Kagome estava absolutamente certa de que aquela conversa não deveria ser difícil.

Mas, de algum modo… Foi.

— Inuyasha — ela começou, cruzando os braços enquanto o observava andar de um lado para o outro como um animal inquieto — Você precisa pedir a minha mão.

Ele parou. Virou-se. Piscou.

— Eu já pedi!

— Não pediu...

— Pedi sim!

— Você disse apenas que “ia fazer direito”.

— E vou!

— Então, faça!

Silêncio. Ele franziu o cenho.

— Keh. Já tá resolvido, não tá?

Kagome inclinou levemente a cabeça.

— Está?

— Tá!

— Então por que você ainda não pediu?

Ele abriu a boca. Fechou. Desviou o olhar.

— Porque… — ele começou, irritado — Porque não tem nada pra pedir, oras! A gente já tá junto!

— Inuyasha…

Ela suspirou, aproximando-se um pouco.

— Não é só sobre a gente.

Ele não respondeu, mas também não foi embora.

— É sobre anunciar — ela continuou. — Sobre deixar claro.

— Pra quem?

— Pra todo mundo.

— Keh. E todo mundo já sabe!

— A minha família não.

Silêncio.

Pesado.

Ele piscou uma vez. Duas.

— F…Família?

Kagome assentiu.

— A minha mãe. O meu avô. O Souta.

Os nomes ficaram no ar, diferentes, mais concretos, mais reais.

— Você quer que eu vá ? — ele perguntou, mais baixo.

— Claro que quero.

Ele ri, curto e sem humor.

— Keh... Precisa mesmo disso?

— Claro que precisa, Inuyasha. O casamento acontece depois que a mulher aceita o pedido oficial do homem, perante a família dela. E você ainda não pediu a minha mão.

— Eu... Droga...

— Sim.

Ele passou a mão pelos cabelos agora novamente prateados, irritado.

— Por que é que vocês humanos seguem tantas regras estranhas e desnecessárias?! O meu velho não pediu a minha mãe em casamento! Ele só chegou lá, e a levou! E então eles ficaram juntos, até me terem!

Kagome ficou em silêncio por um instante. Então cruzou os braços novamente, inclinando levemente a cabeça.

— E olha no que deu, né?

Inuyasha travou.

— O que...? — ele desviou o olhar — Isso é diferente!

— É mesmo? — Kagome rebateu, calma demais. — Em quê?

— O velho era um youkai! Youkai agem de acordo com a natureza! Youkai não pedem a mão, youkai não se apresentam à família de ninguém! Eles só chegam e assumem o que querem! E, então, todos entendem o que aconteceu ali! Os que não entendem, simplesmente não têm importância desde que não venham encher o saco!

Kagome não respondeu imediatamente. Ela o observou. De verdade. Como se estivesse tentando entender até onde aquelas palavras eram só teimosia… E até onde eram algo mais profundo.

— Entendi… — disse, por fim, calma demais.

Inuyasha franziu o cenho.

— Keh?

— Então, é assim que funciona pra você? — ela continuou. — Você só chega… E decide?

— Não é “decidir”! — ele retrucou, irritado. — É apenas como as coisas são!

— Para youkai, Inuyasha! Você, o que é?

— Eu—!

Ele parou, franziu o cenho e bufou.

— Mas... É como as coisas são! Ou, pelo menos... Como deveriam ser!

Kagome deu um passo à frente.

— Não.

Agora, o tom dela havia mudado. Não era mais provocação. Era firmeza.

— “Como deveriam ser”... Para você, isso inclui tudo?

Ele franziu o cenho.

— Como assim?

— Tudo — ela repetiu. — Ou só o que é conveniente para você?

Inuyasha não respondeu.

— Eu não sou uma princesa humana isolada em um palácio, nem sou um território, ou um prêmio — ela continuou. — Eu tenho uma família. Eu tenho uma casa. Eu tenho uma vida inteira que você não conhece completamente. E você não vive como um youkai. Você não trata os humanos como propriedade ou algo sem importância. Então, você não simplesmente “chega e assume” o que quer sem olhar para trás.

Ele desviou o olhar, mas não foi embora. Não ainda. Parecia um tanto... Envergonhado. Kagome suspirou antes de continuar.

— Eu não quero que você mude quem você é... Eu só quero que você faça parte de tudo o que eu sou — ela disse, mais baixo agora.

Um silêncio mais pesado que antes se formou entre os dois, por alguns instantes.

— Não é só “ficar comigo”, Inuyasha… — ela continuou. — É ficar com tudo o que vem junto.

Ele passou a mão pelo rosto, irritado, mas não rebateu.

— Keh… — murmurou.

— O seu pai era um youkai de um tempo muito antigo. Ele entendia as coisas de uma forma diferente de nós, acho que até mesmo dos youkai de agora. Eu não acho que o Sesshoumaru seria capaz de levar uma garota de sua vila. E, ainda assim... Ele escolheu uma moça humana.

O olhar dele vacilou por um instante.

— Escolheu ficar — ela acrescentou. — Escolheu proteger. Escolheu… Construir algo. Como você. Talvez ele não tenha pedido da forma que eu estou te pedindo para pedir agora, mas ele também não tratou isso como algo sem importância.

Ela esperou por alguns instantes, até que Inuyasha finalmente retomasse a palavra.

— Isso é um saco… — murmurou ele.

— Eu sei. Mas é importante para mim.

Isso foi o que realmente o atingiu, aparentemente, pois Inuyasha parou de andar. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos dourados desviaram, como se ele estivesse pensando em algo que não sabia colocar em palavras.

— Então... Eu tenho que ir lá — disse, por fim.

Não era exatamente uma pergunta, mas também não era uma afirmação segura. Kagome assentiu.

— Sim.

Ele respirou fundo.

— E falar com eles.

— Sim.

— E pedir.

— Sim.

— Pra todos eles.

— Sim.

Silêncio.

Ele fez uma careta.

— Keh… isso é ridículo…

— Está com vergonha?

Ele virou imediatamente.

— Eu não tenho vergonha de nada!

Kagome sorriu.

— Então, vamos.

— ...! Vamos?

— Isso não é resposta.

— Eu vou! — ele respondeu, rápido demais.

Kagome ergueu uma sobrancelha.

— Vai?

— Vou!

— E vai pedir?

Ele ficou vermelho, até as pontas das orelhas de Akita.

— Eu… Vou dar um jeito, não se preocupe!

E Kagome riu, dessa vez não segurando.

— Certo — disse, cruzando os braços de novo. — Então você precisa se preparar.

Inuyasha estreitou os olhos.

— Preparar…? Como?

O sorriso dela voltou, lento, perigoso.

— Vem comigo.

Ele deveria ter desconfiado, mas, pelo visto, não desconfiou o suficiente.


A cabana ficou silenciosa por um breve instante depois que Kagome disse aquilo. Inuyasha não gostou nada do silêncio.

— Eu não vou usar nada estranho — ele avisou, antes mesmo de ela se mexer.

Kagome nem respondeu. O que, por si só, já era um péssimo sinal — para ele. Ela apenas se virou, caminhando até um pequeno baú encostado na parede, abrindo-o com calma demais.

— Kagome…

Nenhuma resposta.

Ela começou a remexer entre as coisas com uma familiaridade que deixou Inuyasha imediatamente desconfiado.

— Kagome.

— Hm?

— Eu tô falando sério!

— Eu também.

Ela puxou uma peça de roupa. Depois outra. E mais outra. Quando se virou, Inuyasha estreitou os olhos e ergueu as orelhas.

— Não.

— Sim.

— Não!

— Sim.

— Eu não vou usar isso.

Kagome ergueu levemente uma das sobrancelhas.

— Por quê?

— Porque isso aí não é roupa de luta!

— Você não vai lutar com ninguém!

— Você não sabe!

Ela suspirou, já acostumada.

— Inuyasha… Você vai ver a minha família, não enfrentar um youkai.

— Tanto faz!

— Não, não faz!

Silêncio.

Ele cruzou os braços, emburrado.

— Eu vou assim...

— Não vai.

— Vou.

— Não vai!

— Kagome!

— Inuyasha!

Eles se encararam por alguns segundos.

— Você quer mesmo causar uma boa impressão? — ela perguntou, por fim.

Ele abriu a boca, mas parou.

— Keh… Eu não me importo com isso!

— Mas eu me importo!

Aquilo acertou direto. Ele desviou o olhar e bufou.

— Báa, mas que droga!

Kagome não perdeu tempo.

— Tira.

— O quê?!

— A roupa!

— NÃO.

— Inuyasha...

— Nem pensar!

— Inuyasha.

— Keh!!

Ele hesitou, mas só por um segundo. Foi o bastante. Kagome avançou.

— E—Ei!

— Fica parado!

— Eu não vou—

SENTA!

O colar de contas reagiu, e Inuyasha imediatamente foi lançado ao chão, sem que Kagome precisasse realizar qualquer esforço extra. Então ela puxou o quimono escarlate com firmeza. Ele tentou resistir, mas estava paralisado pelo encanto do colar.

— Báa, isso é ridículo!!! — resmungou Inuyasha.

— Você vai sobreviver.

— Eu não vou!!!

— Vai sim!

— Kagome!

— Para de reclamar!

— Eu não tô reclamando!

— Está sim! À noite, você não fica assim, tão sem jeito, não é mesmo?!

Silêncio.

Inuyasha travou.

Completamente.

— …Heeeh?!

O rosto dele ficou vermelho, instantaneamente, então...

— NÃO FIQUE DIZENDO ESSAS COISAS ASSIM, EM VOZ ALTA!

— Então para de reclamar!

— Keh—!!!

Algum tempo depois, Inuyasha estava parado no meio da cabana, totalmente vestido e completamente insatisfeito.

— Eu não acredito nisso…

Kagome deu um passo para trás, analisando.

— Hm…

— Para de olhar!!

Ela riu. Não conseguiu evitar.

— Você está lindo...

— Keh…

Ele puxou a gola da roupa com evidente desconforto.

— Isso aqui é estranho.

— É roupa — Kagome respondeu, simples.

— Não é a minha.

— Agora é.

Ele fez uma careta.

— Isso prende.

— Não prende.

— Prende sim!

— Não prende.

— Tá me prendendo SIM!

Kagome suspirou, mas havia um sorriso ali.

Ela deu mais um passo à frente, ajustando o tecido do novo quimono nos ombros dele com cuidado, alisando as dobras como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Você só não está acostumado a se vestir mais formalmente — disse, mais baixo.

Inuyasha desviou o olhar, mas não se afastou.

— E para de puxar isso — ela acrescentou, batendo levemente na mão dele.

Ele resmungou. Mas obedeceu. E, por um segundo, o silêncio voltou.

— Escuta — Kagome disse, depois de um instante. — Só… Tenta não arrumar confusão.

— Eu não arrumo confusão...

Ela só olhou, e ele desviou o olhar.

— Se ninguém mexer comigo.

— Não rosne para as pessoas...

— Eu não rosno!

— Não encare todo mundo como ameaça...

— Eu não faço isso!

Kagome riu baixo.

— E, por fim, não precisa tentar provar nada para ninguém.

Aquilo o fez finalmente parar.

— Só precisa ser você — ela completou.

Inuyasha não respondeu, mas o seu corpo relaxou um pouco. O suficiente.

— Tá bom... — murmurou, baixinho.

Ela recuou um passo, analisando mais uma vez.

— Pronto.

— “Pronto” nada…

Mas já não havia tanta resistência na voz. Kagome caminhou até a porta da cabana, empurrando-a levemente para fora. A luz do dia entrou, suave. Ela olhou por cima do ombro.

— Vamos?

Ele hesitou por um segundo, talvez dois, e então bufou.

— Vamos logo com isso então…

E caminhou até ela, sem reclamar, sem parar.

Quando ele passou por Kagome, ela segurou a mão dele, natural. Como se aquilo já fosse esperado. Inuyasha olhou para a mão, depois para ela, mas não disse nada. Só apertou de volta, levemente.

— Não vai me fazer passar vergonha, né? — ela provocou.

— Não prometo nada.

Ela riu.

E, juntos, saíram da cabana. O caminho até o poço não era longo, mas, dessa vez, parecia diferente.