Última Chance, Judd.
9 Capítulo VIII
Capítulo VIII: O vício, a namorada e conversas esclarecedoras.
Dos vícios banais ao cigarro, eu não faço a mínima ideia de como passei de um para o outro. É claro que aquela famosa história de fumar apenas por estar estressado ou estar com os amigos ajudou muito para que eu me pegasse viciado em nicotina, mas há sempre aquele momento em que você pára para pensar no porquê diabos estar fumando se não há nenhum amigo por perto e você, definitivamente, não está estressado. Então, consequentemente, você se vê apegado a um mais novo vício.
Eu nunca tivera influências de meus pais em questão de cigarro, muito menos do resto da minha família, porque aparentemente nós tínhamos que ser a família perfeita – apesar das rachaduras defeituosas que as pessoas "de fora" não sequer faziam ideia e nem conseguiam enxergar. Eu tinha lá os meus 15 ou 16 anos de idade quando fumei pela primeira vez; me lembro perfeitamente de ter tossido muito e engasgado diversas vezes com a fumaça do cigarro que pouco tempo depois já estava impregnada pela minha roupa, cabelo e todo o resto que você pode imaginar. Obviamente, quando voltei para casa àquela noite (nas pontas dos pés e segurando a própria boca, porque estava tão bêbado que era bem provável que eu começasse a rir sem motivo algum apenas pelo prazer da coisa), recebi um belo de um sermão de pouco menos que quinze minutos de meus pais, já que mascarar o bafo de álcool e o fedor do cigarro nas minhas roupas não fora algo que eu conseguira disfarçar exatamente com sucesso.
E mesmo com todas as broncas, os sermões e as ocasionais surras, em nenhum momento eu pensei em parar de fumar, porque, eu querendo ou não, aquilo infelizmente já havia se tornado um vício. Chamem de loucura ou suicídio se quiserem, vai saber.
O manuscrito de Jakob Henn (eu demorei um pouco mais de cinco minutos para decorar o maldito sobrenome do autor) está jogado na mesa de centro da sala, juntamente com o idêntico de Dougie, algumas canetas espalhadas aqui e ali, um lápis de ponta desgastada, uma borracha de duas cores, um isqueiro verde-limão e um maço de cigarros pela metade. Eu estou acomodado na poltrona de couro vermelho, fumando em silêncio enquanto somente observo as ocasionais baforadas de fumaça subirem densas pelo ar e se espalharem aos poucos, fazendo com que a sala fique com um cheiro agradável de tabaco – pelo menos, para mim, em todos os casos.
Ouço distante Andi e Dougie rirem e conversarem animadamente sobre assuntos que eu prefiro nem prestar atenção, enquanto a eles se junta um ruído constante de louça contra louça num tilintar irritante. O barulho arrastado de água e sabão também é presente, o que me faz concluir sabiamente que os dois estão se encarregando de lavar toda a louça do jantar de antes. Eu poderia ajudar, obviamente, mas fumar é muito mais interessante.
Há um grito vindo da cozinha e eu, ligeiramente irritado, giro a cabeça para o lado, tentando olhar por cima do ombro para ver o porquê de tanto barulho desnecessário. Andi aparece cinco segundos depois rindo muito, quase a gargalhadas, cheia de sabão pelos braços e, estranhamente, pelos cabelos. Eu a ergo uma das sobrancelhas em uma pergunta muda enquanto Dougie aparece atrás dela, enxugando as mãos meladas de sabão nas laterais de sua calça.
"Eu", gargalhada, "vou ali", gargalhada, "tomar um banho", gargalhada, "e deixar vocês dois", gargalhada histérica, "trabalharem em paz."
E, com isso, Andi simplesmente passa pelo corredor estreito e se fecha dentro do banheirinho ao lado de nosso quarto com uma batida oca de porta. Eu ainda estou olhando o corredor vazio em que antes Andi passara com um olhar abobado, piscando devagar enquanto o cigarro começa a pender em um dos cantos da minha boca. Com um gemido cansado, no entanto, a minha atenção retoma a Dougie, agora de volta sentado no sofá adjacente à minha poltrona.
"Ela é uma garota muito legal", ele comenta baixo, coçando a nuca de um modo quase envergonhado. "Agora eu entendo o porquê de vocês estarem há tanto tempo juntos."
"Ela... Comentou sobre nós?", pergunto meio incerto, me remexendo na minha poltrona enquanto retiro o filete de cigarro da boca para soltar uma baforada para cima. "Quero dizer, sobre mim e ela?"
"Um pouco. Eu perguntei há quanto tempo vocês estavam juntos e, hey, isso deve ser um novo recorde pra você!", ele diz divertido, calçando o seu par de tênis jogado em algum canto por ali para evitar contato visual comigo, provavelmente. "Quatro anos não são para qualquer pessoa."
"Bom, sim, eu não posso dizer que já tive vários relacionamentos duradouros, honestamente... Mas gosto de Andi."
"Isso... Isso é bom."
E então nós caímos em um novo silêncio. Eu não sei ao certo se esse é mais um daqueles silêncios incômodos como a maioria dos que nós já tivemos que passar, mas não me importo em começar uma nova conversa. Por um momento, penso em apanhar o manuscrito largado à mesa para voltar – forçado – ao trabalho, mas a minha preguiça descomunal e o meu cansaço me impedem de fazer qualquer coisa. Com um pensamento esquisito na cabeça, no entanto, eu me viro mais uma vez a Dougie.
"Ei... Você se lembra há oito anos, na casa dos meus pais, um dia antes de você ir embora de Londres?", pergunto hesitante, revirando os olhos para qualquer outro lugar ao reparar em Dougie se empertigando em seu assento. O seu rosto está estranhamente vermelho e ele logo sobe as mãos até ele para coçar as bochechas, como se quisesse fazer com que toda a vermelhidão sumisse de uma hora para a outra. Eu pigarreio, meio sem jeito, antes de continuar. "Eu só queria dizer que–"
"A-ah, tudo bem, você não precisa me dizer nada", Dougie me corta em um tom bem audível de voz e eu quase posso sentir toda a sua vergonha. "Isso já faz muito tempo, eu era um babaca muito novo ainda que não sabia das coisas e... Hmmm, eu achei que você nem se lembrava mais disso."
"Honestamente, é meio difícil se esquecer daquilo...", digo ainda sem jeito, quase em um sussurro, e Dougie sobe o rosto para mim com um estalo no pescoço em um átimo de segundo. Ele passa um bom tempo apenas me observando terminar de fumar, quietamente, o meu cigarro, com algo no olhar que eu não entendo muito bem o que é. Logo eu me vejo me corrigindo. "É que, bom, aquilo meio que me pegou de surpresa, eu não sabia o que fazer e aí acabei fugindo feito um covarde."
Ele sorri e concorda com a cabeça, finalmente começando a contrair os músculos para relaxar no sofá.
"Sim, você fugiu feito um covarde."
"Mas, puxa, obrigado por tentar elevar a minha moral, campeão!", comento entre risadas enquanto tento apagar o final do cigarro no cinzeiro sobre a mesa de centro. Ao finalmente conseguir, me recosto novamente na poltrona e continuo. "Me fale sobre a sua noiva."
"Minha... Noiva?", ele simplesmente repete, parecendo meio atordoado.
"Bem, você está noivo, não?"
"A-ah! Minha noiva... Err, certo", ele ri envergonhado e dá uma pequena palmada no dedo anelar com a aliança de prata. "Nós nos conhecemos em Galway. Logo ficamos amigos e, depois de um tempo, começamos a namorar. Aí... Estamos juntos até agora. Faz bastante tempo, eu acho. Quase nem me lembro mais."
"Quanto tempo?"
"Um pouco mais de cinco anos."
"É bastante tempo...", murmuro, mais para mim do que para ele. Dougie concorda mais uma vez e remexe as mãos sobre o colo, parecendo meio agitado, fazendo com que os seus braceletes tilintem uns contra os outros.
"E eu sei que nós somos muito novos ainda para casar, todo mundo diz isso, mas eu realmente não me importo, sabe? Eu apenas sinto que devo fazer isso."
Logo após ouvi-lo, por instinto, o meu olhar é arrastado para a sua figura quieta no sofá. Com as sobrancelhas franzidas, eu o observo por algum motivo, talvez apenas pelo prazer de observá-lo (porque, bom, eu tenho que fazer algo): ele se remexe vez ou outra, impaciente, mordendo um pedaço do lábio inferior até deixá-lo marcado e um pouco vermelho. O meu instinto animal grita dentro da minha cabeça para eu tocar com os dedos a região mordida, para sentir a sensação da sua pele machucada ou qualquer outra babaquice do tipo, e eu até chego a me surpreender com os meus próprios pensamentos durante um instante.
Sem ter controle sobre aquilo que falo, eu me ouço perguntá-lo algo que nunca perguntaria em sã consciência:
"Bem, você a ama?"
Dougie não tem nem tempo de parecer surpreso, porque no momento seguinte, um estrondo no final do corredor desvia as nossas atenções instantaneamente para Andi. Ela aparece na porta do banheiro vestida em uma das minhas camisetas de dormir (aquelas enormes, desgastadas e cheia de buracos), os joelhos à mostra e os cabelos respingando água para todo canto. Andi sorri ao nos observar ali e então caminha até o quarto, desaparecendo de nossas vistas, para logo depois voltar à sala, passando o olhar excitado de mim para Dougie.
"Vai passar a noite aqui, Dougie? Se quiser, a gente abre o sofá, ele é bem confortável."
Eu bufo alguma coisa impaciente. Honestamente, Andi poderia ter demorado um pouco mais para sair do banho.
"Ah, não, não. Tenho que voltar para casa, Joni deve estar louco sozinho."
Eu ergo uma das sobrancelhas em dúvida, porque obviamente não sei quem é Joni. Pelo o que eu havia entendido, Dougie estava se casando com uma garota, certo? Ou...
Andi, no entanto, apenas concorda complacente, com um sorriso mínimo no rosto, como se soubesse exatamente sobre o que Dougie está dizendo. Por que diabos eu sou sempre o último a saber das coisas?
"São mais de dez horas já, eu tenho que ir. Obrigado pelo jantar, Andi!"
Dougie e Andi se despedem rapidamente enquanto eu faço o favor de ajeitar as suas coisas em uma pilha num canto da mesa, a qual ele, desajeitado, atira para dentro de sua mochila segundos depois. Eu o levo até a porta, nós dois mais uma vez em silêncio. Dougie ajeita as alças da mochila nos ombros, sorri e acena uma última vez para Andi antes de sairmos quietamente do apartamento. Ao fechar a porta de casa atrás das minhas costas, abaixo o olhar até Dougie, meio incerto sobre o que fazer.
"Bom... Hmmm. Nós nos vemos amanhã", digo eu.
"Sim, amanhã", repete ele, sem sair do lugar.
"Então... Até."
"Sim, sim. Até."
"Boa noite."
"Boa noite!"
"E você vai ficar aí plantado repetindo tudo o que eu digo?", pergunto com uma risada meio rouca.
"Ah, é! Foi mal. Nossa. Vou indo. Boa noite. Até amanhã. A gente se vê. Te cuida. Tchau!", ele me grita sem muito jeito enquanto corre até as escadas para começar a descê-las furiosamente. Pouco tempo depois, eu o perco de vista.
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