Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
8 Capítulo 8 - De Amor e de Amizade
There's no time for us
There's no place for us
What is this thing that builds our dreams
Yet slips away from us?
Who wants to live forever?
Who wants to live forever?
There's no chance for us
It's all decided for us
This world has only one
Sweet moment set aside for us
(Who Wants To Live Forever – Queen)
Mia
Estou exausta.
Falar sobre o passado fez toda a energia se esvair de meu corpo, mas ao mesmo tempo não quero parar. Não posso. Preciso continuar respirando, preciso continuar me movendo. Porque Den prometeu que seguraria minha mão e é isso que ele está fazendo. Desde o primeiro dia.
Outra vez, estamos tão próximos que minha respiração toca a pele dele. O calor de seu corpo me mantém aquecida. Protegida de um frio que vem de dentro de mim e parece insuportável. A não ser quando ele me abraça.
— Eu não conseguia mais estudar. Não conseguia fazer mais nada. — Den assente e acaricia meus cabelos. — Um dia, uma amiga que tentava me animar me levou a uma festa e eu conheci um cara lá. Eu estava tão triste, tão carente! Fiquei com ele naquela noite e depois, nos dias seguintes. Achei que ele era... — Rio, sem conseguir completar a frase. Eu era tão ingênua que isso parece outra vida. Ou outra pessoa. — Você não deve saber como é. As pessoas conseguem ser encantadoras quando querem algo da gente.
Sinto seu corpo se enrijecer e ouço quando Den engole em seco. Tenho pena de dizer a ele o quanto as pessoas são más. Tenho horror de confessar o quão estúpida e corruptível eu fui. O quão desprezível ainda posso ser. Mas não posso parar agora. Se vou dizer algo, tenho que dizer tudo. Mesmo que isso signifique admitir, outra vez, algo de que me envergonho.
— Eu fiz algo assim com você — digo. — Tentei ser gentil porque você tinha algo de que eu precisava.
— Não é verdade. Não foi por isso que você ficou — ele retruca como uma criança magoada e teimosa.
Mas, sim, Den está certo. Sei muito bem agora que não foi por isso que fiquei. Quando ele me perguntou, no início desta conversa, eu soube a resposta imediatamente. A verdade simples, ainda que não tão fácil de entender, é que gosto de estar aqui. Gosto de estar com a alma Corrente Ascendente. Não consigo mais imaginar como seria não estar. Ainda que, há bem pouco tempo, eu estivesse tão desesperada e envergonhada que me achasse capaz de fugir sem olhar para trás.
— Não, não foi por isso que eu fiquei — murmuro. — Não é por isso que estou ficando agora.
Quando ouve isso, Den me puxa para mais perto ainda, me acercando em seu abraço protetor.
— Promete? — ele pergunta, e sinto meu coração bater mais forte.
De repente, tenho vontade de chorar outra vez. Mas agora por um conjunto de emoções completamente diferentes.
— Prometo.
Ficamos em silêncio. Encostada em seu peito, ouço sua respiração e deixo que o som me acalme mais.
— O que esse homem queria de você?
A pergunta vem de súbito, quando eu tinha me permitido esquecer Marcus por alguns instantes, enquanto sonhava com uma vida diferente. Mas a voz de Den me traz de volta à realidade de um passado que eu preferiria que não existisse.
— Eu achei que ele gostasse de mim. Por uns dois meses ele me fez acreditar que sim e, quando me dei conta, eu estava sorrindo de novo. Ainda sentia uma tristeza profunda, quase o tempo todo, mas quando eu estava com ele, conseguia me sentir capaz de sair do buraco. Até minhas notas voltaram a melhorar.
— Então foi bom...
Não consigo identificar o tom da voz de Den, ou qual a emoção expressa em seu corpo junto ao meu. Desde que começamos a falar de Marcus, ele parece mais protetor, mas também há outras coisas acontecendo.
— No começo — confirmo. Quero escolher as palavras para continuar, algo que possa amenizar a tensão. Por fim, decido que é impossível. — Eu já estava me sentindo um lixo, então foi fácil para ele me levantar. Depois, foi só ir puxando o tapete um pouco por vez. Mas é que essas coisas começam devagar mesmo. Primeiro, ele dizia coisas “para o meu bem” — pontuo, mudando a voz — que me mostravam o quanto eu era ruim, insegura e atrapalhada em tudo. Depois foram as insinuações, as agressões verbais. Em seis meses, eu já não tinha mais amigos e estava entregue de novo a um estado depressivo. Decidi trancar a faculdade, porque minhas notas já não me garantiam mais alojamento. Foi aí que as agressões físicas começaram.
Ouço Den sugar uma longa respiração, mas o ar não sai de seus pulmões, fica ali preso. O corpo todo dele se fecha em torno do meu como um casulo. Os dedos se afundam no moletom grosso que cobre minhas costas.
— O que esse... homem fez com você? Por quê? — ele pergunta, e sua voz está estrangulada.
Nunca a ouvi assim. Está repleta de um ódio do qual eu o julgava incapaz. E de tristeza também. Não posso ver seus olhos enquanto estamos abraçados, mas ele parece estar chorando.
Não sei como lidar com isso. Tudo em mim simplesmente dói muito. Mas o que sei é que estou no lugar certo. Nos braços dele.
Den.
Acho que é neste instante que percebo, mas pode ser que tenha sido antes. Que eu não conseguiria deixá-lo. Que esta alma vinda das estrelas é meu lar. Meu amor.
Ainda sem ver seus olhos, consigo estender a mão e tocar seu rosto. Sinto a pele úmida e choro também. Um pouco mais. Toco seus lábios, como fiz enquanto ele dormia, depois trago meus dedos à minha própria boca, para me lembrar do beijo que roubei.
Se for a única coisa que terei, quero me agarrar a ela. E a este abraço.
Não sei quanto tempo se passa até que eu possa voltar a falar, mas Den espera paciente e, eventualmente, retomo a coragem de remexer no passado.
— Um dia ele ficou muito bravo comigo. Eu tinha decidido trancar a faculdade, porque não conseguia mais. Eu não conseguia sair do meu luto e minhas notas e faltas não justificavam mais minha permanência no alojamento. Eu sabia que ia ter que sair de lá mais cedo ou mais tarde, então fui pedir a ele que me ajudasse, que me deixasse ficar na casa dele por um tempo, até eu me refazer, porque eu estava muito perdida. — Rio sem nenhum humor ao lembrar o quanto eu me sentia sozinha, já que Marcus tinha me feito brigar com quase todo mundo que ainda poderia se importar. — Naquela altura, ele já tinha conseguido me afastar de todos os meus amigos. Eu me tornei alguém que os outros não queriam por perto.
— Não há justificativa para que tenham te deixado tão sozinha. Seus amigos deveriam ter apoiado você. — A voz de Den soa implacável, porque acho que ele não entende como um relacionamento abusivo transforma uma pessoa e seu entorno. E ele não teria mesmo como saber. Acho que nem eu entendo. Mas não penso mais sobre isso. Também me sinto responsável pelo que poderia ter sido diferente. Não quero ficar culpando meus amigos. E já não me faz bem pensar se poderiam ter me ajudado ou não.
— Talvez pudessem, mas não foi assim. O fato é que eu só podia contar com Marcus naquele ponto. E ele ficou furioso com isso. Foi a primeira vez que me bateu. Então em seguida se desculpou, disse que só estava pensando no meu bem, que eu devia ficar na universidade, mas que podia ficar com ele enquanto pensava melhor. Então eu fiquei. E perdoei. Porque eu não tinha pra onde ir e porque acreditei quando ele disse que não ia mais acontecer. Só que aconteceu. Uma e outra vez. Depois mais outra. E quando a gente se reconciliava, quando ele se desculpava, eu acreditava que tinha toda culpa por termos brigado, por tê-lo tirado do sério.
Ficamos quietos por vários minutos, as lembranças me inundando enquanto me prendo a Den para não me afogar.
— Você o amava? — ele questiona de repente, a voz fria e acusatória me trazendo a nítida impressão de que sua pergunta real, por trás das palavras quase neutras, seria “Como você pôde?”.
Por um instante, fico na defensiva, ofendida pelo julgamento implícito. Porque ele não sabe o que eu passei, não sabe como eu me sentia. Mas então lembro que, por isso mesmo, ele se assusta com a possibilidade de que eu amasse Marcus. Porque ele não sabe.
Apenas quem já passou por um relacionamento abusivo e tóxico como o meu é capaz de entender que não se trata de amar demais o outro, mas de ver destruído seu amor por si mesma.
— Na realidade, eu não estava em condições de amar ninguém, mas não tinha forças para me recompor e sair daquele ciclo. Porque quando você está no fundo do poço, nos momentos em que alguém mira a luz de uma lanterna nos seus olhos, você acha que é o sol. E eu dependia dos nossos momentos bons, vivia deles. Dos breves intervalos entre brigas em que tudo parecia exatamente igual ao que era no começo e Marcus se comportava como se me amasse mais que tudo.
Parece maluquice, mas ele conseguia fazer isso. Conseguia ser um príncipe encantado que me fazia sentir amada. Só para me provar que eu não precisava de ninguém além dele. Não que eu tivesse alguém, de fato. Todo mundo da minha antiga vida tinha me abandonado quando nossa família caiu em desgraça. E os que chegaram depois, eu mesma tratei de afastar com meu comportamento errático, ou então por medo do ciúme de Marcus.
— Desculpe — Den sussurra, como se tivesse lido meus pensamentos sobre julgamentos precipitados. — Sinto muito que você tenha passado por isso.
Uma das mãos dele sobe e desce por minhas costas, me acalmando, transmitindo a empatia que nunca senti em mais ninguém.
— Você não tem que pedir desculpas. Não é mesmo uma coisa fácil de entender. Para qualquer pessoa é difícil.
— Talvez não seja tão difícil se a pessoa realmente ouvir. E eu quero entender.
Respiro fundo. O silêncio é tão profundo que acho que ouço o coração dele bater. Ou talvez seja o meu. Martelando em meus ouvidos.
“Den é perfeito. Realmente, perfeito.”
E isso não pode ser para mim. Mas como evitar? Como posso me impedir de querer tudo?
Afinal, em minha loucura, eu o fiz prometer.
Esfrego de leve meu nariz em seu peito, inalando aquele cheiro de trabalho, madeira e ar fresco. O corpo que tenho tentado fingir que não desejo é quente e me enlaça. Sei que me corresponderia se fosse apenas um homem. Mas Den é alguma coisa mais do que humana. Uma coisa perfeita.
— Existe algo assim no seu mundo? — pergunto. — Em algum dos seus mundos?
— A humanidade é mais complexa do que jamais poderíamos supor. Estou apenas começando a entendê-la.
— Complexa — repito, quase achando graça do quão doce ele é. — Se um dia você conseguir, me explique. Eu também gostaria de entender.
Ele ri suavemente, apenas uma respiração entrecortada que faz seu peito se mover sob meu rosto.
— Isso soou meio arrogante, não foi?
— Não. Só um pouco ingênuo — tento consolá-lo, rindo um pouco também. — Mas você não respondeu minha pergunta.
— Sabemos o que é crueldade, mas em outros níveis. Então, não. Eu nunca vi uma espécie ferir tanto a si própria.
— Você não veio parar em um mundo bonito, Den. Às vezes eu penso em você como em um pássaro tentando respirar no mar. E em mim como um peixe se debatendo na terra.
Pássaros e peixes. Aquela velha ladainha que diz que eles podem até se apaixonar, mas onde iriam viver? No velho mundo, era uma espécie de lição sobre não se envolver com pessoas de outros estratos sociais ou algo assim. Mas se aplica perfeitamente a mim e a Den, não é?
— Não é tão simples, Mia.
A voz dele é tão triste.
— Não. — Se fosse simples, eu não amaria você. — Não é nada simples — respondo.
Por um tempo, não falamos mais. No entanto, há muitas lembranças pairando no ar para mim, muitas dúvidas para Den. E, por cima de tudo, uma vontade imensa de recorrer a qualquer droga que torne a verdade possível de ser carregada por mais um dia.
Mas não há mais remédios para mim. Humanos ou alienígenas. O que me faz voltar ao começo de tudo isso.
— Isso já faz dois anos. Desde que deixei a faculdade. Mas eu já estava viciada — confesso.
— Como? Como foi que tudo começou?
Então eu conto a ele sobre todos os grandes engodos. O amor de Marcus, para começar. Porque com o tempo, percebi qual foi a razão para que ele tivesse se aproximado, e por que ficou tão bravo quando saí da universidade.
Acontece que ele era o traficante que reinava por ali. Estabelecendo elos insuspeitos e seguros que poderiam levar droga para dentro e dinheiro para fora. Eu era apenas um desses elos. Um que ele “gostava de foder”, como jogou na minha cara.
Não que isso me fizesse especial. Ou única.
Havia outras pessoas que serviam a seus propósitos também. Mas mulheres, segundo Marcus, faziam isso com mais dedicação e segurança. Até mesmo alguém como eu, naturalmente visada pela polícia por causa da cor, por ser mulher, conseguia despertar menos suspeitas do que garotos de fraternidade mimados e fora de controle.
Além do mais, eu soube que devia a ele. Não apenas pela droga em que ele tinha me ajudado a me viciar, mas pela dívida de minha mãe também.
No dia mais cruel de todos, descobri que Marcus tinha sido o traficante dela. E ele nunca tinha me contado. Guardou a informação para me torturar quando estivesse cheio de mim, para quando estivesse pronto a me quebrar para além de conserto.
Houve uma única vez em que ele me bateu forte o bastante para fraturar os ossos de uma de minhas órbitas. Mas aquilo não tinha doído nem a metade do que quando ele estraçalhou meu coração.
Aquela foi a única vez em que revidei. Parti para cima de Marcus com todas as forças que tinha e, mesmo tendo levado a pior, percebi que precisava quebrar aquelas correntes. Nunca ia ser melhor depois daquilo. Esperança era estupidez. Então eu fiz a única coisa que poderia ter feito e fui para a rua.
— Então você não voltou a vê-lo? — Den pergunta.
Suspiro. Agora vem a parte realmente difícil.
— Vi, sim. — Confessar o que vem a seguir me enche de vergonha, mas o tempo das mentiras e omissões acabaram. Den pediu para entender, então ele precisa escutar tudo. — Eu continuei precisando das drogas. Não consegui parar. De vez em quando, eu conseguia algo com meus amigos das ruas, mas em outros momentos era minha vez de conseguir.
— Mas... vocês precisavam de dinheiro pra isso.
— Dinheiro que a gente, geralmente, roubava. Ou, então, eu pagava com outra coisa.
Pensei que conseguiria dizer tudo, mas não consigo ir além. Não consigo explicar o que seria “outra coisa”, no meu caso.
— Outra coisa — ele repete.
De repente, seu corpo inteiro se enrijece como se alguém tivesse lhe atingido com um porrete nas costas.
— Ele se aproveitou de você.
— Eu aceitava.
— Não, isso não importa. Você estava frágil. Precisava de comida também. Estava doente.
— Eu o procurava. E me oferecia.
Não quero que ele crie ilusões. Não sou boa pessoa. Eu roubava e me prostituía para o homem mais vil que conheci.
— Você gostava? — Den pergunta, mas desta vez não há julgamento, apenas muita tristeza.
— Eu odeio Marcus.
— Então não faz diferença se você oferecia, o que é condenável é que ele aceitava. As pessoas mais frágeis devem ser protegidas.
Não posso evitar um sorriso triste.
Den.
Tão bom. E tão ingênuo.
— Não é assim que humanos agem — admito.
— E eu não consigo aceitar.
É mesmo difícil, imagino. Den é como uma criança tendo sua inocência roubada, entendendo, cedo demais, que o mundo pode ser cruel. Não queria ter que ser eu a contar para ele. Principalmente agora, que o mundo não pertence mais aos maus e esta criatura doce não precisaria ter que lidar com nada disso, se não fosse por mim.
— Você teve que fazer isso com outros homens também?
Eu teria feito, ao menos poderia ter tido um pouco de independência. Mas mesmo nas ruas as correntes ainda me cercavam. Na única vez em que tentei, Marcus descobriu e espancou meu cliente. Disse que se eu fizesse aquilo de novo podia esquecer as drogas, que eu nunca mais conseguiria nada nem com ele nem com ninguém.
— Eu era propriedade dele e todo mundo sabia. Ele acabaria comigo se “me sujasse” com outro. Marcus exigia exclusividade.
Continuamos abraçados, mas seus braços estão frouxos em torno do meu corpo agora. O vazio, então, me ataca com mais força enquanto cada um de nós se concentra em seus próprios pensamentos. Está doendo muito lembrar dessas coisas. E também dói muito saber o quanto isso machuca Den.
— Você está decepcionado comigo — digo.
— Não — ele mente. — Entendo o que você foi levada a fazer.
Eu faço uma coisa estranha então. Seguro a mão dele e a beijo. Mas posso senti-lo se retesar quando o faço. Ele não gosta disso, dá pra perceber. Mesmo assim não consigo evitar. É uma espécie de ato de devoção pelo esforço que está fazendo em me compreender. É um ato de amor. Algo que não o culpo por rejeitar, ainda mais agora, vindo de mim.
A consciência do porquê dessa rejeição, entretanto, não faz com que seja menos dolorosa. Pelo contrário. Parece uma espécie de chiado agudo atacando meus ouvidos. Por isso, quando ele se prepara para dizer alguma coisa, retomo minha história. Não quero ouvir que ele não quer minha gratidão. Ou meu amor.
— Um pouco antes de eu vir parar aqui, quando já estava desconfiada de que havia algo errado com as pessoas, fui procurar Marcus em uma lanchonete que ele gostava de frequentar. Foi aí que eu percebi que alguma coisa tinha mudado mesmo. Porque eu o vi no beco com um cliente e, quando o sujeito se distraiu, Marcus borrifou alguma coisa na cara dele e outro homem surgiu de dentro de uma van.
— Um Buscador.
— Isso. Deve ser. Os caras que perseguem os humanos para inserção, não é? Só sei que me escondi dele, fiquei morta de medo, mesmo sem saber direito o que estava acontecendo. E ouvi o Marcus... Bom, não era mais o Marcus, imagino. Mas eu ouvi quando ele disse que não suportava mais, que não usaria mais aquele “recurso”. Aí ele jogou fora toda a mercadoria que estava oferecendo ao cliente e entrou na van com o Buscador. Depois disso, eu peguei a droga do lixo e fugi.
— E foi quando nos encontramos.
— Sim, mas quando cheguei, eu já tinha consumido tudo. Estava desesperada, tendo crises de abstinência. Foi aí que eu descobri que o Corta Dor ajudava. E essa é toda a história — concluo, e quando digo isso, solto uma longa respiração que eu nem sabia que estava prendendo.
Pensei que estaria mortificada, destruída depois da verdade, mas o que sinto acaba sendo bem diferente. É como se meu corpo relaxasse sob o efeito da honestidade. Como se eu tivesse feito um esforço hercúleo para levantar um peso, que agora posso depositar sobre uma superfície segura e sair andando livre.
— Eu não tinha pensado que suas crises eram por esse motivo — diz Den.
— Você não tinha como saber, imagino. Sinto muito por não ter contado antes.
— Tudo bem, Mia. Está tudo bem.
Com os nós dos dedos, Den acaricia minha bochecha. É um contato tênue, mas fecho meus olhos para recebê-lo, acreditando no carinho que o toque encerra. Assim como na suave promessa em sua voz.
— Você me faz sentir segura, Den. Quando você fala que vai ficar tudo bem, eu penso que é mesmo possível que fique.
— É porque vai ficar.
Talvez, penso em responder, mas não digo nada, já que essa palavra não quer dizer muita coisa.
A palavra chave aqui é outra.
Tempo.
Estamos vivendo uma ilusão, nós dois. Uma que foi, em grande parte, desfeita hoje nesta conversa. Mas a realidade dos fatos é que nosso tempo é contado.
Quanto tempo eu levaria para ficar bem de verdade? Para ser digna de Den? Por quanto tempo conseguiremos ficar juntos, mesmo que seja apenas como amigos, antes de alguém nos descobrir?
Contudo, no fim, quem é que conhece o dia de amanhã? Quem pode controlar o ontem? E é por isso que me forço a ficar feliz pelo momento. Se tudo der errado, pelo menos eu o conheci.
— De qualquer forma, sou grata — digo, porque é verdade. — Me sentir segura assim é tudo o que importa agora. É algo que salva minha vida. E é você que faz isso. Você me ensinou a sentir paz, gratidão, esperança e...
Amor.
A consciência da última palavra, aquela que não digo em voz alta, toma conta de mim. Sinto o calor dela se espalhando pelas minhas veias, aquecendo minha pele, mudando as fundações de meus pensamentos. Porque Den me faz sentir que tudo pode ser melhor, e meu pessimismo e amargor começam a ruir enquanto a bondade dele constrói coisas novas em meu coração.
— E o quê? — ele pergunta.
Quero dizer. Daria tudo para dizer. Mas só se eu pudesse ouvir de volta. Só se soubesse que ele também me ama. Como mulher.
Contudo, já não posso esquecer que Den é uma alma. Um ser puro e especial. Sei que ele me ama, sim, mas tanto quanto amaria qualquer um a quem se dedicasse. Porque Den é bom desse jeito. E quer me proteger de tudo a qualquer custo.
Não posso dar a ele a sensação de que tem que se responsabilizar por meus sentimentos.
— Você me mostrou como é ter um amigo que me ama de verdade — digo em lugar da outra verdade.
Ele me abraça forte outra vez, e posso ouvir sua respiração profunda entrando e saindo do peito.
— Sim, Mia. Eu amo você. Serei sempre seu melhor amigo.
— E eu serei a sua — prometo.
As lágrimas inundam meus olhos outra vez enquanto penso que jurar-lhe apenas amizade — quando quero jurar outra coisa — dói infinitamente menos do que dizer-lhe adeus. É melhor assim. Viver com ele dessa forma é maravilhoso, de qualquer jeito.
Só não sei por que, então, meu coração continua parecendo querer arrebentar dentro do peito.
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