犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
18 十八 かごめ Kagome
A primeira semana foi estranha.
A segunda, um desastre.
Na terceira, a família Higurashi já começava a aceitar que aquilo talvez não fosse temporário.
O Poço continuava inativo. Nenhum brilho, nenhuma passagem. Nada. Isso significava uma realidade simples e terrível: Inuyasha ainda estava morando ali.
Os primeiros dias haviam sido preenchidos por muitas, muitas tentativas, mas todas foram inúteis. Toda manhã, Kagome e Inuyasha desciam até o pequeno santuário que protegia o Poço Devorador de Ossos. Toda manhã, encontravam exatamente a mesma coisa: silêncio, nenhuma energia espiritual, nenhum sinal de atividade, nenhum portal. O velho poço ainda era apenas um poço.
No quinto dia, Kagome ainda pulou lá dentro.
No sexto, também.
No sétimo, Inuyasha foi atrás dela sem dizer uma palavra, e nada aconteceu. Ela lembrava perfeitamente da sensação.
Atravessar o tempo nunca foi algo visível, mas sempre existira uma espécie de resistência no ar, uma pressão estranha, como mergulhar através de uma cortina invisível.
Agora não havia nada. Apenas terra, madeira, pedras e um buraco vazio.
Na segunda semana, eles pararam de tentar todos os dias.
Na terceira, já não comentavam mais sobre isso.
E aquilo talvez fosse o pior sinal, porque significava que ambos começavam a aceitar a possibilidade de estarem presos.
Mamãe observava tudo em silêncio, sem fazer mais perguntas. Aparentemente, desistira. Talvez porque já tivesse ultrapassado há muito tempo o limite de coisas capazes de surpreendê-la, ou talvez porque percebesse que Kagome estava assustada. Sua filha tentava esconder, mas ela a conhecia bem demais. Via o modo como Kagome ficava parada olhando para o jardim. Como passava longos períodos sentada nos degraus do templo. Como seus olhos inevitavelmente acabavam voltando para a construção que abrigava o poço.
Esperando.
— Kagome?
Ela piscou.
— Hm?
— O chá vai esfriar.
— Ah. Certo, mamãe.
E sorriu. Mas o sorriso desapareceu assim que voltou a olhar pela janela. Mamãe certamente percebeu, mas não comentou.
Inuyasha lidava com aquilo de outra forma. Ou, pelo menos, fingia lidar. Durante a primeira semana, passou horas inteiras sentado perto do poço. Durante a segunda, começou a dormir ali. E na terceira, passou a dizer que simplesmente preferia ficar ao ar livre. Ninguém acreditou, nem mesmo ele.
— Ainda nada?
A voz de Kagome surgiu atrás dele.
Inuyasha permaneceu sentado no galho da árvore, os braços cruzados e o olhar fixo na pequena construção do poço.
— Não.
— Hm.
— Hm.
Silêncio. O vento moveu as folhas acima deles.
— Você ainda acha que vai abrir...?
A pergunta demorou, muito por sinal, e quando veio, a resposta não pareceu convincente nem para quem a deu.
— Vai.
Kagome observou o perfil dele.
— Você nem acredita mais nisso, né?
— E você acredita?
Ela não respondeu.
A paz durou exatamente vinte e três minutos.
Foi o tempo que levou para Souta abrir a despensa. O grito ecoou pela casa inteira:
— MÃE!!
E Mamãe ergueu os olhos da panela que mexia no fogão.
— Sim?!
— Acabou o arroz!
Ela piscou.
— De novo?
— De novo!
Seguiu-se um momento de silêncio, onde Mamãe apoiou a colher de madeira na borda da panela e caminhou até a despensa, abrindo a porta. Ela observou o interior e depois observou o saco vazio encostado na parede.
— Eu comprei cinco quilos anteontem!
— Eu sei.
— Cinco quilos!
— Eu sei.
Ela fechou a despensa lentamente e virou-se para o filho.
— Quem...
Souta nem precisou responder. Apenas apontou para a sala, para a televisão que estava ligada passando um programa qualquer na tela. Sentado no chão, pernas cruzadas diante da mesa baixa, Inuyasha levantou a cabeça.
— O quê?
— Você comeu metade do arroz da casa??
— Metade?
Ele pareceu ofendido. Kagome, sentada no sofá logo atrás dele, bufou, já sabendo do que se tratava.
— Foi mais perto de dois terços, na verdade!
Souta arregalou os olhos.
— Você come demais!!
— Eu estava com fome...
— Você está sempre com fome!
— Porque eu sou um meio-youkai!
— Isso não é desculpa!
— É uma excelente desculpa! Eu preciso de mais energia para lutar!
— Lutar contra quem?? Só há humanos nesse mundo!!
Mamãe ficou observando a discussão por alguns segundos, então voltou para a cozinha.
— Vou comprar mais arroz...
— Mãe!
— O quê?
— Você não vai dizer nada?!
Ela pensou por um instante.
— Inuyasha, tente deixar um pouco para os outros, está bem?
— Certo!
— Obrigada.
E Souta ficou encarando Kagome e Inuyasha, as mãos de cada lado da cintura.
— O que vamos jantar agora??
Então ela se levantou, afastando as costas de Inuyasha de suas pernas.
— Deixa que eu peço uma pizza, Souta...
A pior parte era esconder as orelhas.
No período feudal, ninguém ligava. Ou melhor, ligavam, mas normalmente o problema era resolvido antes que alguém tivesse tempo de comentar. Ou simplesmente era esquecido.
No Japão moderno, porém, existia uma coisa muito pior do que monges fanáticos, caçadores de demônios ou aldeões supersticiosos: vizinhos.
Vizinhos faziam perguntas. Muitas perguntas. Perguntas que não podiam ser respondidas com uma Tessaiga.
— Você vai usar o gorro, Inuyasha!
Ele ergueu os olhos do café da manhã.
— Que? Não mesmo!
— Vai sim!
— Isso daí parece ridículo!
— Melhor parecer ridículo do que virar objeto de estudo de centros de pesquisa!
— Keh! Eu odeio esse tal de gorro!
— Ótimo.
— Vou parecer um idiota com isso!
— Excelente.
— Você está sendo cruel, Kagome!!
— Estou sendo preventiva!
E Mamãe simplesmente tomava chá enquanto observava a discussão.
— Eu acho que ele fica bonitinho.
— Você também?!
— Obrigada, mamãe. Agora vamos pôr o gorro, sim?
Inuyasha passou o resto da manhã reclamando.
Reclamou enquanto tomava café, enquanto assistia televisão, enquanto ajudava a carregar compras e reclamou também enquanto reclamava.
Então veio o ocorrido do carteiro.
A campainha tocou no início da tarde enquanto Mamãe estava no mercado. Kagome tentava estudar alguma coisa no andar de cima e Souta ainda não havia voltado da escola. Ou seja, restava apenas uma pessoa disponível para atender.
— Tem alguém na porta!
Kagome gritou do segundo andar.
— Eu sei!
— Então atende!
— Eu tô atendendo!
A porta abriu.
Do lado de fora, estava o carteiro. De uniforme azul, prancheta na mão e um pacote debaixo do braço. Um homem humano completamente humano e comum vivendo um dia completamente humano e comum.
— Boa tarde.
— Boa tarde.
O carteiro estendeu a encomenda e Inuyasha pegou, assinando e devolvendo a caneta em seguida. Ou, pelo menos, foi o que o próprio Inuyasha contou.
Então o homem piscou uma vez. Depois duas, seu olhar subindo lentamente, passando pelos olhos dourados, pelos cabelos prateados e finalmente parando nas orelhas, que estavam completamente expostas.
Inuyasha disse que não percebeu, mas o carteiro percebeu, e muito.
— Cosplay?
Perguntou o homem.
Inuyasha piscou.
— O quê?
— Sua fantasia. É muito legal!
— Ah.
— Evento?
— Sim.
— Entendi.
— Ótimo.
Um breve momento de silêncio ocorreu entre eles, então o homem voltou a falar:
— Que personagem?
Foi quando Inuyasha travou, não sabendo o que responder.
— Hã... Personagem?
— Sim.
— Hmm...
— ...
— Inu.
O carteiro continuou olhando para ele.
— “Inu”? Cachorro?
— Isso.
— Só “cachorro”?
— Yasha.
— Ah... “Inuyasha”, então. Engraçado...
Ele estendeu uma das mãos para tocar... As orelhas.
— Por que parecem tão reais?
Inuyasha disse que apenas afastou as mãos do curioso, mas pela forma com que ele saíra correndo, Kagome tinha suas dúvidas de se realmente foi somente isso.
E um belo dia, a casa finalmente estava em silêncio, o que havia se tornado sagrado nos últimos dias.
Mamãe já havia ido dormir. Vovô também. Souta estava trancado no quarto, provavelmente estudando ou jogando alguma coisa escondido.
Pela primeira vez, em dias, não havia gritos sobre arroz desaparecido, gorros perdidos, carteiros traumatizados, hóspedes que destroem cozinhas ou genros entediados por não haver demônios para caçar. Só havia o som distante dos grilos vindo do jardim.
Kagome estava sentada na escrivaninha tentando estudar um pouco de folclore e espiritualidade, por recomendação do Vovô.
O livro permanecia aberto havia quase vinte minutos na mesma página. Ela já lera o mesmo parágrafo pelo menos sete vezes e não absorvera nenhuma palavra. Suspirou, passou a mão pelos cabelos e tentou novamente, mais uma vez sem obter êxito. Então fechou os olhos.
— Você está me encarando, Inuyasha...
Ele demorou alguns instantes para responder.
— Não estou.
— Está sim.
Quando finalmente ergueu os olhos, encontrou Inuyasha exatamente onde esperava, sentado perto da janela, observando-a sem o menor constrangimento.
— Você é assustador às vezes, sabia?
— E você é dramática.
— Você está olhando para mim há dez minutos com uma cara muito estranha.
— E daí?
— E daí que pessoas normais não fazem isso.
— Báa, eu nunca disse que era normal!
Kagome soltou uma risada involuntária e Inuyasha pareceu satisfeito consigo mesmo, mas o silêncio logo retornou, mais confortável dessa vez pelo menos. Ela voltou a abrir o livro, e não chegou a ler uma única linha, já sentindo o olhar dele novamente.
— Inuyasha.
— Hm?
— Sério.
— O quê?
— Para com isso.
— Não estou fazendo nada!
— Esse é exatamente o problema.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Isso não faz sentido.
— Faz para mim.
— Por quê?
— Porque é constrangedor ter o olhar de alguém assim! É como estar sendo assombrado por um fantasma obsessor!
— Keh, mas eu não tenho nada pra fazer!
— Eu sei disso...
A resposta fez surgir um sorriso torto em seus lábios. Kagome não podia culpá-lo pelo tédio. Inuyasha era literalmente de outro mundo, e ele só estava ali, no mundo dela, porque ela o fizera acompanhá-la até ali. E, agora, ela não sabia como faria para distraí-lo.
— Eu sinto muito, Inuyasha...
— O quê?
Ela demorou a responder.
— Tudo.
Inuyasha inclinou levemente a cabeça.
— O poço?
— O poço.
— Hm.
— Você aqui.
— Hm.
— Eu aqui.
— Hm.
— Nós dois presos.
— Hm.
— Minha mãe no quarto ao lado.
— Hm.
— Você dormindo no templo.
— Hm.
— Tudo isso só aconteceu por minha culpa. Eu que te arrastei para cá.
— E quem disse que eu tô reclamando disso??
Kagome riu. Por um instante, a preocupação pareceu diminuir, mas só um pouco. Então ela percebeu que Inuyasha havia se aproximado, não muito, mas o suficiente para que ela sentisse o coração acelerar.
— I-inuyasha....
— Hm?
— Mamãe está literalmente do outro lado da parede.
Ele olhou para a parede, depois para ela, e então depois para a parede novamente.
— E daí?
Kagome sentiu o rosto esquentar imediatamente.
— “E daí”???
— O quê?
— Como assim "e daí"?
— Ela está dormindo, oras!
— Não é esse o ponto!
Ele pareceu genuinamente confuso, o que só piorou as coisas.
— Nós somos um casal, certo?
— Inuyasha!
— O quê?
— Eu não vou fazer isso na casa da minha mãe!!
Um breve momento de silêncio se formou entre eles. Inuyasha piscou uma vez, depois duas.
— E por quê?
— Como “por quê”?!
— Sim, ué! Qual o problema?
— Porque é constrangedor!
— Para quem?
— Para mim!!
— Oh...
Ele pareceu considerar a informação, como se estivesse aprendendo uma regra social particularmente estranha.
— Entendi.
— Ótimo!
— Então vamos embora!
Kagome levou alguns segundos para processar.
— Embora para onde, Inuyasha?
— Não sei.
— Nós nem temos dinheiro.
— É, verdade.
— Nem emprego.
— Verdade.
— Nem uma casa.
— Verdade.
— Nem mesmo o poço.
— Sim.
Então Inuyasha cruzou os braços e ficou pensando, muito seriamente e Kagome reconheceu aquela expressão: a mesma que ele fazia sempre antes de enfrentar um inimigo poderoso. O mesmo olhar concentrado. A mesma intensidade. O mesmo raciocínio estratégico de um guerreiro japonês feudal. E isso a deixou profundamente preocupada.
— Então vamos nos casar!
Ela demorou um pouco para processar, então finalmente conseguiu perguntar:
— Como assim, Inuyasha?
— Como “como assim”? Casar!
— Eu ouvi isso.
— Então por que pergunta?
— Porque achei que tinha ouvido errado...
— Pois não ouviu!
Ela continuou encarando-o esperando por alguma frase do tipo “Estava só brincando!”, mas Inuyasha continuava perfeitamente sério. Ele nem era de brincar, na verdade...
— Inuyasha...
— O quê?
— Você não pode simplesmente resolver tudo dizendo "vamos nos casar".
— E por que não? Não já pedi a sua mão para a sua família? O que mais falta??
— B-bem... Falta... TUDO! Nossos amigos, o nosso mundo...
— Kagome, o seu mundo é aqui também, certo?
— S-sim, mas...
— E nós estamos juntos aqui.
— ...
— Morando no mesmo lugar.
— ...
— Dormindo sob o mesmo teto.
— ...
— E você acabou de dizer que o problema é a sua família.
— Eu não disse isso!
— Disse que não queria fazer aqui, porque a sua mãe está depois da parede ao lado!
Ela soltou um gemido abafado.
Inuyasha continuava encarando-a, completamente sério. Sem ironia, sem provocação, sem malícia.
Foi nesse momento que Kagome percebeu: ele não estava falando de forma hipotética, não estava brincando, não estava tentando provocar; ele realmente estava considerando aquilo.
— Inuyasha...
— E então? Vamos casar ou não? E se ficarmos presos aqui para sempre? Não iremos nos casar NUNCA?
Kagome abriu a boca e fechou.
No período feudal, casamentos aconteciam por acordos políticos, conveniência, necessidade ou simplesmente porque duas pessoas decidiam seguir juntas.
Já no mundo moderno existiam cerimônias, documentos, assinaturas, dinheiro, trabalho, apartamentos, planejamento financeiro, expectativas familiares e uma quantidade absurda de coisas que ela mesma não havia parado ainda para considerar.
Mas nenhuma delas parecia importante quando comparada à pergunta que ele havia feito:
“E se ficarmos presos aqui para sempre?”
A ideia fez seu peito apertar, porque ela vinha evitando pensar nisso.
Os dois vinham.
Inuyasha observou o silêncio dela por alguns instantes mais, então sua expressão suavizou um pouco:
— Kagome.
Ela ergueu os olhos.
— Eu não tô pedindo pra casar amanhã.
— Não?
— Bom...
Ele coçou o rosto.
— Eu até casaria amanhã.
Kagome soltou um ruído exasperado.
— Mas não é isso que eu quero dizer.
Ela piscou.
Inuyasha desviou o olhar para a janela.
— Eu só...
As palavras pareceram difíceis para ele.
— Eu só não gosto de ouvir você falar como se estivesse esperando alguma coisa acontecer para decidir ficar comigo.
Kagome permaneceu imóvel.
— Porque eu já decidi.
E o coração dela falhou uma batida.
Inuyasha continuou olhando para a noite lá fora.
— Eu continuo escolhendo você. Estando aqui, ou estando lá no outro mundo.
O silêncio que se seguiu foi devastador. Não porque fosse constrangedor, mas porque Kagome não encontrou resposta imediata para aquilo.
Seu rosto ficou quente e ela teve a estranha sensação de que, pela primeira vez em muitos anos, ela se sentia completamente sem defesa, mesmo estando ao lado dele.
No entanto, um pequeno sorriso brotou no canto de sua boca.
— Inuyasha, seu idiota...
Mas não o deixou retrucar:
— Está bem. Mas não me peça para organizar um casamento em três dias.
Houve um breve silêncio, então:
— Então... Isso foi um "sim"?
Kagome fechou os olhos. Estava exausta.
— Boa noite, Inuyasha...
— Kagome?
— Boa noite.
E ela se deixou cair no sono nos braços dele.
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