Settle down with me

And I'll be your safety

You'll be my lady

I was made to keep your body warm

But I'm cold as the wind blows so hold me in your arms

And your heart's against my chest

Your lips pressed in my neck

I'm falling for your eyes

But they don't know me yet

And with a feeling I'll forget

I'm in love now

(Kiss Me – Ed Sheeran)

Den

— Den? — ela murmura surpresa quando infiltro meus dedos nos cabelos curtos de sua nuca.

— Por favor, não se assuste — peço junto ao seu ouvido.

A pele lisa se arrepia.

Não há cicatriz ali. Não tive coragem de fazer uma sem o Corta Dor, e Mia ainda não está pronta para o risco de tomá-lo.

— Onde está seu cachecol? — pergunto, acariciando seu pescoço e levantando a gola do casaco, como se fosse uma brincadeira entre namorados.

Mia entende imediatamente o que está acontecendo.

— Esqueci dentro do carro — lamenta. — Estava calor.

— Tudo bem, vamos dar um jeito.

Prenso-a contra a porta de um carro qualquer, o nosso está uns metros atrás, mas acho que isso dá até mais credibilidade à urgência que tento demonstrar. Mia entende o que pretendo encenar e enlaça meu pescoço. Em nosso abraço, meu corpo tampa a visão do dela.

— Ah, meu Deus — ela diz, deitando a cabeça em meu ombro para poder espiar o que me alarmou. — É o Chico.

Não reconheço o nome, mas agora tenho certeza de que o homem latino que nos observava insistentemente a reconheceu mesmo.

— Bem, não é mais o Chico — lembro.

— Ah, meu Deus — ela repete. — Nós fomos pegos!

— Shh, não. Você sabe o que fazer.

Eu não devia tê-la tirado de casa. Fui eu que insisti neste passeio. Porque a Confortadora disse que seria bom explorar ambientes diferentes, se distrair. Senti que Mia estava esmaecendo na fazenda, presa apenas à minha companhia.

Estou passando pelas sessões em seu lugar. É inútil, eu sei, mas é preciso para que eu possa conseguir os remédios adequados para desintoxicar seu corpo. O lado psicológico, porém, fica sem assistência. Por isso tento aplicar a Mia tudo o que a Confortadora sugere para ajudar com a “minha” cura.

Mas apesar do trabalho que lhe ocupa o corpo, das tentativas de iniciar um hobby para distrair a mente e dos muitos passeios ao ar livre para relaxar ambos, achei que faltava alguma coisa. Mia precisava se sentir parte de alguma coisa outra vez, precisava tentar ser sociável, mesmo que apenas em interações rasas e fugazes.

Precisamente por essa razão, tomei a decisão de nos arriscar fora de nossa zona de conforto e criei uma identidade para ela. Uma história. Depois a instruí sobre como agir naturalmente se alguém a abordasse.

Ela estaria o tempo todo comigo, me deixando falar em seu lugar quando necessário. Manteria sempre os óculos escuros. Diria apenas cordialidades. Não tinha por que alguém desconfiar.

Mas agora o medo em seu semblante me diz que a aposta foi alta demais.

— Ele me conhece, Den. Uma coisa é enganar um desconhecido, mas nós vivemos na rua juntos! Pensei que estivéssemos longe o bastante de Portland.

E estamos. Longe de Portland e de todas as cidades vizinhas. Longe o bastante para não temer reconhecimentos. Mas aconteceu.

— Você precisa se acalmar. O Chico conheceu a Mia. Mas essa alma não é o Chico. E seu nome aqui não é Mia, é Índigo. É praticamente como se vocês estivessem se conhecendo agora. Podemos fazer isso.

Olho por sobre meu ombro e, previsivelmente, o homem parece ter desistido de vir até nós depois que agarrei Mia e a prensei contra o carro. Ele ainda está olhando, mas parece incerto sobre se aproximar, com medo de interromper um momento íntimo. Isso me deixa mais tranquilo.

Mia, no entanto, está tremendo em meus braços.

— Ah, meu Deus — ela fica repetindo. — Eu não vou conseguir, Den. Me desculpe, me desculpe.

Preciso fazer alguma coisa. Essa situação toda é minha culpa. Fui imprudente demais. Reconheço muito tarde que o plano era terrível.

Ela bem que tentou me avisar de que não estava pronta, mas eu garanti que ficaria tudo bem.

É então que decido.

— Por favor, não se assuste — volto a pedir.

Então seguro sua nuca outra vez, puxando seu rosto para mim.

Meus lábios tocam os dela sem relutância, porque estou em uma missão. Mas então, quando sinto seu corpo quente enrijecer, eu congelo, sem saber como continuar.

Não fecho os olhos, nem ela. E é por isso que vejo seu olhar assustado se transformar em outra coisa.

Ternura. Ou talvez curiosidade. Não sei ao certo. Só sei que mexe comigo. E em seguida meus lábios deslizam pela boca macia e minha outra mão a puxa pela cintura.

Mais perto. Eu não devia. Mas não consigo evitar.

É ela quem toma a iniciativa então, sugando meu lábio inferior. Meu corpo inteiro reage e já não é mais a adrenalina que me move. Começo a corresponder, a imitar seus gestos.

Mia parece gostar disso. Um gemidinho baixo arranha sua garganta e manda um sinal direto para o meio das minhas pernas.

Preciso parar, mas não sei onde estão minhas forças. Simplesmente não consigo.

Lentamente, sua língua começa a provocar a minha e, outra vez, imito o que ela faz, movimentando meus lábios de um jeito que parece ser bom para ela também.

Não penso em mais nada. De repente, o ar não existe. O mundo desaparece. Somos apenas esses impulsos elétricos que viajam pelos meus membros.

Sem que eu dê propriamente um comando, meu corpo toma o controle e o atrito entre nós, abaixo da cintura, se intensifica, me enlouquecendo.

Seguro seu queixo e inclino seu rosto para alcançar-lhe o pescoço, percorrendo-o com os lábios.

— Den — ela suspira. — Ele... ele foi embora.

— O quê?

Não sei do que Mia está falando. E também não chego a me importar. Principalmente quando ela volta me beijar. Então, depois de um tempo, ela repete:

— Ele foi embora. Chico... a alma... já foi.

Quando as palavras finalmente me atingem, percebo o que fiz e a solto, me afastando um pouco.

— Me perdoe, Mia. Eu só quis... Quer dizer... ele pareceu hesitante quando te abracei, então eu pensei...

— Que me beijar o constrangeria e ele iria embora.

— Sim.

— Está tudo bem. Eu sei que somos amigos. Isso tudo — ela faz um sinal apontando para mim, o que me deixa envergonhado imediatamente, porque sei que meu desejo está um tanto quanto evidente sob a calça. — Isso que rolou entre nós foi só o corpo. Acontece.

— Sim, o corpo, acontece — digo, mas detesto esse raciocínio. Detesto que ela pense que eu, a alma, não sinto nada. — Vamos embora. É melhor a gente voltar outro dia.

— É melhor mantermos o disfarce — Mia resolve, e se achega a mim, grudando a lateral de seu corpo ao meu e me abraçando pela cintura.

Às vezes eu acho que ela gosta de me testar. Mesmo assim, ou talvez exatamente por isso, passo meu braço em torno de seus ombros e nos conduzo para o carro, desejando que o percurso tivesse mais do que alguns metros. Ou que o tempo tivesse parado minutos atrás.

********

A voz suave de Mia interrompe o silêncio.

— Posso fazer uma pergunta?

Ela não olha para mim, apenas se mantém concentrada na estrada à nossa frente. Eu, ao contrário, olho surpreso para ela. Não tínhamos trocado uma única palavra na última meia hora, desde de que saímos correndo do estacionamento do centro de compras, entramos no carro e partimos rumo à rodovia.

Estive anestesiado desde então, fingindo interesse na paisagem enquanto Mia assumia a direção. Por isso a pergunta me sobressalta.

— Está tudo bem? — Verifico as placas. — É essa via mesmo que tínhamos que tomar.

Quando Mia pediu para ser a motorista em nossa pequena aventura, fiquei relutante. Os humanos costumavam ser muito impacientes e imprudentes no trânsito. Se ela dirigisse um pouco que fosse acima do limite, chamaria atenção dos Buscadores.

Mas Mia tinha me prometido fazer tudo certinho, e tinha cumprido sua promessa até aqui, afirmando que eu era tão bom “copiloto” que ela nem sequer tinha precisado usar o GPS. Só que eu simplesmente tinha me esquecido de tudo desde o momento em que entrei no carro outra vez. Talvez ela tivesse pego uma entrada errada, mas não parecia...

— Está tudo bem, calma. Não errei o caminho. — Ela ri de minha preocupação. — É outra coisa.

— Ah — respondo, engolindo em seco.

Outra coisa. Possivelmente aquela coisa sobre a qual eu não estou preparado para falar, ao que tudo indica. Certamente, pela expressão séria e constrangida em seu rosto, não vamos conversar sobre o que tem para jantar. Eu não teria tanta sorte.

— Eu... sempre estive curiosa... Como vocês almas lidam com... — Ela para, limpa a garganta. E eu me preparo. — Como vocês lidam com o sexo?

Ela me olha furtivamente, só uma olhada rápida. Mas não parece tão envergonhada quanto eu. Isso seria impossível.

Opto por falar a verdade sem rodeios. Quem sabe assim o assunto se encerre o quanto antes.

— Nossos corpos são humanos. Temos os mesmos instintos e necessidades que vocês.

— Sim, mas... Algumas pessoas tinham regras. Digo, o Owen, por exemplo. Ele era padre.

— Sim, ele era. Mas eu não — respondo irritado. Não sei dizer o motivo, mas toda vez que Mia traz Owen para a conversa, me sinto mal. Como se ela precisasse necessariamente pensar sempre nele quando quer entender algo sobre mim. — Sexualidade não é um tabu entre as almas. Então muitas de suas regras não se aplicam.

— O que você quer dizer? — Ela arqueia uma sobrancelha.

— Que alguns de vocês viam o sexo como uma coisa problemática, proibida, até mesmo pecaminosa. Mas nós o encaramos como qualquer outra necessidade do corpo. Além disso, o conceito de pecado não faz nenhum sentido para nós. Então, se houver vontade consensual, duas pessoas podem se relacionar como bem entenderem.

— Tipo, a qualquer hora? Com qualquer um?

Mia parece chocada, como se eu tivesse dito que as almas vivem em constantes orgias ou algo assim. Parece ingênuo demais até, pensar desse modo. Uma espécie de moralismo obsoleto que não combina com ela. Por isso não resisto a um gesto que aprendi em nossa convivência e reviro os olhos.

Ela ri. Um riso nervoso, mas ainda assim melhora o ambiente.

— Padrões de relacionamentos são culturais. E a cultura do hospedeiro está entranhada em nossos esquemas mentais. Em boa parte da Terra, os relacionamentos mais comuns e aceitos eram monogâmicos. Nesse sentido, nada mudou. As almas que não se estabeleceram com algum companheiro podem se relacionar sexualmente com quem bem entenderem, mas quem tem um parceiro, fica apenas com ele.

— Até onde você saiba — ela bufa, zombando.

— Até onde eu sei — concedo, rindo também. — Obviamente, não posso falar por todo mundo. Mas a verdade é que não somos exatamente complexos, sabe? As coisas, para nós, ou fazem sentido ou não fazem. E adultério não tem lógica. Se os motivos para se manter a exclusividade acabaram, se não há mais esse desejo, não há coerência em permanecer na relação. Possivelmente há variações, outros tipos de arranjos, desde que sejam consensuais. Mas, no geral, evitamos complicações.

— Do jeito que você fala, parece simples.

É simples. Nós somos simples.

— É, vocês são — ela diz, pensativa. Depois disso, fica quieta o suficiente para eu pensar que o interrogatório acabou, mas é claro que não é o fim de verdade. Mia sempre quer saber mais. — Você nunca quis ter uma companhia? Quero dizer, no sentido monogâmico da palavra?

“No sentido monogâmico da palavra”. O jeito como ela fala é estranho, engraçado. Em outras circunstâncias, eu a provocaria por isso. Mas não hoje, não quando disfarçar o que sinto ficou tão mais difícil depois daquele beijo.

— Eu gostava da solidão antes de você — confesso.

É parte da verdade. A parte mais fácil. De certa forma, contudo, eu me pego esperando que ela entenda o que há por trás disso. Que me dê abertura para falar mais. Mesmo sem saber o que aconteceria se eu dissesse. Para a minha sorte ou azar, porém, a conversa toma um rumo mais leve.

— Eu vim atrapalhar sua paz, não é? — ela diz, mas está brincando.

Neste ponto, Mia já sabe que eu preferiria o dia em que a conheci a vinte vidas inteiras sem ela. Pelo menos eu acho que ela entende isso.

— Eu não sabia que gostava tanto de turbulência — respondo. — Mas eu gosto.

— É, você precisava de um pouco de agitação. — Nós rimos. — Mas... sobre hoje, eu preciso te agradecer. Ainda bem que você agiu rápido. Foi turbulência demais para uma primeira tentativa, né?

— Sim, turbulência demais.

Pergunto-me se ela faz ideia do quanto. Porque eu não vou me sentir normal de novo tão cedo.

É como estar no escuro depois de se descobrir que é possível ser tocado pela luz.

Sim, é exatamente isso. Mia me tocou como se fosse luz. E não sei se consigo ficar no escuro novamente.