã de skates, né?
- Não só de skates. Curto todos os tipos de esportes radicais, mas o skate é o que sei lidar melhor.
- E você cai muito? — Eu sei, a pergunta é ridícula, mas ele não percebe.
- Só quando derrubo garotas distraídas. — Ele ri e eu acabo rindo também.
- O Bright, é esse o apelido dele, certo?
- Sim.
- Ele é muito seu amigo?
- Na verdade ele é o meu melhor amigo. Nos conhecemos quando éramos crianças, logo depois que o meu irmão... — Ele para de falar e eu não o pressiono. Se ele guarda algum segredo, quem sou eu pra tentar descobrir? — Bom, somos amigos há muito tempo.
O silêncio volta a se instalar. Por sorte já estamos perto da minha casa e não preciso iniciar outra conversa sem assunto. Paro na porta de casa e me viro pra ele, que me olha nos olhos como tem feito desde que me conheceu. Por um instante ficamos ali, um olhando nos olhos do outro até que ele pisca e eu volto ao normal. Percebendo meu desconforto, ele coloca o skate no chão e se despede.
- Tenho que ir.
- Obrigada pela companhia.
- Não precisa agradecer. Não irei cobrar por isso.
Liam sorri e sai depressa sobre seu skate. Fico feliz em não termos falado sobre Paul nenhuma vez. Acho que iria desmoronar se tocasse no nome dele.
Entro em casa, novamente depois de meus pais estarem dormindo, e percebo que até que a noite não foi tão ruim assim. Só quando me deito na cama é que a dor de ter um namoro acabado surge em meu peito. E começo a chorar.
