Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
10 Capítulo 10 - O Começo de Algo Bom
Capítulo 10 – O Começo de Algo Bom
I know that it's gonna take some time
I've got to admit that the thought has crossed my mind
That this might end up like it should
And I'm gonna say what I need to say
And hope to God that it don't scare you away
Don't want to be misunderstood
But I'm starting to believe that
This could be the start of something good
Everyone knows life has it's ups and downs
One day you're on top of the world
Then one day you're the clown
Well, I've been both enough to know
That you don't wanna get in the way when it's working out
The way that it is right now
You see my heart, I wear it on my sleeve
'Cause I just can't hide it anymore
(Start of Something Good – Daughtry)
Mia
Inspiro fundo e me encho de contentamento com o cheiro de comida boa que se espalha pelo chalé.
Hoje é meu aniversário e eu disse a Den que o jantar ficaria sob minha responsabilidade, que eu não queria ajuda. Pedi que ficasse fora e dei a ele, até mesmo, hora marcada para voltar.
Mesmo sem saber o motivo da comemoração, já que eu ainda não contei, ele não questionou nada. Simplesmente desapareceu dentro da oficina de carpintaria e me deixou fazer o que quisesse. Por isso preparei tudo nos mínimos detalhes.
Coloquei a melhor toalha na mesa de piquenique que fica no jardim, atrás da casa. Enfeitei-a com flores, dispus a louça e até mesmo pendurei algumas luzes de natal que encontrei entre as tralhas do galpão que serve de garagem. Só falta mesmo levar a comida para a mesa, mas isso vou deixar para a última hora, para não esfriar demais.
Então só estou aqui agora, esperando. Inquieta.
Minhas expectativas estão elevadas, mas não porque quero ver a reação de Den a tudo o que preparei. É, sim, porque ontem à noite, enquanto rolava na cama tentando dormir, tomei uma decisão e só depois disso consegui descansar. E, por esse mesmo motivo, acordei hoje animada e disposta, pela primeira vez em muito tempo adorando o fato de ser meu aniversário.
Demorou, mas estou finalmente resolvida.
Hoje, aconteça o que acontecer, direi a verdade a Den. Vou contar a ele o que sinto e que se explodam as dúvidas, que se dane todo o resto! Só preciso dizer que estou apaixonada.
Depois do que conversamos ontem, finalmente percebi que não faz sentido esconder. As coisas podem e devem ser mais simples do que isso.
Não sei se ele me ama também, nem se me teria como companheira. A mim, uma humana. Mas o fato é que estamos os dois aqui, nesta casa que ele se esforça para que eu também sinta como minha, querendo estar juntos quando não estamos. E agora eu sei o quão tolo é isso.
O beijo de ontem não me deixou dúvidas. Fisicamente, Den me quer tanto quanto eu o quero.
Não que seja exatamente novidade, nunca fui alheia à forma como ele me olha, mas agora eu entendo que essa atração não precisa ser um peso entre nós. Pode ser um começo.
De qualquer jeito, eu não conseguiria mais voltar atrás em minha decisão, uma vez tomada.
Por isso respiro fundo quando, com a precisão de um relógio, o latido de Sammy anuncia que eles estão chegando.
— Oi, meu menino! — brinco com o cachorro que passa direto pela porta correndo e aterrissa no meu colo. — Você se divertiu hoje no seu dia de folga?
— Dia de folga? — Den pergunta, sobrancelha arqueada. — Foi isso que tivemos hoje? Quer dizer que não sobrou nada pra eu fazer?
— Nadinha! Está quase tudo pronto. Só falta levar a comida para a mesa, mas eu faço isso enquanto você toma banho. Então vá se arrumar. Hoje vamos jantar fora.
— Hum, o cheiro está maravilhoso! — Ele sorri. — Como assim, jantar fora?
— Decidi usar aquela mesa linda que você tem lá no jardim.
— A gente nunca fez isso.
— Pois é, não sei por quê.
— Bom, acho que sempre tem uma primeira vez. Afinal, a mesa foi feita para isso mesmo. Não vai me dizer o que estamos comemorando?
— Claro que vou! Mas só quando estivermos brindando.
Outra risada. Den está feliz também. Animado.
De repente, ele me olha confuso, de um jeito tão bonitinho que quase não me aguento quando descubro por quê.
— Você me disse pra me arrumar.
— Sim, e daí?
— Bom, eu acho que não sei bem o que você espera. Nunca estive em um jantar com uma mulher antes.
Aponto para minha própria roupa, camiseta e calça jeans de novo, como se para tranquilizá-lo. Mas de repente me lembro de mais uma coisa que posso fazer para tornar esta noite diferente das outras.
— Vamos fazer o seguinte: eu escolho para você e deixo a roupa aqui em cima da cama, ok? — digo para ele, já planejando o que vou vestir também.
Den assente, meio sem graça, e entra no banheiro. Abro o guarda-roupa e vasculho as camisas dele, sentindo o cheiro familiar que se desprende das roupas tão simples quanto bem cuidadas.
Seguro uma delas, a camiseta que ele costuma usar para dormir, e não resisto à vontade de sentir o tecido contra meu rosto e inspirar profundamente o perfume que persiste ali.
Eu amo esse homem. Essa alma.
É estranho e, de certa forma, inesperado. Somos de mundos diferentes, pelo amor de Deus! Mas a consciência disso pouco resistiu à maneira como ele me tratou desde o princípio. Com mais humanidade do que qualquer um que já conheci, exceto por minha mãe. Com tanto carinho e cuidado, que não canso de me admirar.
Então, embora eu não mereça, não é demais imaginar que Den possa sentir algo assim por mim também. E se não, entre amizade e atração física, não é disso que se faz uma relação?
— Um começo — murmuro para mim mesma. — Um ótimo começo!
Finalmente escolho uma camisa, a única de tecido mais fino em meio às várias de flanela que ele usa no dia a dia. Esta é branca, em vez do tradicional xadrez. Escolho também um jeans mais alinhado, de lavagem escura, e coloco as duas peças sobre a cama.
Por fim, uso meu recurso de última hora. Aquele do qual já havia até me esquecido. Meu único vestido.
Do fundo da cômoda, retiro o presente que Den me deu no nosso segundo dia. Olho para ele, ainda embrulhado em papel de seda, como o deixei desde que ganhei. O único calçado que combina minimamente com o vestido azul índigo são minhas sandálias baixinhas, mas vai ter que servir.
Sorrio ao pensar que Índigo é meu nome de alma, da identidade que Den criou para mim.
“As flores azuis são muito raras e especiais”, ele disse mais de uma vez. “São fortes e suaves ao mesmo tempo.”
“Eu não sou assim”, repliquei.
“Às vezes, é. Quase sempre. Pelo menos quando percebe como deve ter orgulho de si mesma.”
Não discuti na ocasião. Eu nem sabia como. Mas também não me importei em fazê-lo. Uma das coisas que aprendi com Den foi aceitar a bondade. E se era com esses olhos que ele queria me enxergar, eu podia me acostumar com a ideia.
Perdida nesses pensamentos, de repente me dou conta de que não tenho muito tempo. Preciso me vestir e pôr a mesa antes que ele saia do banho. Então é isso que vou fazer.
Não dá tempo, porém. E quando estou voltando para buscar a segunda leva de pratos, topo com a visão mais bonita que já tive.
Den está diante da cama, distraído olhando para as roupas que escolhi. A toalha meio frouxa em torno da cintura atrai imediatamente meu olhar para o caminho de pelos escuros que descem por sua barriga chapada.
Minha nossa senhora dos modelos de roupa íntima!
Eu sabia que o corpo dele era bonito, porque, claro, dava para notar. Den não é um cara muito grande, mas os músculos torneados de quem faz trabalho braçal eram bem evidentes. Só não imaginava que o efeito de vê-lo assim seria tão arrebatador.
Logo ele percebe minha presença e se sobressalta, segurando a toalha com força, tímido como sempre. Aquele rubor bonito tinge seu rosto enquanto eu mesma estou queimando.
— Me desculpe — peço, tentando disfarçar minha própria exaltação. — Eu só vim... É... Bom, era para eu estar te esperando lá fora, mas acabei demorando mais do que previa e ainda tenho uma travessa para levar para a mesa.
— Você está linda — ele diz, me olhando de cima a baixo.
Sorrio. O elogio à queima-roupa, sem nenhuma hesitação, me enche de confiança.
— Foi o motivo do meu atraso. De última hora, decidi colocar este vestido. O que achou?
Me exibo um pouco, alisando o vestido nos lugares certos, deixando que Den veja como o tecido molinho abraçou minhas curvas.
— Ficou perfeito em você.
O rubor que já tingia seu rosto acaba descendo pelo pescoço e pelo peito e eu sei que estamos no caminho certo, ainda que Den desvie os olhos e diga apressado, segurando as roupas desajeitadamente, que vai se trocar no banheiro.
— Não precisa. Vou pegar o assado que deixei no forno e estarei te esperando lá fora.
Nem deixo que ele responda. E também não insisto em ficar olhando seu corpo. Não dá para exagerar na dose quando se trata de Den. Então é melhor ir devagar. Por isso faço o que disse e saio depressa, mas, uma vez lá fora, preciso me apoiar na porta fechada antes de continuar.
— Puta merda! — exclamo.
Sinceramente, imaginá-lo ali do outro lado não está me ajudando a manter a serenidade.
— Devagar, Mia. Um passo de cada vez. — Suspiro.
********
— Aniversário!? — ele pergunta quando nos sirvo do champanhe que acabei de abrir. — É seu aniversário e você só me contou agora?
— Se eu tivesse te contado antes, você não ia me deixar fazer as coisas sozinha. E eu queria fazer do meu jeito. Você tinha que ter visto sua cara quando viu minha decoração especial improvisada.
— Não é só a decoração. A comida, você... — Ele me olha daquele jeito que me desmonta e inflama ao mesmo tempo. — Está tudo perfeito. Mas até onde eu sei sobre aniversários, eu é que tinha que ter preparado uma surpresa.
— Eu estou feliz, Den. O fato de estar aqui comemorando com você e com Sammy faz deste o meu dia mais alegre em anos. Não estou preocupada com tradições. Desse jeito está ótimo.
Ele sorri, terno.
— Acho que é o que importa então. Estou feliz que você esteja feliz.
Como sempre. Às vezes eu penso até onde Den iria para me agradar. Mas hoje eu aceitaria qualquer coisa. Por exemplo, se eu fizesse minha proposta e ele aceitasse apenas para me ver feliz... Bem, eu não acharia ruim.
— Vocês não comemoram aniversários? — Mudo de assunto, tentando desviar minha mente desses pensamentos estranhos.
— Seria meio difícil localizar uma data estelar no calendário gregoriano. — Ele ri. — Além do mais, são muitos anos para contar.
Fico pensando nisso. No quanto é surreal que eu esteja diante de uma criatura que já viveu em outros mundos, nascida em um tempo em que a humanidade ainda engatinhava.
— É estranho, eu sei. — Den se encolhe quando percebe que não estou rindo de sua tentativa de piada.
— Não é estranho. É fascinante, na verdade. Eu gosto da sua história, da sua sociedade. Parece até uma utopia, todos cuidando uns dos outros, usando apenas o que é necessário, trabalhando juntos... Eu gosto das almas. E gosto de você.
Nossos olhares se encontram e acho que ele percebe o que estou dizendo, porque não tenta dar uma daquelas respostas de reciprocidade cordial de sempre. Ao invés disso, Den apenas fica calado me observando. Por um instante, seus olhos descem para a minha boca e param ali enquanto ele respira fundo.
— Den, eu queria te dizer uma coisa. Não sei como você vai reagir, mas... preciso dizer mesmo assim.
— O que é?
Não sei por onde começar. Pensei muito no que dizer, mas nada me pareceu bom o bastante, então resolvi deixar as palavras ao sabor do momento. Só que agora nem consigo colocar uma palavra na sequência da outra.
Respiro fundo.
— Você tem sido bom para mim. E nos damos bem — tento explicar. —Talvez a gente pudesse... Talvez a gente pudesse se aproximar mais.
No início, ele não entende aonde quero chegar, mas lentamente a percepção começa a se assentar. Noto o momento em que ele finalmente compreende e seus olhos se enchem de lágrimas.
— Por favor, não diga isso se não quiser de verdade, Mia. Eu não sou o Marcus. Você não precisa fazer nada só porque já percebeu o quanto eu quero você.
— Mas eu também quero. Eu disse. E eu sei que você não é o Marcus. O fato de sermos de espécies diferentes...
— Você disse que gosta da minha espécie — ele me interrompe, a voz embargada —, mas isso é porque a sua sempre foi injusta e má com você. Só que o Owen é uma pessoa boa, ele jamais te ofenderia, jamais te desprezaria. Por isso eu sei que te incomoda que eu esteja roubando a vida dele. Por isso sempre que tenta aprender sobre mim, pergunta sobre ele também. Porque você quer um humano com o coração dele, não uma pequena lagarta prateada usando este corpo.
Não sei de onde veio tudo isso, essa rejeição que Den não deveria sentir ou essa mágoa que eu não sabia que causava, por isso não consigo responder.
As palavras dele não são o que eu esperava. Elas me doem porque ele pensa que estou me oferecendo para ele do mesmo jeito que fiz com Marcus, no momento mais vergonhoso da minha vida. E ao mesmo tempo me frustram quando percebo que, esse tempo todo, ele se manteve em silêncio sobre o que sentia porque acha que não sou capaz de amá-lo do jeito que é.
— Eu não conheço o Owen. Conheço você — articulo, por fim. — Nunca vi uma alma em seu corpo original, então só consigo imaginar sua aparência, mas o quanto isso importa pra você? Porque pra mim não importa nada. Sou negra e latina num país racista, passei a vida toda sendo discriminada pela minha cor, pela minha origem, e depois por outros motivos também. Então você me ofende se acha que eu seria tão rasa assim.
Acho que Den sente o baque dessas palavras, porque a expressão dele é a de quem acabou de tomar um tapa.
— Eu...
Um som distante nos interrompe. Sammy se levanta e sai correndo para a frente da casa, um segundo antes de distinguirmos o barulho de um carro se aproximando.
A casa de Den é distante da estrada, então a pessoa tem que estar decidida a vir aqui se chegou a este ponto. Na mesma hora, me vem à mente a imagem de Chico.
— Alguém nos seguiu ontem — digo, absolutamente tomada pelo pavor. — O Chico deve ter percebido que eu não era uma alma.
— Nós não fomos seguidos. Um de nós teria percebido — ele responde, mas eu sei que nem ele acredita nisso. Nós dois estávamos mais do que distraídos com nossa conversinha sobre sexo. Não teríamos visto nada. Den me segura pelos ombros. — Você sabe o que fazer.
Sim, eu sei o que ele planejou. Den quer que eu fuja e o deixe para trás. Quer que eu vá até o esconderijo onde ele deixou a mochila cheia e uma moto com o tanque abastecido. Enquanto isso ele fica aqui e deixa os Buscadores o despacharem para outro planeta para ganhar tempo para eu sumir.
— Eu tenho escolhas, Mia. Ninguém vai me forçar a nada — ele rebate meus pensamentos, provavelmente por já termos tido essa mesma conversa tantas outras vezes. — Não temos tempo para discutir. Por favor.
Den está certo, não temos tempo para discutir. Por isso não vou dizer a ele que, por melhores que as almas sejam, não acredito que os Buscadores não lhe fariam mal. Corrente Ascendente andou protegendo uma humana, afinal. Isso certamente deve ser algum tipo de crime capital para a espécie deles. No fim das contas, até os santos consideram alguns pecados indefensáveis.
— Tudo bem — minto.
— Tem um casaco reserva no celeiro — ele diz. — Você vai precisar até chegar na gruta. Suas botas de montaria estão lá também. É melhor você calçá-las. Vai ser menos pior do que andar pela mata com essas sandálias. Leve a lanterna.
Apenas concordo com tudo. Então lhe dou as costas, arrancando as luzes de natal da tomada.
Olho para trás e o vejo parado por um instante, se despedindo de mim com o olhar antes de endireitar os ombros, apagar as velas na mesa e, em meio ao breu, se dirigir à entrada de chalé.
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