Rin abriu os olhos devagar. O frio não vinha como uma brisa passageira, mas como uma presença suave e persistente que percorria sua pele e a fazia arrepiar. Ao baixar o olhar, percebeu que o futon havia cedido um pouco, deixando parte de seu corpo descoberta. Ainda assim, não estava sozinha.

Sesshoumaru estava ali.

Parecia um sonho — silencioso, quase irreal — mas ele permanecia ao seu lado, aninhando-a no mokomoko que lhe servia de apoio para a cabeça e as costas. Sempre tivera o sono leve; ao menor ruído, ao mais sutil traço de youki, despertava pronto para reagir. Por isso, Rin moveu-se com extremo cuidado, esperando senti-lo despertar a qualquer instante.

Ele não despertou.

E aquilo, de algum modo, a emocionou.

Era bom saber que ele estava relaxado o suficiente para dormir de verdade.

Sob a luz plena da lua, o corpo alvo do youkai repousava desarmado, sem armadura, sem tensão. Vulnerável — algo que poucos no mundo já haviam presenciado. Rin o observou em silêncio, absorvendo aquele momento raro, e a lembrança veio inevitável: a primeira vez em que o vira assim.

Ferido. Sozinho. Reduzido à forma humana na floresta próxima à aldeia onde crescera.

Naquele dia, ele estava à mercê do mundo.

Agora, estava ali — não indefeso, mas em paz. E ao lado dela.

Rin apoiou o queixo de leve contra o peito dele, deixando que uma das pernas repousasse sobre seu colo, sentindo o calor constante sob a pele fria.

Não era apenas estar ao lado do homem que amava. Era entender.

Entender o que sempre lhe disseram sobre amor — suas intempéries, seus silêncios, sua paciência. Entender que não era dependência, nem devoção cega. Era escolha. Era confiança.

Seu coração estava unido ao dele.

E isso bastava.

— Agora eu entendo, Sesshoumaru-sama.


Quando a deixou na aldeia sob os cuidados da sacerdotisa Kaede, a única ordem que lhe deu foi simples: que se cuidasse.

Rin aceitou prontamente. Cuidar-se era algo que aprendera a fazer muito bem.

Mas havia uma pergunta que insistia em ecoar: se ele estava partindo, por que não a levaria consigo?

— Mas é claro que posso ficar com ela — dissera Kaede. — Porém, Sesshoumaru…

Ele ergueu levemente uma sobrancelha, expressão impassível como sempre.

Kaede então perguntou, com pausas medidas:

— O que aconteceu? Você não se importava de tê-la por perto. Mudou de ideia?

Rin aguardou a resposta com confiança. Sesshoumaru-sama sempre sabia o que fazia.

— Não é nada. Apenas vim devolvê-la aos humanos. É onde deve ficar.

“Devolver.”

A palavra doeu, embora Rin não soubesse explicar por quê.

Ainda assim, Kaede não parecia alarmada. Talvez fosse apenas uma viagem mais longa. Ele sempre voltava.

Ele voltaria.

— Rin, cuide-se. Você ficará aqui.

— Sim, Sesshoumaru-sama! Eu vou me cuidar! — respondeu com firmeza. — Quando o senhor volta?

Houve um instante de silêncio.

Um segundo mais longo do que o habitual.

Então:

— Quando for necessário.

Rin não perguntou o que significava “necessário”. Apenas assentiu. Se ele decidira assim, havia um motivo.

Jaken parecia inquieto naquele dia, mas não disse nada além de reforçar as ordens do daiyoukai.


Rin nunca considerou que pudesse ser uma despedida definitiva.

Sempre fora obediente. Evitava ser um peso. Aprendia rápido. Sabia se manter em silêncio quando preciso. Logo cresceria e não precisaria de proteção constante.

Ele voltaria para buscá-la.

A convicção só começou a vacilar quando os dias passaram.

Ah-Un não ficara com ela. Se fosse algo temporário, o dragão-youkai teria permanecido. Sesshoumaru podia voar sozinho — não precisava dele.

Então por quê?

A aldeia, ao menos, não era solitária. Havia Kaede-obaasama, Inuyasha-sama, Miroku-sama e Sango-sama — recém-casados —, Shippou, Kohaku. Sempre havia algo a fazer. Kaede ensinava-lhe ervas, preparo de alimentos, noções espirituais. Conhecimentos básicos de uma sacerdotisa.

Rin não pretendia tornar-se uma, mas gostava de aprender.

Gostava, sobretudo, de sentir-se acolhida.

Viver entre humanos outra vez era estranho, mas não desagradável.

O estranho era a ausência.

— Ele vai voltar — disse Kohaku certa tarde.

— Você acha?

— Acho. Ele deve estar resolvendo algo importante.

Rin sorriu. Kohaku era sério, mas gentil. Tornaram-se quase irmãos.

Naquele dia, pescavam no rio quando um som familiar cortou o céu. Rin ergueu os olhos e o viu — o enorme cão-youkai sobrevoando a aldeia.

O coração disparou.

— Sesshoumaru-sama…!

Mas ele passou direto.

Rin permaneceu olhando para o céu vazio por alguns segundos.

— Calma — disse Kohaku, tocando-lhe o ombro. — Ele voltou. Você viu.

Ela respirou fundo. Então sorriu de novo.

— Eu deveria fazer algo para ele.

— Como o quê?

— Comida!

Se ele viajara tanto, certamente estaria com fome.

Não se esqueceu da primeira vez em que tentara oferecer-lhe alimento — recusado com frieza. Mas ele estava ferido naquela ocasião. Desconfiado. Era diferente.

Agora seria diferente.

Preparou peixe com acompanhamentos simples que aprendera com Kaede. Se humanos e animais gostavam, talvez ele também apreciasse.

Quando terminou, procurou por ele.

— Sesshoumaru-sama!

Ele estava afastado da aldeia, como sempre fazia ao pousar. Vestido com a mesma imponência de sempre, como um príncipe guerreiro que jamais conhecera derrota.

— Bem-vindo de volta!

— Rin.

— Aah, Rin…!

— Jaken-sama! Bem-vindo também!

— Você se comportou? — perguntou Jaken.

— Sim! Estou ótima!

— Excelente.

Sesshoumaru então falou:

— Este Sesshoumaru tem algo para lhe dar.

Rin arregalou os olhos quando ele retirou um pacote do mokomoko e o estendeu. Dentro, um tecido delicado, em tons de roxo.

— Faça bom uso.

— É lindo, Sesshoumaru-sama!

— Livre-se desses trapos! — completou Jaken.

Rin curvou-se em agradecimento.

— Eu também tenho algo para o senhor.

Por um instante, algo como curiosidade atravessou o olhar dele.

Ela o conduziu até a casa de Kaede.

Quando lhe ofereceu o prato, houve um breve silêncio.

Então ele aceitou.

Sentou-se e começou a comer.

Kaede, Kohaku e Jaken observavam em surpresa. Jaken parecia especialmente chocado.

Rin tentou não demonstrar nervosismo. Será que fazia mal a youkai comerem comida humana? Ele dissera certa vez que não gostava.

Mas ele comia.

Com elegância contida. Com gestos precisos. Como alguém nascido em uma linhagem antiga e importante.

Como um verdadeiro príncipe.

— Estava delicioso… — disse Jaken, apressando-se em corrigir o tom. — Quero dizer, agradeço em nome de Sesshoumaru-sama.

Rin sorriu.

— Estou feliz que tenham voltado.

A expressão de Jaken mudou.

— Rin… você entende que vai viver aqui agora, não é?

— Hee…?

Antes que pudesse perguntar mais, Sesshoumaru levantou-se, apoiando-se em Jaken para silenciá-lo.

— Rin — disse ele.

O tom não era frio.

Também não era distante.

— Precisamos conversar.