A manhã estava silenciosa demais.

Rin percebeu isso antes mesmo de abrir os olhos.

A vila costumava acordar devagar, com o som distante de água sendo puxada do poço, passos leves no chão de terra, o estalar ocasional de lenha sendo organizada para o fogo. Era um tipo de ruído tranquilo, quase reconfortante — o som de pessoas vivendo juntas.

Mas naquela manhã havia algo diferente.

Ou talvez fosse apenas ela.

Rin abriu os olhos devagar e ficou alguns instantes olhando para o teto de madeira da pequena casa de Kaede. A luz suave do sol filtrava-se pelas frestas, desenhando linhas pálidas sobre o tatame. O ar tinha cheiro de ervas secas.

Ela respirou fundo.

Tentou organizar os pensamentos.

Não funcionou.

O que voltava à sua mente, repetidamente, era sempre o mesmo momento.

O centro da vila. O javali gigantesco arrastado por Inuyasha-sama. A surpresa dos aldeões. E então—

Ele.

Sesshoumaru-sama.

A lembrança não vinha como uma imagem clara, mas como uma sensação.

Ela ergueu os olhos antes mesmo de entender o por quê.

O céu acima da vila estava claro, quase sem nuvens. A luz da tarde tocava as árvores com um brilho dourado suave. Algumas crianças ainda brincavam perto da trilha, e o cheiro de arroz recém-cozido escapava de uma das casas.

Então o vento mudou.

Não foi uma rajada forte, nem algo que fizesse folhas voarem ou galhos balançarem. Foi apenas um deslocamento sutil do ar — frio, seco, estranho demais para aquela época do ano.

Rin conhecia aquele vento.

Seu coração acelerou antes que ela percebesse e ela virou o rosto para o céu e o viu.

Sesshoumaru-sama.

Ele estava em sua forma de cão e descia do céu lentamente, envolto em uma luz pálida que parecia deslocada daquele mundo. A pelagem prateada movia-se quase graciosamente ao vento, e a grande e espessa cauda o envolvia de uma forma que era quase impossível de entender a uma primeira vista, começando pelos ombros e terminando como extremidade do corpo.

Por um instante, Rin simplesmente ficou parada.

Fazia tanto tempo.

Quase dois anos.

Ela não percebeu quando seus pés começaram a se mover.

O caminho até o centro da vila parecia, ao mesmo tempo, curto demais e longo demais. O coração batia rápido em seu peito, e uma sensação estranha — algo entre alívio e nervosismo — crescia dentro dela.

Sesshoumaru-sama estava ali.

Ele havia voltado.

Rin não sabia exatamente o que esperava daquele momento. Talvez apenas ouvir a voz dele novamente. Talvez um breve aceno de reconhecimento. Talvez apenas confirmar que ele ainda existia naquele mundo.

Ela se aproximou devagar, mas parou antes de atravessar completamente a vila.

Sesshoumaru já havia pousado e tomado a sua forma humana.

Sua presença dominava o espaço com intensidade quase sobrenatural. Ele não parecia tão mais alto que os outros homens da vila, mas havia algo nele que fazia todos ao redor parecerem muito menores.

Os aldeões mantinham uma distância respeitosa.

Alguns observavam com receio. Outros apenas com curiosidade silenciosa. Youkai não eram desconhecidos ali, mas um daiyoukai como ele ainda provocava um receio instintivo.

Rin parou. Por um instante, imaginou que ele olharia em volta e a veria. Talvez dissesse algo muito simples, curto e direto, como só o seu nome por exemplo.

Seu olhar percorreu a figura dele com atenção.

Sesshoumaru-sama parecia exatamente o mesmo. A mesma postura ereta. O mesmo olhar imponente. As mesmas marcas vermelhas nas bochechas. Nada nele parecia ter mudado.

Rin ajeitou discretamente o próprio quimono.

Era um dos que ele havia trazido.

O tecido azul-claro possuía pequenos detalhes prateados nas mangas — discretos o suficiente para não parecer extravagante, mas bonitos demais para a pequena vila.

Na aldeia, a maioria das mulheres possuía apenas dois quimonos simples. Alguns já estavam desbotados pelo tempo, outros tinham remendos visíveis nas mangas ou na barra.

Era normal, pois roupas eram caras. Tecidos bons eram raros. Rin sabia disso. Por isso, sempre tentava usar os quimonos com cuidado.

Ainda assim, mesmo tentando não chamar atenção, ela se destacava inevitavelmente entre as jovens da vila.

Algumas vezes isso a deixava constrangida. Outras vezes… Ela não sabia exatamente o que sentia. Talvez um pequeno orgulho silencioso? Porque todos aqueles quimonos vinham dele. Sesshoumaru-sama nunca explicava, nunca comentava, mas sempre trazia algo para ela.

Rin lembrava-se de cada um deles.

O roxo.

O rosa claro.

O azul.

Todos sempre dobrados com cuidado dentro de um pequeno embrulho.

Ela respirou fundo.

Sesshoumaru-sama falava com Kaede-obaa-sama em um raro episódio em que não se referiu a si mesmo como “este Sesshoumaru”, tão característico de sua personalidade. A voz dele era inconfundível — baixa, firme, quase fria. Os homens da vila escutavam com atenção crescente.

Inuyasha-sama estava ali também.

Então Rin percebeu o momento exato em que o clima mudou. Quando Sesshoumaru-sama disse as palavras que fariam a vila inteira murmurar por dias: a partir daquela lua, aquelas terras estavam sob domínio do Senhor do Oeste. Ele.

Rin sentiu um leve arrepio.

Não era medo. Era outra coisa. Algo que lembrava segurança. Ela observou tudo em silêncio.

Sesshoumaru não olhou para ninguém em particular. Seu olhar parecia atravessar as pessoas como se elas fossem apenas parte da paisagem, mas ele sempre fora assim. Rin sabia disso. Ainda assim… Ela esperou pelo momento em que ele olharia para os lados e perceberia que ela estava ali, dois anos mais velha que da última vez em que se viram.

Ela deu um pequeno passo à frente.

A conversa terminou. Sesshoumaru virou-se. Por um segundo, Rin teve certeza de que ele falaria algo para ela, mas o olhar dele simplesmente passou por ela sem pausa, sem reconhecimento. Sem sequer diminuir o ritmo. Foi um gesto tão pequeno que talvez ninguém mais tivesse notado, mas para Rin pareceu estranhamente pesado.

Ela ficou parada.

Sesshoumaru se moveu indicando que deixaria a vila. Os aldeões começaram a murmurar novamente, tentando entender o que havia acabado de acontecer. E Rin não se moveu.

Talvez ele apenas estivesse ocupado. Talvez estivesse pensando em outra coisa. Talvez—

Ela piscou os olhos castanhos e seu olhar acompanhou o corpo dele erguendo-se novamente no ar e tomando a forma do cão-demônio colossal com a mesma leveza silenciosa com que havia chegado. Em poucos segundos, a figura prateada desapareceu entre as nuvens distantes.

Rin continuou olhando para o céu por algum tempo.

O vento voltou ao normal. O som das vozes da vila retornou lentamente. Tudo parecia exatamente como antes. Exceto por uma pequena sensação estranha no peito dela.

Não era tristeza. Também não era raiva. Era algo mais silencioso. Algo parecido com decepção. Ela baixou o olhar para o próprio quimono e passou os dedos distraidamente pelo tecido. Era bonito. Ele havia trazido aquilo para ela. Sesshoumaru-sama sempre se lembrava de trazer algo. Rin ficou alguns instantes olhando para o tecido azul. Então respirou fundo e percebeu que, pela primeira vez desde que chegara à vila, ele não havia dito seu nome.


O sol já estava mais alto. A vila parecia normal.

Alguns aldeões conversavam perto da trilha. Algumas poucas crianças corriam entre as casas. O cheiro de arroz sendo preparado já começava a se espalhar no ar.

Mas havia algo diferente nas conversas. Rin percebeu isso quase imediatamente. As pessoas falavam baixo. E sempre que ela passava, algumas olhavam para ela.

— …foi por causa dela, você viu…

— …o Cão-demônio das Terras do Oeste…

— …eu já suspeitava…

Rin continuou andando como se não tivesse ouvido, mas as palavras ficavam.

Ela caminhou até o pequeno caminho que levava ao rio, tentando afastar os pensamentos. O som da água correndo entre as pedras era sempre tranquilizador.

Sentou-se perto da margem.

Por alguns minutos, apenas observou a correnteza. Então ouviu passos leves atrás de si.

— Rin.

Ela virou o rosto. Kohaku. Ele estava parado alguns passos atrás, como se não quisesse surpreendê-la.

— Bom dia — disse ele.

— Bom dia, Kohaku.

Kohaku aproximou-se devagar, sentando-se sobre uma pedra próxima.

Por um momento, nenhum dos dois disse nada, e embora o silêncio entre eles nunca tivesse sido uma coisa desconfortável, agora havia algo diferente.

— Você viu ontem — ele disse, por fim.

Rin assentiu levemente.

— Sim.

— Sesshoumaru-sama…

Ele não terminou a frase, mas Rin sabia o que ele queria dizer. Toda a vila sabia. Ela baixou o olhar para a água.

— Ele disse que a vila agora faz parte do território dele.

— Hum.

Kohaku pegou uma pequena pedra e a jogou no rio.

— Isso significa que nenhum youkai vai se aproximar daqui sem pensar duas vezes.

— Eu sei.

Outro silêncio.

Então Kohaku falou novamente, com cuidado:

— As pessoas estão dizendo que ele fez isso por sua causa.

Rin ficou imóvel. Ela já sabia que ele iria dizer isso. As conversas na vila deixavam isso claro. Mas ouvir alguém dizer em voz alta era diferente.

— As pessoas dizem muitas coisas — respondeu ela, por fim.

Kohaku não parecia convencido.

— Sesshoumaru-sama não costuma agir sem motivo.

Rin não respondeu. Ela continuava olhando para a água. Por um momento, pensou na cena novamente:

Sesshoumaru descendo do céu.

A vila inteira em silêncio.

As palavras dele ecoando na praça.

E então…

Nada.

Nem um olhar.

Nem uma palavra.

— Você não parece feliz — disse Kohaku.

Rin piscou, surpresa.

— Eu…?

— Sim.

Ela demorou alguns segundos antes de responder.

— Não é isso.

— Então o que é?

Rin abriu a boca e fechou novamente. Era difícil explicar algo que ela mesma não entendia completamente.

— Eu só… Achei estranho.

— Estranho como?

— Sesshoumaru-sama esteve aqui — disse ela lentamente. — Depois de praticamente dois anos sem dar notícias.

Kohaku assentiu.

— E ele… — ela hesitou — Nem sequer olhou para mim.

As palavras saíram mais baixas do que ela pretendia. Kohaku ficou em silêncio. Então Rin imediatamente sentiu vontade de corrigir o que havia dito.

— Não que eu estivesse esperando algo — acrescentou rapidamente. — Ele provavelmente tinha coisas mais importantes para fazer. Veio falar com Kaede-obaa-sama, afinal.

Mas, mesmo enquanto falava, algo dentro dela parecia discordar. Kohaku inclinou levemente a cabeça.

— Você queria que ele tivesse olhado?

Rin ficou vermelha.

— Não... É isso!

— Então, o que é?

Ela franziu o cenho.

— Eu só… — parou novamente — Ele costumava falar comigo.

Kohaku não disse nada por alguns instantes, então Rin continuou:

— Mesmo quando eu era criança. Mesmo quando ele dizia apenas duas ou três palavras — ela apertou levemente o tecido do quimono sobre os joelhos — Eu pensei que, talvez… Ele tivesse algo para me dizer. Qualquer coisa.

Kohaku falou com suavidade:

— Talvez ele tenha dito.

Rin virou o rosto.

— Como assim?

Kohaku apontou vagamente para a vila atrás deles.

— Ele colocou toda a região sob a proteção dele.

Rin ficou em silêncio. Ela já sabia disso. Todos sabiam. Mas ouvir alguém dizer daquela forma fazia a coisa parecer diferente.

— Sesshoumaru-sama não é alguém que fala muito — continuou Kohaku.

Rin soltou uma pequena e quase imperceptível risada.

— Isso é verdade...

— É só o jeito dele.

O vento passou entre as árvores, fazendo a superfície do rio tremer levemente. Rin voltou a olhar para a água. Talvez. Talvez aquilo fosse só o jeito dele, pois Sesshoumaru-sama sempre fora assim. Ele raramente explicava suas ações. Raramente oferecia palavras. Ainda assim… Ela apertou um pouco mais o tecido do quimono.

— Mesmo assim... — murmurou.

Kohaku inclinou-se levemente para frente.

— Hm?

Rin demorou um pouco antes de terminar a frase:

— Eu teria gostado se ele tivesse me cumprimentado.

A simplicidade da confissão a surpreendeu. Kohaku não respondeu imediatamente. Ele apenas assentiu.

— Entendo.

E pela primeira vez naquela conversa, Rin percebeu algo no olhar dele:

Não era ciúme.

Nem irritação.

Era algo mais silencioso.

Algo que parecia tristeza.

Ela desviou o olhar rapidamente. O som do rio voltou a preencher o espaço entre eles e, em algum lugar acima das árvores, o vento mudou de direção.