Última Dose de Felicidade
5 A Dustland Fairytale
Notas iniciais
Saí da casa de Lauren com minha bicicleta e, aproveitando o clima agradável, resolvi passar no parque que ficava perto de minha casa. Estava lá, pedalando distraidamente, quando acidentalmente bati com a bicicleta em alguma coisa. Caímos eu, a bicicleta e a “coisa”, que alguns segundos depois percebi ser uma garota alta e esguia, vestindo uma camisa do Green Day, uma calça preta meio rasgada, uma jaqueta preta de couro e um coturno preto gasto.
Comecei a pedir desculpas para a garota enquanto me levantava com a bicicleta e tentava ajudar ela a se levantar também no momento em que percebi que aquele rosto me era familiar, mesmo com os alargadores, corte de cabelo muito diferente e maquiagem bem pesada. Então constatei que havia atropelado minha prima-quase-irmã Emma. No mesmo instante ela também me reconheceu e caímos na risada. Quem diria que, num mundo com 7 bilhões de pessoas, eu atropelaria a minha prima de Yellow Springs que eu não vejo há 5 anos?
– Oi, Han! Quanto tempo! Esperava uma recepção mais amigável, não uma tentativa de assassinato! – ela disse fazendo biquinho, mas logo voltou a rir e eu acompanhei. Digo minha prima-quase-irmã porque ela cresceu comigo e com Jessie, antes de ter de se mudar.
– Juro que se soubesse que você vinha eu teria preparado um comitê de recepções – disse em meio aos risos.
– Eu ia vir ontem, mas perdi o ônibus e só tinha passagem para hoje. Nem avisei nada, pois queria fazer uma surpresa para a tia Nina. – me explicou Emma. — E você, onde estava indo antes dessa tentativa de me assassinar?
– Eu estava voltando da casa da Lauren e resolvi dar uma volta no parque antes de voltar para casa, mas acho melhor ir direto para lá, você deve estar cansada da viagem.
– Um pouco... Mas é melhor irmos antes que você realmente mate alguém.
Fomos andando para casa, colocando o papo em dia, nos atualizando sobre esses cinco anos que nos separaram, e nem reparei que já estávamos em casa.
Quando minha mãe viu Emma ficou quase tão surpresa quanto eu, com a diferença que ela não a tinha atropelado.
– Emma, que surpresa! Meu Deus, como você cresceu, está enorme! Você devia ter avisado que vinha, nós teríamos ido te buscar na rodoviária.
– Minha intenção era ter chegado ontem de surpresa, mas acabei perdendo o ônibus. Ah, deixa eu te entregar seu presente, tia – ela tirou da mochila uma caixa menor do que uma caixa de sapatos, embrulhada num papel de presente vermelho e entregou para minha mãe.
– Não precisava se preocupar com presente, minha querida. Só a sua presença já vale mais do que milhões de presentes. – disse minha mãe enquanto abraçava Emma.
Depois de Emma insistir várias vezes e dizer que, se minha mãe não pegasse o presente, ela ficaria chateada, minha mãe abriu o pacote e pegou o presente, que era um perfume daqueles bem caros, que uma família com a renda da minha só compra uma vez na vida.
– Oh meu Deus, Emma! Esse perfume é muito caro! Eu não posso aceitar.
Minha mãe entregou o perfume de volta para Emma, que por sua vez o abriu, foi espirrando no pescoço e braços da minha mãe e disse:
– Agora já está usado, não da mais para devolver e eu não vou ficar com ele.
Quando minha mãe resolveu ficar com o presente, já estávamos todos morrendo de fome. Louis foi para a cozinha e disse que ia preparar um prato típico do Brasil especialmente para a Emma. Depois de umas duas horas conversando sobre as novidades, finalmente o almoço estava pronto e então fomos comer. Emma ficou um pouco insegura ao comer o prato brasileiro chamado de feijoada. Ela disse que nunca tinha visto tanta coisa misturada num prato só, mas acabou comendo por consideração à Louis. Ela acabou gostando tanto do prato que acabou pedindo a receita e ela e Louis ficaram trocando dicas de culinária, já que os dois cozinham muito bem, enquanto eu e minha mãe lavávamos a louça.
Depois do almoço, Jessie me ligou dizendo que tinha alugado João e Maria: Caçadores de Bruxas e que tinha combinado com Lauren de irmos assistir lá. Ela ainda não sabia que Emma estava na cidade, então quando a viu ficou super empolgada e não parava de falar sobre as novidades.
Chegamos à casa de Lauren e eu a apresentei para Emma. Depois nós dispomos vários colchões no chão, pegamos a pipoca e colocamos o filme. Eu estava sentada ao lado de Jessie, que estava ao lado de Emma, que estava ao lado de Lauren, então não dava para ver muito bem como Lauren estava reagindo à nova integrante temporária do nosso grupo.
No decorrer da nossa sessão pipoca, uma daquelas bruxas horrendas apareceu repentinamente e Jessie, a mais medrosa entre nós, pulou no colo de Emma. Emma e eu desatamos a rir, mas não percebi nenhum sinal de graça no rosto de Lauren. Ela passou a pipoca para Emma, derrubando um pouco no colo dela e foi ao banheiro. Até o fim do filme, não vimos sinal da Lauren, até batermos à porta dizendo que estávamos indo embora. Quando Lauren saiu, Emma perguntou se ela tinha ficado com tanto medo da bruxas que resolveu ficar no banheiro até o fim do filme e Jessie começou a falar sobre como Lauren tinha perdido o filme do ano. Lauren deu um risinho sem graça e ficamos todas em silêncio até Emma perguntar quando a gente poderia repetir a sessão.
– Bom, depois a gente vê isso, agora nós vamos embora, certo? – disse eu ao perceber que Lauren não tinha gostado muito da pergunta de Emma.
Estávamos todas caminhando até a porta, com Lauren nos acompanhando. Despedimo-nos, Emma agradeceu Lauren e disse que tinha adorado conhece-la. Só então vi Lauren um pouco mais serena. Ela abraçou Jessie e eu ouvi um sussurro de algo como um pedido de desculpas por parte de Lauren, enquanto Jessie, dizia que estava tudo bem com um sorriso, mas demonstrava não estar entendendo nada.
Deixamos Jessie em sua casa e passamos na Subway pegar uns lanches, pois já era hora do jantar e eu não queria deixar que Louis resolvesse preparar mais um prato especial para Emma. Não são todas as pessoas que gostam de feijoada. Meu irmão, por exemplo, é uma dessas pessoas.
Fomos direto para o quarto e comemos nossos lanches lá mesmo para tentarmos ter um momento a sós.
– É bom te ter aqui. Eu sinto muito a sua falta. Você devia vir mais vezes. – disse eu para Emma depois de conversarmos sobre coisas aleatórias como bandas, moda e maquiagem.
– Eu sinto muito a sua falta também. Se a escola não tomasse tanto meu tempo eu juro que viria mais vezes, aqui eu me sinto em casa.
Emma estuda em uma escola de período integral, mas no momento a escola estava em greve.
– La mia casa è la tua casa.
– Huuum, parece que alguém está indo bem nas aulas de italiano. – Emma disse rindo.
– Eu tenho umas ajudas de Lauren, a família dela é italiana e eles geralmente falam apenas italiano lá na casa dela.
– Falando nessa Lauren, ela é bem legal, né? Adorei nossa sessão pipoca. Mas vem cá, ela é sempre estranha assim??
Fiquei surpresa com a pergunta de Emma. Lauren andava agindo estranho, sim, mas será que isso estava tão explícito assim a ponto de uma pessoa que acabou de conhecê-la perceber?
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