犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
23 二十三 りん Rin
O mundo visto do alto era composto apenas pelo som do vento e pela imensidão do céu.
Não havia diálogo. Não havia o atrito de passos na lama ou o estalar de galhos secos. Sesshoumaru-sama voava como sempre fizera: absolutamente estável, cortando as correntes de ar com uma graciosidade imperial, como se o próprio firmamento cedesse passagem à sua presença sem audácia para opor resistência.
Abaixo de seu braço direito, parcialmente envolta pela maciez da estola de pelos de seu mokomoko, Rin permanecia imóvel e o abraçando parcialmente de lado.
Não era uma posição confortável no sentido humano do termo, nem delicada como o modo como os homens costumavam carregar as mulheres de sua espécie. Rin era transportada pelas nuvens como alguém que é retirada de um campo de batalha — com a eficiência fria, firme e inabalável de um guerreiro que protege o que lhe pertence.
Ela tentava, em vão, ignorar a proximidade gélida e ao mesmo tempo quente dele. Seu peito ainda estava inquieto. Depois das borboletas e da súbita consciência do próprio corpo que a atingiram na floresta, cada centímetro que os separava parecia carregado de uma tensão totalmente nova.
Então, um detalhe sutil chamou sua atenção.
Rin piscou, observando as nuvens baixas passarem. Sesshoumaru-sama estava voando um pouco mais devagar.
A alteração era imperceptível para qualquer um que não o conhecesse há quase uma década, mas para Rin era clara: a velocidade fora reduzida apenas o suficiente para que o vento gélido das alturas não a machucasse ou cortasse seus lábios. Ele jamais admitiria ter feito esse ajuste por ela, e Rin, conhecendo o orgulho do príncipe demoníaco, jamais ousaria perguntar.
Lá embaixo, o mundo feudal desfilava em miniatura. A fortaleza dos Shibugarasu e a floresta sombria ficavam para trás, reduzidas a meras manchas escuras. Riachos pareciam fios de prata serpenteando entre vales, e as montanhas, antes imponentes e assustadoras quando ela tentava escapar a pé, agora pareciam pequenas.
“Para ele... Esta altura é comum”.
Pensou Rin, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha. Ela nunca havia parado para refletir sobre aquilo.
Sesshoumaru-sama literalmente enxergava toda a existência de cima. Para um ser que contemplava a terra a partir das nuvens, os obstáculos e os problemas dos mortais ganhavam proporções completamente diferentes. Isso moldava sua frieza, sua paciência e a forma distante com que resolvia os conflitos do mundo.
A descida começou de forma gradual. Ele não buscou o abrigo fechado de uma floresta nem o drama sombrio de um penhasco de pedras pontiagudas. Escolheu um planalto elevado, onde a vegetação rasteira e o capim alto balançavam sob a brisa constante que soprava do leste.
Era um lugar totalmente aberto. Sem paredes, sem árvores para ocultar a vista, sem limites.
Os pés de Sesshoumaru tocaram o solo sem produzir um único ruído e ele continuou em silêncio por um segundo antes de soltá-la. Não o fez com uma delicadeza exagerada ou dramática, mas também sem qualquer pressa desajeitada. Foi o gesto medido de quem deposita no chão algo valioso — como um bem precioso que seu orgulho ancestral jamais o permitiria verbalizar.
Rin ajustou o próprio quimono assim que seus pés tocaram a relva.
Sesshoumaru não falou imediatamente. Ele deu meio passo para trás, a silhueta imponente recortada contra o céu aberto, e apenas a observou.
Rin conhecia aquele olhar. Ele estava fazendo uma inspeção minuciosa: avaliando se suas pernas sustentavam o próprio peso, se havia algum tremor involuntário, se ela mancava, se a respiração estava descompassada ou se tentava esconder qualquer ferimento sob o tecido do quimono.
Era a continuação silenciosa do escrutínio que começara na floresta.
Somente quando se deu por satisfeito com a integridade física dela, sua voz cortou o farfalhar do capim:
— O Amuleto da Meia-Lua.
Nada mais.
Rin demorou um segundo para processar. A mão dela subiu instintivamente até a dobra do quimono, na altura do peito, onde os dedos tocaram o relevo frio e entalhado do ornamento de prata. O semblante dela mudou de imediato, tingindo-se de uma sombra de culpa.
Ela não o havia utilizado. Mesmo quando a escuridão da fortaleza a cercou, mesmo quando a fome e o cansaço a ameaçaram, o amuleto permanecera guardado.
Então baixou os olhos, incapaz de sustentar os olhos dourados dele.
— Não...
A voz saiu baixa.
— Por quê?
A pergunta veio sem qualquer traço de irritação, impaciência ou a frieza cortante que ele reservava aos inimigos. Era uma indagação pura, calma e direta. E, justamente por ser pronunciada daquela forma, pesou no peito de Rin com a força de uma montanha.
Rin apertou os tecidos da saia com as mãos, forçando-se a encarar a imensidão do campo antes de responder.
— Eu não queria envolvê-lo, Sesshoumaru-sama.
Confessou, a voz ganhando a firmeza dos últimos anos.
— Achei que... Que conseguiria resolver aquilo sozinha. Não queria depender do senhor outra vez para me salvar de um problema meu. E eu não queria mais causar desconforto na vila. Eu não podia permitir que ninguém corresse perigo por minha causa.
Era a verdade nua e crua do seu amadurecimento. Ela não era mais a garotinha vulnerável que esperava passivamente no bosque; tornara-se uma jovem mulher consciente do fardo e do perigo que sua proximidade trazia para aqueles que a cercavam.
Sesshoumaru permaneceu estático. O vento forte do planalto fez a estola de pele e a longa cabeleira prateada se moverem suavemente.
— Este Sesshoumaru não o entregou para que o utilizasse apenas quando julgasse necessário.
Disse, a cadência grave e monocórdica ressoando no espaço aberto.
Rin ergueu os olhos de sobressalto.
Ele sustentou o olhar dela, completando com uma clareza desarmante:
— Entreguei-o para que jamais precisasse enfrentar nada sozinha.
O ar pareceu faltar nos pulmões de Rin.
Aquela frase não era apenas uma explicação técnica sobre a magia ou a função do objeto. Era a exposição mais crua e direta da mente dele que ela já ouvira.
Sem dizer um único "eu me importo" ou "eu protejo você", ele acabara de traduzir a verdadeira natureza do amuleto: uma extensão inquebrável de sua presença, uma promessa selada em prata de que ela jamais estaria desamparada.
Houve uma pausa longa. O vento uivou entre o capim alto, dobrando as hastes esverdeadas em ondas elegantes.
Então Sesshoumaru deu um passo lento para o lado, observando a linha do horizonte distante.
— Há outra questão.
Rin prendeu a respiração, esperando.
— Quando este Sesshoumaru tomou aquela aldeia... — ele fez uma pausa sutil, o olhar perdido na imensidão. — Desejou afastar-se por esse motivo?
Rin piscou. Uma, duas vezes. A mente dela parou por completo.
A reação foi de pura e genuína perplexidade. Ela demorou longos segundos para processar o significado das palavras dele, simplesmente porque a possibilidade daquela ideia jamais havia cruzado sua mente em toda a sua vida.
Para ela, o ato de Sesshoumaru-sama assumir o domínio e a proteção do vilarejo humano nunca fora uma demonstração de posse sufocante ou uma tentativa de enclausurá-la!
— O quê...?
A palavra escapou por seus lábios num tom de quase incredulidade.
— Nunca!
Rin deu um passo à frente, a voz subindo uma oitava, tocada por uma indignação quase ofendida perante a dúvida dele.
— Como o senhor pode pensar uma coisa dessas?
Ela olhou para o horizonte aberto, para o mesmo céu que eles haviam acabado de cruzar juntos. Um sorriso leve, nostálgico e terrivelmente doce se curvou seus lábios.
— O senhor nunca escolheu por mim, Sesshoumaru-sama. Nunca.
Então ela voltou os olhos para ele, sustentando a profundeza dourada daquele olhar com uma maturidade luminosa:
— Sempre fui eu quem escolheu seguir o senhor.
A frase flutuou no ar do planalto, limpa e incontestável. Resumia nove anos de história, de dor, de reconstrução e de uma devoção que havia se transformado junto com ela.
Sesshoumaru não respondeu.
Ele permaneceu imóvel, a figura imponente imersa no silêncio da colina. Mas, pela primeira vez em dias, a rigidez quase imperceptível em sua postura cedeu.
Então, o ar no planalto mudou antes mesmo que qualquer som se fizesse ouvir.
Não foi um farfalhar de folhas nem um estrondo no horizonte, mas uma interrupção abrupta do próprio mundo. O vento, que até então dobrava o capim em ondas constantes, simplesmente cessou. Os pequenos insetos no solo emudeceram de estalo, e o piar dos pássaros nas serras distantes desapareceu, como se todas as criaturas vivas da região tivessem, simultaneamente, prendido a respiração.
Sesshoumaru ergueu os olhos de imediato.
Rin acompanhou o movimento dele, o coração dando um salto no peito. Ela conhecia aquele padrão de reação. Sesshoumaru-sama não estava surpreso — estava em alerta absoluto, reconhecendo uma presença que antecedia a sua própria existência.
Uma sombra começou a cobrir a relva.
Não era uma nuvem passageira tapando o sol. Era uma mancha escura e colossal que se movia contra o próprio curso da luz solar, expandindo-se a uma velocidade estarrecedora.
Quando Rin olhou para cima, o ar faltou em seus pulmões.
A figura que cortava o céu possuía olhos fulgurantes como brasas e presas capazes de estraçalhar pedras. Não era um mero canídeo branco gigante; era uma criatura primordial, desenhada pela antiguidade para dominar montanhas e subjugar continentes.
Ela não pousou.
Primeiro, a fera colossal circulou o planalto em arcos majestosos e ameaçadores — como um lobo ancestral examinando a presa, o território e outro de sua espécie.
Só então iniciou o mergulho. A descida pareceu um meteoro de pelagem prateada caindo dos céus: sem elegância contida, carregando apenas o peso avassalador e bruto de seu poder primordial.
Quando as poderosas patas enfim tocaram o solo, a terra inteira tremeu. Pedras saltaram da relva, o chão cedeu sob a pressão e a poeira subiu em uma onda violenta.
Quando a névoa de terra baixou, a grande fera já os rodeava. Não com curiosidade, mas com uma autoridade esmagadora.
Rin buscou o rosto de Sesshoumaru com os olhos e percebeu que ele havia mudado. Não na forma física — ainda —, mas na postura.
Rin jamais o vira daquele jeito em todos os nove anos em que o acompanhara.
Cada músculo do corpo de Sesshoumaru estava tenso como uma corda prestes a arrebentar, a mandíbula travada, os olhos dourados completamente fixos na imensidão branca da criatura. Como um predador diante de outro ainda maior e mais antigo. Não era medo — Sesshoumaru-sama não conhecia tal sensação —, mas puro, bruto e incontrolável instinto ancestral.
Sem qualquer aviso, a grande criatura avançou um passo, e por um segundo aterrorizante Rin achou que seriam esmagados.
Mas Sesshoumaru simplesmente saltou à frente. No ar, seu corpo humanoide explodiu numa tempestade de energia e luz, desdobrando-se na magnífica e temível forma de um inu-daiyoukai.
Ele não avançou para lutar. Não rosnou, nem expôs as garras. Apenas abaixou a cabeçorra ao pousar, mantendo o corpo firme, em um gesto estritamente ritualístico de submissão àquela que era a sua genitora.
Gobodou-sama emitiu um rosnado.
O som não era uma vocalização comum, mas uma onda de choque de energia pura que fez o chão de pedras vibrar sob os pés de Rin e o próprio ar doer em seu peito. Era a linguagem primordial dos grandes cães-demônio. Não-humana, não-verbal, despida de qualquer artifício de linguagem mortal.
Sesshoumaru-sama respondeu com outro rosnado. Mais baixo, profundo e contido, mas inflexível, mantendo sua cabeça baixa.
Rin, encolhida a poucos metros dali, percebeu com uma clareza avassaladora que eles estavam conversando.
Ela não entendia uma única vibração daquela linguagem, mas a estrutura era cristalina: uma pergunta ancestral, uma resposta firme, uma cobrança de linhagem, um posicionamento.
Diante de humanos, demônios ou lordes continentais, Sesshoumaru-sama era realmente como uma força da natureza inabalável. Diante da própria mãe, contudo, ele ainda era o herdeiro que pertencia àquela hierarquia de sangue.
Gobodou-sama encerrou o ritual de comunicação da mesma forma abrupta com que o iniciara: simplesmente virou a cabeça colossal para o horizonte, sem se dar ao trabalho de checar se o filho a acompanharia porque ela sabia que ele o faria.
O imenso cão de pelagem branca deu dois passos e, num impulso contínuo, voltou a erguer-se em direção às nuvens.
Sesshoumaru-sama voltou-se para Rin e aproximou-se dela até estar perto o suficiente para posicionar a pata direita bem a seu lado.
Sem que ele precisasse emitir qualquer som, ela imediatamente entendeu o convite e agarrou-se à grande pata. Então, ele emergiu no ar, com movimentos graciosamente fluidos e, de alguma forma, erguendo Rin suavemente, ajustando-a com precisão quase milimétrica sobre o mokomoko em sua versão demoníaca, e logo Rin estava perfeitamente acomodada numa posição elevada e segura enquanto os dois cortavam o céu logo atrás da figura de Gobodou-sama.
...
O abrigo de Gobodou-sama não era um palácio de pedra ou madeira comuns, mas um santuário suspenso envolto em nuvens e névoa situado acima do alcance dos humanos. O ar ali era frio, rarefeito e impregnado por um miasma antigo, mas limpo e de certa forma aristocrático.
A mãe de Sesshoumaru estava reclinada sobre uma estrutura de pedra flutuante, a postura irônica e os olhos de âmbar fixos na figura do filho que acabara de pousar a poucos metros.
Rin se mantinha um passo atrás dele, consciente de que qualquer respiração mais alta pareceria uma intromissão naquele domínio de youkai.
Gobodou-sama não olhava para Rin. Seus olhos focavam exclusivamente em Sesshoumaru-sama.
— Há nove anos, resgatou esta humana das portas do Submundo não apenas uma, mas duas vezes...
A voz dela era aveludada, fria e cortante como gelo fino, ressoando sem qualquer pressa.
— Há nove anos preserva a vida de uma criatura cuja existência dura menos que um piscar de olhos de nossa espécie.
Sesshoumaru permanecia imóvel. Agora em sua forma humana, era possível ver seu rosto estoico como mármore.
— Não a tomou para si...
Continuou a mãe, inclinando a cabeça com uma elegância calculada.
— Não a devorou. Não permitiu que outro a tomasse ou a destruísse. Conquistou um vilarejo inteiro de humanos apenas para mantê-la sob custódia e matou o Senhor dos Shibugarasu por ousar tocar-lhe nas vestes.
Ela fez uma pausa deliberada, o olhar dourado faiscando com uma curiosidade estranha.
— O que exatamente pretende, Sesshoumaru?
A pergunta não trazia o tom humano de uma indagação materna. Ela não perguntava por sentimentos, afeto ou compaixão — conceitos banais que Rin aprendera que, na lógica dos daiyoukai, eram desconhecidos. Ela perguntava pela coerência da ação.
Como Shigure deixara claro, dentro da cultura dos youkai havia apenas quatro caminhos para uma humana trazida para o domínio de um senhor youkai: o descarte imediato, a servidão, a assimilação como presa ou a posse como companheira. Sesshoumaru não escolhera nenhuma das quatro, criando, assim, uma anomalia que desafiava a própria estrutura da espécie.
— Esta humana não requer suas especulações.
Respondeu Sesshoumaru, a voz grave e gélida cortando o espaço.
Sua mãe soltou um riso baixo, um som melodioso e ao mesmo tempo perigoso.
— Não especulo. Apenas observo o padrão do absurdo.
Ela ergueu uma das mãos de unhas afiadas, aparentemente admirando o brilho da própria pele.
— Aquele que veio antes de você cometeu a mesma tolice. Esqueceu-se do que era perante este mundo para correr atrás de uma vida mortal. Espero que não tenha se esquecido do destino que o aguardava no final daquele caminho... Ou pretende descobrir por si mesmo se a velha lenda diz a verdade?
O silêncio que se seguiu foi denso.
Sesshoumaru não respondeu. Mas a tensão que se estabeleceu no ar foi suficiente para fazer o miasma ao redor vibrar.
Atrás dele, o peito de Rin falhou uma batida.
As palavras de Gobodō-sama ressoaram na mente de Rin com um eco assustador: “a velha lenda”.
O aviso sussurrado de Shippo durante a sua visita à aldeia e as palavras desdenhosas e cheias de veneno de Shigure na fortaleza dos Shibugarasu.
A profecia antiga. Uma lenda contada para assustar filhotes e advertir os grandes clãs.
A Noiva do Cão. Inu no Hanayome.
Rin olhou para as costas de Sesshoumaru, o pulso acelerado contra o peito, enquanto o olhar frio de Gobodou-sama parecia pesar sobre os dois como uma sentença pendente.
Será que a história da Noiva do Cão... Era mesmo real?
Fale com o autor