Shigure não esperou por uma resposta ou reação. Ele simplesmente virou-se e começou a caminhar.

Por um instante, Rin considerou ficar onde estava, pois não confiava nele, nem naquele lugar, e certamente não gostava da ideia de seguir o líder do clã que a sequestrara. Ainda assim, a curiosidade venceu e ela o acompanhou.

Eles atravessaram a ponte suspensa enquanto o vento das montanhas soprava entre as cordas e tábuas de madeira. Os Shibugarasu que pousavam nos telhados e plataformas observavam sua passagem em silêncio. Nenhum tentou se aproximar, nenhum tentou falar. Todos apenas olhava para ela como se fosse uma criatura ou objeto exótica. Ou talvez um presságio.

Rin odiou a sensação.

— Para onde estamos indo?

— Para um ponto de observação especial.

— E o que iremos observar?

— O que você nunca teve a capacidade de ver.

Ela suspirou.

— Se é mais uma tentativa de me fazer entender o quão errado foi eu estar viva ao lado de Sesshoumaru-sama, está perdendo o seu tempo.

— Você tira conclusões muito óbvias para alguém que passou tanto tempo convivendo com Sesshoumaru.

Rin franziu o cenho.

— Imagino que isso tenha sido um insulto.

— Apenas uma constatação.

Ela decidiu não responder mais e eles continuaram caminhando.

Escadas esculpidas diretamente na pedra conduziam cada vez mais para cima. O ar tornava-se mais frio a cada nível. Depois de algum tempo, chegaram ao topo da formação rochosa principal. O local parecia um mirante natural. Ali não havia construções, nem ninhos ou pontes, apenas pedra nua e céu. Muito céu.

Rin parou e se permitiu se impressionar: a vista era absurda. Montanhas se espalhavam em todas as direções, desaparecendo além do horizonte sob um manto de nuvens cinzentas. Por um instante, esqueceu completamente o motivo de estar ali, então ouviu. Vozes. Muitas vozes. Seu olhar percorreu o topo da formação rochosa e finalmente encontrou a origem.

Centenas de corvos, mas não Shibugarasu. Corvos comuns. Ou talvez servos menores ou incompletos. As aves cobriam as pedras ao redor como uma massa viva de penas negras e branca, algumas pousando em galhos secos de árvores tortas, outras permanecendo imóveis sobre os penhascos. Todas observando, escutando, esperando por algo.

Rin sentiu um arrepio.

— O que é tudo isso?

Shigure abriu os braços.

— Meu reino. Meus olhos. Os pequenos clãs das Terras do Oeste acreditam que grandes eventos anunciam a si mesmos.

Ele caminhou lentamente entre as aves. Nenhuma se afastou.

— Exércitos deixam pegadas. Senhores demônios deixam rastros de destruição. Mercadores carregam rumores.

Um corvo pousou em seu ombro.

— Nós carregamos notícias.

Rin observou a ave inclinando a cabeça para ela.

— Não entendi.

— Claro que não.

Shigure apontou para o horizonte.

— Diga-me, Rin: quantos anos você tem?

— Dezessete.

— Dezessete.

A palavra pareceu divertir o líder dos Shibugarasu.

— Dezessete anos.

Ele então ergueu um dedo.

— Eu tenho trezentos e oitenta e seis.

Rin piscou.

— Isso não é tão impressionante quanto você acha.

— Não estou tentando impressioná-la.

Seu sorriso desapareceu.

— Estou tentando lhe mostrar um problema.

O vento soprou entre eles.

— Você tem dezessete anos.

Outro dedo foi erguido.

— Sesshoumaru tem séculos, até mais do que eu.

Outro.

— O pai dele tinha ainda mais séculos.

Outro.

— O pai do pai dele teve mais e muito mais séculos.

Ela já não gostava do rumo daquela conversa.

— E daí?

— E daí que você está tentando explicar um rio através da perspectiva de uma gota de chuva.

Rin cruzou os braços.

— Eu não estou tentando explicar nada. Você age como se eu estivesse oficialmente prometida à Sesshoumaru-sama, mas você nem mesmo sabe se eu desejo isso.

— E você acha que faria alguma diferença você querer ou não? Ninguém que já foi prometida a um youkai teve a oportunidade de recusar isso.

Rin estreitou os olhos.

— Eu não estou prometida a ninguém.

— Ainda insistimos nessa parte?

— Porque é a verdade!

— Não. É a sua interpretação.

Shigure caminhou até a borda do penhasco.

— Veja, garota. Você continua tentando discutir intenções. Eu não estou interessado nelas.

— Então está interessado em quê?

— Nas consequências.

O sorriso desapareceu.

— Intenções morrem com quem as possui. Consequências permanecem.

Rin permaneceu em silêncio.

— Há cento e cinquenta anos, um daiyoukai dos Vales do Norte tomou uma sacerdotisa humana como companheira. Ele jurou protegê-la. Jurou respeitá-la. Jurou que ela seria livre.

Ele abriu uma das mãos.

— Quando ela morreu, os filhos dela disputaram a herança. Os clãs ao redor disputaram os filhos. Três guerras começaram antes que os ossos da mulher esfriassem.

Rin franziu o cenho.

— O que isso tem a ver comigo?

— Tudo.

Shigure apontou para ela.

— Porque vocês dois continuam agindo como se fossem as únicas pessoas do mundo.

O vento fez as penas dos corvos agitarem-se ao redor deles.

— Você pode falar de sentimentos, mas clãs discutem sucessão. Sesshoumaru dos Inu-youkai do Oeste não possui consorte, não possui herdeiros e não estabeleceu uma linhagem. Ainda assim, passou anos protegendo uma única garota humana. Para qualquer observador, a conclusão mais natural é simples: ele pretende usá-la para perpetuar a sua linhagem.

Shigure fez uma pausa bem breve, então concluiu:

— Ou decidiu que a linhagem dos grandes Inu-youkai do Oeste terminará com ele.

Algo dentro de Rin se apertou, mas ela se sentiu incapaz de tecer qualquer comentário por alguns instantes. Por fim, desviou o olhar.

— Isso não é problema meu.

Shigure soltou uma risada curta.

— Não?

— Não.

Ela cruzou os braços.

— Eu não tenho interesse na linhagem dos Inu-youkai. Não tenho interesse em territórios. Não tenho interesse em sucessão.

— Eu acredito em você.

A resposta imediata a fez franzir o cenho.

— Então por que continua insistindo nisso?

— Porque o que você deseja é irrelevante.

Rin sentiu a irritação voltar imediatamente.

— Isso é ridículo!

— É?

Shigure apontou para um dos corvos empoleirados em uma pedra próxima.

— Aquele pássaro deseja que o inverno chegue?

— O quê?

— Responda.

— Eu não faço ideia!

— Exatamente.

O líder dos Shibugarasu abriu um pequeno sorriso.

— O desejo dele não altera a chegada do inverno.

Rin cerrou os dentes.

— Eu não sou um pássaro.

— Não. Você é muito mais problemática.

As aves ao redor emitiram alguns grasnidos dispersos.

— Você não deseja governar nada. Eu acredito nisso. Você não deseja influenciar o futuro das Terras do Oeste. Também acredito nisso!

Ele ergueu os olhos dourados para ela.

— Mas continua influenciando tudo.

Rin permaneceu em silêncio.

— Essa é a parte que você ainda não compreende.

Shigure caminhou até a borda do penhasco, onde as nuvens cinzentas moviam-se lentamente entre os picos distantes.

— Você acredita que está vivendo a sua própria vida, mas você está vivendo a que tem sob a sombra de Sesshoumaru.



Shigure não permaneceu para ouvir qualquer tréplica. Com um movimento fluido de suas longas mangas escuras, ele se virou, deixando que os corvos sobreviventes o envolvessem até que sua figura se misturasse à névoa que subia do desfiladeiro. Rin foi escoltada de volta por duas sentinelas silenciosas, cujos olhos amarelados não piscavam, até o aposento de pedra que lhe fora designado.

A pesada porta de madeira de carvalho bateu com um som surdo, e o estalido da tranca pelo lado de fora ecoou como uma sentença. Rin estava sozinha novamente.

Ela caminhou até o centro do quarto, mas não se sentou no futon rústico. Suas mãos, levemente trêmulas não de medo, mas de uma indignação fervilhante, tatearam a barra interna de suas vestes até que seus dedos encontraram o metal frio e familiar. Ela puxou a faca que Kohaku lhe dera. A lâmina curta e afiada capturou a pouca luz que entrava pela fresta da janela alta.

— Três semanas... — ela sussurrou para si mesma, sentindo o peso daquela revelação esmagar seu peito. — Três semanas que fui embora e ainda não mandei notícias...

“Sesshoumaru-sama...”

As palavras de Shigure ecoavam em sua mente como o grasnido irritante dos corvos.

Rin fechou os olhos com força, apertando o cabo da faca com tanta intensidade que os nós de seus dedos ficaram brancos. O mundo youkai queria transformá-la em um símbolo de fraqueza, em uma peça de xadrez para testar os limites do Senhor das Terras do Oeste, a ruína dele. Se ela ficasse ali, sentada, esperando que Sesshoumaru cruzasse os céus para resgatá-la, ela estaria validando cada palavra venenosa de Shigure. Estaria aceitando o papel de isca.

— Eu não vou ser a desculpa para uma guerra — Rin declarou para as paredes de pedra vazias, os olhos abrindo-se com uma determinação cortante. — E não vou fazer Sesshoumaru-sama limpar a minha bagunça.

Ela guardou a faca e começou a inspecionar o aposento com o olhar treinado de quem passou a infância observando a estrutura de cabanas, florestas e armadilhas. O quarto era uma cela de luxo escavada na própria rocha da montanha. Havia uma única janela, alta demais para o alcance de um humano comum, e estreita o suficiente para que apenas uma silhueta esguia como a dela pudesse cogitar passar.

Rin arrastou a pequena mesa de madeira baixa até a parede sob a janela, tomando o cuidado de não fazer barulho contra o chão de pedra. Subiu nela, mas ainda faltavam alguns palmos. Sem hesitar, ela empilhou o rolo do futon e as pesadas mantas de lã sobre a mesa. O arranjo ficou instável, mas, equilibrando-se com a ponta dos pés, Rin conseguiu alcançar o parapeito de rocha fria.

Ao erguer o corpo e olhar para fora, o vento gelado a atingiu no rosto, bagunçando seus cabelos. A vista era aterrorizante: a janela dava para os fundos da agulha de pedra, uma queda vertical direta para o abismo enevoado. No entanto, o trabalho dos Shibugarasu na pedra não era perfeito. Para esculpir a torre, eles haviam deixado sulcos, saliências e pequenas fendas na rocha externa onde as raízes de arbustos secos e retorcidos teimavam em crescer.

Para um guerreiro como Kohaku, aquela descida seria simples. Para uma humana sem poderes espirituais, força sobre-humana ou treinamento de taijiya, era quase um suicídio. Quase.

— Eu já caí de lugares piores... — Rin murmurou para si mesma, lembrando-se de sua infância turbulenta.

Antes de subir, ela precisava se preparar. Voltou ao chão e usou a faca para rasgar as barras inferiores de seu quimono longo, transformando-o em uma vestimenta mais curta que permitisse o movimento livre de suas pernas, amarrando as tiras soltas ao redor das coxas para que o tecido não ganhasse o vento. Ela prendeu o cabelo firmemente em um coque alto e garantiu que a faca estivesse firmemente presa à sua cintura.

Subindo novamente na estrutura improvisada, Rin apoiou os cotovelos no parapeito da janela e jogou as pernas para o lado de fora. O vazio abaixo dela parecia puxá-la, a névoa cinzenta ocultando o chão de forma ameaçadora. Ela respirou fundo, controlando a vertigem, e buscou com o pé direito o primeiro apoio: uma raiz grossa e seca que brotava da fenda da rocha.

O teste de peso fez a madeira estalar, mas ela segurou. Lentamente, Rin escorregou o resto do corpo para fora da janela, os dedos das mãos agarrando-se à borda de pedra até que estivesse completamente pendurada na lateral da torre dos Shibugarasu.

O frio era congelante, e a rocha áspera arranhou a pele de seus dedos quase imediatamente, mas ela se recusou a soltar. Degrau por degrau, fenda por fenda, Rin começou sua descida silenciosa pelas costas da fortaleza. Acima dela, o som de corvos grasnando ao longe indicava que as sentinelas continuavam vigiando os pátios principais, sem imaginar que a prisioneira estava se esgueirando pelo lado cego da montanha.

A meio caminho da base da agulha de pedra, um pedaço de rocha cedeu sob seu pé esquerdo. O estalo foi nítido, e o corpo de Rin pendeu violentamente para o lado, sustentado apenas pela força de suas mãos agarradas a uma saliência estreita. O impacto arrancou um gemido abafado de sua garganta, e ela sentiu o sangue quente começar a escorrer de suas palmas feridas, misturando-se à poeira cinzenta.

Ela olhou para baixo. A névoa estava mais espessa ali, o que era uma vantagem para se esconder, mas um perigo terrível para onde pisar. Faltavam cerca de três metros para alcançar uma das passarelas de madeira inferiores que conectavam a base da torre às trilhas externas da montanha.

Com os braços latejando de exaustão e a pele viva das mãos ardendo com o vento frio, Rin reuniu suas últimas forças. Ela não podia parar. Se Shigure a encontrasse ali, ela perderia a única chance de ditar os termos de sua própria vida.

Ela se soltou.

A queda livre durou apenas um segundo, mas pareceu uma eternidade. Rin atingiu a passarela de madeira com um baque surdo, rolando para amortecer o impacto conforme Kohaku a havia ensinado durante os treinos no vilarejo. A madeira velha rangeu protestando sob seu peso, e por um instante terrível, ela ficou imóvel, escutando atentamente para ver se o barulho havia atraído atenção.

Apenas o vento respondeu.

Rin se levantou devagar, limpando o sangue das mãos nas vestes rasgadas. Cada músculo de seu corpo protestava, mas a sensação de liberdade, mesmo ali, no território inimigo, era inebriante. Ela olhou para a névoa que se estendia diante da trilha da montanha. Não sabia exatamente a direção do vilarejo a partir daquele ponto alto, mas sabia que qualquer caminho para longe daquela fortaleza era o caminho certo.

— Eu estou voltando — ela sussurrou, não como uma promessa de resgate, mas como uma afirmação de sua própria vontade.

E, com passos rápidos e determinados, Rin desapareceu na névoa, deixando a torre de Shigure para trás. Ainda assim, não conseguiu ignorar a estranheza da ausência de alarmes, gritos, corvos ou qualquer sinal de perseguição. Considerando tudo o que ouvira sobre os Shibugarasu, aquilo parecia impossível.