Kagome já sabia que aquela reunião não ia terminar bem, e não foi por causa de algo específico que alguém tivesse dito. Foi o clima. O jeito como as pessoas começaram a falar mais baixo do que o normal, como evitavam levantar muito a voz mesmo quando estavam em grupo, como os olhares se encontravam e se desviavam rápido demais. Aquilo não era curiosidade simples, nem fofoca comum de vila pequena. Era incerteza. E incerteza, Kagome já tinha aprendido, era sempre mais perigosa do que medo declarado.

Ela estava encostada na lateral da cabana de Kaede, observando a praça enquanto as pessoas se reuniam aos poucos. Algumas vinham em pares, outras em pequenos grupos familiares. Crianças eram puxadas discretamente para perto, como se ninguém quisesse deixá-las muito longe naquele momento. O sol ainda estava alto, o dia era claro e tranquilo, mas nada naquele cenário parecia realmente leve.

— Isso vai dar problema… — murmurou, mais para si mesma do que para quem estivesse por perto.

— Keh. — Inuyasha respondeu ao lado dela, cruzando os braços dentro das mangas do quimono vermelho. — Vocês humanos complicam tudo.

Kagome virou o rosto lentamente, já com uma resposta pronta.

— Complicamos?

— Sim. — ele fez um gesto vago na direção da praça. — Tá todo mundo aí com essa cara, de como se alguma coisa ruim tivesse acontecido, quando na verdade foi o contrário.

— “O contrário” — ela repetiu, arqueando uma sobrancelha.

— É. — Inuyasha deu de ombros. — Agora ninguém mais vai atacar essa vila. Fim. Problema resolvido.

Kagome soltou um suspiro contido, segurando a vontade de argumentar imediatamente.

— Nem todo mundo vê assim, Inuyasha.

— Então estão vendo errado.

Ela abriu a boca para retrucar, mas decidiu poupar energia. Explicar dinâmica social para Inuyasha era quase tão difícil quanto ensinar matemática para Shippou quando ele estava com fome.

— Vamos começar — disse Kaede, erguendo levemente a mão.

A movimentação cessou gradualmente. As conversas diminuíram até desaparecerem quase por completo e os moradores se organizaram em um semicírculo improvisado diante da casa da sacerdotisa. Kagome se aproximou alguns passos, ficando ao lado de Inuyasha, com os braços cruzados e o olhar atento.

Rin estava ali também, mas mais afastada, como sempre preferia ficar. Discreta, silenciosa, quase como se tentasse ocupar o menor espaço possível.

— O que ocorreu ontem não é algo pequeno — começou Kaede, com sua habitual calma. — Este vilarejo foi colocado sob a jurisdição do Senhor Youkai das Terras do Oeste.

O silêncio que se seguiu não era de surpresa, mas de confirmação. Todos tinham visto. Todos tinham ouvido. Agora, precisavam entender.

Um dos homens mais velhos da vila deu um passo à frente, visivelmente desconfortável.

— Isso… quer dizer o quê, exatamente, Miko-sama?

Kaede não respondeu imediatamente. Seu olhar passou brevemente por Kagome, como se dissesse: “explique você”.

Kagome assentiu quase imperceptivelmente.

— Significa que nenhum youkai vai atacar a vila sem enfrentar Sesshoumaru — disse ela, em voz clara. — Apenas isso.

Um murmúrio percorreu o grupo, mas dessa vez não era totalmente negativo.

— Então é bom, não é?

— É proteção…

— Isso quer dizer que estamos seguros?

— Mas…

Sempre havia um “mas”.

Inuyasha bufou alto, claramente impaciente.

— Keh! E do que é que vocês estão com medo?! — disse, dando um passo à frente. — Agora vocês estão completamente protegidos! Nenhum youkai idiota vai chegar perto daqui!

Kagome fechou os olhos por um segundo.

— Inuyasha…

— O quê?! — ele retrucou, virando-se para ela. — É verdade!

— Ninguém está dizendo que não é, Inuyasha-sama.

— Então por que essa cara de velório?!

A resposta não veio dela.

— O que ele quer em troca?

A pergunta veio de uma mulher mais velha, com os braços cruzados e o olhar firme. Não havia hostilidade, mas havia desconfiança — e isso era suficiente para mudar o rumo da conversa.

Inuyasha revirou os olhos com força.

— Nada, ué! Não ouviram? Ele disse que não quer tributos.

— E como pode ter certeza de que é somente isso? — outro homem rebateu.

— Porque eu conheço ele, ué!

Kagome levou a mão ao rosto por um instante.

Isso não estava ajudando.

— Ele disse claramente que não haverá tributos — ela interveio, retomando o controle da conversa. — Nem exigências.

Agora — murmurou alguém.

— E depois? — completou outro.

O ar pareceu ficar mais pesado.

Kagome percebeu a mudança imediatamente. Não era pânico ainda, mas estava perto de virar.

— E se ele mudar de ideia?

— E se isso na verdade atrair uma guerra entre dinastias youkai?

— E se essa “proteção” trouxer mais problemas do que soluções?

As vozes começaram a se sobrepor, cada uma trazendo uma nova preocupação, um novo cenário possível. Kagome respirou fundo, procurando organizar aquilo antes que virasse caos.

— Isso aconteceu por causa dela!

A frase foi baixa.

Mas suficiente.

O silêncio caiu de novo, mais pesado que antes.

Kagome virou o rosto.

Rin.

Ela estava parada no mesmo lugar, mãos unidas à frente do corpo, postura serena demais para alguém que, claramente, tinha acabado de se tornar o centro da conversa.

Os olhares começaram a se voltar.

— O daiyoukai veio por causa dela…

— Ele sempre aparece por causa dela…

— Ele sempre traz roupas para ela, todo mundo viu…

— Já faz tempo…

Kagome sentiu o estômago apertar.

Aquilo estava indo rápido demais.

— Já chega, por favor — disse ela, firme.

Mas não foi suficiente.

— Se ela não estivesse aqui…

A frase veio de um homem mais velho. Não havia raiva no tom. Apenas lógica.

E isso tornava tudo pior.

— Talvez fosse melhor se ela fosse embora.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Inuyasha reagiu imediatamente.

— Como é?! O que foi que você disse?!

Ele avançou um passo, claramente pronto para discutir — ou pior.

Kagome segurou o braço dele com força.

— Inuyasha. Espera.

— Esperar o quê?! — ele rosnou. — Você ouviu o que o velho disse?!

— Eu ouvi — ela respondeu, firme. — E você vai piorar tudo se começar a gritar.

Ele travou, irritado, mas não se soltou.

Kagome voltou o olhar para Rin.

Ela não disse nada. Não se defendeu. Apenas abaixou levemente o olhar. Aquilo doeu mais do que qualquer resposta.

Kaede bateu o cajado no chão.

O som ecoou seco pela praça.

— Chega!

A autoridade na voz dela foi suficiente para interromper qualquer continuação.

— Esta vila acolheu Rin muito antes de qualquer youkai reivindicar estas terras — disse ela. — E continuará a acolhê-la.

Ninguém contestou.

Kagome respirou fundo.

Era a hora de reorganizar aquilo.

— Todo mundo aqui está com medo, eu entendo — disse ela, olhando ao redor, com mais suavidade desta vez.

Alguns moradores desviaram o olhar. Outros a encararam diretamente.

— E isso é normal — ela deixou a frase assentar. — Mas Sesshoumaru não fez isso para prejudicar a vila.

— Como você sabe? — alguém perguntou.

Kagome não hesitou.

— Porque ele não precisa de nada disso. Sinceramente, ele não precisa dessa vila.

Silêncio.

— Se ele quisesse conqusitá-la, não teria avisado — continuou. — Nem teria dito que não quer nada em troca. Ele simplesmente teria feito.

As pessoas se entreolharam, mas ninguém discordou.

— O que ele fez foi estabelecer território — ela explicou. — E, no mundo dos altos youkai, isso significa apenas proteção.

— Proteção que a gente não pediu! — murmurou alguém.

— Talvez — Kagome concordou. — Mas, agora que ela existe, a questão não é mais “por quê”.

Ela cruzou os braços, firme.

— É “o que faremos com isso”.

O silêncio dessa vez foi diferente. Menos tenso. Mais pensativo.

Kaede assentiu levemente, como se aquilo fosse suficiente por ora.

— A decisão está tomada — disse ela. — Cabe a nós conviver com ela.

A reunião começou a se dispersar lentamente. As pessoas voltaram a conversar em grupos menores, ainda inquietas, mas menos agitadas do que antes.

Kagome soltou o ar devagar.

— Viu só? — murmurou Inuyasha ao lado dela. — Drama à toa!

Ela virou o rosto lentamente.

— Você tem zero noção social, Inuyasha...

— Tenho sim, eu não sou burro!

— Não, não tem... E isso não quer dizer que seja burro.

— Tenho!

Então ela apenas o encarou. Ele bufou.

— Keh...

Kagome quase sorriu, mas o olhar dela já tinha ido para outro lugar.

Rin.

Ela já estava se afastando da reunião, silenciosa como sempre, como se nada daquilo tivesse a ver com ela — mesmo tendo tudo a ver.

Kagome observou por alguns segundos.

Algo ali não estava certo. Não era só o que tinha sido dito. Era como ela tinha reagido. Ou melhor… Como não tinha reagido.

— Inuyasha — chamou ela.

— Hm?

— Você percebeu?

— O quê?

— A Rin.

Ele olhou por um segundo, mas deu de ombros.

— Ela tá normal. Ficou bem quieta depois que cresceu.

Kagome suspirou.

— Claro que está... — ela deu um passo à frente. — Mas eu vou falar com ela.

— Pra quê?

— Porque alguém precisa.

— Keh... Ela tá bem.

Kagome lançou um olhar e ele levantou as mãos.

— Tá, tá. Vai lá!

Ela começou a caminhar na direção do rio, já sabendo onde encontraria a garota. O som da vila voltava ao normal atrás dela, mas não completamente. Ainda havia algo no ar. Algo que não ia desaparecer tão cedo. Enquanto caminhava, Kagome não conseguiu evitar o pensamento:

“Sesshoumaru tomou a vila inteira… Mas não disse uma única palavra para a pessoa mais afetada por isso.”


Rin sempre acabava ali quando precisava de silêncio. Era um tipo de silêncio diferente do da vila — menos carregado, mais honesto.

Kagome a encontrou sentada perto da margem, com as mãos apoiadas no colo e o olhar fixo na correnteza. O vento leve fazia alguns fios soltos do cabelo dela se moverem, mas, fora isso, Rin parecia quase imóvel. Como se estivesse tentando não perturbar nem a água.

Kagome diminuiu o passo. Por um instante, pensou em chamá-la imediatamente, mas não chamou. Apenas se aproximou e parou a alguns passos de distância, observando. Rin não parecia… Abalada. E era exatamente isso o que a preocupava.

— Posso sentar? — Kagome perguntou, por fim.

Rin ergueu o olhar, surpresa apenas pelo fato de não ter percebido a aproximação.

— Kagome-sama… — respondeu, inclinando levemente a cabeça. — Claro.

Kagome sentou-se ao lado dela, não tão perto a ponto de invadir seu espaço, mas próximo o suficiente para não parecer distante.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. O som da água preenchia o espaço entre elas.

Kagome apoiou as mãos atrás do corpo, inclinando-se levemente para trás.

— Então… — começou, em tom casual demais para ser completamente casual — Você gosta mesmo desse lugar, né?

Rin piscou, surpresa com a pergunta.

— Eu… Gosto, sim.

— Eu também gosto — disse Kagome, olhando para o céu entre as árvores. — É tranquilo. Às vezes até demais.

Rin deixou escapar um pequeno sorriso. Kagome virou o rosto discretamente para observá-la melhor. O quimono azul. Sesshoumaru.

Kagome respirou fundo, escolhendo as palavras com cuidado.

— Aquilo que disseram lá na reunião… — começou.

— Está tudo bem — Rin respondeu rápido demais.

Kagome arqueou levemente a sobrancelha.

— Eu nem terminei a frase.

Rin abaixou o olhar por um instante.

— Eu sei, me desculpe.

Kagome soltou um pequeno suspiro, mas sem irritação.

— Eu sei que você está acostumada com as pessoas falando esse tipo de coisas — disse ela, mais suavemente. — Mas isso não significa que está tudo bem.

Rin não respondeu. Seus dedos se moveram levemente sobre o tecido do quimono, como se alisassem algo invisível.

— Eles estão com medo — continuou Kagome. — E quando as pessoas estão com medo, elas procuram… Soluções fáceis.

Rin assentiu de leve.

— Eu entendo.

Kagome inclinou um pouco a cabeça.

— Entende mesmo?

Rin hesitou.

— Entendo que… É mais simples pensar que o problema sou eu.

Kagome fez uma careta leve.

— É, mas isso não torna a ideia menos ruim.

Rin soltou um pequeno sopro de ar, quase uma risada sem humor.

— Não.

O silêncio voltou, mas dessa vez não era tão confortável. Kagome olhou para o rio por alguns segundos antes de falar novamente.

— Você ficou chateada?

A pergunta foi direta. Sem rodeios. Rin demorou a responder.

— Não… Exatamente.

Kagome virou o rosto devagar.

— “Não exatamente” é um jeito complicado de dizer “sim”.

Rin sorriu de leve, mas não levantou o olhar.

— Eu só achei… Estranho.

Kagome já esperava essa palavra.

— Por causa do que disseram?

Rin balançou a cabeça.

— Não.

Ela demorou um pouco antes de continuar.

— Por causa dele.

Kagome não disse nada. Apenas esperou.

— Sesshoumaru-sama… Ele esteve aqui — disse Rin, lentamente. — Depois de tanto tempo.

Kagome assentiu.

— E ele não falou comigo.

Simples. Sem drama. Sem acusação. E, ainda assim, pesado. Kagome apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando as mãos.

— Você queria que ele falasse... Ou que ele lhe “notasse”?

Rin não respondeu imediatamente.

— Eu não esperava nada específico — disse ela, depois de alguns segundos. — Só… Algo.

Kagome soltou um pequeno suspiro pelo nariz.

— Isso soa bem específico.

Rin deixou escapar uma risada baixa.

— Talvez.

O vento passou entre as árvores, levantando pequenas ondulações na água. Kagome olhou para frente, pensativa.

— Posso te dizer o que eu acho?

Rin assentiu.

— Sesshoumaru não é muito… Bom com esse tipo de coisa.

Rin inclinou levemente a cabeça.

— Eu sei.

— Não, tipo — Kagome continuou, gesticulando levemente — Ele é realmente ruim nisso. Em falar. Em explicar. Em… Demonstrar de um jeito que as outras pessoas entendam.

Rin permaneceu em silêncio.

— Mas ele não é alguém que faz coisas sem motivo — acrescentou Kagome.

Rin olhou para ela de lado.

— Kohaku disse algo parecido.

Kagome fez um pequeno “hm”.

— Então ele já está ficando sábio.

Rin sorriu de leve. Mas o sorriso não durou muito.

— Ainda assim… — ela murmurou.

Kagome esperou. Rin apertou levemente o tecido do quimono.

— Eu teria gostado se ele tivesse me cumprimentado. Não quero ser “notada”. Por ninguém.

— Tem certeza?

— Sim.

Kagome fechou os olhos por um segundo. Era tão simples... E, ao mesmo tempo, tão difícil. Então ela abriu os olhos novamente.

— Está bem — disse, por fim.

Kagome permaneceu em silêncio por alguns instantes depois da resposta. Não havia muito o que argumentar contra aquilo, porque não era exatamente um pedido. Era só… Um limite. E Kagome respeitava isso.

Ainda assim, algo ali não estava fechado.

Ela apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para a correnteza como se procurasse as palavras no movimento da água.

— Sabe… — começou, em um tom mais leve, mas ainda firme — Você diz que não quer ser notada. Mas isso não é a mesma coisa que não querer ser vista.

Rin não respondeu imediatamente, mas também não desviou o olhar. Kagome continuou:

— São coisas diferentes. Ser notada é… Chamar atenção. Ser vista é… Existir para alguém.

O vento passou entre as árvores, trazendo um leve movimento ao redor delas. Rin manteve as mãos sobre o colo, mas seus dedos se moveram de novo, quase imperceptíveis.

— Quando você era menor — Kagome disse — Você sempre estava perto dele, não é?

Rin piscou, surpresa com a mudança de assunto.

— Sim…

— Você falava sempre com ele, seguia-o, sentava perto… Era simples.

Rin abaixou levemente o olhar.

— Eu era criança.

— Era — Kagome concordou. — E, pra ele, isso tornava tudo muito mais fácil.

Ela fez uma pequena pausa antes de continuar.

— Agora não torna mais.

Rin franziu o cenho, ainda olhando para o rio.

— Eu não mudei tanto assim.

Kagome soltou um pequeno sopro de ar, quase um riso.

— Mudou sim. Mudou muito.

Rin virou o rosto, confusa.

— Mudou como?

Kagome inclinou a cabeça, analisando-a com mais atenção.

— Você pensa antes de falar. Escolhe o que vai dizer. Se preocupa com o que as outras pessoas vão entender. Você mede as coisas — ela deu de ombros. — Antes você só… Dizia.

Rin ficou em silêncio.

— E não é só isso — continuou Kagome. — As pessoas também mudaram a forma como olham para você.

Rin demorou alguns segundos antes de perguntar:

— Por causa do que aconteceu ontem?

— Não só por isso.

Kagome olhou diretamente para ela dessa vez.

— Você não é mais uma das crianças da vila.

A frase não foi dura, mas foi direta. Rin abaixou o olhar novamente, dessa vez sem tentar disfarçar.

O silêncio que veio depois foi mais pesado, mas não desconfortável. Era o tipo de silêncio que vem quando algo faz muito sentido… Mesmo que a pessoa ainda não saiba o que fazer com isso.

— Kaede-obaa-sama já falou comigo sobre isso — Rin disse, depois de um tempo. — Sobre crescer.

Kagome assentiu.

— Imagino que sim.

— Ela disse que eu preciso pensar em como quero ser vista... Eu não sei o que isso significa.

Kagome apoiou o queixo na mão, pensativa.

— Significa que você vai ter que começar a escolher algumas coisas.

— Como o quê?

Kagome deu de ombros.

— Onde você quer ficar. Com quem. Como quer viver.

Rin apertou levemente o tecido do quimono.

— E se eu não souber?

Kagome não respondeu de imediato.

— Então você ainda não escolhe — disse, por fim. — Mas, também, não deixa os outros escolherem por você.

Rin levantou o olhar, surpresa. Kagome manteve a expressão tranquila.

— Aquilo que disseram na vila… — ela continuou — Foi exatamente isso. Pessoas tentando decidir por você o que é mais conveniente para elas.

Rin ficou em silêncio.

— E você não precisa aceitar isso.

O vento mudou levemente de direção, fazendo as folhas ao redor sussurrarem.

Rin respirou fundo.

— Eu não quero ir embora...

— Então não vá — Kagome respondeu imediatamente.

Simples. Sem hesitação. Rin piscou.

— É… Tão simples assim?

Kagome deu um pequeno sorriso de lado.

— Não. — fez uma pausa — Mas também não é mais complicado do que isso.

Rin olhou de volta para o rio, como se estivesse organizando aquilo dentro de si.

— E quanto a ele?

Kagome não fingiu não entender.

— Sesshoumaru.

Rin assentiu levemente.

— Eu não sei o que ele espera de mim.

Kagome inclinou a cabeça.

— Você acha que ele espera alguma coisa?

Rin hesitou.

— Eu não sei.

— Então talvez esse seja o problema — disse Kagome.

Rin virou o rosto, confusa.

— Como assim?

Kagome descruzou as pernas, ajeitando a posição antes de continuar.

— Você está tentando entender o que ele quer… Sem nem ter certeza se ele quer alguma coisa.

Rin franziu levemente o cenho.

— Mas ele fez tudo aquilo…

— Fez — Kagome concordou. — Mas isso não é a mesma coisa que esperar algo de você.

Ela fez um pequeno gesto com a mão, como se separasse duas ideias no ar.

— Sesshoumaru faz coisas grandes. Sempre fez. Mas isso não significa que ele está pensando… Do mesmo jeito que você.

Rin permaneceu em silêncio. Aquilo claramente não era fácil de processar.

— E você também não precisa pensar do jeito que ele pensa — acrescentou Kagome.

Rin respirou fundo.

— Então o que eu faço?

Kagome ficou em silêncio por alguns segundos. Dessa vez, não porque não sabia o que dizer, mas porque queria escolher bem.

— Nada — respondeu, por fim.

Rin piscou.

— Nada?

— Agora, nada — Kagome sorriu de leve. — Você não precisa decidir nada hoje. Nem sobre a vila. Nem sobre o Kohaku. Nem sobre o Sesshoumaru.

Rin ficou imóvel por um instante ao ouvir o nome de Kohaku, mas não comentou. Kagome percebeu. E decidiu não pressionar.

— Você só precisa… Prestar atenção no que você sente — continuou. — Sem tentar dar nome antes da hora.

O silêncio que veio depois foi mais leve. Mais respirável. Rin soltou o ar devagar.

— Isso é difícil...

— Eu sei — Kagome respondeu, rindo baixo. — Eu demorei anos pra entender metade das coisas que eu sentia.

Rin levantou o olhar, curiosa.

— Mesmo?

— Mesmo.

Kagome esticou os braços levemente para trás, apoiando-se.

— E ainda erro às vezes.

Rin sorriu de verdade dessa vez. Pequeno. Mas sincero. Kagome observou por um instante, satisfeita. Depois se levantou, batendo de leve as mãos no próprio quimono.

— Vamos voltar?

Rin hesitou por um segundo, mas então assentiu.

— Vamos.

As duas começaram a caminhar lado a lado, em silêncio. Enquanto voltavam para a vila, Kagome teve a sensação de que, embora nada havia sido resolvido de fato, algo relevante tinha mudado: Rin não estava mais apenas esperando. Agora, ela estava começando a escolher. Mesmo que ainda não soubesse exatamente o quê.