A dobragem de roupas da tarde fora apenas o primeiro ato.

Nos dias que se seguiram, a casa dos Higurashi transformara-se em um canteiro de obras invisível, onde cada canto guardava uma lista, uma caixa ou uma decisão pendente.

Kagome passara a manhã inteira ajudando a mãe a reorganizar o armário do anexo, separando o que podia ser doado e o que precisava ser guardado. Suas mãos estavam sujas de poeira e o cabelo preso num coque alto desajeitado quando Mamãe, enquanto passava um pano úmido na prateleira de madeira, fez a pergunta com a maior naturalidade do mundo:

— Você vai convidar suas amigas quando?

Kagome congelou com uma caixa de papelão nos braços. Piscou uma, duas vezes.

— ...É.

A palavra saiu pequena, quase um sopro. Uma onda repentina de culpa a atingiu em cheio. Na sua mente, Yuka, Eri e Ayumi ainda eram as garotas que sentavam ao seu lado na sala de aula, dividindo bento, fofocando sobre garotos e inventando desculpas esfarrapadas para os professores quando Kagome faltava às aulas devido às suas "doenças misteriosas".

Mas, para elas, nove anos haviam se passado. Quase uma década inteira de ausência ininterrupta.

Naquela mesma noite, Kagome caminhou até o telefone fixo no corredor da casa. Os botões faziam pequenos estalos enquanto ela discava o número que sua memória guardara com um carinho teimoso.

Quando a voz de Yuka atendeu do outro lado da linha, o tempo pareceu encolher por um segundo — até a surpresa do outro lado explodir em uma chuva de perguntas, e um encontro foi marcado para o final da tarde seguinte com a presença das outras duas membras do “Quarteto da Kagome”.


Na manhã seguinte, Kagome passou mais tempo do que gostaria escolhendo uma roupa. Era estranho sentir-se nervosa para encontrar pessoas que, durante tanto tempo, haviam sido parte de sua rotina. Talvez porque, no fundo, não soubesse se ainda havia um lugar para ela naquele futuro.

...

O café ficava a poucas quadras da estação de trem. Era um lugar modesto com estofados de vinil vermelho e cheiro constante de grãos torrados e waffles quentes. E era o mesmo tipo de lugar onde costumavam se reunir na época do colégio.

Quando Kagome cruzou a porta de vidro, o sininho acima dela mal teve tempo de tocar.

— KAGOME!

O grito em uníssono fez dois velhinhos no canto do estabelecimento se assustarem.

Antes que pudesse reagir, Kagome foi envolvida por um abraço triplo e desajeitado. Cheiro de perfumes florais, bolsas esbarrando e risos misturados a uma repreensão afetuosa.

— Você sumiu!

Eri protestou, segurando-a pelos ombros ao se afastar com os olhos brilhando.

— Sumiu de verdade! Sem telefone, sem endereço, sem nada!

— Nos disseram que você tinha se mudado para o exterior! Como pôde fazer isso sem nos comunicar, Kagome?!

Ayumi levou as mãos ao peito, a voz doce embargada de alívio.

— Onde você estava, Kagome? Você tá bem? Olhem para ela, ela parece... diferente!

Yuka puxou a cadeira, apontando para Kagome como se inspecionasse um mistério.

Kagome sentou-se, o rosto queimando de culpa e carinho. O calor humano daquelas três a envolveu como um manto acolhedor.

— Eu estou bem. De verdade — respondeu, a voz embargada. — Me desculpem... Por favor, me desculpem por ter sumido por tanto tempo.

Yuka cruzou os braços, embora o sorriso traísse sua pose severa.

— É bom que você tenha uma explicação muito boa!

Nove anos, Kagome! Achamos que você tinha se casado em segredo com algum príncipe e esquecido de nós, as meras mortais!

A pergunta veio implícita, pesada e curiosa. Elas queriam saber tudo. Onde ela estivera durante todo aquele tempo? O que fizera?

E Kagome, encarando os três pares de olhos ansiosos, teve que fazer o que aprendeu a fazer tão bem ao longo da vida: mentir parcialmente. Responder sem responder.

— Muita coisa aconteceu — começou Kagome, traçando a borda do copo de água com o indicador, escolhendo as palavras com cuidado cirúrgico. — Eu passei muito tempo... cuidando de coisas da família. Coisas muito longe daqui. A vida ficou bastante confusa por um tempo, e eu precisei amadurecer rápido. Tive que reorganizar tudo.

— Longe daqui? — Eri inclinou-se para a frente. — Para qual país você foi, afinal?

— Hã... um bastante longe...

Kagome deu um sorriso enigmático, o clássico olhar de quem guarda um segredo grande demais para o mundo.

— Mas agora eu voltei. E não vou mais a lugar longíquo nenhum.

As três se olharam. Kagome as conhecia o suficiente para saber que elas sabiam quando ela estava dando uma resposta "à lá Kagome" — evasiva, mas profundamente sincera no tom, mas nenhuma delas pressionou mais. A alegria de ter a amiga de volta ali, viva, saudável e sorridente, afinal parecia maior do que qualquer curiosidade.

A conversa fluiu leve por quase uma hora.

Elas contaram sobre seus empregos, faculdades, relacionamentos, antigos colegas de classe e encontros desastrosos.

Kagome ouvia tudo fascinada, sentindo como se estivesse reconectando os fios de um passado que achou ter perdido para sempre no fundo de um poço seco.

Até que a conversa finalmente desacelerou. As xícaras de chá estavam quase vazias.

Kagome respirou fundo, sentindo o volume discreto dentro de sua bolsa de pano. Seus ombros relaxaram, e um sorriso calmo — diferente de qualquer sorriso que elas já tivessem visto nela — surgiu em seu rosto.

— Na verdade... — começou, a voz caindo para um tom suave que fez as três se calarem instantaneamente. — Eu queria chamar vocês aqui por um motivo especial. Eu... vou me casar.

O silêncio que se seguiu no café foi absoluto. Ninguém mastigou. Ninguém respirou. Três segundos de congelamento total. E então o caos se instaurou.

Ayumi, no susto, esbarrou no copo de suco, que virou na mesa; Eri arregalou os olhos a ponto de parecere que saltariam da cara; e Yuka soltou um grito estridente que fez o garçom quase derrubar a bandeja no balcão.

— O QUÊ?! — as três gritaram em coro.

— Casar?!

Yuka debruçou-se sobre a mesa, ignorando o suco derramado que Ayumi tentava secar em pânico com guardanapos de papel.

— Como assim casar?! Você ficou esses 9 anos inteiros sozinha?!

— Sem ninguém?!

Eri segurou os pulsos de Kagome.

— Kagome, por favor, me diz que não é uma seita!

Kagome deu uma risada gostosa, a primeira risada genuína e relaxada em semanas.

— Não é uma seita — ela disse, os olhos brilhando. — É com o Inuyasha.

Mais um silêncio caiu sobre a mesa. Desta vez, um silêncio de pura perplexidade cognitiva. As três piscaram em sincronia, tentando buscar em suas gavetas de memória remota a quem aquele nome pertencia.

— O... Inuyasha?

Yuka franziu o cenho.

— Aquele garoto de vermelho?

Eri soltou, a voz subindo uma oitava.

— O delinquente?!

Ayumi cobriu a boca com as duas mãos, horrorizada.

Kagome não pôde conter um sorriso divertido.

Para elas, essa era literalmente toda a informação disponível. Para Yuka, Eri e Ayumi, Inuyasha não era o hanyou corajoso que enfrentara demônios seculares para proteger o mundo; era o garoto bizarro que, no ensino fundamental, aparecia do nada no colégio usando uma roupa vermelha de época, subia nas árvores do pátio, rosnava para os professores, brigava com todo mundo e desaparecia sem dar explicações.

— Kagome...!

Yuka sussurrou dramaticamente, olhando ao redor como se o FBI estivesse ouvindo.

— Aquele garoto era um rebelde! Ele nem usava sapatos! Ele até pintava o cabelo! Ele era um fora da lei!

— Você tem certeza disso?!

Eri insistiu, genuinamente preocupada.

— Você passou nove anos fora e agora vai casar com o cara que pulava o muro da sua escola?!

— Você está mesmo falando sério?!

Ayumi quase chorava de choque.

Kagome olhou para as três. A preocupação delas era tão absurda e, ao mesmo tempo, tão terrivelmente doce.

Ela não desmentiu. Não tentou explicar a biologia de um meio-demônio, nem a lenda da Shikon no Tama, nem as viagens no tempo.

Em vez disso, o sorriso de Kagome mudou. A diversão cedeu lugar a algo muito mais profundo. Uma aura de serenidade e maturidade a envolveu, o tipo de luz que só pertence a quem atravessou tempestades reais ao lado de alguém.

— Ele não é nenhum delinquente — Kagome disse suavemente, a voz firme e aveludada. — E ele mudou bastante. Quer dizer... ele ainda é teimoso.

Ela deu uma leve risada, olhando para a janela do café enquanto as lembranças cruzavam sua mente.

— Muito teimoso. Reclama de absolutamente tudo. Reclama do cheiro da comida, reclama do barulho da rua, reclama do teto ser baixo... Ele não entende metade das coisas que acontecem aqui e se irrita fácil.

As amigas a encaravam em silêncio absoluto agora, capturadas pela forma como Kagome falava.

— Mas...

Kagome voltou o olhar para elas, e havia um brilho inabalável em seus olhos castanhos.

— Ele sempre chega quando eu preciso. Não importa onde eu esteja, não importa o quão perigoso ou impossível pareça. Se eu chamar, ele vem. Ele é a pessoa mais leal que eu já conheci na vida. Ele pode resmungar o caminho inteiro, mas nunca... nunca me deixa enfrentar nada sozinha.

Pequenas histórias sem detalhes místicos. Apenas a essência do homem por quem ela se apaixonara. O homem que esperara décadas por ela. O homem de outra época que agora dormia no chão de madeira do anexo e tentava aprender a viver no mundo dela.

Não era a adolescente apaixonada de quinze anos falando de uma paixão passageira de colégio. Era uma mulher adulta, consciente e convicta, falando do homem com quem escolhera dividir a existência.

Yuka, Eri e Ayumi olharam umas para as outras. As expressões de pânico e comédia desarmaram-se lentamente.

— ...Ah.

Yuka soltou um suspiro baixo.

— Entendi.

Eri sorriu, o olhar suavizando completamente.

— Ele ama você mesmo, não ama?

Ayumi perguntou, a voz doce cheia de uma compreensão intuitiva.

Kagome assentiu devagar, sentindo as bochechas esquentarem ligeiramente, mas sem recuar.

— Ama. Do jeito torto e barulhento dele... mas ama.

Então Kagome colocou a mão dentro da bolsa de pano e tirou de lá três envelopes num tom de creme delicado, amarrados com uma fita fina. Ela colocou um na frente de cada uma.

— Eu queria muito que vocês estivessem lá — disse, olhando nos olhos de cada uma delas. — Vocês são parte de quem eu sou. E significaria tudo para mim ter vocês comigo nesse dia.

Eri pegou o envelope primeiro, tocando o papel com cuidado. Yuka engoliu em seco, lutando contra as lágrimas, enquanto Ayumi já limpava o canto dos olhos com o guardanapo seco.

Aquelas três garotas representavam uma parte da vida de Kagome que ela, durante os anos na Era Sengoku, achara que havia ficado para trás para sempre. Um pedaço de sua juventude que ela julgava perdido. Mas ali estavam elas — mais velhas, diferentes, mas com o mesmo carinho intacto. E Kagome não estava apenas resgatando esse passado; estava, com orgulho e alegria, convidando-as para dar o próximo passo ao seu lado rumo ao futuro.