犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
2 二 かごめ Kagome
Kagome se arrependeu de ter voltado para a escola quase no instante em que atravessou os portões.
Bastou ver os rostos de seus colegas — desconfiados, chocados, quase incrédulos — para perceber que deveria ter terminado o ensino médio em casa. Ninguém parecia convencido de que ela realmente estava bem. Só começaram a aceitar quando a viram ali, firme, sorrindo com energia suficiente para escalar uma montanha.
Ainda assim, era como se estivessem vendo um fantasma.
Ela não precisava ouvir para saber o que diziam.
“Mas é a Higurashi?”
“Ela não estava praticamente à beira da morte?”
“Quanto tempo será que dura dessa vez?”
Era compreensível. Para qualquer pessoa comum — completamente alheia a mundos paralelos, joias amaldiçoadas, youkai e garotos com orelhas de cachorro — suas sucessivas “doenças misteriosas” soavam, no mínimo, suspeitas.
— Ah, vovô…
Se não fosse por ele, com suas histórias absurdamente convincentes, pela compreensão infinita da mãe e pela cumplicidade de Souta, ela provavelmente teria repetido de ano. Talvez até sido expulsa.
Conciliar batalhas no Japão feudal com provas surpresa e simulados não era tarefa simples.
Mas tudo aquilo terminou quando a Shikon no Tama foi destruída.
Aquele deveria ter sido o começo de uma vida nova.
Tranquila. Normal.
Não foi.
— Parabéns aos formandos! — anunciou o diretor.
Kagome estava na cerimônia de formatura ao lado da família: mamãe, vovô, Souta. Era o encerramento oficial de uma fase. O momento em que todos falavam animadamente sobre o futuro.
Kagome não tinha um.
— Kagome!
— Aah, oi!
— Boa tarde, senhora! — cumprimentaram primeiro a mãe dela.
— Parabéns pela formatura!
— Todas passamos na universidade! — disseram as amigas, radiantes.
— Que maravilhoso!
Elas começaram a falar ao mesmo tempo.
— Vou ser telejornalista!
— Eu quero apresentar programas!
— Então precisa virar Miss Campus primeiro!
Kagome riu junto.
Ela estava feliz por elas.
Mas havia algo estranho dentro de si.
Não era falta de estudo. Era falta de vontade. Não conseguia se imaginar professora, médica, executiva. Escritora, talvez — mas quem acreditaria em uma história sobre youkai e viagens no tempo?
Três anos haviam se passado desde que retornara definitivamente ao mundo moderno.
Seu mundo.
O Poço Come-Ossos desaparecera de repente. Depois, três dias mais tarde, ressurgira envolto em um pilar de luz — trazendo-a de volta.
— MANA! — Souta chorava.
— Kagome?! — vovô estava em choque.
— KAGOME! — mamãe quase desmaiava de emoção.
Ela chorou também. Correu para os braços da mãe.
— Mamãe! Eu fiquei tão preocupada! O Inuyasha me salvou!
Virou-se para agradecer.
— Inuyasha, obrig—
Ele desapareceu.
Diante de seus olhos.
— Inuyasha?!
Desde então, o poço permanecia ali, mas comum. Fundo visível. Pedra sólida. Nada mágico.
Ela entendeu.
Não o veria novamente.
Durante três anos, perguntou-se se sua missão simplesmente terminara. A Shikon reapareceu. Ela a destruiu. Foi devolvida.
Fim.
Às vezes pensava se não teria sido um sonho coletivo — mas a própria família presenciara tudo.
Era real.
E, mesmo livre de perigos, Kagome não estava feliz.
Foi isso que a levou de volta ao templo, parada diante do poço mais uma vez.
— Será que ele se fechou por minha causa? — murmurou.
Ela havia evitado pensar em Inuyasha. Em Sango. Em Miroku. Em Shippou. Em Kaede. Em Kouga.
Pareciam nomes de personagens inventados.
Mas não eram.
Colocou a mão na borda do poço.
— Inuyasha… Por que eu fui enviada para lá? Por que ele se fechou assim que a Shikon foi destruída? Meu trabalho acabou? É isso? Eu devo viver em um mundo onde você não existe?
Silêncio.
Então, finalmente, o pensamento que ela evitara por três anos veio com clareza.
“Eu quero te ver.”
O ar mudou.
Seus cabelos tremularam.
— Kagome…? — a voz da mãe veio atrás dela.
— Mamãe… olha.
Do fundo do poço, o céu parecia visível como se estivessem olhando de dentro dele.
— Mamãe, eu…
Ela não conseguiu terminar.
A palavra “quero” ficou presa na garganta.
“Quero ficar com ele”.
“Quero voltar”.
“Quero ir embora de novo”.
Era cruel pensar assim. Depois de três anos tentando ser a filha perfeita, a estudante aplicada, a garota normal. Depois de vê-los sofrerem com seu desaparecimento repentino.
A mãe aproximou-se devagar, como se tivesse medo de assustar o momento.
— Kagome… — sua voz era calma demais.
— Eu tentei — Kagome disse, quase num sussurro. — Eu tentei ser normal. Eu tentei seguir em frente. Eu tentei esquecer.
Os olhos ardiam.
— Mas quando eu penso no futuro… — respirou fundo — Ele não está aqui.
Silêncio.
Não houve repreensão. Nem choque. Nem tristeza escancarada.
Apenas compreensão.
A mãe ergueu a mão e tocou o rosto da filha.
— Você nunca pertenceu apenas a este mundo.
Aquilo doeu — mas não como uma ferida. Como uma verdade.
— Eu tenho medo — Kagome admitiu. — Tenho medo de ir. Tenho medo de ficar. Tenho medo de escolher errado.
— Então escolha o que faz seu coração parar de doer.
As palavras foram simples. Definitivas.
— Mamãe? Mas… E vocês?
— Nós vamos sentir a sua falta — disse com honestidade. — Mas preferimos sentir saudade do que ver você vivendo pela metade.
Kagome começou a chorar de verdade.
A mãe a abraçou com firmeza.
— Vá — murmurou. — Vá para onde você é inteira.
Não houve drama. Não houve discurso heroico.
Só amor.
E permissão.
A mão com garras segurou a dela com força.
Firme. Quase desesperada.
Kagome foi puxada para cima.
O ar mudou. O cheiro mudou. O céu parecia diferente.
E então ela o viu.
Cabelos longos e prateados ao vento. Quimono escarlate. Orelhas de Akita voltadas para trás, incrédulas.
Os olhos âmbar estavam mais abertos do que ela jamais vira.
— Kagome…
Não era uma pergunta.
Era uma confirmação.
Ela tropeçou ao sair do poço, e ele a segurou pela cintura antes que caísse.
Tão quente.
Tão real.
— Inuyasha… — a voz falhou. — Me desculpa. Eu fiz você esperar demais, não foi?
Houve um segundo de silêncio.
Um segundo em que ela temeu ver mágoa.
Em vez disso, ele a puxou para um abraço.
Apertado.
Quase possessivo.
Como se tivesse medo de que ela desaparecesse outra vez.
— Sua idiota… — murmurou contra o cabelo dela. — O que estava fazendo esse tempo todo?
Ela riu entre lágrimas.
— Tentando ser forte.
— Sozinha?
Ela não respondeu.
Ele afastou o rosto apenas o suficiente para olhá-la.
Três anos.
Ela estava diferente. Mais madura. Mais serena.
Mas ainda era Kagome.
— Eu achei… — ele começou, hesitando — Eu achei que você não voltaria.
Aquela confissão era maior do que qualquer declaração.
Ela segurou o rosto dele entre as mãos.
— Eu sempre voltaria.
As orelhas dele se moveram levemente.
Ela quase o beijou.
E talvez tivesse beijado—
— KAGOME!
O mundo voltou a existir.
Shippou correndo. Sango-chan emocionada. Miroku-san sorrindo, carregando duas meninas idênticas.
Gêmeas.
Sango-chan segurava um terceiro bebê.
Uns três anos de idade.
Tanta coisa havia mudado.
Mas, mesmo cercada por todos, Kagome não soltou a mão dele.
Não desta vez.
Ela olhou ao redor, respirando fundo, sentindo o chão sob os pés como se fosse a primeira vez.
— Estou de volta!
E dessa vez, não havia dúvida.
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