犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
24 二十四 かごめ Kagome
A manhã encontrou os Higurashi diante de uma fachada discreta em uma rua tranquila.
A loja especializada em vestimentas tradicionais exibia um portal de madeira escura com caracteres dourados e o brasão de uma antiga linhagem de tecelões entalhado na estrutura.
Kagome parou a poucos passos da entrada, observando os manequins dispostos na vitrine.
— Eu ainda não entendo por que precisamos vir a uma loja inteira só para escolher uma roupa nova. O vendedor que deveria vir até a gente!
Resmungou Inuyasha, ajustando o gorro escuro que Kagome o fizera enfiar na cabeça para esconder as orelhas de Akita.
— Porque você vai se casar.
Ela virou-se para ele.
— Keh, eu sei disso!
— E noivos precisam de roupas formais adequadas.
— Eu já tenho uma roupa!
Kagome olhou para o quimono escarlate.
— Inuyasha, você usa essa mesma túnica de Rato de Fogo há mais de dez anos.
— E ela funciona perfeitamente! Não rasga, não queima e nunca precisa lavar! O que mais alguém precisaria?
Souta, que vinha logo atrás carregando a mochila, soltou uma risada baixa.
— Tecnicamente, a parte do "nunca precisa lavar" é uma vantagem imensa no mundo moderno.
— Souta.
Kagome o repreendeu com o olhar.
— Só estou dizendo, mana.
Vovô ajeitou os óculos sobre o nariz, ajustando a postura e assumindo uma expressão de profunda solenidade clerical.
— Um matrimônio exige vestimentas purificadas e apropriadas à solenidade. Não podemos permitir que o noivo apareça diante dos kami e dos ancestrais vestido como se estivesse a caminho de esquartejar um demônio no meio da floresta!
Inuyasha cruzou os braços, inclinando a cabeça com tédio.
— Mas eu vou continuar usando meu traje escarlate depois dessa cerimônia, tá bom?
— Depois da cerimônia, você faz o que quiser, hanyou — retrucou Vovô. — Mas, na frente do altar, você vestirá o montsuki*!
Inuyasha estreitou os olhos âmbares.
— Keeh...
Mamãe abafou uma risada atrás da manga do casaco.
— Entrem logo, vocês dois!
O interior da loja era muito mais amplo do que a fachada fazia parecer.
O ar tinha um cheiro agradável de seda limpa, madeira envernizada e chá de jasmim. As paredes estavam cobertas por peças cuidadosamente organizadas em capas protetoras. Havia seções completas para quimonos femininos, faixas obi tecidas a ouro, haori rígidos e acessórios dispostos sob vitrines de vidro, enquanto atendentes de postura impecável circulavam em silêncio absoluto.
Inuyasha parou logo no primeiro degrau do tatame de entrada. Seus olhos vasculharam o salão como se estivesse farejando uma emboscada.
— Cheira a loja de aristocrata folgado...
Souta inclinou-se para o cunhado, sussurrando:
— E você ainda não viu a parte dos trajes de noiva.
Inuyasha lançou-lhe um olhar de curiosidade.
— É tão exagerado assim?
Kagome sorriu, pegando-o pelo cotovelo para puxá-lo para dentro.
— Vai ter que ver, sim, quando eu for escolher o meu shiromuku**.
— Eu posso esperar do lado de fora, no topo daquela árvore do estacionamento.
— Não, não pode.
— Por quê?
— Porque você é o noivo.
— Eu deixo você escolher o que achar melhor!
— Não.
Mamãe adiantou-se até uma das atendentes mais velhas, explicando em tom amável que procuravam a vestimenta masculina para uma cerimônia xintoísta tradicional. A mulher curvou-se com elegância e os conduziu até uma seção reservada nos fundos, onde manequins de madeira exibiam trajes sóbrios e aristocráticos.
— Para uma cerimônia tradicional, a escolha indiscutível é o kuromontsuki haori hakama*** — explicou a especialista, deslizando as mãos com luvas brancas sobre o tecido grosso de um traje exposto. — O conjunto formal é composto pelo quimono de seda preta, o haori combinando e o hakama plissado em tons de cinza e preto. Tradicionalmente, bordamos os cinco brasões da família no peito, costas e mangas.
Inuyasha encarou o conjunto sombrio pendurado diante dele.
Preto. Rigidamente preto, sem qualquer brilho ou detalhe colorido.
Ele franziu o cenho, o bufo saindo alto pelo nariz.
— Isso é tudo?
A atendente piscou, nitidamente surpresa pela falta de etiqueta do jovem de cabelos prateados.
— Perdão?
— É só preto. Como um Shibugarasu.
Souta teve que morder o lábio com força, virando o rosto para a parede para não explodir em gargalhadas.
— Inuyashaa...
Kagome avisou, os dentes cerrados num sorriso amarelo para a atendente.
— O quê? É tipo roupa de enterro.
Vovô arregalou os olhos, escandalizado.
— Não diga a palavra "enterro" numa loja de casamento, seu insolente!
— Mas tem a mesma cor dos sacerdotes das montanhas quando vão enterrar defunto!
Mamãe finalmente deixou escapar uma risada clara, balançando a cabeça.
— Você não precisa gostar da cor para o resto da vida, Inuyasha. Só precisa experimentar para vermos o caimento.
E ele soltou um suspiro profundo, o peito estufando contra o quimono vermelho.
— E isso vai demorar?
— O ajuste de um hakama exige precisão, jovem senhor — respondeu a atendente, recuperando a postura profissional. — Levará o tempo necessário.
As orelhas sob o gorro baixaram visivelmente.
— “Tempo necessário”?
Kagome aproximou-se, dando um leve tapinha confortador nas costas dele.
— Você já passou três dias preso numa caverna, Inuyasha. Vai sobreviver a vinte minutos de prova de roupa.
— Lutar é muito mais fácil do que ficar parado feito uma estátua enquanto uma velha me espeta com agulhas!
Resmungou, mas deixou-se ser guiado para trás da pesada cortina do vestiário.
Do lado de fora, a família ajeitou-se nos estofados de espera.
— Ele vai rasgar a barra do hakama no primeiro passo e tentar pular pela janela do provador.
Murmurava Souta, ajustando a posição na cadeira.
— Ele não vai.
Disse Kagome, embora suas próprias mãos estivessem inquietas no colo.
— Como você tem tanta certeza?
— Porque, no fundo, ele quer fazer isso do jeito certo.
Souta abriu um sorriso provocador.
— Você acha mesmo que o orgulho daquele hanyou teimoso aguenta duas horas de amarras de seda sem surtar?
Kagome olhou para a cortina fechada de onde vinham resmungos abafados e o som da atendente pedindo educadamente para o cliente "ficar ereto e parar de rosnar para o espelho".
— ...Talvez noventa por cento de certeza.
Ela admitiu.
Então o som do trilho de metal cortou a conversa.
A cortina deslizou para o lado.
Inuyasha deu um passo à frente, e o burburinho da loja pareceu desaparecer por um instante.
Ele vestia o kuromontsuki completo. O quimono de seda preta caía perfeitamente reto sobre seus ombros, ajustado no peito; o haori pesado dava-lhe um porte ereto e imponente, enquanto as dobras plissadas do hakama cinza-chumbo tocavam o tatame com elegância impecável. A ausência do tom escarlate habitual revelava a verdadeira estrutura do seu corpo — alto, esguio, com o contraste retumbante da seda preta contra a pele clara e a cascata de cabelos prateados que caíam por cima do casaco formal.
Nos ombros e no peito, a atendente colocara provisoriamente os apliques brancos dos brasões do Templo Higurashi — um detalhe que o Vovô solicitara discretamente à gerência.
Inuyasha deu um passo hesitante, visivelmente incomodado com a rigidez do tecido no quadril.
— Essa coisa prende as pernas. Se alguém me atacasse agora, eu nem conseguiria dar um salto decente...
Ele ajustava a faixa branca no peito.
— E então? Fiquei parecendo um defunto ou não?
Ninguém respondeu de imediato.
Souta piscou, impressionado. Vovô ajeitou os óculos pela terceira vez, a expressão severa desarmando-se em uma aprovação silenciosa e solene. Mamãe levou as mãos ao peito, com um sorriso radiante.
— Ficou absolutamente maravilhoso, Inuyasha!
Disse Mamãe.
— Você parece um verdadeiro senhor de época!
— Um noivo de altíssima nobreza!
Concordou o Vovô, acenando com a cabeça.
— Os ancestrais certamente aprovarão esta imagem.
Souta levantou os dois polegares, rindo de leve:
— Cara, se você andar na rua assim, o pessoal vai achar que você é ator principal de novela de época da NHK!
Inuyasha franziu o cenho para o cunhado.
— Eu não sei o que é NHK, mas esse seu tom soou como deboche, moleque...
Mas seus olhos âmbares não ficaram em Souta por muito tempo. Eles buscaram outra pessoa.
Kagome continuava estática no estofado.
O peito dela deu uma volta completa. Ela sempre soubera que Inuyasha era bonito — com a beleza selvagem e indomável de um hanyou que passou a vida lutando para sobreviver em florestas —, mas vê-lo ali, despido da armadura de combate escarlate e vestido com a nobreza sóbria de um noivo humano, tirou-lhe o ar de um jeito que ela não esperava.
As orelhas sob o gorro moveram-se levemente. Inuyasha deu meio passo à frente.
— Kagome...? Ficou tão esquisito assim?
Ela piscou, despertando do transe, e um sorriso lento, radiante e aquecido se espalhou por seu rosto.
— Não...
Ela levantou-se devagar, caminhando até ele no tatame.
— Não ficou nada ruim. Você está... incrivelmente bonito, Inuyasha!
A reação dele foi instantânea: um rubor subiu rápido, cobrindo o pescoço e tingindo as bochechas e possivelmente as pontas das orelhas sob o tecido do gorro. Então ele desviou o rosto bruscamente para a parede lateral.
— Keh... É só uma roupa preta desconfortável...
— Eu sei.
Kagome riu baixo, diminuindo os últimos centímetros de distância entre eles.
— Então para de me encarar com essa cara boba!
Kagome inclinou a cabeça, os olhos brilhando de provocação e ternura.
— Que cara?
— Essa cara aí! De quem tá gostando disso!
— Mas eu estou gostando.
— Kagome!
Souta não aguentou e caiu na gargalhada de novo:
— Olhem só, ele tá mais vermelho do que a roupa velha dele!
— Cala a boca, moleque!!!
— Tente me pegar com esse hakama apertado aí!
Provocou o garoto, escondendo-se atrás de Mamãe.
— Oora, seu...!
Mas antes que Inuyasha pudesse avançar, Kagome ergueu as duas mãos e tocou suavemente o peito do haori dele. Os dedos dela deslizaram pela seda fria, ajeitando as dobras do tecido perto da fita branca amarrada no peito.
O toque suave foi um freio imediato: Inuyasha travou no lugar, o rosnado irritado morreu na garganta e ele baixou os olhos para ela, os ombros relaxando sob as mãos de Kagome.
— É estranho...
Ela murmurou, ajeitando o pequeno brasão do templo no ombro dele.
— O quê?
— Ver você assim.
Inuyasha a observava.
— Eu continuo sendo o mesmo... As garras continuam aqui sob essas tais luvas, e a Tessaiga tá encostada ali no canto.
— Eu sei que continua.
Kagome ergueu o olhar, encontrando os olhos âmbares dele tão perto que podia ver o reflexo do próprio rosto neles.
— É justamente isso que torna tudo tão especial.
Ele franziu o cenho.
— Quando eu te conheci — Kagome continuou, o tom suave baixando para que apenas os dois ouvissem —, você estava preso àquela árvore por uma flecha de rancor. Estava com o quimono vermelho, rosnava para qualquer um que se aproximasse e parecia absolutamente convencido de que o mundo inteiro era seu inimigo e que você não precisava de ninguém.
Inuyasha desviou o olhar, o peito estufando com o velho orgulho defensivo.
— Eu ainda não preciso...
Kagome arqueou uma sobrancelha, o sorriso calmo permanecendo intacto.
— Ah, não?
E Inuyasha corou.
— ...Não preciso de ninguém além de você.
Ele resmungou, num tom tão baixo e involuntariamente honesto que parecia que estava engolindo uma pedra quente.
Kagome sentiu o peito derreter por completo. Ela deu um pequeno passo à frente, apoiando a testa de leve contra o peito coberto de seda preta dele.
— Eu gostei dessa roupa.
Disse, a voz abafada contra o trajes dele.
— É esta que você vai usar no nosso casamento.
Então Kagome sentiu, gradualmente, as mãos dele pousando com cuidado em suas costas, envolvendo-a diante da loja inteira.
— Se você tá dizendo...
Ele murmurou, a voz rouca.
— Então vai ser essa.
A atendente, que observava a cena com as mãos postas à frente do corpo, soltou um suspiro encantado e começou a anotar as medições definitivas no bloco de papel.
Souta aproximou-se devagar, com um sorriso torto de canto de boca.
— Então a fera foi domada por um traje de gala?
— Se você disser mais uma palavra sobre isso, moleque, eu juro que te bato na saída! — disse Inuyasha.
— Não dentro da loja, por favor, meninos!
Pediu Mamãe, rindo baixinho enquanto pegava a bolsa para acertar o sinal da compra.
Kagome afastou-se de Inuyasha devagar, segurando as mãos dele e entrelaçando os dedos nos dele. Ela olhou para a imagem dos dois refletida no grande espelho do vestiário: a garota do século XXI e o hanyou da Era Feudal agora vestindo o tom solene de um noivo prestes a dar o passo mais definitivo de sua vida.
A incerteza do poço selado continuava lá fora no templo, mas ali, dentro daquela seda preta e sob o olhar da família, o casamento deixou de ser apenas um plano no calendário.
Tornara-se real.
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