A manhã encontrou os Higurashi diante de uma fachada discreta em uma rua tranquila.

A loja especializada em vestimentas tradicionais exibia um portal de madeira escura com caracteres dourados e o brasão de uma antiga linhagem de tecelões entalhado na estrutura.

Kagome parou a poucos passos da entrada, observando os manequins dispostos na vitrine.

— Eu ainda não entendo por que precisamos vir a uma loja inteira só para escolher uma roupa nova. O vendedor que deveria vir até a gente!

Resmungou Inuyasha, ajustando o gorro escuro que Kagome o fizera enfiar na cabeça para esconder as orelhas de Akita.

— Porque você vai se casar.

Ela virou-se para ele.

— Keh, eu sei disso!

— E noivos precisam de roupas formais adequadas.

— Eu já tenho uma roupa!

Kagome olhou para o quimono escarlate.

— Inuyasha, você usa essa mesma túnica de Rato de Fogo há mais de dez anos.

— E ela funciona perfeitamente! Não rasga, não queima e nunca precisa lavar! O que mais alguém precisaria?

Souta, que vinha logo atrás carregando a mochila, soltou uma risada baixa.

— Tecnicamente, a parte do "nunca precisa lavar" é uma vantagem imensa no mundo moderno.

— Souta.

Kagome o repreendeu com o olhar.

— Só estou dizendo, mana.

Vovô ajeitou os óculos sobre o nariz, ajustando a postura e assumindo uma expressão de profunda solenidade clerical.

— Um matrimônio exige vestimentas purificadas e apropriadas à solenidade. Não podemos permitir que o noivo apareça diante dos kami e dos ancestrais vestido como se estivesse a caminho de esquartejar um demônio no meio da floresta!

Inuyasha cruzou os braços, inclinando a cabeça com tédio.

— Mas eu vou continuar usando meu traje escarlate depois dessa cerimônia, tá bom?

— Depois da cerimônia, você faz o que quiser, hanyou — retrucou Vovô. — Mas, na frente do altar, você vestirá o montsuki*!

Inuyasha estreitou os olhos âmbares.

— Keeh...

Mamãe abafou uma risada atrás da manga do casaco.

— Entrem logo, vocês dois!

O interior da loja era muito mais amplo do que a fachada fazia parecer.

O ar tinha um cheiro agradável de seda limpa, madeira envernizada e chá de jasmim. As paredes estavam cobertas por peças cuidadosamente organizadas em capas protetoras. Havia seções completas para quimonos femininos, faixas obi tecidas a ouro, haori rígidos e acessórios dispostos sob vitrines de vidro, enquanto atendentes de postura impecável circulavam em silêncio absoluto.

Inuyasha parou logo no primeiro degrau do tatame de entrada. Seus olhos vasculharam o salão como se estivesse farejando uma emboscada.

— Cheira a loja de aristocrata folgado...

Souta inclinou-se para o cunhado, sussurrando:

— E você ainda não viu a parte dos trajes de noiva.

Inuyasha lançou-lhe um olhar de curiosidade.

— É tão exagerado assim?

Kagome sorriu, pegando-o pelo cotovelo para puxá-lo para dentro.

— Vai ter que ver, sim, quando eu for escolher o meu shiromuku**.

— Eu posso esperar do lado de fora, no topo daquela árvore do estacionamento.

— Não, não pode.

— Por quê?

— Porque você é o noivo.

— Eu deixo você escolher o que achar melhor!

— Não.

Mamãe adiantou-se até uma das atendentes mais velhas, explicando em tom amável que procuravam a vestimenta masculina para uma cerimônia xintoísta tradicional. A mulher curvou-se com elegância e os conduziu até uma seção reservada nos fundos, onde manequins de madeira exibiam trajes sóbrios e aristocráticos.

— Para uma cerimônia tradicional, a escolha indiscutível é o kuromontsuki haori hakama*** — explicou a especialista, deslizando as mãos com luvas brancas sobre o tecido grosso de um traje exposto. — O conjunto formal é composto pelo quimono de seda preta, o haori combinando e o hakama plissado em tons de cinza e preto. Tradicionalmente, bordamos os cinco brasões da família no peito, costas e mangas.

Inuyasha encarou o conjunto sombrio pendurado diante dele.

Preto. Rigidamente preto, sem qualquer brilho ou detalhe colorido.

Ele franziu o cenho, o bufo saindo alto pelo nariz.

— Isso é tudo?

A atendente piscou, nitidamente surpresa pela falta de etiqueta do jovem de cabelos prateados.

— Perdão?

— É só preto. Como um Shibugarasu.

Souta teve que morder o lábio com força, virando o rosto para a parede para não explodir em gargalhadas.

Inuyashaa...

Kagome avisou, os dentes cerrados num sorriso amarelo para a atendente.

— O quê? É tipo roupa de enterro.

Vovô arregalou os olhos, escandalizado.

— Não diga a palavra "enterro" numa loja de casamento, seu insolente!

— Mas tem a mesma cor dos sacerdotes das montanhas quando vão enterrar defunto!

Mamãe finalmente deixou escapar uma risada clara, balançando a cabeça.

— Você não precisa gostar da cor para o resto da vida, Inuyasha. Só precisa experimentar para vermos o caimento.

E ele soltou um suspiro profundo, o peito estufando contra o quimono vermelho.

— E isso vai demorar?

— O ajuste de um hakama exige precisão, jovem senhor — respondeu a atendente, recuperando a postura profissional. — Levará o tempo necessário.

As orelhas sob o gorro baixaram visivelmente.

— “Tempo necessário”?

Kagome aproximou-se, dando um leve tapinha confortador nas costas dele.

— Você já passou três dias preso numa caverna, Inuyasha. Vai sobreviver a vinte minutos de prova de roupa.

— Lutar é muito mais fácil do que ficar parado feito uma estátua enquanto uma velha me espeta com agulhas!

Resmungou, mas deixou-se ser guiado para trás da pesada cortina do vestiário.

Do lado de fora, a família ajeitou-se nos estofados de espera.

— Ele vai rasgar a barra do hakama no primeiro passo e tentar pular pela janela do provador.

Murmurava Souta, ajustando a posição na cadeira.

— Ele não vai.

Disse Kagome, embora suas próprias mãos estivessem inquietas no colo.

— Como você tem tanta certeza?

— Porque, no fundo, ele quer fazer isso do jeito certo.

Souta abriu um sorriso provocador.

— Você acha mesmo que o orgulho daquele hanyou teimoso aguenta duas horas de amarras de seda sem surtar?

Kagome olhou para a cortina fechada de onde vinham resmungos abafados e o som da atendente pedindo educadamente para o cliente "ficar ereto e parar de rosnar para o espelho".

— ...Talvez noventa por cento de certeza.

Ela admitiu.

Então o som do trilho de metal cortou a conversa.

A cortina deslizou para o lado.

Inuyasha deu um passo à frente, e o burburinho da loja pareceu desaparecer por um instante.

Ele vestia o kuromontsuki completo. O quimono de seda preta caía perfeitamente reto sobre seus ombros, ajustado no peito; o haori pesado dava-lhe um porte ereto e imponente, enquanto as dobras plissadas do hakama cinza-chumbo tocavam o tatame com elegância impecável. A ausência do tom escarlate habitual revelava a verdadeira estrutura do seu corpo — alto, esguio, com o contraste retumbante da seda preta contra a pele clara e a cascata de cabelos prateados que caíam por cima do casaco formal.

Nos ombros e no peito, a atendente colocara provisoriamente os apliques brancos dos brasões do Templo Higurashi — um detalhe que o Vovô solicitara discretamente à gerência.

Inuyasha deu um passo hesitante, visivelmente incomodado com a rigidez do tecido no quadril.

— Essa coisa prende as pernas. Se alguém me atacasse agora, eu nem conseguiria dar um salto decente...

Ele ajustava a faixa branca no peito.

— E então? Fiquei parecendo um defunto ou não?

Ninguém respondeu de imediato.

Souta piscou, impressionado. Vovô ajeitou os óculos pela terceira vez, a expressão severa desarmando-se em uma aprovação silenciosa e solene. Mamãe levou as mãos ao peito, com um sorriso radiante.

— Ficou absolutamente maravilhoso, Inuyasha!

Disse Mamãe.

— Você parece um verdadeiro senhor de época!

— Um noivo de altíssima nobreza!

Concordou o Vovô, acenando com a cabeça.

— Os ancestrais certamente aprovarão esta imagem.

Souta levantou os dois polegares, rindo de leve:

— Cara, se você andar na rua assim, o pessoal vai achar que você é ator principal de novela de época da NHK!

Inuyasha franziu o cenho para o cunhado.

— Eu não sei o que é NHK, mas esse seu tom soou como deboche, moleque...

Mas seus olhos âmbares não ficaram em Souta por muito tempo. Eles buscaram outra pessoa.

Kagome continuava estática no estofado.

O peito dela deu uma volta completa. Ela sempre soubera que Inuyasha era bonito — com a beleza selvagem e indomável de um hanyou que passou a vida lutando para sobreviver em florestas —, mas vê-lo ali, despido da armadura de combate escarlate e vestido com a nobreza sóbria de um noivo humano, tirou-lhe o ar de um jeito que ela não esperava.

As orelhas sob o gorro moveram-se levemente. Inuyasha deu meio passo à frente.

— Kagome...? Ficou tão esquisito assim?

Ela piscou, despertando do transe, e um sorriso lento, radiante e aquecido se espalhou por seu rosto.

— Não...

Ela levantou-se devagar, caminhando até ele no tatame.

— Não ficou nada ruim. Você está... incrivelmente bonito, Inuyasha!

A reação dele foi instantânea: um rubor subiu rápido, cobrindo o pescoço e tingindo as bochechas e possivelmente as pontas das orelhas sob o tecido do gorro. Então ele desviou o rosto bruscamente para a parede lateral.

— Keh... É só uma roupa preta desconfortável...

— Eu sei.

Kagome riu baixo, diminuindo os últimos centímetros de distância entre eles.

— Então para de me encarar com essa cara boba!

Kagome inclinou a cabeça, os olhos brilhando de provocação e ternura.

— Que cara?

— Essa cara aí! De quem tá gostando disso!

— Mas eu estou gostando.

— Kagome!

Souta não aguentou e caiu na gargalhada de novo:

— Olhem só, ele tá mais vermelho do que a roupa velha dele!

— Cala a boca, moleque!!!

— Tente me pegar com esse hakama apertado aí!

Provocou o garoto, escondendo-se atrás de Mamãe.

— Oora, seu...!

Mas antes que Inuyasha pudesse avançar, Kagome ergueu as duas mãos e tocou suavemente o peito do haori dele. Os dedos dela deslizaram pela seda fria, ajeitando as dobras do tecido perto da fita branca amarrada no peito.

O toque suave foi um freio imediato: Inuyasha travou no lugar, o rosnado irritado morreu na garganta e ele baixou os olhos para ela, os ombros relaxando sob as mãos de Kagome.

— É estranho...

Ela murmurou, ajeitando o pequeno brasão do templo no ombro dele.

— O quê?

— Ver você assim.

Inuyasha a observava.

— Eu continuo sendo o mesmo... As garras continuam aqui sob essas tais luvas, e a Tessaiga tá encostada ali no canto.

— Eu sei que continua.

Kagome ergueu o olhar, encontrando os olhos âmbares dele tão perto que podia ver o reflexo do próprio rosto neles.

— É justamente isso que torna tudo tão especial.

Ele franziu o cenho.

— Quando eu te conheci — Kagome continuou, o tom suave baixando para que apenas os dois ouvissem —, você estava preso àquela árvore por uma flecha de rancor. Estava com o quimono vermelho, rosnava para qualquer um que se aproximasse e parecia absolutamente convencido de que o mundo inteiro era seu inimigo e que você não precisava de ninguém.

Inuyasha desviou o olhar, o peito estufando com o velho orgulho defensivo.

— Eu ainda não preciso...

Kagome arqueou uma sobrancelha, o sorriso calmo permanecendo intacto.

— Ah, não?

E Inuyasha corou.

— ...Não preciso de ninguém além de você.

Ele resmungou, num tom tão baixo e involuntariamente honesto que parecia que estava engolindo uma pedra quente.

Kagome sentiu o peito derreter por completo. Ela deu um pequeno passo à frente, apoiando a testa de leve contra o peito coberto de seda preta dele.

— Eu gostei dessa roupa.

Disse, a voz abafada contra o trajes dele.

— É esta que você vai usar no nosso casamento.

Então Kagome sentiu, gradualmente, as mãos dele pousando com cuidado em suas costas, envolvendo-a diante da loja inteira.

— Se você tá dizendo...

Ele murmurou, a voz rouca.

— Então vai ser essa.

A atendente, que observava a cena com as mãos postas à frente do corpo, soltou um suspiro encantado e começou a anotar as medições definitivas no bloco de papel.

Souta aproximou-se devagar, com um sorriso torto de canto de boca.

— Então a fera foi domada por um traje de gala?

— Se você disser mais uma palavra sobre isso, moleque, eu juro que te bato na saída! — disse Inuyasha.

— Não dentro da loja, por favor, meninos!

Pediu Mamãe, rindo baixinho enquanto pegava a bolsa para acertar o sinal da compra.

Kagome afastou-se de Inuyasha devagar, segurando as mãos dele e entrelaçando os dedos nos dele. Ela olhou para a imagem dos dois refletida no grande espelho do vestiário: a garota do século XXI e o hanyou da Era Feudal agora vestindo o tom solene de um noivo prestes a dar o passo mais definitivo de sua vida.

A incerteza do poço selado continuava lá fora no templo, mas ali, dentro daquela seda preta e sob o olhar da família, o casamento deixou de ser apenas um plano no calendário.

Tornara-se real.

Notas finais
*紋付 ("montsuki"): literalmente "com brasão". Refere-se a qualquer traje tradicional japonês de corte formal que carrega bordados dos kamon (brasões de família) no peito, nas costas e nas mangas. O número de brasões indica o nível de formalidade da peça, sendo o modelo de 5 brasões (gomon) o mais solene de todos. **白無垢 ("shiromuku"): o traje de noiva mais tradicional e formal do xintoísmo. Consiste em um quimono inteiramente branco (incluindo os acessórios, o obi e o manto de copa uchikake). O branco simboliza a pureza, a iluminação espiritual e a disposição da noiva para "ser tingida pelas cores" da nova família em que está ingressando. ***黒紋 付羽 織袴 ("kuromontsuki, haori, hakama"): o conjunto matrimonial masculino de mais altíssimo grau de formalidade na cultura japonesa. É composto por: - kuromontsuki: o quimono base feito de seda preta com os 5 brasões da família; - haori: o casaco formal longo usado por cima do quimono, amarrado na frente por cordões trançados de seda branca (himo); - hakama: a calça-saia plissada e ampla (geralmente em tons verticais de cinza e preto), amarrada firmemente na cintura.