Última Chance, Judd.
10 Capítulo IX
Capítulo IX: O telefonema.
Woody Allen me dissera uma vez algo parecido com – e aqui eu não me arrisco em parafrasear – "um relacionamento é igual a um tubarão, ele tem que constantemente se mover para frente ou senão morre". A primeira vez que eu assisti a Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, aos cinco ou seis anos de idade, não consegui compreender o que Alvy Singer (Allen, no filme) quis dizer com a frase sobre relacionamentos e tubarões, porque, na minha cabeça, eu não conseguia ligar uma coisa à outra – além, é claro, de não entender a maioria das falas e o humor do filme por motivos óbvios.
Aos treze anos de idade, assisti novamente ao filme e lá estava a frase dos tubarões e relacionamentos. Eu ainda não havia conseguido relacionar direito o que é que ele queria dizer com aquela frase, então perguntara aos meus pais ou para qualquer outra pessoa que estivera por perto, eu não me lembro, o que Allen queria dizer com aquilo. Ninguém me dera uma boa resposta.
Aos vinte anos, assisti mais uma vez ao filme (e, acredite, esse não é o meu filme predileto; nenhum irá ser tão bom quanto O Poderoso Chefão e todas as suas continuações). Eu não me lembro exatamente como, mas acho que algo simplesmente se juntou dentro da minha cabeça e eu finalmente entendi o que Woody Allen queria expressar com aquela única frase. Tanto importa o relacionamento ser amoroso ou não, se as pessoas envolvidas não o levarem a sério, não acreditarem realmente na relação e não se empenharem para que ela possa dar certo, é óbvio que qualquer coisa que haja entre as duas pessoas irá morrer. Eu não faço o tipo de cara romântico que piamente acredita em todas essas besteiras amorosas, de fato, mas fico feliz de ter tido a sensibilidade de compreender Allen.
Eu nunca havia me empenhado realmente em uma relação até conhecer Andi. Quando a vi, em uma dessas festas de faculdade, vestida naquele vestido vermelho que lhe mostrava os ombros e os joelhos, quando me aproximei para puxar conversa e todo o resto, eu não esperava um relacionamento. Eu queria alguém para passar a noite e me esquecer do nome no dia seguinte. Mas, felizmente, não fora isso o que aconteceu.
A segunda pessoa que me fez querer me esforçar de alguma maneira foi Dougie. Não exatamente quando nós estávamos em nossos anos de colégio, porque ele claramente corria atrás da minha amizade e eu apenas o deixava se esforçar sozinho. Eu digo de agora. Por algum motivo, eu me vejo nessa estranha sensação de ter que lhe recompensar de alguma forma, porque, bem, eu não posso dizer que fui exatamente uma boa pessoa com ele anos atrás.
Posso dizer, no entanto, que a nossa relação está progredindo de certo modo que, se alguém me dissesse que nós acabaríamos assim, eu provavelmente não acreditaria.
É final de Outubro. Sam parece estar mais estressada a cada dia que passa por algo que eu nem faço ideia do que seja. Dougie parece morar em minha casa, já que nós sempre decidimos trabalhar no meu apartamento (ele diz que o espaço aqui é maior do que em sua casa). Eu e Andi mal conseguimos passar algum tempo juntos (e isso me faz lembrar a noite passada, uma hora da manhã, eu com insônia e Andi querendo aproveitar a todo custo o nosso pouco tempo juntos; como eu simplesmente não consegui fazer o negócio subir?!).
São quatro horas da tarde de uma sexta-feira cinzenta e monótona. Eu me deixo pensar se talvez sair mais cedo do trabalho fora uma ideia tão boa assim.
A porta do banheiro faz um rangido no momento em que eu a empurro para frente e escapo pelo vão dali, me agarrando à toalha em torno da minha cintura só por precaução. Afinal, eu estou praticamente pelado no meio do quarto e Dougie está na sala de estar à minha espera, fazendo sabe-se lá o quê. Eu não me surpreenderia, portanto, se ele simplesmente viesse até aqui para me assediar de alguma maneira – ele já tentou me assediar uma vez, não?
Em uma velocidade impressionante, eu me troco (depois de obviamente trancar a porta do quarto), não dando a mínima importância às roupas que encontro pelo caminho e visto – uma calça cinza de moletom e uma camiseta preta, velha e meio rasgada em uma das mangas. Devidamente vestido, chacoalho a cabeça, respingando água para todos os cantos do quarto, antes de finalmente destrancar a porta com algum cuidado.
Da sala, posso escutar a voz de Dougie, rindo e conversando com alguém. As minhas sobrancelhas logo se arqueiam em confusão: Andi só sai do trabalho às seis horas, então é de se supor que ficaríamos apenas eu e Dougie em casa (para continuarmos a trabalhar no manuscrito, é claro). Curiosamente, não há outra voz a acompanhar Dougie.
"Sim, eu me lembro!", ele diz entre uma e outra risada. "Isso faz tanto tempo... Eu não sei como você se lembra disso!"
Cada vez mais curioso, vou caminhando cuidadoso pelo corredor a fim de não fazer nenhum som que possa chamá-lo a atenção. Entorto a cabeça para poder caçar Dougie com o olhar, eu ainda escondido na curva do final do corredor, apenas para vê-lo sentado no sofá da sala, descalço, as pernas dobradas em um ângulo esquisito, o gancho do telefone de casa friccionado contra uma das suas orelhas. Em qual momento que o telefone começara a tocar, eu não faço a mínima ideia – o que me faz pensar automaticamente na minha conta telefônica, será que Dougie ficou tanto tempo assim tagarelando no meu telefone?
Ele abre um sorriso tímido ao me encontrar no meu esconderijo e me chama com o indicador logo em seguida.
"Vou chamá-lo, um instante, ele finalmente saiu do banho", Dougie diz antes de retirar o gancho da orelha e tampá-lo com a mão. "É seu irmão."
Eu me vejo apenas soltando um grunhido indecifrável, ainda meio confuso. Dougie sorri mais confiante e me estende o gancho do telefone, o forçando contra a palma da minha mão.
"Charlie, certo?"
"Charlie... Chaz? Chaz está do outro lado da linha?", pergunto surpreso, não conseguindo nem me lembrar da última vez que falara com Chaz. Sem esperar por uma resposta de Dougie, forço o gancho contra uma de minhas orelhas. "Chaz?"
"Mas você é uma moça mesmo! Tudo isso só pra tomar um banho? Isso ou você está com um problema muito sério de digestão!"
"Ah, vá te catar", resmungo e Chaz ri do outro lado da linha.
"Ei, ei, eu não sabia que você tinha voltado a falar com o Dougie!"
"Uma história engraçada até, mas não estou com a mínima vontade de contar."
"Sem problemas, ele já me contou, babaca", e mais uma risada de Chaz. "Mas falando sério, você sabe qual é a nova da sua querida mãe agora? Ela me botou pra trabalhar!"
"Já estava na hora", eu comento divertido, me apoiando na mesa ao lado do sofá, onde Dougie ainda se mantém sentado, quieto.
"Não, não, o pior é que nem ganhar grana eu vou!", Chaz reclama e logo em seguida posso ouviu um ruído do outro lado da linha, juntamente com uma nova voz. "OK, OK, eu vou falar, não precisa se estressar!", ele murmura e a voz ao fundo some. "Mamãe está louca, cara... Você sabe que eles vão fazer 30 anos de casados esse ano, né?"
"Hã... Eu não fazia a mínima ideia", respondo, sincero. "O que tem isso?"
"Eles querem dar uma festa. Como em todos os outros anos, eu não sei como você não se lembra dessas coisas, cara!", Chaz diz alto demais do outro lado da linha e, por um momento, eu afasto o telefone do ouvido com medo de ele acabar me deixando surdo ou coisa parecida. "Até presente a gente tem que dar! Como se eu tivesse algum dinheiro pra bancar..."
Involuntariamente, reviro os olhos e sorrio. Chaz continua.
"E, como se não bastasse, eu fui encarregado do trabalho de ligar para todo mundo pra avisar da 'festa', porque mamãe disse que fazer convites seria caro demais! Eu nem quero ver quando ela botar as mãos na conta telefônica..."
"Você está imaginando o ataque de histeria, não está?"
"Completamente!", ele bufa impaciente do outro lado da linha. "Mano, um instante."
E antes que eu consiga responder qualquer coisa, a atenção de Chaz está voltada para algo do outro lado da linha. Ele parece conversar com alguém durante alguns segundos, embora eu não consiga escutar a outra voz direito, estranhamente abafada. Com uma repetição constante e irritada de "tá, tá, tá, mãe!", Chaz volta mais uma vez para a linha do telefone.
"Mamãe está aqui do lado. Mandou um beijo. Disse que é pra você trazer Andi pra casa, a festa vai ser aqui em casa, aliás. Você ainda se lembra do endereço?"
"Muito engraçado, estou tendo ataques de risos incontroláveis aqui, você nem imagina."
"Imaginar, sim. Mas, bom, é na semana que vem, a festa. Final de semana que vem. Mamãe e papai estão dizendo para você vir um dia antes, na sexta-feira, e passar o final de semana todo aqui. Eles disseram que Andi pode ficar no quarto de Kara."
"Oh, cara, eles ainda estão com essa de não deixarem as namoradas ficarem no mesmo quarto?", eu pergunto, quase aborrecido, e é exatamente nesse instante que Dougie arrisca um olhar na minha direção, aparentemente divertido. Eu troco o telefone de orelha e viro as costas para ele depois de revirar os olhos por uma segunda vez.
"Totalmente!", Chaz parece tão aborrecido quanto eu. "Semana passada, eu tive que ficar com a... A... Krista, Kristal, sei lá, o tempo todo no sofá da sala e... OK, mãe! Vou desligar, vou desligar!", há uma pausa do outro lado da linha. Eu mordo meu lábio inferior para não começar a gargalhar, porque consigo imaginar a cena perfeitamente dentro da minha cabeça. Mamãe deve estar passando um belo sermão em Chaz. "A velha está começando a ficar gagá", ele comenta em um murmúrio cuidadoso. "Mas, bom, era isso. Mamãe está dizendo para você vir, sem faltas. E trazer Andi. E AH!"
Por uma segunda vez, eu afasto o telefone da orelha por consideração aos meus ouvidos, já que ficar surdo não é algo que está na minha lista de 'Coisas a se Fazer Antes dos 30'. Resmungo alguma coisa, baixo, e volto o telefone para a orelha, um bocado receoso.
"O que é, Chaz?"
"Disse pra mamãe sobre Dougie, que vocês voltaram a se ver. Ela ficou muito contente em saber que ele está na cidade de novo! Disse que é pra você arrastá-lo pra cá, de um jeito ou de outro. Para trazê-lo pra festa. Disse que não aceita um "não" como resposta", Chaz comenta igualmente contente. "Faz muito tempo que não vejo esse garoto... Eu tinha só... Quantos anos? Uns treze quando o conheci!"
"Dougie?", eu murmuro meio descrente, o que faz com que Dougie vire o rosto na minha direção, com as sobrancelhas franzidas em confusão. "Ah, isso vai ser uma puta de uma festa bacana. Nem consigo imaginar, caramba", resmungo mais uma vez, em um humorzinho ordinário, enquanto escuto Chaz rir descaradamente do outro lado da linha.
Ele me diz mais algo que não escuto direito – já que a minha mente ainda está rodando por causa de nosso último assunto – e logo Chaz está se despedindo e desligando o telefone. Eu não sei ao certo se fico dois segundos ou dois minutos com o telefone rente à orelha, mesmo depois de a linha já estar cortada, porque a minha cabeça estranhamente ainda parece rodar bastante. Ao procurar Dougie com o olhar (e achá-lo ainda sentado, no sofá, ao meu lado), eu bato finalmente o telefone contra o gancho antes de me virar por completo para ele.
Com um sorriso azedo, anuncio à Dougie:
"Bem, parece que teremos programas para o próximo final de semana."
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