Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira

11 Capítulo 11 - Porque Você é Você


Notas iniciais
RECADO IMPORTANTE, Uma querida leitora me avisou que eu não tinha postado o capítulo 8, por isso tive que editar os três últimos para deixar tudo na ordem certa. Assim, o Capítulo 11 está sendo repostado agora (em 19/04/23), juntamente com o 8, que tinha ficado para trás. Peço muitas desculpas pela confusão e peço que deem uma olhadinha no Capítulo 8, chamado De Amor e de Amizade, pois nele a Mia conta sua história ao Den e esclarece como foi parar perto da fazenda dele. Desculpem de novo e obrigada por acompanhar. PS: Se quiserem, podem opinar e dar bronca.

Capítulo 11 – Porque você é você

You're the light, you're the night

You're the color of my blood

You're the cure, you're the pain

You're the only thing I wanna touch

Never knew that it could mean so much, so much

You're the fear, I don't care

Cause I've never been so high

Follow me to the dark

Let me take you past our satellites

You can see the world you brought to life, to life

(Love Me Like You Do – Ellie Goulding)

Den

— Lírio do Sol, o que faz aqui?

A mulher mal sai do carro antes que eu faça a pergunta. Por um instante, penso que eu não deveria parecer ansioso demais, ou descortês, mas realmente não consigo me importar. O alívio é grande demais para que eu consiga me conter.

— Corrente Ascendente, como está? — ela pergunta sorrindo, provavelmente espelhando minha própria expressão, já que não consigo evitar a alegria por ser ela e não uma Buscadora.

Assim que o carro ficou visível na estrada de terra, percebi que se tratava de um veículo comum demais se comparado aos carros velozes de que os Buscadores tanto gostam. Mesmo assim não consegui pensar em quem poderia estar por aqui a esta hora, até que consegui discernir os cabelos loiros e curtos da minha simpática Confortadora.

— Estou bem — respondo mecanicamente, enquanto me dou conta de que Mia já pode estar em plena fuga, caso tenha me dado ouvidos. E então eu nunca mais a verei novamente.

Oh, não. Céus, não.

De um instante para o outro, estou ansioso novamente, sentindo uma gota de suor escorrer pela minha têmpora. Enxugo a umidade com a manga da camisa, preocupado em calcular mentalmente.

Posso pegar um cavalo e alcançá-la. Não se chega na gruta de carro, e Mia ainda não se sente confiante o bastante para cavalgar sozinha, muito menos à noite. Ela terá ido a pé, na escuridão, com apenas a lanterna e a bússola para se guiar.

Encaro a Confortadora que olha para mim com expectativa, mas tudo em que consigo pensar é na forma mais rápida de encerrar esta visita e sair correndo daqui.

— O que posso fazer por você? — pergunto, tentando ser educado e parecer paciente. Afinal, ela não estaria aqui sem um motivo justo, imagino.

— Desculpe incomodar, mas eu estava indo até a casa de uns amigos na cidade vizinha, e aí me dei conta de que me esqueci de encher o tanque. — Ela ri sem graça e eu tento acompanhar. — Bem, nas últimas semanas, eu acho. Estou na reserva. Fiquei com medo de não conseguir chegar até o posto e vim ver se você pode me dar uma carona até lá para que eu traga um galão de combustível.

— Oh, é isso? — Sorrio outra vez. Vai ser mais rápido do que pensei. — Está com sorte, então. Sempre guardo um galão reserva para o maquinário da fazenda.

— Ufa! — Ela solta uma risada e eu a convido a sentar-se na varanda enquanto espera. — Você é muito gentil, Corrente Ascendente, vai me poupar um trabalho extra que eu merecia ter. Não posso continuar sendo tão desatenciosa! Ter que chamar o guincho por pane seca seria uma vergonha.

— Imagino que você esteja com muitas coisas na cabeça. Só isso. Acontece.

— Bem, meus pacientes ainda estão tendo algumas dificuldades de adaptação. Fico constantemente preocupada com eles, para falar a verdade. Mas isso não é desculpa. O que prova mais uma vez o quanto você é gentil, tentando encontrar justificativas para que eu não pareça tão inconveniente.

— Inconveniente? Não, Lírio do Sol, você não é nada disso! — me apresso em negar, porque me sinto subitamente culpado por querer tanto que uma amiga necessitada vá embora de minha casa.

— Sei que você gosta de manter sua privacidade — ela acrescenta, provavelmente por ter notado minha insatisfação anterior. — E aparecer assim, sem avisar... Realmente, eu peço desculpas.

— Não é nada demais. Não me custa ajudar e eu já estava mesmo planejando abastecer o carro amanhã. Aproveito e reponho o galão. Então não há motivos para você se preocupar.

— Tem certeza? Posso trazer o combustível para você na volta da minha visita aos meus amigos, na segunda de manhã.

— Não! Está tudo bem mesmo — digo com um pouco mais de veemência do que devia.

Ela ri, quase gargalha, e eu percebo que esteve me testando.

— Estou brincando, Corrente Ascendente. Só vou voltar aqui se você me convidar. Desta vez foi mesmo um imprevisto. Respeito que você preze sua solidão. Não é totalmente incomum entre aqueles que vieram do mundo das Algas Visionárias. Lembra que já discutimos isso?

Levanto a mão desajeitadamente para coçar a nuca, constrangido. Como não sei o que responder, opto por acelerar as coisas.

— Vou buscar o galão. Tem mais alguma coisa em que eu possa te ajudar?

— Bem, se eu puder usufruir só mais um pouquinho de sua hospitalidade, eu gostaria de usar o banheiro.

— Claro! — Subo as escadas e abro a porta para ela. — É o único cômodo com porta, logo ali no fundo. — Aponto.

Trocamos amenidades sobre o “aspecto acolhedor” da casa e, assim que ouço o barulho do trinco, saio correndo para os fundos, em direção ao celeiro, mas nem sequer chego ao jardim onde jantamos e um vislumbre de azul me chama a atenção.

— Mia!

Ela coloca o dedo indicador diante dos lábios, num gesto que pede silêncio, e meus ombros se afundam de alívio por ela não ter ido embora como eu havia pedido que fosse.

— Está tudo bem — sussurro, segurando o rosto dela entre as mãos. De onde estamos, na lateral do chalé, dá para ouvir movimentos dentro da casa. — Vá para o celeiro. Já vou encontrar você.

Ela não se mexe quando me afasto para ir embora, mas preciso sair antes que Lírio do Sol resolva se aventurar à minha procura, então a deixo ali, sem entender direito o que se passa em seus olhos.

Enquanto abasteço o carro, ouço mais alguns elogios à beleza da fazenda, ao aspecto pitoresco da casa e à simpatia de Sammy, que há pouco saiu correndo daqui, provavelmente para ficar com Mia. Consigo parecer receptivo e tranquilo, agora que estou livre de preocupações, e isso parece deixar Lírio do Sol mais confortável também.

— Pensei que você morasse sozinho — ela diz, pouco antes de ir embora, já dentro do carro.

Claro. É óbvio que ela reparou na cama de solteiro que ocupa parte da sala. Sem contar nos pertences de Mia que devem estar pela casa.

— Eu moro — minto imediatamente, e o resto da história vai se formando sem que eu sequer fique nervoso a respeito. — Tenho amigos que me visitam às vezes. Uma amiga em particular.

— Entendo. É bom para você. Laços são importantes, especialmente os desse tipo — ela declara quase profissionalmente, como se estivéssemos em sessão.

— Não comentei nada, porque é uma relação casual — minto outra vez. — Estamos apenas nos conhecendo.

— Você só precisa falar do que te deixar confortável. Mas, bem, não foi para isso que eu vim. E já estou um pouco atrasada para o meu jantar.

— Vá com cuidado, Lírio do Sol. Tenha um bom fim de semana.

— Você também. Desculpe mais uma vez o inconveniente. E obrigada pela ajuda, Corrente Ascendente.

Depois disso, ela dá a partida e desaparece pela estradinha de terra, por trás das árvores, até chegar à rodovia. Fico observando, sentindo toda confusão e adrenalina tomarem conta do meu corpo, agora que não preciso mais me manter controlado. As emoções ameaçam me afogar todas de uma vez e, sob o peso delas, fico subitamente exausto e sem ação. As luzes do carro da Confortadora há muito já não são visíveis quando consigo vencer a paralisia e me mexer outra vez.

Entro em casa e lavo as mãos, o rosto, e fico ali, deixando o fardo de todo o estresse anterior se dissipar e ir embora com a água, sem saber o que fazer com todo o resto das coisas que sinto.

— Ah, Mia... — sussurro.

De repente, me dou conta do quanto foram ridículas minhas objeções durante nossa discussão lá fora, quando Mia é a minha razão de tudo. Posso não entender nada, mas sei e sempre soube que quero estar com ela. Apenas isso. De qualquer maneira.

Por isso preciso trazê-la de volta para casa. E então poderemos entender o que aconteceu entre nós. O que ainda pode acontecer.

Sigo às cegas, quase trôpego, até o celeiro.

Encontro Mia abraçada a Sammy, como ela costuma ficar quando não está bem. O casaco impermeável está aberto sobre um monte de feno, proporcionando uma cama improvisada onde ela se encolhe quando Sammy se levanta para vir até mim.

Eu me abaixo à altura do cão e encosto minha testa na cabeça dele, passando meus braços em torno de seu pescoço. Sammy aceita o carinho, ou melhor, entende que está me acolhendo, e fica quieto por alguns segundos além do que é seu costume comigo, antes de começar a se mexer e se desvencilhar de mim.

“Agora é com você”, ele parece dizer antes de ir embora.

Mia está deitada de lado, de costas para mim, e eu não tento fazer com que me olhe, mas me sento ao seu lado, acariciando seu braço.

— Ela gosta de você. A Confortadora.

É claro que gosta, penso. A função dela é cuidar do meu bem-estar e, além disso, nós nos tornamos amigos. Não há por que não gostarmos um do outro.

A constatação me parece uma obviedade, mas algo no tom de Mia também deixa claro que não devo dizer isso a ela. Não é tão simples assim, ao que parece. E isso deveria ser ainda mais óbvio para mim.

— Gosta tanto que se deu ao trabalho de inventar uma desculpa esfarrapada para vir até aqui e ver você — ela acrescenta, ainda sem me olhar.

Ah.

— Não era uma desculpa, o tanque do carro dela estava mesmo praticamente vazio. E você não precisa se preocupar com isso. Não há jogos ou nuances nas nossas relações. Somos mais... simplórios, eu acho. Se ela gostasse de mim desse jeito, teria dito.

— Como você disse para mim? — Ela se vira por um instante para me encarar, e se senta, abraçando os joelhos.

Não respondo de imediato, não sei o que dizer, e ela parece se zangar por isso, desviando os olhos de mim para o chão.

— É diferente — arrisco.

— Sim, é diferente. Nós somos diferentes. Mas ela é como você. E é tão linda.

Vislumbro os olhos verdes da Confortadora em minha mente, o arco prateado que nos identifica e a ternura usual que há neles quando conversamos. Sim, Lírio do Sol é bonita. E eu nunca tinha pensado nem me importado com isso antes de Mia dizer. Ainda não me importo, para ser sincero, mas ela continua a apontar qualidades.

— Ela é gentil, educada, preocupada com os outros... Até veio de um planeta onde você já viveu. Entende o que é ser você!

Balanço a cabeça em negação, desesperado, porque dói. É estranhamente doloroso ouvir Mia dizer isso, embora eu não faça ideia do porquê. Fica um pouco pior quando ela procura de volta meu olhar e me força a continuar ouvindo sua racionalização.

— Você nunca teria que escondê-la ou sair correndo de algum lugar com ela. Você nunca teria que ter medo da sua própria espécie por estar com alguém como Lírio do Sol.

— Eu não tenho medo da minha espécie, tenho medo de perder você! Eu estava lá com ela e só conseguia pensar que precisava te alcançar antes que você fosse embora de vez...

— Eu não iria embora, não largaria você à mercê de Buscadores. — E então ela começa a chorar para valer, enxugando as lágrimas bruscamente com as costas da mão. — Eu estava apavorada!

A distância entre nós se torna realmente insuportável neste ponto e eu a puxo para mim, abraçando-a tão apertado como se isso, por si só, fosse capaz de protegê-la.

— Você não entende — sussurro para ela. — Eles não tirariam minhas escolhas, não no que diz respeito a mim mesmo.

— Disso você não sabe. — Ela se afasta, a mão em concha acariciando meu rosto. — Confiar nas pessoas faz parte de quem você é, mas agora você é um traidor aos olhos deles. Por minha causa. E você não faz ideia do que é ser tratado como criminoso pela sua própria espécie.

— Mas você sabe, não é? E eu não entendo o que é ser você — respondo, lembrando a parte mais dolorosa do que ela insinuou ao falar sobre Lírio do Sol. — Por isso não conseguimos concordar nesse ponto. Agora eu compreendo o que você quis dizer. Nós sempre seremos profundamente diferentes. Pelo menos no que diz respeito à nossa história. Na maneira como vemos as pessoas.

— Me desculpe — ela pede, apoiando a cabeça no meu peito. — É que eu simplesmente não consigo. A cor da minha pele tinha um significado no mundo em que eu vivia. E esta não é a primeira vez em que sinto medo de que me roubem algo precioso. Só por roubar, entende? Como se eu não tivesse direito a nada. Eu nunca me senti segura, nunca. Por isso é tão difícil acreditar que você esteja. Mesmo que... bem, eu sei que é diferente. Mas eu... — Mia se interrompe, provavelmente sem saber como continuar.

Penso a respeito do que ela disse. Sobre nunca ter se sentido segura. Mal posso imaginar isso. Conheço os fatos, toda dor do mundo humano, a atrocidade de se acreditar que outro ser é inferior. Brancos e negros sendo tão iguais e, ainda assim, tão profundamente diferentes, apenas porque um dos lados cavou um abismo intransponível. Conheço os fatos, embora jamais seja capaz de aceitá-los.

— Eu entendo, pelo menos estou tentando. Me perdoe, Mia, por não ter parado antes para ouvir. Apenas me conte o que você sente de verdade e vou me esforçar para entender, prometo.

Ela sobe os olhos para os meus e segura o meu rosto entre as mãos.

— Você sempre achou que o que me apavora é eles me pegarem. Mas eu não tenho medo disso, nunca tive. Se eles me pegarem, eu volto. Porque, bom, eu me apaixonei por você. É isso. Estou cansada de meias palavras.

Respiro fundo ao ouvi-la, meu coração dispara. Fecho os olhos brevemente, absorvendo a sensação e me preparo para dizer que sinto o mesmo. No entanto, Mia não me dá tempo. Os lábios dela tocam os meus, selando a confissão, mas então eles esperam. Apenas ali, quentes e macios, encostados aos meus.

Incapaz de resistir ao impulso, eu abandono as palavras e deixo uma de minhas mãos pressionar a base das costas dela, puxando-a para mais perto, enquanto a outra segura sua nuca. Prendo o lábio inferior de Mia entre meus dentes e a ponta da minha língua prova sua textura suave. Um gemido baixinho lhe escapa e eu quase perco o controle, aprofundando o beijo, provando o gosto, mordendo, sugando.

Quando, por fim, nos afastamos para respirar, ela diz quase que em transe.

— Sei que a alma dentro de mim se apaixonaria por você também e então... eu voltaria e seria sua Índigo. Eu seria exatamente como você imaginou.

Isso faz com que eu desperte do meu próprio torpor. Um sentimento estranho se apossa de mim. Uma vontade imensa, irritada até, de fazê-la entender. Seguro-a pelos ombros, afundando meus dedos em sua pele macia como se o gesto pudesse comunicar o turbilhão que me oprime. Mas então minhas mãos correm para suas costas, puxando-a para perto de novo, tentando fazer com que ao menos nossos corpos aceitem a verdade. Deixo um beijo na base de seu pescoço, deitando minha cabeça ali ao abraçá-la.

— Eu nunca imaginei nada. Nunca precisei. Porque você é minha Índigo, Mia. Só você, exatamente do jeito que é. Sempre foi a sua personalidade como eu a vi desde o início. Então você pode até dizer que os Buscadores não te aterrorizam, mas a ideia de que qualquer coisa mude a seu respeito, de que um só fio do seu cabelo seja emprestado a uma alma, me apavora até os ossos, porque eu não quero alguém que se pareça com você. Quero você de verdade. Quero a mulher que eu amei desde o primeiro dia.

Sob meu rosto, um soluço dela reverbera e suas mãos seguram meus cabelos, puxando-os e acariciando ao mesmo tempo.

— Você me ama?

— Amo — digo sem hesitar, levantando a cabeça para que nossos olhos se encontrem. — Sempre. Eu sempre fui louco por você, Mia.

Ela ri. E chora também. A mão na frente dos lábios para conter tudo que parece explodir entre nós.

— Por que você nunca disse?

— Porque eu achei que isso não poderia acontecer. Que alguém como você não poderia amar alguém como eu.

Ela balança a cabeça, as emoções ainda misturadas.

— Não faz sentido. Como é que alguém como você pode amar alguém como eu? — ela me devolve. — Você nem mesmo... Eu nem mesmo sei...

— Você nem mesmo sabe como eu sou de verdade — completo por ela.

— Você é Den. Só isso me importa.

— Não, eu sou Corrente Ascendente também — digo, puxando a mão dela, primeiro para meus lábios, depois para minha nuca, sobre a cicatriz. — Se você cortar este corpo bem aqui, um corte pequeno, mas fundo o bastante, vai encontrar minha forma real. E você poderia me retirar deste corpo se quisesse. É mais simples do que parece, simplesmente me conduzir para fora. Mas não pode ser feito de qualquer jeito. É preciso cuidado.

— Por que você está dizendo isso? — Ela ofega, mas eu continuo.

— Você jamais conseguiria me arrancar, meus instintos de defesa destroçariam o cérebro e eu morreria em meu corpo original também.

— Den, por favor, eu não quero ouvir. — Mia puxa a mão, mas eu a seguro, limpando uma lágrima que corre em seu rosto com o polegar.

— Eu preciso que você saiba, quero que entenda. Está tudo bem, confio em você. — Então ela relaxa um pouco, e eu acaricio sua palma com as pontas de meus dedos. — Você me conduziria para fora e eu me aconchegaria bem aqui. Acho que você sentiria algo como... o espanar de uma pluma, talvez.

— O que eu veria? Como você é? — Mia sorri para mim.

— É difícil descrever. Algo como um dente-de-leão, apenas não tão frágil. — Rio também. — E essa cor que você vê no fundo de meus olhos é a cor do meu sangue. É como você me enxergaria.

— Como o luar — ela murmura, curvando os dedos e olhando para eles com ternura, como se estivesse mesmo segurando alguma coisa.

E justamente quando penso que é impossível amar Mia mais do que já amo, meu coração se expande mais um pouco.

Toco seu rosto com carinho e ela olha para mim.

— Não, não o luar — diz, balançando a cabeça. — Você é como uma estrela. Uma estrela só minha.

Sorrio com a comparação, porque nada poderia estar mais distante da verdade. Mas acho que do ponto de vista de Mia, da maneira como ela enxerga as estrelas, faz sentido. E é tão lindo quanto a maneira como eu enxergo o fogo nos olhos dela. Talvez amor seja isso, afinal. Enxergar a beleza que a própria pessoa não vê e se tornar capaz de mostrar isso a ela. Mesmo que essa segunda parte leve tempo.

— Sim, uma estrela só sua. Porque este corpo te ama e deseja você mais do que qualquer coisa. Queima e se consome só por você. Mas o ser que eu sou de verdade se colocaria, voluntariamente, na palma de sua mão.

De repente, o semblante dela muda.

— Você morreria.

— Depois de um tempo — aquiesço —, caso não houvesse um corpo hospedeiro para onde voltar. Ou um criotanque.

— Então por que está me contando?

— Porque confio em você e quero que saiba exatamente que eu não sou apenas o humano que você vê.

— Não. Eu nunca achei que fosse.

Seguro o queixo dela entre meus dedos e levanto seu rosto.

— E o que isso significa? — pergunto.

— Significa que eu te amo porque você é você. E acredito quando você diz que me ama também.

— Você não se importa com o que eu sou?

— Você se importa que eu seja humana?

— É justo me devolver a pergunta. — Rio. — Não, eu não me importo. Também te amo porque você é você.

Mia fecha os olhos e sorri, absorvendo a verdade daquelas palavras assim como eu fiz antes. Então é minha vez de encostar meus lábios nos dela, mas desta vez eu não espero. Estou cansado de esperar.

Nosso beijo agora é mais afoito do que antes, tem o ímpeto da fome libertada.

Meus lábios percorrem seu pescoço e eu a deito no chão, me aconchegando entre suas pernas.

— Isto está mesmo acontecendo? — ela ofega, rindo ao mesmo tempo.

— A menos que você tenha alguma objeção.

— Não mesmo! — Mia responde me empurrando, mas apenas para que seus dedos rápidos desabotoem minha camisa. — Você tem preservativos?

— Preservativos — repito automaticamente, estou tão envolvido nela que levo alguns segundos para me dar conta do que estamos falando. — Não — digo, me sentando com uma espécie de sobressalto. — Não tenho nada disso. Mas há algo que pode ser usado no dia seguinte, posso conseguir amanhã. É só que eu nunca tinha precisado...

— Nunca precisou? Den, você...? — Uma série de emoções diferentes passam pelo rosto de Mia, mas não as decifro. — Eu tinha entendido que castidade não era uma questão para você.

— E não é. Mas eu também disse que apreciava minha solidão antes de você chegar. E eu ainda não tinha tido tempo de me envolver o suficiente com outra pessoa para desejar estar com ela dessa forma. — Observo seu semblante surpreso, sem entender por que isso seria um problema, se é que seria mesmo. — Você só teria que me guiar.

— Meu Deus! — diz, balançando a cabeça e engatinhando até mim. Então segura meu rosto com força exagerada e me beija, mordendo meus lábios. — É melhor esses remédios que você vai conseguir amanhã funcionarem bem. Eu não quero ter que adiar isso!

Sorrio, sem me dar propriamente ao trabalho de responder, porque antes mesmo que eu precise, Mia se levanta à minha frente e desfaz o laço lateral do vestido, que em poucos instantes cai a seus pés.

É simplesmente a visão mais linda que já tive.

Devo ter uma expressão totalmente deslumbrada no rosto, porque ela morde um sorriso e desvia um pouco o olhar, parecendo ligeiramente tímida antes de voltar à postura decidida de antes.

— Acho que se você seguir seus próprios desejos, eles vão te guiar melhor do que eu.

Provavelmente ela tem razão, por isso deixo o corpo ditar o caminho e tento decifrar os sinais do corpo de Mia também. Neste instante, estou hipnotizado pelas curvas dela, mas a visão me faz desejar também o toque. E acho que ela quer isso também. As mãos inquietas parecem procurar o que tocar.

Ajoelhado diante dela, ajudo-a a descalçar as sandálias e acaricio seus pés, subindo meus dedos por suas pernas firmes e macias, sentindo a pele se arrepiar levemente. Percorro seus quadris e sinto uma necessidade urgente de me livrar da calcinha simples, a última peça de roupa que a separa da nudez total.

Meu corpo pulsa de desejo quando faço isso e eu a toco ali, no meio das pernas, os pelos e a pele macia. Está úmida e fica ainda mais quando meu dedo pressiona um lugar específico.

— Isso é bom — ela sussurra, por isso continuo, deixando a umidade quente me molhar os dedos.

Chego mais perto, fazendo-a abrir mais as pernas, simplesmente porque parece a coisa natural a fazer.

— Posso experimentar seu gosto? — pergunto, pois o prazer que ela demonstra me dá vontade de experimentar mais.

Ela não responde, mas apoia uma das pernas em meu ombro para me permitir acesso. Sinto o cheiro de sua feminilidade e respiro fundo para absorvê-lo, encostando meu nariz na pelugem escura que a recobre. Em seguida, testo o gosto com a ponta da língua. Salgado.

Mia solta um gemido e isso me faz ousar mais, ir mais fundo. Gosto muito de como ela reage, da forma como segura meus cabelos até o ponto de doer. É dela, porém, a iniciativa de se afastar.

— Está bom demais — justifica quando pareço confuso. — Mas minhas pernas estão ficando bambas. Você pode continuar se eu...

A frase é interrompida quando me levanto e seguro seus seios em minhas mãos, sentindo o peso e a firmeza, a maciez absurdamente boa. Passo a língua em um dos mamilos e isso o faz se enrijecer, seguro-o entre os dedos e depois entre os lábios.

— Isso também é bom — ela diz, guiando meu rosto para o outro seio.

Talvez seja minha imaginação, delírios de meu próprio desejo, mas o gosto da pele de Mia ali parece tão doce e viciante que não consigo parar. Quase vou à loucura quando ela mesma massageia o seio que não estou beijando. Seguro-os novamente e beijo o vale entre eles. Meus lábios percorrem famintos o colo, o pescoço, o queixo e, finalmente, atacam sua boca, misturando os sabores de seu corpo em minha língua.

Mia corresponde e se aperta contra mim, abrindo meu jeans em seguida. Meu fôlego é roubado quando ela liberta minha ereção e a acaricia num ritmo lento e atordoante. Tento me livrar das roupas para liberar seus movimentos e me atrapalho. Ela ri.

— Os sapatos — aponta, e gargalhamos juntos quando eu os chuto para longe, me livrando do resto das roupas. — Você é tão lindo — ela suspira em meu ouvido e deixa um beijo ali.

É minha vez de ficar com as pernas bambas quando sinto seu aperto firme em mim outra vez, a outra mão amparando e acariciando a parte de baixo e minha virilha. Deito a cabeça em seu ombro e relaxo ali um momento, usufruindo do calor que emana de cada centímetro de pele macia contra a minha.

— Eu quero estar dentro de você — peço e Mia me abraça.

Sem dizer uma palavra, ela me faz deitar sobre o casaco e se senta sobre meus quadris, posicionando meu membro em sua entrada. Delicadamente, ela desce, me acomodando, nos encaixando. Um som parecido com um rosnado me escapa quando sinto o aperto e a quentura à minha volta. A umidade me faz deslizar com facilidade e eu agarro suas nádegas e projeto meus quadris para cima, indo mais fundo.

Apesar disso, é Mia quem conduz o ritmo, rebolando de um jeito enlouquecedor. A posição me permite a visão de sua beleza em todo seu esplendor, o luar entrando pelas frestas da porta forma por trás de seu corpo a aura angelical que sempre enxerguei nela.

— Você é... a coisa mais linda... de todos os mundos — ofego, me inclinando para frente para sugar um dos seios magníficos.

Mia solta um gemido e começa a se mover com mais rapidez. Uma sensação avassaladora começa a crescer a partir de um lugar não identificável e toma conta de todo meu corpo.

— Mia, eu vou...

Ela geme de novo e então para, parecendo frustrada por fazê-lo.

— Preciso que dure mais um pouco, amor — ela explica.

Então eu a levanto, retirando-a de mim. A coisa mais difícil de todas as coisas difíceis, mas eu entendo o que ela diz. Também quero que dure. E quero que ela também enlouqueça tanto quanto eu. Por isso eu a deito sobre o casaco outra vez e me afasto um pouco, acalmando minha respiração por apenas alguns segundos antes de provar mais uma vez seu gosto com a língua.

Meus movimentos seguem o som de seus gemidos e ficam mais vigorosos conforme ela segura meu cabelo e me aperta entre as coxas.

— Como é possível que você nunca tenha feito isso? Céus!

Levanto a cabeça e sorrio para ela. Os olhos em chamas escuras praticamente me imploram para continuar e é o que eu faço.

Gosto disso. Da excitação frenética e vulnerável daquele corpo quente à minha mercê.

— Posso fazer isso a noite toda — respondo.

— Eu vou cobrar — Mia responde. — Mas agora eu preciso que você volte aqui.

Ela abre os braços e eu entendo. Em um instante estou de volta entre suas pernas, deslizando para dentro de novo.

Solto outro rosnado quando sinto as paredes dela se apertando ao meu redor. Quente demais. Macia demais.

— Juro que nunca vou me cansar disso — digo.

Mia dá uma gargalhada gostosa, o corpo tremendo sobre o meu. Em seguida trança as pernas ao redor de minha cintura, me instigando a me mover.

Começo devagar, mas a calma que tento manter é inútil. A cada movimento a sensação volta a crescer, vinda de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo.

— Você pode ir mais rápido se quiser, amor. Estou pronta.

As palavras libertam toda a minha ânsia e eu me torno frenético, quase impiedoso. Por uma fração de segundo penso se não a estou machucando, afundando nela com tanta força, com tanta sede, mas ela continua soltando gemidos de prazer, afundando as unhas em minhas costas, em minhas nádegas e então acontece.

O grito agudo de Mia é a última coisa que meus sentidos registram, antes de serem tomados por uma energia convulsa que se desprende de mim para dentro dela.

Minhas costas se arqueiam, os músculos se retesam na sensação mais fantástica de todos os tempos enquanto me derramo em um jato lento. Então, quando penso que acabou, acontece outro mais forte. O prazer é tão grande, tão intenso, que se torna quase doloroso e rouba todas as minhas forças, de maneira que tombo imóvel, com todo o peso de meu corpo em cima de Mia.

Não sei quanto tempo fico assim, mas acho que não é muito, porque logo que volto a sentir algo além de prazer e torpor, a primeira coisa que percebo é o ardor das unhas de Mia ainda cravadas em minhas costas, a respiração quente e ofegante dela em meus ouvidos.

Levanto meus olhos para seu rosto e beijo seus lábios, suas bochechas, a testa, o queixo. Mas Mia ainda parece perdida em sensações, tremendo um pouquinho, como se pequenos choques a abalassem. É bom. Comigo ainda dentro dela, a eletricidade me deixa trêmulo também.

— Eu te amo, Mia.

Finalmente, seus olhos se focam em mim, cheios de ternura, e ela sorri.

— Eu também te amo. Agora mais do que nunca.

— Para sempre — completo.

Descanso minha cabeça em seu peito enquanto ela afaga meus cabelos. E sei, verdadeiramente, que tudo o que eu poderia querer em todas as minhas vidas está aqui.